A Quinta Estação
4 No Limite
Notas iniciais
Anwar avançava entre a multidão que percorre as ruas de Damasco com insegurança, sabia que podia estar sendo perseguido, ele andava de cabeça baixa e rapidamente entre as pessoas que o circundavam, ser um Xiita não é nada fácil para ele, estava indo em direção a sua casa quando aconteceu.
De repente, um tiroteio começou e ele se sentiu indefeso, se escondeu o mais rápido que pode e esperou. Os tiros, de vez em quando, passavam de raspão perto dele, podia ouvir vozes gritando na sua língua, “Morte! Ela se aproxima”. O Sírio que o disse corria em meio à multidão, procurava por um xiita, e Anwar sabia disso, ele correu da onde estava e, num ato de desespero, correu na direção oposta a sua casa, não queria que seu pai fosse ferido, e ao passo que corria, chega perto dos limites da cidade.
Já via um conjunto de árvores chegando ao alcance de sua visão, ouvia passos o seguindo, não sabia mais o que fazer. Pouco depois ao começar a adentrar a floresta, foi interceptado:
— Acabou, porco – Disse o Sunita extremista
— Não faça isso! Eu tenho família! – Disse Anwar
O Sunita apontou a arma na cabeça de Anwar, que já começara a rezar. Mas, de repente, uma sombra cobriu a todos, o Sunita parou e olhou para o céu, algo enorme bloqueava a luz do sol:
— O que é isso? – Exclamou o Sunita
Era uma enorme rocha, maior do que os olhos de Anwar podiam perceber, e ao ritmo que ela chegava, um borrão azul tornava-se mais visível, ele gritou:
— Nãaaao!
Tudo após isso foi escuridão.
Anwar acorda atordoado, estava em uma caverna? Parecia que sim, e pior ainda, uma caverna muito escura, mas quando ele de fato acordou, viu um brilho esmeralda percorrendo algumas aberturas nas paredes. “Esmeraldas?” ele pensou, mas não sabia, e não sabia ainda mais como havia chegado ali, mas a caverna parecia ter passado por grandes turbulências, tinha vários escombros e as aberturas eram minúsculas, Anwar avançou um pouco por essas aberturas e encontrou uma um pouco maior, nela, ele encontrou alguém. Era ele... Aquele estrangeiro dos noticiários, o que veio das estrelas, Como chamam ele mesmo...? “Soperomem”, algo assim...
Ele se aproximou do homem, claramente debilitado, ele estava estirado no chão, Anwar se aproximou para ampará-lo, imaginou se ele falava sua língua, uma vez vindo de outro país. Ele sentou Super-Homem com dificuldade, e quando ele sentou, tossiu secamente e abriu os olhos, pouco lúcido, e Anwar tentou falar com ele:
— Soperomem? – Perguntou
— Ah... Quem...? – Ele falava em inglês
Anwar já começava a perder as esperanças quando o homem começou a falar sua língua:
— Olá, quem é? – Ele dizia, com um claro sotaque americano
— Olá, meu nome é Anwar, você deve ser o...
— Super-Homem, eu mesmo – Ele começava a se recuperar – Você está bem, Anwar?
— Sim, só alguns arranhões e machucados, nada de grave
— Sim, estou vendo que ainda estamos dentro do meteoro...
— Meteoro? Ah, aquela rocha que caía do céu, um meteoro! E você...
— Sim, eu que te salvei do meteoro, só tem um problema... Esse meteoro é feito de Kriptonita.
— Kriptonita?
Super-Homem se pôs de pé:
— Venha, vamos encontrar uma saída daqui
— Espera – Disse Anwar se colocando na frente dele – Mas você não pode voar e quebrar paredes? Eu vi você fazendo coisas incríveis na televisão.
— Não consigo
— Por quê?
— Só me siga, eu te explico no caminho
Anwar então começou a seguir o estrangeiro, ele parecia seriamente fraco, estão procurou se manter perto:
— Como você fala minha língua?
— Tudo no seu tempo Anwar. Qual foi sua primeira pergunta mesmo? Ah sim, “Kriptonita?”. Acontece, Anwar, que eu nasci bem longe daqui, entre as estrelas que você vê no céu, mas cresci e vivi aqui.
— Por quê?
— Acontece, Anwar, que meu lar foi destruído por uma catástrofe natural, muitos poucos de nós ainda sobram...
— Entendo...
— Você é um Xiita, certo?
Anwar confirmou com a cabeça:
— Poucos do nosso povo sobram também, às vezes parece que só sobra a minha...
— Família? Eu sei, tenho eu e minha prima, mas só nós dois protege e vive na sua Terra, o resto de nós procura ganhar a Terra para si e transformar em uma nova Kripton. – Super-Homem tropeça e caí
— Super-Homem, está bem? – Disse Anwar indo amparar-lo
Estavam em um longo corredor claustrofóbico, cercado por paredes com a venenosa Kriptonita:
— Eu – Ele tossiu – vou ficar bem – Ele se sentou
— Você disse Kripton, parece...
— Kriptonita? Sim, quando meu mundo se explodiu, a radiação de seu solo aumentou e tornou-se nociva para mim, e vários pedaços dele ainda vagam pelo espaço, esse é um dos maiores que já vi, por isso não posso voar ou usar minha força, a kriptonita tira meus poderes ou me debilita o suficiente pra não conseguir usar eles.
Anwar parou pra pensar em sua família, e ficou preocupado:
— Você está bem? – Perguntou Super-Homem
— Vou ficar, só estou preocupado com a minha família.
— Entendo... Você estava sendo perseguido, não é?
— Sim, tudo aconteceu tão rápido
— Sim, o conflito entre seu povo é entristecedor. Mas fique tranquilo, eu vim correndo pra cá pra salvar as pessoas do meteoro, mas a Liga já está a caminho, eu os contatei.
Ambos levantaram e começaram a percorrer a caverna dentro do meteoro novamente, então acharam uma abertura para o solo:
— Estou morrendo de sede, e você?
— A luz do sol é tudo o que eu preciso Anwar, mas se você está com sede, talvez possamos cavar o suficiente pra achar algo pra você
Super-Homem começou a cavar, mas Anwar o parou:
— Você está doente, deixe-me fazer isso sozinho
Anwar começou a cavar, e demorou muito tempo.
Anwar não sabia quanto tempo levou para cavar, só sabe que muitas horas se passaram e ele só abriu um buraco que batia até o seu ombro:
— Seus amigos ainda não chegaram
— É um meteoro gigantesco, ainda bem que caiu consideravelmente longe da cidade, ou eles já devem estar procurando por nós, ou ainda estão muito ocupados com problemas colaterais dessa queda
— Devemos estar presos aqui já faz um dia, eu estou com sede e com fome, não sei mais quanto eu aguento...
— Calma Anwar – Disse Super-Homem sorrindo, mas aparentemente acabado – É preciso ter fé, esperança
Anwar pareceu retraído, estava com medo e triste, Super- Homem se levantou, se dirigiu até ele e colocou suas mãos nos ombros dele:
— Calma – Disse ele reconfortando-o – Quando as situações parecem adversas, precisamos ter calma, disciplina, fé e esperança, todas as pessoas nesse mundo louco e desorganizado passam por isso, e elas precisam ter essas qualidades. Sei que luta contra o desespero em todos os campos de sua vida, mas isso só o torna um dos homens mais fortes que existem nesse planeta.
— Mas...
— Anwar, torne-se um símbolo da esperança.
Anwar abaixou a cabeça, mas então assentiu com o Super-Homem e sorriu. Ele sorriu de volta, e começou a ajudar Anwar com a escavação. Depois de mais longas horas, o buraco estava imenso, e Anwar deu o sinal, havia começado a brotar água do chão:
— Graças a Deus – Disse Super-Homem
Anwar bebeu dela sem outra opção, precisava se hidratar com urgência, apesar de ser toda lamacenta:
— Vamos continuar andando, Anwar, não vamos sair daqui tão cedo
Ele subiu e continuaram o trajeto, com paciência eles se moveram pelos túneis:
— Sabe, às vezes não entendo porque existem tantos conflitos, o mundo parece que sempre está em uma constante guerra, isso é...
— Inconsistente, sim, o mundo é confuso Anwar. As pessoas brigam e se desentendem por valores e dinheiro, quando mal sabem que seus valores e sua riqueza aumentariam se fossem se unir, é uma realidade dura e inconsistente
Ouve um tremor:
— Pare Anwar.
O tremor ressurgiu e começou a ficar mais forte:
— CORRE! – Disse Super-Homem
E ambos correram, com o tremor se intensificando ainda mais, e mais e mais, pedras começaram a cair e rolar, e com o tremor se intensificando ainda mais, elas se tornaram mais frequentes e maiores, Anwar começou a se desesperar:
— O que está acontecendo?! — Perguntou
— Devem estar tendo explodir o meteoro a partir do exterior
Eles começaram a correr o mais rápido que podiam, procurando um abrigo, até uma pedra enorme, digna de um filme do Indiana Jones, cair na rampa que subiam dentro do pequeno corredor da caverna, Super-Homem se pôs na frente de Anwar:
— Para trás! – Ele disse
— Mas você está fraco!
— Corre!
Anwar começou a correr na direção contrária, e a pedra atingia velocidade terminal indo na direção do Super-Homem, que quando recebeu a pedra, foi atingido por sua velocidade, ele demorou muito para cravar seus pés no chão e começar a desacelerar o fragmento, mas com o passar do tempo, Kal-El começou a perder mais força ainda, a Kriptonita do meteoro começou a ficar ainda mais exposta, mas ele tinha que salvar Anwar:
— Corra Anwar!
Ele usou o resto de suas forças para parar o projétil de vez, e quando a grande pedra parou abruptamente, ele foi lançado na direção de Anwar, ambos desmaiaram.
Quando Anwar acordou, ouviu os murmúrios de dor do alienígena, ele percebeu o motivo, tinha uma enorme rocha na perna esquerda do homem de aço, que estava deitado de barriga sentindo sua fratura exposta:
— Ah, por Ála!
Ele amparou Super-Homem, tirando a pedra de cima de sua perna, ele levantou com um murmúrio de dor:
— Eu estou realmente debilitado agora
— Venha – Disse o Xiita colocando o braço de Super-Homem ao redor de seu pescoço para ajudá-lo a andar
Eles começaram a andar novamente, Anwar não estava mais aguentando a pressão:
— Anwar, eu já disse...
— É muita coisa pra aguentar... Qual o seu nome mesmo?
— Kal, me chame de Kal.
— Como você aguenta Kal? Como?
— Tem uma coisa que eu faço...
Super-Homem parou, pegou nos ombros de Anwar e disse:
— Feche os olhos
Ambos fecharam:
— Agora pense na sua vida, sei que ela está repleta de tragédias, temor e sofrimento, mas há só uma questão, e a resposta pra ela, você vive, toda a dor que você enfrenta vale toda a recompensa que vem no fim do dia, você se sente revigorado, pois pensa na sua família, passa tempo com ela, pense neles agora, pense profundamente neles... Pense neles profundamente, pense nos gozos da vida, a alegria, pense na esperança... A esperança envolve a todos nós num abraço reconfortante, pense
— Sim! – Disse Anwar – Vejo todos eles, vejo minha família, meu pai, minha mulher e meus filhos, eu os amos demais pra deixar-los sozinhos nesse mundo
— Sim, sinta...
A esperança encheu o coração de Anwar, e se sentiu mais feliz e revigorado, faz tempo que não se sentia assim, precisava dessas forças:
— Obrigado – Disse Anwar abrindo os olhos
— Eu que agradeço – Devolveu Kal-El
Ambos começaram a andar rapidamente pelo sistema de cavernas do meteoro, e foi assim o resto do dia, eles caminhando incessantemente até encontrar alguma saída, por um longo tempo andaram até achar outra abertura para o solo, ambos decidiram que era melhor parar:
— Olha, tem algumas plantas aqui pra cobrir esse seu machucado, mas parece que ele já inflamou...
— Eu só preciso da luz do sol, aí minhas feridas irão facilmente se curar, mas obrigado pela ajuda
— Eu que agradeço Kal, você me devolveu o verdadeiro espírito da esperança.
Ele fez o curativo dele:
— Eu me sinto cansado Kal, vou dormir
— Tudo bem – Ele sorriu
Anwar deitou-se para dormir.
Quando ele acordou, olhou para os lados e não acho o Super-Homem, ia chamá-lo, mas a secura de sua garganta e sua fome o impediram, ele se levantou e foi pela única passagem que o alien poderia ter seguido, não demorou para achá-lo estirado no chão, se arrastando ladeira acima:
— Preciso... Do sol...
— Kal... – Disse Anwar, roucamente – Não...
Ver Kal no chão daquele jeito quebrava o coração de Anwar:
— Você é uma das pessoas com quem mais me identifiquei Kal, não posso deixá-lo no chão desse jeito, seria como negar ajuda a mim mesmo
Ele levantou Kal e passou o braço entre seu pescoço novamente, ambos andaram ladeira acima, até Super-Homem dizer:
— Luz...
Um feixe de luz começou a acertar seu rosto, os olhos de Anwar brilharam, ele s aproximou da entrada, a luz do sol cegava, mas ele a abraçou gentilmente...
Só se podia ouvir a voz do Super-Homem dizendo:
— Bruce, Diana, que bom vê-los...
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