A Protetora

3 Conheço o garoto pálido


Notas iniciais
Oi gente! ~Se esquiva das espadas, lanças, flechas, fogo grego e etc.~ Não me matem! Desculpem pela demora, eu estava doente, mas agora estou de volta. Boa leitura.

P.O.V. Jenn

–Jennifer, onde conseguiu isso? – ouvi Alex gritando do quarto.

Merda, pensei. Ela devia ter finalmente descoberto que eu havia pego seus fones de ouvido emprestados.

Saí do banheiro correndo ainda com a toalha enrolada na cabeça e rezando para que eu estivesse errada.

–Oi Alex, amor da minha vida!

–Jenn... – ela disse com um papel na mão – Jenn, onde conseguiu isso?

Peguei a foto de sua mão. Eu definitivamente nunca havia visto o garoto da foto. Ele usava uma camiseta preta com estampa que não consegui distinguir bem e jeans da mesma cor. Estava num local com pouca luz e eu mal conseguia ver seu rosto. O fundo da foto era preto e uma fumaça espessa circundava-o.

–Nunca vi. É sua?

–Não, mas se não é sua o que estava fazendo no meio das suas coisas?

–Não faço ideia... tem certeza que não é sua?

Ela levou alguns segundos pra responder.

–Não sei, talvez. – ela disse colocando o álbum de fotos na minha cama e levantando – Peça a pizza você. Vou dormir, amanhã tenho que acordar cedo.

E foi isso. Ela não respondeu mais nenhuma pergunta. Colocou o notebook na escrivaninha, se jogou na cama e se cobriu até a cabeça.

–Onde está Alexia? –perguntou minha tia quando a pizza chegou.

–Humm... ela disse que ia dormir – falei pensativa.

–Alexia? À essa hora? Eu já volto.

–Mãe – chamei.

–Sim? – ela disse enquanto servia pizza para nós.

–Você parece distante – coloquei os copos na mesa e sentei.

–Eu só estou... – minha mãe suspirou – pensando no passado.

–Por falar em passado... você nunca me diz nada sobre meu pai... – falei fazendo careta.

A cor sumiu de seu rosto.

–Jennifer... sua pizza vai esfriar.

–Mãe!!

Ela me encarou por alguns segundos.

–Seu pai era um homem bom Jenny, — minha mãe é a única pessoa no mundo que tem autorização de me chamar assim — não importa o quanto insinuem o contrário, acredite em mim. Ele... ele não queria nos deixar, mas foi obrigado.

Um traço de angústia passou por seu rosto e ela não disse mais uma palavra a noite toda.

Não consegui dormir. Me revirei na cama por horas. Brinquei com o colar de Alexia, tentei ler, contar pontinhos no teto, mas nada funcionou. Isso acontecia às vezes quando eu ficava muito ansiosa. Sim, eu estava ansiosa para ver a escola mesmo sabendo exatamente o que aconteceria.

Teria o grupo dos garotos, o das garotas, o das patricinhas e o dos nerds. Nenhum em que me encaixasse, sempre levo tempo pra fazer amizades em escolas novas e ,acredite, tenho experiência nisso pra saber. De certa forma já me acostumei, assim que faço um amigo sou expulsa por mau comportamento ou algo que nem posso explicar. É sempre a mesma coisa.

A única amiga de verdade que fiz foi Katherine, mas ela se mudou para outro país há mais ou menos um ano.

Quando finalmente caí no sono por causa exaustão achei que teria sido melhor ficar acordada.

No meu sonho eu estava flutuando. Algo como um vento forte me empurrava para a frente. Tentei parar mas era impossível, e assim fui atravessando um campo escuro em que formas de fumaça de moviam. fumaça não, fantasmas. Teria me assustado, mas já sonhei com coisas bem piores.

De repente eu parei. Eu continuava flutuando, como se fosse uma ave sendo controlada. À minha frente estava um homem, ele exalava poder, eu sabia disso só de estar em sua presença.

O homem usava uma toga grega preta, como as que eu havia visto nos livros de história, e um manto também preto. Ele segurava um elmo debaixo do braço e era o único parecia me ver, mas eu não conseguia ver seu rosto, mesmo ele estando de lado.

Ele se virou pra mim.

–Está chegando a hora. Encontre-o.

Ele explodiu numa fumaça negra espessa.

Acordei suando e gritei.

–O que foi? – disse Alex pulando da cama e levando a mão ao pescoço em busca de seu colar, como se aquilo fosse ajudar se houvesse algum perigo real.

–Eu... tive um sonho. – me sentei – Foi muito estranho Alex.

–Conte – disse se sentando em sua cama novamente.

–Não. Não quero contar, falar sobre isso ou qualquer coisa do tipo – me deitei novamente e fiquei encarando a parede até ter certeza de que Alex tinha voltado a dormir.

Me levantei e olhei as horas. 3h53. Encontrei meu Ipad – com os fones de Alexia – numa gaveta e ouvi música por umas duas horas. Por volta das 6h30 peguei minhas coisas e fui tomar um banho, sabia que não conseguiria dormir mesmo que quisesse.

–Jenn, você vai se atrasar – disse Alex me balançando até eu acordar.

–Anh? – falei me sentando.

Quando minha visão focalizou vi Alex com os cabelos castanhos voando e com uma cara de sono.

Bati a mão no relógio. 7H40.

–Por que não me acordou antes? – falei enfiando o tênis.

–Anh? – Alexia falou bocejando – Acordar?

–Tchau Alexia!

Agarrei minha mochila e corri pra porta ainda com a escova de cabelo nas mãos.

–Onde pensa que vai Jennifer? – disse minha mãe.

–Pra escola?

–Não antes de comer – disse ela com uma calma irritante.

–Mas mãe... – vi em sua expressão que não sairia de casa a menos que quebrasse a porta ou comece algo – Que droga...

Peguei umas bolachas e engoli o mais rápido possível.

–Pronto, tchau mãe!

Corri para a saída ainda ouvindo minha mãe gritando comigo.

Levei uma bronca de 15 minutos antes de conseguir entrar na sala para o segundo tempo.

–Está atrasada mocinha – disse a professora de matemática, me prendendo entre o batente da porta e uma régua de plástico.

–Eu tive... hum... problemas. Isso, problemas pra achar a sala. Me desculpe professora, não vai acontecer novamente.

A professora deveria ter uns 60 anos, usava uma saia preta e uma blusa vermelha por dentro da saia.

–Dessa vez passa – disse ela enfiando a régua na minha garganta – Apenas desta vez senhorita. Não gosto de atrasadinhos que pensam que podem chegar a hora que bem entendem na minha aula – ela tirou a régua da minha garganta.

–Não foi minha intenção...

–Sente-se – disse apontando para o interior da sala sem tirar os olhos de mim.

–Velha chata – murmurei sem som algum.

Analisei os lugares possíveis. Haviam 4 carteiras vagas. Duas no fundo perto de alguns garotos que pareciam encrenca. Uma no terceiro lugar entre uma garota loira, um garoto moreno que olhava fixamente para a loira e duas outras garotas com tanta cara de ignorante quanto a primeira. A última era no fundo da sala, na fileira do canto entre uma garota de cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo e um garoto vestido de preto que fingia dormir, mas eu vi o fio dos fones de ouvido saindo pelo casaco.

Escolhi o último.

–Senhor Di Angelo, eu já disse três vezes para guardar esse aparelho. Se eu tiver que pedir mais uma vez o senhor vai ter uma conversinha com o diretor! – disse a professora, cuja eu já odiava.

–Velha chata – ele murmurou.

Eu o encarei em silêncio, mas ele não tirou os olhos dos fones. Por um segundo, antes dele guardar o aparelho vi de relance o que ele ouvia. Demons, Imagine Dragons.

A reação que teria se esse lugar não fosse a escola seria mais ou menos essa:

–Oh meu Deus! Não acredito que você curte essa banda!

A do garoto seria essa:

–Eu te conheço?

E a da professora, baseada nos 3 minutos de convivência, essa:

–Edwards, pra direção agora!

Então resolvi ficar quieta e sentar.

A aula correu entediantemente chata, assim como as próximas. A última antes do intervalo foi história e a única coisa que fiz foi rabiscar a última folha do caderno.

Quando eu pensava que não aguentaria mais o sinal tocou. Coloquei as coisas na mochila e levei os livros nas mãos.

Acabei entrando no corredor errado e perdi pelo menos uns 5 minutos encontrando o meu armário, se não bastasse ainda derrubei os livros no chão. Não, não apareceu nenhum garoto lindo para pegar os livros do chão, isso só acontece em filmes, lamento acabar com seu sonho.

O pátio não era muito melhor que as salas de aula. Pior na verdade. Além das mesmas pessoas chatas e metidas das aulas havia mais pessoas chatas e metidas.

Andei até onde julguei que vendessem os lanches e comprei alguma coisa, digo alguma coisa porque não tinha cara de nada. As mesas estavam todas cheias.

Ótimo, pensei. Olhei em volta e encontrei um único lugar vazio. Pra minha sorte era a mesa do garoto da aula de matemática, ninguém havia sentado com ele. Acho que poderíamos nos dar bem.

–Posso sentar aqui? – perguntei.

Ele apenas me olhou.

–Ok, obrigada.

Abri o pacote que havia comprado, mas desisti de comer aquilo assim que vi.

–Quem é você mesmo?

–Jennifer Edwards, e você?

–Nico di Angelo. Quando foi mesmo que eu deixei você sentar aqui?

–Hum... há uns dois minutos atrás quando...

–Ok, ok... – seu olhar parou no colar em meu pescoço – Você disse que o seu sobrenome é... Edwards?

–Sim, por quê?

–Anh... já é hora de voltar pra sala não? Acho que ouvi o sinal.

–Não, você não ouviu. Desembucha!

Então o sinal tocou.

–Aí, não falei? Tchau – Nico levantou e saiu em direção à entrada atrás de mim.

–Di Angelo! Nem pense nisso!

Me virei para fazê-lo voltar, mas ele havia sumido. E nem havia tumulto. Murmurei um palavrão e peguei minhas coisas da mesa.

Minha próxima aula era de ciências, então fui para o laboratório.

–Bom dia turma, sou o Sr. Finkler. Nesse semestre usaremos o sistema de duplas, portanto vocês podem escolher, mas lembrem-se que estes serão seus pares durante todo o semestre. – disse o professor antes de se sentar.

Seria ótimo, se eu conhecesse alguém, pensei.

Quando a maioria dos alunos já havia se decidido o professor começou a andar pelo laboratório, anotando tudo num caderno.

–Edwards, ainda não arrumou uma dupla?

Fiz que não com a cabeça.

Ele checou o papel.

–Edwards e Di Angelo — o Sr. Finkler disse e continuou a andar.

–Anh? – eu disse confusa.

Corri os olhos pela sala e achei o garoto num canto.

–Vamos fazer isso logo. – falei me sentando ao seu lado.

Como ele não disse nada comecei a fazer a atividade. Eu praticamente fiz tudo sozinha, já que Nico só observou. Quando ele tentou ajudar o resultado não foi muito bonito e eu sou boa em ciências, de qualquer forma.

–Não vai mesmo me falar o que tem meu sobrenome?

–Porque está insistindo nisso? Não é nada demais. Esquece isso – ele disse me passando outra caneta.

–Se você disser eu paro de te encher o saco.

–Por Hades – ele murmurou – Alexia Edwards é sua irmã ou algo assim não?

–É minha prima, por quê? Espera... quem é Hades?

Esse nome me fez lembrar o sonho com o homem de preto. Parando pra pensar bem, Nico se parecia com ele.

–Você não queria saber de onde eu conhecia o nome? Agora sabe, pronto.

Tentei insistir, mas ele simplesmente me ignorou.

Na aula seguinte me veio à cabeça que Nico parecia mais velho que todos na classe, uns dois anos no mínimo. Por algum motivo isso me lembrou novamente do sonho que eu havia tido. Encontre-o, dissera o homem.

Antes que eu percebesse a aula acabou. Mas como se para estragar minha felicidade o tempo fechou e começou a chover no meio do caminho pra casa.

Corri para a loja mais próxima.