A Protetora

4 Meu encontro com a líder de torcida demoníaca


Meu encontro com a líder de torcida demoníaca

P.O.V. Jenn

Assim que entrei vi que o local estava praticamente vazio por causa da chuva.

–Posso ajudá-la? – perguntou o atendente.

–Anh? Ajudar? O que? – perguntei confusa.

–Isso aqui é uma lanchonete, qual seu pedido?

Olhei em volta e só então percebi que eu havia entrado no McDonalds.

–Ah... vou querer uma... batata.

–Batata? – ele me olhou como se eu tivesse dito “granada”.

Então me toquei que havia dito batata, que foi a primeira coisa que me veio na cabeça e que as pessoas não estão acostumadas a ouvir isso.

–Batata... frita, claro – falei.

Ele me olhou com uma cara irritada, percebi que eu estava molhando o chão todo.

Forcei um sorriso.

–Vai molhar o lugar todo desse jeito – ouvi alguém atrás de mim.

Nico di Angelo estava sentado sozinho numa mesa no canto. Esse garoto deu pra me perseguir agora?

–Ah, era só o que me faltava! O Gasparzinho decidiu me perseguir agora?

–Quem chegou primeiro fui eu. E eu sempre venho aqui – disse ele antes de morder o seu... McLanche Feliz?

Comecei a rir.

–Que foi?

–Francamente, di Angelo! Não acha que já está bem grandinho pra isso não? – falei colocando as mãos na cintura e indo em direção a ele.

–Nunca se é grande demais pra um McLanche.

Dei de ombros e me sentei com ele.

–Isso está virando costume agora?

–Hum... já que eu tenho que arrumar amigos na escola e você parece a menos horrível das opções... sugiro que acostume-se a isso.

–Você não se acha muito folgada, Edwards?

–Não – sorri. Minhas batatas chegaram – Batatas são legais – levantei uma das batatas pra que ele visse.

–Hum... não. E, aliás, você mente muito mal.

–Que seja e... pera, você disse que batatas não são legais? Elas são legais sim!

–Assim até parece filha de Deméter... Por favor, não me faça comer cereais – pela primeira vez ele sorriu.

–Quem?

Nico fez uma cara de quem deixou escapar algo que não devia.

–Deméter é... uma vizinha que... anh... vende cereais. E tem uma quitanda.

–E depois eu que minto mal... – comi outra batata – Posso ficar com o brinquedo?

–O que? Não! – Nico gritou.

Soltei uma gargalhada.

–Cara, deixa de ser infantil!

–Por que sempre querem a droga do brinquedo?

–Já disse que você está muito grandinho pra isso.

Pedi meu próprio McLanche. Aquele cara não ia me dar a droga do brinquedo mesmo.

–Será que não para de chover nunca? –me lamentei jogando a cabeça pra trás e batendo-a na cadeira.

–Com nós dois querendo isso, creio que não.

–Como assim? – perguntei sem entender.

–Nada não, quer uma carona? – ele disse chamando o garçom.

–Não, te conheço há umas 4 horas.

–Bom, é isso ou ficar aqui até a chuva passar, o que vai ser?

–Como posso saber que você não é um assassino?

–Tenho cara de assassino?

–Hum... Sim!

–Eu tenho 14 anos! Bom... – ele pensou – ah, esquece, vai querer a carona ou não?

Pensei um pouco. Sim, eu penso.

–Seus pais não vão se importar?

–Quem disse que meu pai se dá ao trabalho de vir me buscar?

–Então, né... a chuva parece tão amigável, acho que vou indo, tchau.

–Ah, larga de ser medrosa, o Jules-Albert é gente boa.

–Eu não estou com medo!

–Não é o que parece – ele disse com um sorriso.

–Por que eu deveria confiar em você?

–Garota, você vai ou não? Por que eu deveria confiar em você?

–Ok, ok. Mas tenho uma faca na bolsa.

–Então você é esperta, vamos.

Pagamos a conta e saímos.

Algo que me dizia para confiar em Nico. Talvez eu seja idiota, aceitar carona de um estranho. Ele podia me sequestrar, me matar ou qualquer coisa assim, mas decidi confiar nele, ele parecia ser uma boa pessoa, mesmo com o jeito esquisito. Além disso estava sendo gentil.

Caminhamos lado a lado até a frente do McDonalds. As poucas pessoas que andavam na rua nos olhavam estranho, talvez porque a única “cor” entre nós era um chaveirinho roxo na minha bolsa e minha blusa branca por baixo do casaco, mas acho que branco não conta. Acho que parecia que estávamos saindo de um funeral porque a expressão que Nico assumiu assim que cruzamos a porta foi tanto séria quanto intimidadora e talvez assustadora.

Uma garota loira passou correndo por nós e acabou esbarrando em mim. Ela usava uniforme de líder de torcida com uma casaco pink por cima.

–Desculpe – ela disse.

–Não foi... nada.

–Você se machucou, querida?

–Não, eu estou bem – falei levantando a cabeça.

Olhei diretamente em seus olhos e vi que eles estavam ficando... vermelhos?

–É... Nico, que tal aquela carona agora? – falei dando um passo pra trás.

Um vento forte nos atingiu e de repente a garota não era mais uma garota. Suas pernas se transformaram, uma tinha pelos e a outra parecia refletir a luz. No lugar de seus dentes cresceram presas. O fato da saia dela balançar com o vento só tornou tudo mais assustador.

Um grito ficou preso na minha garganta.

–Uma empousa – disse Nico a minha frente.

Minha primeira reação foi correr, mas minhas pernas estavam paralisadas.

–Corra – disse Nico sacando algo da cintura que eu tenho certeza que não estava ali antes. Uma espada com lâmina negra.

Preciso dizer que eu não corri?

Ela atacou. Nico desviou, mas ela lhe arranhou e isso deve ter doído porque o distraiu e ela deu um soco em sua barriga que o fez cair, compreensível já que ela tinha garras. A empousa o chutou e Nico se contorceu. Ela continuou atacando.

–Vocês vão pagar semideuses! – ela gritou apontando as unhas para o pescoço dele — Vocês são apenas os primeiros, não se preocupem. O Tártaro não é agradável e vocês vão me pagar por isso.

Semi o que?

Ela apontou as garras para o pescoço de Nico e isso fez minhas pernas desgrudarem do chão. Enxergar na chuva não é fácil. A empousa tomou impulso, prestes a enterrar as garras na garganta dele.

–Não! – gritei. Ela se virou pra mim. Fiz merda.

–E quem é você, garota?

–Sou Jenn e você? — ok, isso foi estanho.

–Steph, mas nem tente me enrolar, não vai funcionar.

Ela foi se aproximando passo por passo, enquanto eu recuava na mesma velocidade. Nico tentou pegar a espada do chão mas ao tentar se levantar caiu novamente, oprimindo um grito. Sangue escorria de sua perna.

–Por que não conversamos Steph? Você parece ser legal – falei.

Claro Jennifer! Uma garota demoníaca quer te matar e você chama ela pra bater um papo. Grande ideia.

Olhei para Nico em busca de ajuda. Ele apontou o pescoço e depois pra mim.

Ah, obrigada! Tudo que eu precisava pra ficar melhor era a certeza de que vou morrer!

Vendo minha cara de desentendida ele revirou os olhos. Nico apontou novamente pra mim e depois pro pescoço, mas desta vez fez um gesto como se arrancasse algo.

–O colar – murmurou sem som algum.

Olhei-o com uma cara de você é louco. Mas como eu não tinha outra opção arranquei o colar com força enquanto continuava recuando.

Steph me olhou com uma cara assustada, não precisamente pra mim, mas sim para minha mão. Abaixei a cabeça e o que vi... eu devia estar sonhando, o colar tinha virado uma espada! Isso está parecendo filme da Barbie!

Ignorando a parte rosa da história, Steph avançou rapidamente até mim, que modestamente só não corri porque com certeza tropeçaria e cairia na lâmina.

Ao invés disso levantei a espada. Tudo correu bem no começo, atingi a barriga dela com a lâmina, isso definitivamente pareceu atingi-la de alguma forma porque ela gritou.

Então minha sorte repentina acabou, Steph cambaleou até mim e me derrubou, me fazendo cair em cima da minha própria perna. Soltei um grito de angústia. A empousa percebeu minha dor na perna esquerda e a atingiu com as garras.

Eu e minha boca grande.

A espada havia caído da minha mão com a queda, ela estava a uns dois metros de distância, droga.

Steph – que droga de nome é esse? – apontou um dedo pra mim, desceu até apontar pra minha garganta, o que me fez ter que levantar o rosto.

–Agora, queridinha, você vai experimentar a morte, assim como o garoto ali, mas lhe deixarei ter a honra de ser a primeira – ela soltou uma risadinha esganiçada.

Era difícil ver na chuva mas seu sorriso sumiu de repente e ela começou a afundar a garra na minha garganta com uma expressão de ódio.

Ela perfurou minha pele de leve, parecia não ter pressa pra acabar comigo e sabia que eu não iria a lugar algum, pois meu pé doía intensamente. Era insuportável.

Eu começava a ver pontinhos pretos, ou isso ou bolas pretas resolveram passear na chuva.

Já estava aceitando meu fim quando ouvi um grito atrás de Steph.

–Não vou... perder... minha irmã de novo!

Steph congelou. Ela puxou a mão da minha garganta e começou a se desfazer em pó, simples assim. Atrás dela Nico segurava sua espada e me olhava com uma expressão assustada.

–Devo gritar? – falei me sentando, o que só causou mais dor na perna machucada.

–Não, já gritou demais por hoje – sua testa pingava de suor.

Calma... como ele estava de pé se estava caído minutos antes? Não tive tempo de perguntar porque acompanhei seu olhar que estava fixo no meu pé.

–Anh... meu pé deveria apontar pra esse lado mesmo?

Ele ficou calado. Apenas caminhou até sua mochila e tirou um cantil de lá e me entregou.

–O que é isso? –perguntei.

–Néctar, beba.

Bom, já que o garoto tinha acabado de salvar minha vida, achei que não podia ficar pior do que já estava.

Levei o cantil até a boca e bebi. O gosto era de chocolate quente. Eu sempre amei chocolate quente, especialmente o da minha mãe, mas a única maneira de fazê-la preparar a bebida era ficando doente.

–Tá, já está de bom tamanho. Isso vai doer, não se mexa.

Antes que eu pudesse perguntar do que ele estava falando ele arrumou dois pedaços de madeira e me carregou até debaixo de uma árvore e começou a mexer no meu pé. Muitos gritos e tapas depois eu tinha um pé imobilizado.

Fala sério, quem carrega materiais de primeiros socorros na mochila?

Me senti envergonhada por ter que ser arrastada por aí. Haviam tantas perguntas que acabei não fazendo nenhuma.

Eu estava ensopada, machucada e confusa. Uhul!

–Já te levo pra casa, espera mais um pouco só ok? – Nico disse assim que terminou com o meu pé e se sentou do meu lado.

–Tá.

Mais alguns segundos de silêncio até que não me segurei.

–Nico... quando... quando a empousa, ou seja lá o que aquilo era, estava tentando me matar você disse... que não ia perder sua irmã de novo. Pode me explicar isso? – perguntei.

–É... – ele olhou para a rua – nossa carona chegou!

Ele se levantou rapidamente e me ajudou a fazer o mesmo. Mesmo com sua ajuda os poucos metros que andei me esgotaram.

A única coisa que me lembro é de um carro preto, Nico abrindo a porta e me colocando no banco de trás. Depois disso apaguei.

Notas finais
Até a próxima cupcakes :3