A Profeta

2 There Somewhere...


23:45, noite de sábado.

Nada mais além de uma boa música, bebidas e cigarros me acompanhando,uma dose de Whisky à minha frente e o cinzeiro ao lado.Apesar de estar rodeada de gente naquele bar,que mais parecia um formigueiro, me sentia sozinha.Tomei um gole e olhei ao redor. Pessoas bebendo, se pegando e jogando sinuca no canto do bar. Eu? Estava ali apenas para me descontrair, sem nenhum pretexto a mais do que tomar minhas doses e fumar meus "Black's".

Cansada daquele lugar cheio de pessoas vazias,resolvi sair para respirar um ar mais puro. Peguei o copo com o Whisky pela metade e fui para fora do ambiente, sentei-me em um branco de praça que estava escorado na parede ao lado da porta e tomei outro gole ardente. O liquido passou raspando pela minha garganta,observei a rua movimentada, vários carros passando de lá pra cá e vise-versa. O mesmo acontecia na calçada. Suspirei fundo, me levantei devagar e comecei a andar, deixando o copo de vidro ali mesmo.

Sem nenhum senso de direção, optei pelo caminho da esquerda, andei pela calçada olhando as roupas e acessórios da vitrine, nada me chamava atenção. Por conta dos porres, sentei-me ali mesmo, não me sentia muito bem. Passei a mão pela raiz lisa de meu cabelo e o joguei de lado, a visão meia embaçada e sentindo uma breve dor de cabeça que já estava por vir, um pouco atrasada, mas já estava batendo na porta do canto esquerdo de minha cabeça.

Não me importava nem um pouco com os olhares das pessoas de boa classe que passavam olhando para mim como se eu fosse uma mendiga, o que aparentemente eu estava mesmo parecendo. Inclinei a cabeça um pouco para o lado, apertei a manga da jaqueta de couro e fechei os olhos, sem temer por nada, pois o álcool me impedia de sentir qualquer sentimento humanista, a não ser alguns efeitos colaterais provocados pelo o mesmo, até que por entre as vozes desconhecidas e distantes, até que ouvi uma bem próxima ao meu ouvido:

– Hey, acorde!

Abri os olhos e deparei-me com uma a imagem de uma linda mulher meia embaçada pela minha visão embriagada, mas mesmo assim conseguia enxergar a divina beleza.

Era jovem,alta e tinha o cabelo longo e louro liso nas raízes e meio ondulado nas pontas. Suas íris eram como duas safiras azuis de tão brilhantes, fixadas em mim, me olhando de modo meio preocupante e confusa, apesar da aparência meiga e gentil.

– Está tudo bem?– Perguntou, e estendeu a mão.

– Sim. Eu acho.– Respondi. Estiquei a mão e ela me puxou para cima.

Ela riu.

– O que faz aqui a essa hora nesse estado?

Olhei para ela meio zonza e ela percebeu a minha fraqueza. Passou meu braço por cima de seus ombros e se dispôs a caminhar, levando-me junto à ela.

– Perdão. Esqueci que não está em bom estado para responder perguntas. – Disse. – Venha, vou te ajudar e leva-la para casa.

– Você não sabe onde eu moro e eu nem te conheço. Pode deixar que sei me virar sozinha.– Retruquei de modo um pouco rude. Meu timbre estava todo embolado e falei como se tivesse com uma batata quente na boca, o que deu para perceber o meu alto nível de embriagues.

– Desse jeito você vai mesmo se virar. Se virar e cair de novo.– Ela riu novamente. — Ande, não precisa ter medo e nem ser tão carrancuda assim. Se quisesse te fazer mal já teria aproveitado desse seu estado frágil.

Olhei fundo nos olhos dela e pude notar que estava falando a verdade. Sempre fazia isso quando queria ter certeza de algo. Pois os olhares nunca mentem. É neles onde estão guardados os maiores segredos que alguém pode esconder.

Mesmo sem sombras de dúvidas que aquele gesto gentil e solidário não iria me causar nenhum mal, fiquei um pouco ressentida em prosseguir, mas mesmo assim comecei a seguir seus passos, os quais me levaram para dentro de seu carro, que por mais que minha visão estivesse mais ou menos míope por conta da alta quantidade de álcool ingerida, fiquei surpresa ao notar que era um "Isotta Fraschini" altamente sofisticado, da cor branca, que deixava-o mais sofisticado ainda.

A mulher abriu a porta de trás do passageiro e ao colocar o primeiro passo para dentro com o meu pé direito, cai de bruços no revestimento macio e luxuoso do automóvel. Ela deu a volta, abriu a porta do motorista e segundos depois ligou o motor e prosseguiu o caminho.

Fechei os olhos e não vi mais nada, apenas sentia meu corpo balançar de acordo com o movimento cuidadoso conforme ela dirigia.