A Profeta

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Na manhã seguinte, quando enfim acordei, notei que estava bem longe de casa. As paredes para os quais eu olhava não eram azuis como as minhas e no teto não haviam nuvens, estrelas e uma imensa lua no centro como no meu. Era tudo branco e com pequenas flores cheirosas espalhadas e arranjos por elas. Parecia o quarto da sininho.

Olhei para o lado e me surpreendi com a carismática loira me olhando da porta.

– Que susto!– Reergui meu corpo e o escorei na cabeceira da cama. – Já quer me matar logo de manhã?

Ela riu e entrou no quarto.

– Apenas entrei na hora errada.– Disse. – Vim ver como está.

– Estou melhor, obrigada!– Respondi. – Já posso ir para casa.

Quando tentei levantar, uma dor de cabeça me consumiu. A forte dor batucava na minha cabeça como se todos os meus neurônios fossem uma orquestra totalmente desafinada composta apenas por baterias e tambores.

– Acho melhor ficar por conta da ressaca que você com certeza deve estar sentindo.– Recomendou. – Por que não toma na água fria? Te aliviará disso. E te garanto que não contém armas ou objetos pontiagudos no banheiro, com os quais eu "pudesse te matar".– Gracejou, e fez um sinal de aspas com os dedos ao pronunciar as duas últimas palavras.

– Mas têm na cozinha.– Supus. – Você pode ir lá, buscar uma faca e assassinar enquanto banho.

Ela riu novamente.

– Eu não uso facas.– Afirmou. – Pode ficar despreocupada.

– E como faz para cortar a carne no almoço e o jantar?– Perguntei.

– Eu sou vegetariana.– Respondeu. – Portanto não preciso me preocupar com isso. Só como frutas, legumes e verduras. E não preciso corta-las para come-las. Eu já compro tudo picado, fatiado e cortado. É mais prático.

Olhei para ela um pouco estranho. Quem na face da terra não tem teria uma faca em casa. Logo cheguei as minhas conclusões. A dona era cheia de "mimimi", igual a casa. Apenas revirei os olhos, disfarcei e deixei "pra lá".

– Ainda não confio em você.– Me levantei. – Vou embora enquanto é tempo.

– Não precisa. Vou sair para que possa ficar à vontade. Aproveitarei para comprar algo para comermos no café-da-manhã.– Disse e saiu, após exibir um lindo sorriso simpático, e voltou no mesmo instante. – Ah, já ia me esquecendo! Tem toalha limpa no banheiro e roupas secas no varal. Creio que sirvam em você.– E saiu novamente após acenar para mim gentilmente.

Nesse momento me senti como a Maria da história " Maria e joão", sabe, aquela que eles encontram uma casa cheia de doces e tem uma bruxa que dizem para eles onde estão todos as "gordices" para eles comerem e ficarem gordos para que ela possa devora-los mais tarde quando voltar. Bem, esse era praticamente o meu caso. Só que a casa não era feita de doces, apenas se parecia com o "chantilly" de um bolo enfeitado com flores e rosas, e não havia uma bruxa, muito pelo contrário. Ela parecia uma fada vestida de maneira casual de tão meiga que era. Bom, pelo menos era o que ela aparentava ser. Mas as pessoas nem sempre são o que aparentam ser, aliás, nunca são.

Ainda um pouco intimidada, esperei até ouvir o fechar da porta da sala. Assim que foi concluído, me aproximei da que estava fechada, com passos lentos e calculados, abri e estiquei um pouco a cabeça para fora. Olhei para os lados e não vi ninguém. Então sai.

Já na metade do corredor, já dava para notar a sala de estar. Um pouco receosa, suspeitando de tudo, até do vento que passava pelas janelas abertas, entrei ainda um pouco meio zonza por conta da ressaca que ainda doía. Observei cada canto com atenção. Era uma casa aconchegante e tão delicada quanto a dona, até nos mínimos detalhes de cada decoração espalhada por ela. O aroma de chá se confundia com as flores. Ao pisar ali me senti confortável e uma sensação repleta de paz e harmonia me contagiou no mesmo instante.

Voltei pelo mesmo corredor, sentindo o piso frio de madeira por debaixo dos meus pés descalços, e logo o encontrei, a segunda porta após o quarto do qual eu havia saído. Abri a porta e entrei, tirando a minha jaqueta de couro preta. Olhei-me no espelho espendurado na parede. Até ele tinha uma moldura especial, diferenciado de qualquer outro espelho da face da terra, pois ela era único. Nenhum espelho refletia melhor do que ele.

Meu cabelo estava bagunçado, desbotado e emaranhando. As olheiras realçavam a minha cara amassada de sono. Eu estava uma perfeita cópia do Yoda do Star Wars, só que azul. E mais alta. Bem mais alta.

Tirei as roupas e entrei no box,liguei o chuveiro e deixei a água fria cair sobre o meu corpo magro. Arrepiei de primeira ao sentir a temperatura super gelada, pois a água não estava simplesmente fria como dizia no registro do chuveiro, que continha as três opções: Quente — Morna — Fria. Que eu interpretei como: Inferno — amostra grátis para o inferno e bem -vinda ao polo norte. Mas fui me acostumando aos poucos.

Minutos depois, sai enrolada na toalha branca. Peguei minhas roupas que havia deixado sobre a pia e voltei para o quarto. Deixei a toalha cair e vesti as mesmas peças de roupas que eu estava usando na noite interior. Calça Jeans justa e rasgada nos joelhos e uma regata branca decotada (mostrando o que eu definitivamente não tinha muito) fina e transparente, contrastando com o meu sutiã preto de rendas.

Calcei minhas botas e voltei à sala. Apalpei meu bolso à procura de minhas chaves e não as senti. Então resolvi revirar o ambiente todo. A começar pelos sofás. Joguei as almofadas para trás, tentando encontrar e nada.

– Creio que esteja procurando por isso. Encontrei elas no banco de trás do carro. Deve ter caído enquanto você dormia.

Olhei para trás e vi a loira cheia de sacolas penduradas nos braços, sacudindo algumas chaves. Mas não eram chaves qualquer, eram as minhas chaves. Franzi o cenho. Ela as jogou para mim e as apanhei no ar, com um reflexo ninja.

– Sabia que estava querendo me prender aqui e me manter como refém.– Guardei as chaves, encarando-a desconfiada.

– Mas a porta estava aberta.– Ela soltou um risinho frouxo e bobo, que interpretei como um deboche.

– Eu sei o que você está tramando. Se estiver procurando por recompensas de alto nível, saiba que dessa vez você se deu mal. Pois das pessoas que não tem nenhum dinheiro no bolso, saiba que eu sou a rainha.– Afirmei.

Ela revirou os olhos e simplesmente perguntou:

– O que vai querer comer no café — da — manhã?– Me ignorou e atravessou a divisória que levava para a cozinha.

– Fico agradecida. Mas vou aproveitar a oportunidade e "dar no pé."

– Com fome?– Se virou para mim e levantou as sacolas, oferecendo-as como uma ceia de natal apetitosa, com o olhar meio e convidativo. – Te garanto que não irá conseguir chegar até à esquina sem desmaiar antes.

Nesse instante ouvi meu estômago roncar, e pude sentir o imenso buraco que estava nele. Parecia ser do tamanho de uma cratera de meteoro caído na terra.

– Você vai ficar aí parada com o olhar desconfiado morrendo de fome?– Perguntou. – Já disse ontem, mas acho que não deve se lembrar. Se eu quisesse lhe fazer mal já teria feito. Hoje em dia, bandidos não perdem tempo.

No momento, pude perceber o quanto eu estava agindo de maneira idiota. Então resolvi me acalmar. Suspirei fundo e sorri. Apesar de ainda não acreditar, pois ela não pode ser um dos bandidos daqueles que já chegam chegando, te roubam e te matam na mesma hora, mas pode ser a pior espécie de uma pessoa ruim. As que mentem, se aproximam, te iludem e depois te matam. Por dentro.