A Profeta

4 "Suspected" ...


Me acomodei no grande sofá e a vi trazendo duas xícaras na bandeja, que por "coincidência" também era delicada. O cheiro de chá com leite invadia fortemente minhas narinas e percebi um acrescento de algumas ervas a mais pelo aroma, parecido com canela, de certo era mais um de seus delicados detalhes acrescentados.

– Me desculpe pelos os meus maus modos. É que... Já fui enganada por uma pessoa tão bela quanto você. E acabei caindo a esse tipinho de vida clichê.– Expliquei.

No mesmo instante fui surpreendida por um cachorrinho da raça shih tzu, que pulou no sofá e subiu no colo. De imediato, comecei acaricia-lo, deixando algumas memórias virem à tona.

* Era outono, uma quinta-feira qualquer do mês de julho. Eu fazia um tranquilo passeio sentada dentro de uma gôndola que seguia o rio de Veneza, até chegar em frente a uma bar. Parei e desci em frente, observando-o a arquitetura bem planejada com atenção, quando uma voz chamou minha atenção.

– Não sabia que os bares de Veneza fossem tão bem frequentados!

Olhei para a minha direita e me deparei com um homem. Ele era jovem, seu físico era magro, porém bem definido. Sua pele era tão clara que fazia de seus olhos dois faróis totalmente azulados. Tinha uma aparência magnífica e atraente, o cabelo preto molhado de gel e penteado para trás e a barba bem feita eram o seu charme, além de estar bem vestido em um terno de cor escura encaixado perfeitamente ao corpo.

– Eu não bebo.– Respondi, fascinada pelos dois faróis que me iluminavam, sem querer desviar para outra direção da "estrada."– Estava apenas a passeio e parei para olhar.

– Aceita fazer um passeio comigo por esta linda arquitetura que tanto olhava?– Ele sorriu, exibindo uma perfeita fileira de dentes brancos. – Ou vai recusar a minha companhia?– Arqueou uma das sobrancelhas e tentou entrar em minha mente, mas foi bloqueado de primeira, e ao ver que sua tentativa foi em vão tentou disfarçar.

– Já disse que não bebo. Estou apenas à passeio.– Desviei a atenção e a voltei para o bar, que entrava cada vez mais gente.

Estava prestes a anoitecer e o vento frio já atravessava minha pele arrepiava e atingia minhas espinhas.

– Parece estar com frio.– Disse. Retirou o blaiser e esticou o braço para que o pegasse.

– Obrigada!– Aceitei, sem nenhuma pretensão.

– Vou interpretar isso como um sim!– Sorriu novamente. – Não precisa ir além. Pode tomar apenas um gole se quiser. Não irei força-la a nada.– Me olhou de modo intenso e convidativo, pensando que eu recusaria. Mas agi pelo contrário.

O acompanhei e logo entramos no bar, que agora estava lotado de gente a beber e a dançar. Com certeza, ali não era o lugar onde Deus gostaria que eu estivesse. Pensei em ir embora, mas aqueles olhos azuis me prendiam.

Ele colocou o "Drink" sobre a mesa e a deslizou pela mesa até chegar em mim, que estava sentada ao seu lado no balcão em frente ao "Bar-Man" que fazia malabarismos com algumas garrafas de "Vodka".

– Só um gole! Se não gostar não precisa continuar. Aprecie a boa música!– Sorriu. O mesmo sorriso que me encantou de primeira.

Olhei para a bebida e tomei um gole forjado por impulso. E do primeiro gole não consegui mais parar. E ele, novamente, sorriu, vendo seus planos darem certo. *

Tentei esquecer a lembrança arrependida com um balançar rápido de cabeça. Peguei a outra xícara de chá que ela havia colocado sobre a mesinha de centro que ficava entre um sofá e outro e a levei à boca, dando um gole na bebida morna.

– E como foi que ele a enganou?– Perguntou ela, segurando a xícara de modo altamente sofisticado, com o mindinho esticado para fora da alça de porcelana.

– Te todas as formas possíveis.– Respondi. – Típico de todo homem.

O animal que cochilava em cima de meu colo, acordou, levantou e foi em direção à dona.

– Mas consegui recuperar, não totalmente, mas consegui.– Passei alguns fios de meu cabelo azul para trás, clássico charminho, o jogando para trás. – Por isso não confio mais nas pessoas. Principalmente nas mais bonitinhas. Como você.