A Profeta
5 " New friendships "
Com toda a fome do mundo dentro do estômago, não hesitei em continuar ali com uma estranha, pois parecia que toda a fome que eu sentia iria sair para fora da minha barriga, virar um monstro assustador e devorar tudo o que encontrasse pela frente.
– O que trouxe para comer? — Perguntei, sem querer parecer muito indelicada ou folgada. (Apesar de estar sendo)
Ela entrou na cozinha e colocou as sacolas sobre a mesa.
– Hmm... Deixe me ver. — Disse, abrindo-as e retirando alguns potinhos de dentro das plastificadas.
– Você não sabe o que você mesma trouxe para comer? — Estranhei.
– Não! Eu simplesmente peço a moça para que coloque os mais gostosos da padaria.- Ela abria os potes.
Revirei os olhos. Essa mulher só pode ser maluca. Pensei.
– Você confia mesmo tanto assim nas pessoas? — Puxei uma das cadeiras da mesa, a qual ela colocava as saborosas guloseimas por cima, e sentei-me. — Tipo, sei lá, ela pode ter colocado algum bolinho com produto vencido aí dentro.
Ela riu.
– Não há motivos para eu desconfiar das pessoas. Eu sei quem elas realmente são. — Olhou para mim e sorriu.
No momento pressenti uma boa energia sendo transmitida de seus intensivos olhos azuis. Sua presença era tão boa que transmitia toda a calma que um ser perturbado gostaria de sentir. Então resolvi me acalmar. Talvez ela não fosse tão má assim.
– Okay... Então... O que tem para comer? — Perguntei novamente, deixando as desconfianças de lado e " disposta " a fazer novas amizades.
– Temos... Pão francês, rosquinhas, suspiros, torta de morango e... — Dizia, apontando para cada item citado sobre a mesa e logo deu uma mordida no que estava em sua mão. — Biscoito! — Saboreou.
E só de ouvir já devia ter ganho diabetes.
– Acho que vou comer um de cada e ir embora.
Peguei o morango que estava por cima da cobertura de glacê e o joguei para dentro de minha boca.
– Tem certeza que que já está se sentindo bem? Não quer ficar mais um pouco? — Perguntou gentilmente, enquanto eu mastigava.
– Tenho! — Engoli.
E imediatamente ataquei o biscoito com gotinhas de chocolate.
– Certo! Você quem manda. — Riu gracilmente.
Ela foi até um dos armários e puxou uma das gavetas, da qual retirou um prato pequeno e colocou na mesa. Puxou uma das cadeiras e se sentou.
– Se quiser posso te dar uma carona de volta para casa. — Sugeriu.
Pegou um garfo no porta talheres com design de melancia e logo pegou a torta, partiu um pedaço no meio e levou ao seu prato.
– Ficarei grata! — Agradeci. — Minha casa é um pouquinho longe.
– Então está combinado!
Assim que terminamos o café, optei por espera-la na sala. Sentei-me em seu sofá de couro macio e prendi meu cabelo em um coque alto mal feito com um dos elásticos que eu sempre tinha no pulso.
Enquanto Kath guardava o restante das comidas na cozinha, aproveitando que eu estava sozinha e distante, a figura de áurea celestial resolveu dar o ar de sua graça.
Apareceu sentado na poltrona a pouca distância à minha frente me olhando enquanto balançava a sua cabeça de um lado para o outro fazendo barulhinhos com a boca em sentido de desaprovação.
– O que está fazendo aqui? — Perguntei por pensamento.
E então começamos a nos comunicar por telepatia. Como sempre fazíamos na frente das outras pessoas que não podiam vê-lo.
– Vim ver como a minha afilhada está. Aliás, é isso que os anjos da guarda fazem. — Respondeu.
Isso mesmo. Este era Poliel, o meu fiel anjo da guarda. O qual eu não podia enxerga-lo totalmente. Não que eu ainda estivesse embriagada,mas por conta dos meus vícios eu o enxergava todo embaçado.
– Só agora que você veio me ver? Seu irresponsável. — Avacalhei, balançando a minha cabeça como gesto de negação.
– Na verdade eu sempre estou ao seu lado. Só que você não consegue e nem pode me ver em estado de embriagues, lembra? — Blefou. — Portanto o irresponsável aqui não sou eu.
O encarei firmando meu olhos.
– Não vai começar com os seus sermões agora, vai?
– Agora não. — Disse. — Talvez mais tarde.
Revirei os olhos.
– Vai me acompanhar até em casa?
– Não será necessário. Você está em boas mãos. — Afirmou ao sorrir.
– Como sabe? — Perguntei, curiosa.
– Um dia você também saberá do que eu sei. — Respondeu, despreocupado.
Olhei desconfiada, mas por fim nem me preocupei tanto em saber.
Sem ser notada, Kath já estava na porta à minha espera balançando as chaves na mão.
– Melhor irmos logo. Choverá em breve. — Alertou, me olhando carismática a distância.
Levantei-me e dei uma última olhada disfarçada para o anjo ainda em pé a exibir seu meigo sorriso de lábios fechados, olhando-me aproximar da bela moça. Passei pela porta e pude sentir a brisa fria que enfestava a cidade coberta pela nuvens cinzas que ameaçavam despejar um balde de água fria em instantes. Desci os degraus da entrada e passei pelo pequeno portão de cercas brancas e ela me acompanhou em seguida após trancar a porta. Entramos no carro e partimos.
Após vastos minutos de carona, chegamos ao apartamento aonde eu morava. Assim que Kath estacionou, abri mini porta e desci. Peguei as minhas chaves, que por sorte ainda estavam no meu bolso da jaqueta e me virei para despedir, quando a vi olhando para mim esperando por algo.
– O que foi? — Perguntei, estranhando a sua reação.
Ela continuava a olhar para mim com o mesmo olhar intensivo e carismático, aguardando qualquer coisa vinda de mim, uma coisa que não sabia o que era e que exigia tanto com aquele olhar que eu não sabia o certo o que expressar por conta da pressão.
– Eu não tenho dinheiro. — Constrangida, falei.
Ela fechou os olhos, suspirou fundo lentamente e por fim disse:
– De nada!
E sorriu.
Sem reação, comovida por tanta gentiliza expressada por atos e aparência totalmente admiráveis, apenas dei um risinho meio boca e acenei em despedida.
– Até a próxima! — Retribuiu o meu gesto.
– Se tiver a sorte de me encontrar bêbada por aí novamente. — Acrescentei.
– A sorte não existe e muito menos o por acaso. A única coisa real é o destino para unir e comprovar os fatos. — Afirmou.
– O...Kay! — Ignorei a filosofia fora de hora e comecei a me afastar para entrar no prédio antes que ela tentasse começar a me flertar. — Agora tenho que ir.
– Certo! Se cuida. — Despediu-se e deu a partida. — E tenha um bom dia!
– Igualmente!
E quando me virei ela já havia partido.
Entrei, passei pela portaria e chamei o elevador. Ao chegar, apertei o botão que levava ao 5° andar e em poucos segundos eu já me encontrava em frente a porta de meu apartamento. O último no final do corredor a direita.
Destranquei a fechadura e finalmente pude sentir o aconchego do meu lar. Descalcei as botas e as joguei no canto. Me direcione para o meu quarto, o qual estava uma zona,, porém, as minhas nuvens ainda estavam pintadas exageradamente no teto. E eu fiquei feliz por isso, pois finalmente podia descansar.
Me joguei na cama desarrumada e afofei os travesseiros debaixo da minha cabeça. Puxei o meu edredom, fechei os olhos e por fim relaxei.
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