A Profeta
6 The awakening
Quando enfim acordei, deparei-me com a presença de meu anjo da guarda me olhando escorado no guarda-roupa. Já acostumada com as suas aparições repentinas, nem cheguei a me assustar.
Reparava os seus espontâneos e claros olhos azuis que brilhavam feito rubis me observando á poucos metros de distância, e por mais que só lhe enxergasse um perfeito borrão, dava para notar um pouco de sua aparência celestial. Dava para notar os seus curtos e lisos fios ruivos pouco bagunçados em perfeita harmonia e charme contrastando com a pele clara e o suéter de lã preta que cobria a camiseta branca social e a gravata vermelha.
– Graças a Deus! Pensei que havia entrado em coma. — Zombou.
– Pensava que não podia dizer o nome de Deus em vão. — Questionei, ainda embrulhada no cobertor.
– Eu posso! — Sorriu ao zombar novamente.
– Engraçadinho.
– O que seria do mundo sem o senso de humor? — Indagou, dando passos curtose leves se aproximando.
– Um imenso cinzeiro cheio de almas cinzentas. — Respondi.
– Almas cinzentas? — Curioso, perguntou sem entender.
– Sim. Almas cinzentas.
Afirmei e ele se sentou na beirada da cama ao lado de meus pés cobertos pelo edredom azul marinho.
– Que no caso se tornariam as cinzas do cinzeiro. — Supôs.
– Anjinho esperto! — Confirmei.
– Hm. Bela metáfora! — Compreendeu. — É assim que você vê o mundo? Porque para ser sincero, convenhamos, você não é muito otimista.
– Talvez sim. Talvez não. — Bocejei. — Talvez tenho motivos para ser assim. Ou não.
– E em qual motivo esse talvez se encaixa?
– Isso não vem ao caso agora.
Olhei-o nos olhos, mesmo borrados pela minha visão. Eram angelicalmente lindos, intensos e vívidos. Transmitiam tranquilidade e paz para qualquer pessoa que os olha-se.
– Eu sou seu protetor. Mereço saber sobre os seus sentimentos. — Disse.
– Você é o meu anjo da guarda e não o meu psicólogo. — Retruquei.
– Como quiser senhorita Veron! — Acatou.
– Obrigada! E desculpe-me.
Depois da cortada, acho que fiquei mais magoada que o próprio com o qual ataquei com as palavras.
– Sem problemas. Sou um anjo, portanto não guardo ressentimentos.
Sorriu e eu sorri de volta.
– A senhorita não acha que já dormiu de mais para ainda estar deitada?
– Dormir nunca é demais. É um dom que Deus me deu. — Protestei.
– Usar o nome de Deus em vão é pecado. — Disse, com certo tom de zombamento.
– Cala a boca! — Ignorei.
– Mandar um anjo se calar também não se encaixa nos mandamentos da educação. É um pecado maior ainda. — Cruzou os braços. E em poucos instantes um belo sorriso surgiu em dos cantos de sua boca.
O encarei. Meu olhar de maneira dizia: " Anjo idiota. " Mas no fundo, sabíamos quando estávamos brincando, portanto não havia certos tipos de desavenças.
– O seu dom você sabe perfeitamente qual é. — Insinuou.
– Infelizmente.- Concordei.
– Pois bem... — Se dispôs a falar e mudar de assunto. Pois ambos sabíamos que eu odiava tocar nesse assunto. — Não está com fome? — Se levantou.
– Que horas são? — Perguntei, em seguida de um sonolento bocejo.
– Já está quase na hora do jantar. — Respondeu.
Retirei o felpudo e macio edredom de cima de meu corpo e me inclinei para olhar pela janela que ficava ao lado de minha cama. Notei que já estava anoitecendo. O belíssimo e hipnotizante pôr-do-sol anunciava o fim de tarde, a qual eu nem vi passar.
Levantei-me, cocei os olhos e olhei novamente para ele.
– Vou preparar o jantar! — Anunciei.
Na cozinha, procurava qualquer fonte de energia que eu pudesse encontrar. Nos armários, microondas, geladeira, mas só haviam sobras vencidas com mal cheiro e algumas frutas na fruteira sobre a mesa.
– Eca! — O anjo tampou o nariz, com que fez, de consequência, a sua voz sair chiada e trêmula. — O que está esperando para jogar isso fora?
Peguei os restos de alimentos que empesteavam o cômodo com o mal cheiro e os joguei na sacola de lixo.
– Acho que terei que fazer compras. — Conclui.
– Você acha? — Arqueou umas das sobrancelhas.
– É... Eu tenho certeza!
– Há quanto tempo não janta em casa? — Perguntou.
– Desde quando tenho dinheiro o suficiente para não jantar em casa. — Respondi e sai da cozinha.
De volta ao meu quarto peguei um par de tênis qualquer que estava jogado sobre algumas pilhas de roupa, sentei-me no chão e os calcei. Peguei minha bolsa que estava espendurada na porta do guarda-roupa aberta e o meu cartão de crédito sobre a minha escrivaninha que estava jogado por cima de alguns desenhos de roupas desenhadas por mim e sai.
Na sala, a criatura celestial estava sentado no sofá à minha espera. Passei por ele e peguei as chaves sobre a mesinha de centro e direcionei-me à porta e sai.
Assim que tranquei a fechadura e me virei para continuar o corredor, me assustei com Poliel parado a me olhar de braços cruzados.
– Não vai se despedir senhorita Veron? — Questionou.
Tinha um tom convidativo se contradizendo no seu tom de voz.
Respirei fundo para me acalmar do susto e o ignorei iniciando os meus passos até o elevador.
– Isso não são modos de se tratar um anjo. — Protestou.
Sem dar a mínima, continuei seguindo o corredor. Ele seguia meus passos tentando chamar minha atenção com sua voz.
– Não vai me convidar para ir com você?
Sabia. O ignorei mais uma vez e apertei o botão a chamar pelo elevador.
– Senhorita Veron... — Me chamou.
Cansada com tanta teimosia, me virei e olhei para ele. Parecia um cachorrinho abandonado me olhando com as expressões inocentes enquanto fazia beiçinho implorando por atenção.
– Me deixe ir com você... — Implorou, sem fazer movimentos bruscos. Até porque nem precisava chamar tanta atenção. Aquele beiçinho já me deixava irritada. Não irritada com ele, mas sim comigo por sempre cair nos seus truques de fofuras. E Eu odeio pessoas fofas por isso. Elas sempre conseguem o que querem.
–Aaarrrgh! — Fechei os olhos e suspirei fundo, passando a mão no rosto para conter minhas irritação por conta do pedido exagerado e desnecessário. — Entra logo.
E entramos no elevador. Ele sorriu e me acompanhou.
Quando enfim o elevador chegou na portaria, cruzamos a entrada e fomos para o estacionamento, onde entramos no meu impala vermelho antigo com os assentos revestidos em couro branco que eu havia mandado personalizar.
Abri a porta do do motorista e entrei enquanto o outro apenas atravessou a porta e se sentou ao meu lado no banco do passageiro, sem ter o esforço de ao menos abrir a porta.
Olhei para ele, estranhando o seu ato surreal.
– Que foi? — Olhou para mim, esperando eu dar a partida.
– Nada... — Meu olhar vidrado no borrão de sua aparência. — Não é todo dia que um anjo invade o meu carro dessa maneira.
Ele riu. Sua risada era tão sútil quanto a sua personalidade.
– Desculpe se te assustei com o meu ato de ação.
– Sem problemas! — Sorri e dei a partida.
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