A Profecia dos Amantes
5 Verde
Rum'ea encontrou Tarla pelo vínculo.
Depois do jantar, o Templo parecia diferente. Durante o dia, tudo ali se movia com propósito: younglings em fileiras guiados por instrutores, Cavaleiros atravessando passarelas, Mestres indo de uma reunião a outra com a calma de quem carregava o peso de sistemas inteiros dentro das mangas. À noite, porém, a vastidão do Templo se tornava outra coisa. Mais profunda. Mais oca. As colunas pareciam crescer no silêncio, as janelas altas seguravam o brilho distante de Coruscant como se a cidade fosse uma constelação invertida, e cada som pequeno — o roçar das botas dela, o tecido claro das vestes novas, a trança de Padawan batendo de leve atrás da orelha direita — parecia grande demais.
Rum'ea não sabia exatamente por que estava procurando por ele.
Essa era a pior parte.
Não havia uma pergunta definida, nem uma necessidade urgente, nem uma crise que justificasse atravessar corredores depois do jantar seguindo uma sensação que ainda a irritava justamente por ser fácil demais de seguir. Tarla, pelo vínculo, não era como as outras presenças do Templo. Os Mestres eram fortes, alguns quase esmagadores em quietude: Yoda parecia uma raiz viva sob o chão da galáxia; Dookan era lâmina guardada em seda; Yaddle era uma canção antiga que não precisava ser cantada. Tarla, porém, era lago. Mesmo quando não meditava, mesmo quando falava com outros, mesmo quando desaparecia em alguma ala do Templo, havia no vínculo uma direção. Não era uma ordem. Tampouco era um puxão. Era apenas uma espécie de norte silencioso.
Ela o seguiu com a expressão fechada de quem não admitiria estar seguindo nada, nem mesmo sob tortura.
O corredor que a levou até uma das salas de treino secundárias estava quase vazio. As luzes estavam baixas, e a porta, parcialmente aberta, deixava escapar flashes rápidos, verdes e brancos, acompanhados por estalos secos de energia. Rum'ea parou antes da entrada.
O primeiro disparo cruzou a sala rápido demais para que seus olhos o acompanhassem por inteiro.
O segundo veio de outro ângulo.
Depois o terceiro, o quarto, o quinto, todos em velocidade alta, intensidade total, sem a cadência gentil dos exercícios que ela vira os jovens do Templo praticarem em grupos supervisionados quando voltou da meditação pela manhã. Eram esferas remotas, várias delas, girando em trajetórias imprevisíveis, disparando feixes contra uma única figura no centro da sala.
Tarla estava vendado.
A faixa escura cobria-lhe os olhos verdes, passando firme ao redor da cabeça, prendendo alguns fios do cabelo longo para trás, enquanto outros caíam soltos sobre os ombros e rosto. Estava de pés descalços sobre o piso de treino, e isso, por algum motivo, prendeu a atenção de Rum'ea tanto quanto o sabre. Os pés dele se moviam sem ruído, plantando-se, girando, deslizando, mudando de eixo com a segurança de quem conhecia a distância do próprio corpo até o mundo com precisão ridiculamente absoluta. O sabre de luz verde desenhava arcos no ar, não amplos demais, não teatrais demais, mas perfeitamente necessários. Cada disparo era recebido, desviado, ou devolvido com uma economia tão exata que parecia menos combate e mais uma conversa violentíssima entre luz e instinto.
Rum'ea ficou imóvel junto à porta.
A primeira coisa que sentiu foi avaliação.
Perigo.
Altura: muita. Alcance: enorme. Força física: evidente, mas não rígida. Velocidade: melhor do que a estrutura do corpo sugeria. Idade: absurda; cento e cinquenta anos, mesmo com um rosto de quarenta e poucos, mesmo com a pele firme, mesmo com o cabelo caindo como se o tempo tivesse preferido apenas tocá-lo de leve. Competência: alta. Muito alta. Alto demais. Um homem daquele tamanho, com aquele controle, aquele silêncio, aquela capacidade de lutar sem ver, era uma ameaça se decidisse ser. O corpo dela reconheceu isso antes de qualquer outra coisa, e a velha matemática de Kyrmora acendeu-se em algum canto: distância até a porta, ângulo das esferas, posição do sabre, chance de correr se ele se virasse rápido demais, um arrepio que subia da base das costas e eriçava os pelos dos braços.
Mas então houve outra coisa, algo que atravessou a avaliação como um erro de sistema.
Bonito.
O pensamento não veio como palavra organizada. Veio como constatação involuntária, bruta e confusa, acompanhada de uma sensação que Rum'ea não examinou porque não percebeu que estava deixando escapar. Tarla girou o sabre para trás do próprio ombro, desviando um disparo que teria atingido a base de sua nuca, e a luz verde iluminou por um instante os contornos do rosto vendado, a linha da mandíbula, a barba curta, a boca séria, o pescoço, os ombros largos sob a túnica de treino. Não havia mangas longas como nas vestes que ele normalmente usava, e o movimento mostrava a estrutura dos braços: não músculos secos e marcados como os de alguns humanos treinados para parecerem lâminas, mas uma força mais densa, mais resistente, coberta por uma leve camada de gordura natural da biologia keshtari, como se aquele corpo tivesse sido feito menos para posar em combate e mais para tarefas brutas… Como atravessar tempestades de neve carregando troncos de árvore sobre o ombro, quebrar gelo, erguer pedra, proteger calor no próprio centro.
Bonito, sim.
Mas também grande.
Perigoso.
Homem.
Mestre.
Velho demais e não velho o bastante.
Forte demais para ser ignorado.
Gentil demais para ser simples.
Rum'ea não percebeu que tudo isso passava pelo vínculo como uma correnteza cheia de fragmentos. Não percebeu a própria confusão, nem a irritação por reconhecer beleza em um homem, nem a maneira como a constatação vinha imediatamente seguida por alerta, não desejo; por cálculo, não entrega; por uma espécie de espanto quase ofendido diante do fato de o universo permitir que uma coisa pudesse ser bonita e perigosa ao mesmo tempo sem avisá-la antes.
Tarla percebeu tudo.
E não disse nada.
No centro da sala, ele moveu-se para o lado antes de um disparo atingir sua costela, desviou outro com a parte da lâmina quase próximo demais da empunhadura, girou sobre o calcanhar nu e devolveu um feixe com precisão suficiente para acertar uma das esferas sem destruí-la, apenas desestabilizando-a por meio segundo. O vínculo recebia o vazamento de Rum’ea como quem sente chuva quente tocar a superfície de um lago e apenas deixa as ondulações se abrirem. Não houve surpresa vitoriosa nele. Não houve vaidade. Não houve constrangimento projetado de volta. Tarla compreendeu, com aquela serenidade irritante que às vezes parecia anterior à própria linguagem, que Rum'ea achá-lo bonito não significava nada além disso: uma constatação seguida de imensa confusão. O olhar dela para o corpo dele era o mesmo olhar que lançaria a uma ponte, a uma arma, a um animal de carga forte demais para ser provocado sem motivo. Observava função, risco, resistência. A beleza, se estava ali, vinha presa à análise como uma peça que ela não sabia onde guardar. Esquisito.
Rum'ea, enfim, tocou o vínculo de propósito.
Estou aqui.
O sabre de Tarla desviou dois disparos em sequência antes que a resposta viesse, tranquila, como se ele não estivesse cercado por pequenas máquinas tentando acertá-lo com intensidade máxima.
Eu sei.
Ela estreitou os olhos, apesar de ele estar vendado e de costas para ela naquele instante.
Claro que sabe.
Pode ficar, se quiser. Mas fique perto da porta. Se entrar mais, pode se ferir por acidente.
Rum'ea olhou para as esferas, para os feixes, para o modo como um disparo ricocheteou no sabre e atingiu a parede acolchoada com força suficiente para deixar uma marca luminosa que logo se dissipou em uma mancha escura. Pela primeira vez naquele dia, obedeceu sem sequer pensar em discutir. Encostou-se à lateral da entrada, suficientemente dentro para ver, suficientemente fora para fugir, e cruzou os braços.
Seu sabre.
Sim.
É verde.
Sim.
Verde.
Sua observação continua correta.
Ela sentiu, pelo vínculo, a sombra de um sorriso nele. Não no rosto, que seguia sério, vendado e atento, mas em algum lugar de sua presença.
Eu esperava azul, disse ela.
Tarla abaixou-se no exato instante em que três disparos cruzaram o lugar onde estivera sua cabeça. A lâmina verde subiu em seguida, quase vertical, desviando um quarto feixe para o teto.
Por quê?
Você luta bem demais para verde.
Dessa vez, a resposta dele demorou porque a sala pareceu tentar matá-lo com mais dedicação. Duas esferas vieram de trás, uma pela esquerda, outra em diagonal baixa. Tarla recuou um pé, girou o punho, deixou a lâmina passar tão perto do próprio corpo que Rum'ea sentiu os músculos dos ombros dela prenderem em protesto, e desviou ambos os disparos com a mesma sequência fluida. A luz verde brilhava sobre a venda, sobre os cabelos, sobre a boca imóvel.
Verde é de diplomata, acrescentou ela, com a desconfiança de quem acusa uma peça de estar no lugar errado. “Consular”, eles dizem.
Às vezes o kyber sabe melhor do que o portador.
Isso não responde.
Responde de modo Jedi.
Então responde pior ainda.
Um dos disparos veio alto. Tarla saltou, mas o salto não pareceu salto. Pareceu uma suspensão breve, quase uma lembrança da gravidade esquecida do treino da manhã. Ele girou no ar, desviou o feixe, pousou sem ruído sobre os pés descalços e continuou como se nada tivesse acontecido.
Ser melhor em diplomacia não significa que eu seja ruim em luta, respondeu ele enfim.
Rum'ea soltou um som baixo pelo nariz, não exatamente riso, não exatamente desprezo.
Eu consigo ver isso claramente. Mas é uma coisa muito diplomática para dizer.
E, ainda assim, verdadeira.
Diplomatas gostam dessa palavra.
Verdadeira?
Não. “Ainda assim”. Serve para enfiar uma faca macia entre duas frases igual uma faca real entre costelas.
Tarla desviou outro disparo. A esfera que o emitira girou para trás dele; sem virar o rosto, ele ergueu a lâmina sobre o ombro e a fez recuar com um ricochete calculado.
O que você acha de diplomacia, Rum'ea?
Ela olhou para ele com suspeita imediata, embora a venda tornasse o gesto inútil.
Eu? Por quê?
Porque perguntei.
Essa resposta também é uma faca macia.
Um fio de divertimento dele cruzou o vínculo.
Talvez eu esteja praticando.
Rum’ea pensou por um momento. Não porque lhe faltasse opinião, mas porque havia muitas, e a maior parte delas vinha com farpas demais para atravessar o vínculo sem arranhar algo.
Cheia demais, disse por fim.
O sabre verde cortou o ar em uma diagonal baixa.
Cheia?
Cheia. Polida demais. Mentira demais. Cálculo demais. Gente dizendo palavras longas para esconder palavras curtas. Gente sorrindo quando quer comprar, vender, ameaçar ou prender. Gente fingindo que uma mesa limpa muda o que acontece embaixo dela. Cheia.
A sala continuou disparando contra Tarla, e Tarla continuou respondendo. Mas Rum'ea sentiu que ele a escutava por inteiro. Não como alguém tolerando uma ignorância temporária, nem como um Mestre esperando o momento de corrigir uma Padawan. Escutava mesmo. A presença dele no vínculo tinha aquela qualidade de lago recebendo pedra: a água se movia, mas não rejeitava o impacto.
Ótimo, disse ele.
Rum'ea piscou.
… “Ótimo”?
Sim.
Essa deveria ser a parte em que você diz que eu não entendo as nuances da República.
De fato. Você ainda não entende muitas delas.
Isso é repreensão?
Não. É informação.
Então por que “ótimo”?
Tarla girou o sabre em uma sequência tão rápida que a lâmina verde deixou um círculo incompleto de luz no ar. Três disparos voltaram para três esferas diferentes, atingindo-as com precisão suficiente para desligá-las em ordem. Ainda restavam outras, e elas aumentaram a velocidade, compensando a perda.
Porque eu já preenchi os formulários para levar você comigo na minha próxima missão diplomática.
Rum'ea ficou tão parada que, por um instante, até a estática de Kyrmora pareceu parar junto.
— Você o quê? – Perguntou ela em voz alta.
A palavra bateu na sala exatamente no momento em que Tarla desligava a última esfera com um ricochete limpo. O silêncio que veio depois pareceu ainda mais absurdo por contraste. A lâmina verde permaneceu acesa por um segundo, iluminando a venda sobre os olhos dele e a curva muito pequena de seu sorriso. Então o sabre se apagou com um sibilo suave.
Tarla ergueu a mão e retirou a venda.
Os olhos verdes estavam tranquilos demais para alguém que acabara de lançar uma catástrofe burocrática sobre a noite de Rum’ea.
— Eu disse que já preenchi os formulários para levar você comigo na minha próxima missão diplomática. — Repetiu ele em voz alta, com uma clareza quase cruel.
Rum'ea descruzou os braços.
— Você não pode fazer isso.
— Posso. Fiz.
— Eu acabei de dizer que diplomacia é cheia de mentira.
— Por isso mesmo.
Ela encarou-o, tentando decidir se aquilo era piada, punição, teste, armadilha ou alguma forma extremamente sofisticada de crueldade Jedi.
Você está me castigando por causa do azul nas vestes?
Não. Já lhe disse que as achei esteticamente agradáveis.
Por eu ter puxado seu manto de manhã?
Também não.
Por eu ter mordido mentalmente metade do Conselho quando cheguei?
Você não mordeu mentalmente metade do Conselho.
Mas quis.
Isso não aparece nos formulários.
Rum'ea apertou os olhos.
— Eu não sei falar como vocês.
Tarla caminhou até o painel de controle, ainda descalço, e desligou completamente o sistema das esferas. Algumas delas recolheram-se aos suportes nas paredes com pequenos cliques metálicos. Só então ele se voltou para ela. Sem a venda, parecia menos uma estátua em combate e mais ele mesmo outra vez: alto, calmo, cansativo em sua paciência, com o cabelo desalinhado pelo treino e pela venda removida, e a empunhadura do sabre desligado preso à mão como se fosse uma extensão natural do corpo.
— Eu sei. – Disse ele.
— Eu vou dizer algo errado.
— Provavelmente.
— Vou perceber mentira na cara de alguém e minha própria cara vai mostrar no mesmo instante.
— É possível.
— Vou odiar a roupa.
— Quase certo.
— Então por que eu vou?
Tarla a observou por um momento, e a resposta veio primeiro pelo vínculo, mais íntima que a voz.
Porque você sabe quando uma sala está cheia demais. Isso é útil. Muitos Jedi se encantam com a superfície limpa das palavras. Você não se encanta facilmente.
Rum'ea não respondeu.
Ele se aproximou apenas até a distância segura que ela já reconhecia como dele, deixando o espaço entre ambos respirar.
— Diplomacia não é fingir que não há facas sob a mesa, Rum’ea. – Disse Tarla em voz alta. – É saber onde estão, quem as colocou ali, quem espera que você veja, quem espera que você não veja, e como impedir que alguém precise usá-las.
Rum'ea sustentou o olhar dele.
— Isso é horrível.
— Às vezes.
— E vocês chamam de paz?
— Às vezes chamamos de começo.
Ela olhou para o sabre preso à mão dele, ainda lembrando a lâmina verde cortando disparos rápidos demais para um corpo comum. Verde, pensou. Diplomata. Lago. Homem perigoso. Homem bonito. Homem que preenche formulários sem avisar.
Dessa vez, percebeu tarde demais que a palavra “bonito” tinha passado.
Tarla apenas prendeu o sabre no cinto e não olhou diferente.
A ausência de reação dele foi, de algum modo, mais desconcertante do que qualquer comentário.
Você ouviu isso, acusou ela pelo vínculo.
Ouvi.
E não vai dizer nada?
Não há nada que precise ser dito.
Você sempre diz coisas.
Nem sempre.
Ela odiou um pouco o alívio que sentiu.
Tarla pegou as botas deixadas junto à parede, mas não as calçou ainda. Ficou ali, de pés descalços sobre o piso, segurando-as com uma mão, absurdamente composto para alguém que acabara de destruir a ideia de noite tranquila dela.
— E quando é essa missão? – Perguntou Rum'ea.
— Em quatro dias.
— Quatro dias.
— Sim.
— Para onde?
— Alderaan.
A palavra não significava muito para ela além de uma associação vaga com riqueza, política e gente que provavelmente falava como se tivesse nascido dentro de uma taça limpa.
Rum'ea respirou fundo depois de franzir o nariz.
— Eu vou odiar.
— Provavelmente.
— Vou reclamar.
— Assim espero.
— Espera?
— Sim. Se você não reclamar, vou achar que há algo seriamente errado.
Ela o encarou, tentando encontrar a parte em que ele cederia, explicaria que havia sido apenas uma ideia, talvez perguntaria se ela desejava ir antes de simplesmente tomar uma decisão daquelas. Mas Tarla não parecia disposto a retirar a dificuldade apenas porque ela o reconhecia como difícil; ele era, afinal de contas, o Mestre e, portanto, responsável por decisões pedagógicas que ela talvez não fosse gostar. E, estranhamente, aquilo não tinha o gosto de ser arrastada. Tinha o gosto irritante de ser considerada capaz.
Você acha mesmo que isso é uma boa ideia? perguntou ela.
Tarla calçou uma bota, depois a outra, sem pressa.
Não.
Rum'ea piscou, surpresa.
Não?
Boas ideias costumam ser mais limpas. Esta, acho que é uma ideia necessária.
A sala de treino, agora silenciosa, ainda guardava o cheiro leve de energia aquecida e ozônio. Rum'ea olhou para as esferas recolhidas, para o espaço onde ele estivera vendado, para a empunhadura que parecia feita de aço envelhecido com adornos de madeira e algo negro no cinto, para os pés agora cobertos pelas botas, para o homem grande demais que lutava como azul, carregava verde e falava de facas sob mesas como se aquilo fosse uma forma de misericórdia.
— Eu não vou usar vestido algum. – Disse ela.
Tarla inclinou a cabeça, pegando a parte externa das vestes e colocando-a.
— Não mencionei vestido.
— Estou mencionando antes que alguém tente.
— Anotado.
— E se algum diplomata falar comigo como se eu fosse decoração, eu posso morder?
— Em Alderaan, preferimos respostas verbais antes de mordidas.
— “Preferimos”?
— Estou tentando incluir você na cultura da missão.
Ela quase sorriu.
Quase.
Mas dessa vez deixou que o quase ficasse visível.
Diplomacia é cheia demais, repetiu ela, pelo vínculo.
Tarla pegou a venda e dobrou-a com cuidado antes de guardá-la no bolso interno das vestes.
Então aprenderemos onde há espaço.
Rum'ea olhou para ele por mais um instante. Depois, ainda desconfiada, ainda confusa, ainda irritada por ter ido procurá-lo sem motivo e encontrado uma missão inteira esperando por ela, afastou-se da porta para deixá-lo sair.
Quando Tarla passou, manteve a distância exata para não obrigá-la a recuar.
O vínculo entre eles permaneceu quieto, protegido, sem que ninguém no Templo pudesse adivinhar o que se movia ali: a lembrança da lâmina verde, a constatação incômoda de beleza, o medo sem nome, o alívio sem nome, e, em algum lugar sob a estática de Kyrmora, uma curiosidade pequena começando a sobreviver ao próprio pânico.
Rum'ea caminhou ao lado dele pelo corredor silencioso.
— Alderaan tem comida boa? – Perguntou, depois de algum tempo.
Tarla olhava para frente.
— Excelente.
Ela considerou isso com toda a gravidade de uma Padawan prestes a enfrentar sua primeira missão diplomática.
— Então talvez eu morda menos.
— Um começo promissor. – Disse Tarla.
E, pelo vínculo, onde a voz dele era lago e a dela ainda era tempestade aprendendo a ficar imóvel, Rum'ea sentiu o sorriso dele antes de vê-lo.
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