No início, Tarla pensou que fosse coincidência.

Rum'ea apareceu no desjejum quando ele já estava sentado perto das janelas altas do refeitório, com uma tigela de caldo quente, chá do norte de Keshtara e um relatório diplomático aberto no datapad ao lado da bandeja – não disse bom dia, não perguntou se o lugar estava livre. Apenas parou diante da mesa, olhou para a cadeira à frente dele como se avaliasse se o móvel tinha alguma intenção oculta, colocou a própria bandeja ali e sentou-se.

Tarla ergueu os olhos.

Ela já estava partindo um pedaço de pão com a concentração séria de alguém que não pretendia explicar nada.

Bom dia, Rum’ea, disse ele pelo vínculo.

Rum'ea mordeu o pão.

É cedo demais para afirmar qualquer coisa.

Uma observação justa.

Observação justa é que seu chá ainda cheira como muro desapontado.

Ele também lhe deseja bom dia.

Ela olhou para o copo com desprezo, mas, depois de alguns segundos, empurrou a pequena xícara vazia alguns centímetros na direção dele.

Tarla observou o gesto.

Você quer chá?

Quero confirmar se continua horrível.

Entendo. Uma investigação científica?

Uma investigação criminal.

Ele serviu um pouco.

Rum'ea cheirou, fez a careta habitual e bebeu um gole pequeno. O vínculo trouxe imediatamente a sequência de impressões que Tarla já começava a associar à experiência dela com o chá keshtari: amargo, sal, resina, vento ruim, pedra molhada, por que o fundo fresco piora tudo?, tradição é só teimosia com parentes mortos.

Tarla escondeu o sorriso na própria xícara.

Aquilo, pensou, era coincidência.

No almoço do mesmo dia, ela apareceu outra vez.

Tarla estava em uma mesa lateral, cercado por três datapads e duas projeções em baixa luminosidade, corrigindo um relatório de um Cavaleiro que retornara de uma negociação de fronteira com mais adjetivos do que informações úteis. Rum'ea deslizou para o banco ao lado dele, não à frente desta vez, e começou a comer uma fruta azul-escura cortada em fatias, os olhos imediatamente fixos no relatório.

— “Tensões historicamente sensíveis com potencial de realinhamento mediante abordagem conciliatória progressiva”… — Leu ela em voz alta, com a voz carregada de suspeita. – O que isso sequer significa?

— Que ninguém sabe quem ofendeu quem, mas todos querem parecer maduros.

Rum'ea mastigou a fruta.

— Então escreva isso.

— Não posso.

— É claro que pode. Só falta coragem.

— Não, Rum’ea. Falta-me vontade de provocar três gabinetes setoriais antes do jantar.

Ela inclinou-se um pouco mais para ver a projeção, a trança de Padawan balançando atrás da orelha direita.

Esse parágrafo é completamente inútil, pensou, esquecendo completamente que o vínculo estava aberto.

Sim.

Esse também.

Sim.

… Esse outro também.

Sim.

Por que ele escreveu quatro frases para dizer que a reunião atrasou porque um senador não chegou?

Porque “o senador não chegou” parece acusatório.

Mas ele não chegou.

Diplomacia.

Faca macia?

Exatamente.

Tarla fez uma anotação no texto. Rum'ea continuou comendo, ainda olhando para a tela com a expressão de uma criatura ofendida por sintaxe. Em algum momento, sem pedir permissão e sem receber convite, puxou um dos datapads secundários, leu a transcrição de uma conversa e apontou com o dedo para uma frase.

— Aqui.

Tarla olhou.

— O que há?

— Ele diz que “não pretende criar obstáculo”. Isso é mentira.

— Como sabe?

— Porque se fosse verdade, ele diria que “não criará”. “Não pretende” deixa espaço para fingir que o obstáculo nasceu sozinho.

Tarla ficou em silêncio por um instante, depois acrescentou uma nota ao relatório.

Rum'ea pareceu satisfeita.

Aquilo, Tarla pensou, ainda poderia ser coincidência. Uma coincidência repetida, sim, mas ainda defensável.

Na tarde seguinte, ela o encontrou em uma sala de meditação.

Tarla estava sozinho, sentado de pernas cruzadas sobre uma esteira baixa, olhos fechados, mãos repousadas nos joelhos. Não flutuava naquele momento, embora a gravidade ao redor dele parecesse sempre disposta a negociar. O vínculo estava aberto em uma largura tranquila, e a mente dele era o lago habitual: vasto, espelhado, com a presença dele repousando no fundo como uma pedra antiga que conhecia o próprio lugar.

A porta se abriu, e Rum'ea parou na entrada.

Tarla não abriu os olhos.

Posso ouvir seus pensamentos dizendo que não sabe se deve entrar.

Então pare de ouvir.

O vínculo está aberto.

Então feche.

Você pode fechar também.

Ela ficou em silêncio.

Não fechou.

Depois de alguns segundos, entrou e sentou-se ao lado dele, a uma distância que já se tornara familiar: perto o bastante para que a presença dele aquietasse um pouco a estática de Kyrmora, longe o bastante para que seu corpo não precisasse decidir se aquilo era invasão. Rum’ea não perguntou nada, apenas cruzou as pernas, apoiou as mãos nos joelhos e fechou os olhos com uma solenidade desconfiada.

Tarla sentiu a mente dela tocar a margem do lago.

Ainda havia ruído, como sempre. Pensamentos dela atravessavam a superfície em faíscas: fome pequena, curiosidade sobre uma planta que Qui-Gon mostrara, raiva tardia de um comentário ouvido no corredor, a lembrança de Porin mordendo a mão de Tarla, satisfação secreta com o cabo de vassoura azul, uma dúvida sobre se os Lumikith sonhavam com mães escolhidas, irritação porque o próprio pensamento era absurdo, preocupação porque talvez Tarla ouvisse, certeza de que ele ouviu, vontade de empurrá-lo mentalmente dentro do lago.

Tarla deixou que as ondulações viessem.

Você está especialmente barulhenta hoje, disse ele com suavidade.

Você é muito alagado sempre.

Alagado?

Sua mente. Lago demais. Muito lago. Exageradamente lago.

Aceito a crítica.

Ela respirou fundo. A estática estalou, depois se aquietou um pouco.

Por algum tempo, ficaram assim. Não em silêncio verdadeiro, porque entre eles silêncio verdadeiro já era raro; o vínculo levava pequenos pensamentos de um para o outro como folhas caindo sobre água, mas era um silêncio confortável. Rum'ea não precisava formular tudo. Tarla não precisava responder tudo. Às vezes, ele recebia apenas a sensação dela observando a calma dele com uma mistura de inveja, irritação e desejo cauteloso. Às vezes, ela recebia dele apenas a paciência, não como instrução, mas como clima.

Quando ele finalmente abriu os olhos, meia hora depois, Rum'ea ainda estava ali.

Dormindo sentada.

A cabeça havia inclinado alguns centímetros para frente. Tarla olhou para ela, depois para a porta, depois para o manto dobrado ao lado da esteira. Considerou acordá-la. Em vez disso, apenas permaneceu meditando mais um pouco, porque, se Rum'ea adormecera ali, era porque alguma parte dela havia decidido que o mundo ao redor podia continuar existindo sem atacá-la por alguns minutos.

Na terceira vez, foi durante uma caminhada.

Tarla atravessava uma passarela interna a caminho dos jardins superiores, onde deveria encontrar Mestre Rancisis para discutir um assunto de arquivos antigos. Rum'ea apareceu à sua esquerda sem anúncio, acompanhando seu passo com a naturalidade de alguém que sempre estivera ali. Ele não a ouvira chegando pelo som; pelo vínculo, porém, ela vinha como uma pequena tempestade tentando fingir que era brisa.

— Você tem aula de linguística em vinte minutos. — Disse ele, sem olhar diretamente para ela.

— Eu sei.

— E esta passarela não leva à sala de linguística.

— Ainda não.

Tarla olhou para ela de lado.

— E espera que o corredor inteiro mudará de função nos próximos minutos?

— Talvez. O Templo é antigo. Você não sabe tudo sobre ele.

Você está me acompanhando porque quer perguntar algo?

Não.

Porque precisa de algo?

Não.

Porque está fugindo de algo?

… Não exatamente.

Ele esperou.

Rum'ea caminhou mais alguns passos, as mãos presas às laterais das vestes, os detalhes azuis do traje aparecendo quando a luz das janelas tocava o tecido. O cabelo negro movia-se às costas, e a trança atrás da orelha direita balançava como uma pequena declaração de pertencimento que ainda não aprendera a ser tranquila.

… Qui-Gon quer me mostrar uma espécie de inseto que parece uma almofada com pernas, ela admitiu enfim.

Isso parece compatível com os interesses dele.

Eu disse que precisava passar antes nos jardins.

E precisa?

Agora preciso.

Tarla aceitou aquilo com uma inclinação quase imperceptível da cabeça. Caminharam juntos até a bifurcação. Ele deveria seguir à direita. Ela, à esquerda. Ao chegarem ali, Rum'ea parou, como se a separação de corredores tivesse surgido de forma inconveniente e pessoal.

Sua reunião é longa? perguntou.

Provavelmente.

Oppo fala devagar.

Mestre Rancisis pensa antes de falar.

Isso é falar devagar com justificativa.

Tarla quase sorriu.

Vá à sua criatura-almofada.

Rum'ea fez uma careta.

— Não é minha.

— Ainda não.

Ela olhou para ele com suspeita imediata.

— Não diga isso perto de Qui-Gon. Ele vai achar que a Força está confirmando que eu devo ficar com o bicho.

— Talvez a Força tenha oferecido.

— Vocês dois são perigosos de jeitos parecidos.

Ela se afastou pelo corredor esquerdo, mas o vínculo permaneceu aberto enquanto a distância aumentava. Tarla sentiu a presença dela afastar-se como uma linha elástica, ainda confortável, ainda sem tensão. Só quando ela virou uma esquina e encontrou Qui-Gon — ele percebeu o reconhecimento hesitante e a imagem absurda de uma criatura arredondada demais e com antenas inquietas — o vínculo se estreitou um pouco, não fechado, apenas recolhido.

Tarla continuou caminhando.

Foi então que o pensamento lhe veio, inesperado e perigosamente claro.

Rum'ea o seguia como um Tooka carinhoso e enérgico.

No mesmo instante em que pensou isso, a imagem mental formou-se completa, traidora e absolutamente inaceitável: um Tooka pequeno e preto como o cabelo dela, de olhos grandes e desconfiados, andando atrás dele com passos decididos, uma trança fina saindo de trás da orelha direita, contas minúsculas presas ao pelo e fitas azuis amarradas em uma pata e na ponta do rabo. O Tooka mental parava, rosnava para um datapad mal redigido, mordia a borda de um manto, depois corria para alcançá-lo outra vez como se a perseguição fosse inteiramente culpa do perseguido.

Tarla fechou o pensamento com a velocidade e a disciplina de alguém que já enfrentara negociações hostis, conflitos armados e Mestres do Conselho em desacordo.

Teve a decência de não deixar nada passar pelo vínculo.

Especialmente a trança.

Especialmente as fitas azuis.

Mesmo assim, do outro lado do Templo, a presença de Rum'ea tocou a dele com suspeita súbita.

Você pensou alguma coisa.

Tarla manteve a mente lisa.

Eu penso muitas coisas.

Foi sobre mim.

Também penso muitas coisas sobre você.

Foi ofensivo?

Não.

Então foi pior.

Sua aula começará em breve.

Desvio suspeito.

Pontualidade é importante.

Muito suspeito.

Ele sentiu a desconfiança dela como uma patinha mental cutucando uma porta fechada. Não abriu.

No jantar, ela apareceu novamente.

Dessa vez, Tarla já havia colocado uma bandeja a mais do outro lado da mesa antes de perceber conscientemente que fizera isso. Quando notou, ficou olhando para a segunda bandeja vazia por um momento longo. Não era hábito antigo. Certamente não era protocolo. Era simplesmente expectativa.

Rum'ea chegou dois minutos depois.

— Essa é minha? — Perguntou, apontando para o espaço.

— Se quiser.

— Por que a colocou aqui?

— Presumi que viria.

Ela ficou parada.

O vínculo abriu uma pequena onda desconcertada, quase tímida, logo soterrada por estática defensiva.

Presumiu por quê?

Tarla poderia ter dito “porque você vem sempre”. Poderia ter dito “porque gosta de comer aqui”. Poderia ter dito “porque, quando não aparece, o vínculo fica diferente e eu noto”. Escolheu uma resposta mais simples.

Porque guardei lugar.

Rum'ea desviou os olhos para a bandeja vazia.

— Hm.

Isso foi tudo, e sentou-se.

Com o passar dos dias, deixou de haver qualquer pretensão de coincidência.

Rum'ea sentava com ele no desjejum, mesmo quando trazia três datapads e fingia que não vinha pela companhia, mas porque aquela mesa recebia luz melhor para leitura. Sentava no almoço, às vezes para discutir uma cláusula, às vezes para reclamar de sopa, às vezes para comer em silêncio enquanto o vínculo carregava pequenos fragmentos do dia. Sentava no jantar, normalmente com fome real e alguma indignação nova: um instrutor que explicara algo como se ela fosse criança, um youngling que pedira para tocar nos adereços da trança, Qui-Gon que a fizera observar uma planta reagindo à música por vinte minutos e chamara aquilo de “escuta botânica”.

Quando Tarla corrigia relatórios, ela vinha também. Às vezes lia sobre seu ombro até ele empurrar um datapad duplicado para ela com resignação. Às vezes ficava do outro lado da mesa, anotando sugestões não solicitadas.

Essa frase está mentindo.

É uma frase de transição.

Transições mentem quando não sabem para onde vão.

Uma observação literariamente agressiva.

Eu sei. Corrija.

Ele corrigia, às vezes. Outras, explicava por que não podia. Ela discutia. Ele respondia. O relatório melhorava, ou ao menos ficava mais consciente de seus próprios crimes.

Quando Tarla meditava, Rum'ea aparecia sem falar e sentava ao lado dele. Nem sempre entrava no lago. Às vezes apenas ficava na margem, jogando pensamentos pequenos na água: uma palavra nova, uma memória curta, uma dúvida sobre por que Yoda parecia sempre saber mais do que dizia, a imagem mental do “príncipe vilão” caso Dookan descobrisse o apelido, o medo repentino de esquecer a sensação de Porin no colo, a irritação por ainda não conseguir erguer a maldita pedrinha. Tarla deixava que tudo isso tocasse a superfície e deslizasse sobre ela como pedrinhas quicando até se perderem de vista. Em troca, sem intenção formal, ela recebia dele lampejos de Keshtara: três luas sobre montes gelados, lagos imóveis sob Luzes Dançantes, cartas de Maree com frases longas demais, Vinis descrevendo o congelamento precoce de uma margem, Elyria enviando desenhos de um brasão que Rum'ea continuava julgando exagerado, mas não feio.

Quando ele caminhava, ela caminhava junto.

No início, dizia que era porque precisava ir na mesma direção. Depois, porque “o corredor era público”. Depois, porque tinha perguntas. Por fim, nem se dava ao trabalho de inventar motivo — apenas aparecia, encaixava-se à esquerda dele ou ligeiramente atrás, dependendo do fluxo de pessoas, e seguia. Às vezes falava. Muitas vezes não. Às vezes o vínculo ficava tão aberto que os pensamentos de um passavam para o outro sem forma completa.

Você vai beber aquele chá de novo?

Provavelmente.

Biologia keshtari é uma tragédia adaptativa.

Possivelmente.

Você está pensando em formulários.

Estou corrigindo um mentalmente.

Doença grave.

Sim. Condição crônica.

Qui-Gon acha que uma raiz sabe cantar.

Ela sabe?

Não sei. Ela se mexeu quando ele cantarolou. Pode ter tentado fugir.

Uma reação compreensível?

Ele canta mal.

Não posso concordar ou discordar. Não tenho dados suficientes.

Você parece alguém que tem dados sobre tudo.

Uma ilusão perigosa.

Hm.

Às vezes, os pensamentos vinham dele sem que fossem propriamente palavras: a lembrança de um mapa de fronteira, a preocupação branda com uma reunião do Conselho, a sensação de ternura contida ao vê-la discutir com um dróide de biblioteca porque ele classificara um dialeto como “obsoleto”, a paciência ao notar que ela estava usando o cinto ajustado exatamente como ele ensinara. Rum'ea recebia isso tudo com desconfiança cada vez menor. Quando algo a constrangia, estalava estática na direção dele como advertência. Quando algo a agradava, tentava soterrar com ruído, geralmente sem sucesso.

Tarla percebeu, depois de algum tempo, que não se incomodava.

A constatação veio numa tarde chuvosa sobre Coruscant, quando a cidade além das janelas estava enevoada e o Templo parecia suspenso dentro de uma luz cinza. Ele estava em uma das salas menores de estudo, revisando documentos para o Conselho, enquanto Rum'ea ocupava a outra extremidade da mesa com uma pilha de arquivos. Havia silêncio ao redor deles. Não silêncio vazio, mas um silêncio habitado: o leve som dos dedos dela passando por telas, o zumbido baixo das projeções, o roçar do manto dele quando se inclinava para anotar algo, a respiração dela ficando mais lenta quando encontrava um padrão interessante.

O vínculo estava aberto.

Confortavelmente aberto.

A maioria dos pensamentos passava de um para o outro sem que qualquer um dos dois se esforçasse para esconder. Não pensamentos íntimos demais, não memórias trancadas, não os lugares onde a dor ainda mantinha guardas armados, mas o cotidiano mental, sim. As pequenas observações. O humor. A irritação. A curiosidade. As palavras incompletas. A presença.

Tarla sentiu uma frase dela antes que ela falasse:

Esse termo aparece nos dois registros. Não parece coincidência.

— Não é coincidência. — Disse Tarla em voz alta, um segundo depois.

Ela olhou para ele.

— Isso é irritante.

— Por quê?

— Você ouve tudo antes. Eu ia parecer mais inteligente se você esperasse eu dizer.

— Posso fingir surpresa.

— Agora não adianta mais.

Ele inclinou a cabeça.

— Então me surpreenda com a explicação.

Rum'ea estreitou os olhos, mas explicou — e explicou bem. Tarla ouviu a fala dela e, ao mesmo tempo, sentiu a lógica se formando por trás: fios de língua, comércio, sobrevivência, compradores de Kyrmora, sussurros da Força, registros acadêmicos tentando nomear algo que nela começara como instinto. Ele acompanhou a mente dela movendo-se com rapidez, pulando de uma associação a outra, voltando quando percebia uma lacuna, mordendo mentalmente uma hipótese que não sustentava peso. Era barulhento. Era irregular.

Era brilhante.

E ele percebeu, com uma surpresa calma, que estar com Rum'ea tantas horas por dia não o cansava do modo como deveria.

Tarla apreciava silêncio. Apreciava solidão. Tinha passado setenta anos sem Padawan, e parte da Ordem talvez acreditasse que isso se devia apenas ao luto, mas havia também hábito. Ele gostava de caminhar sem ser acompanhado, de corrigir relatórios sem perguntas ao lado, de meditar em uma sala vazia até que o lago dentro dele não recebesse ondulação alguma. Gostava de cartas longas, de chá horrível, de arquivos ordenados, de intervalos em que ninguém precisava dele.

Rum'ea deveria quebrar tudo isso.

De certo modo, quebrava.

E ainda assim não era incômodo.

Era presença.

Presença viva, cheia de ruído, perguntas, imagens absurdas, julgamentos sobre chá, suspeitas sobre plantas, ódio pela pedrinha, sarcasmo contra nobres, curiosidade por línguas mortas, cuidado estranho com bandagens, fome que ela disfarçava mal, humor que tentava negar, medo que estalava quando alguém chegava perto demais e uma confiança tão nova que às vezes parecia frágil demais para ser tocada pelo nome. Tudo nela exigia adaptação. Mas o vínculo, aberto entre eles, tornava essa adaptação menos invasão e mais convivência.

Rum'ea ergueu os olhos do datapad de repente.

— Você ficou quieto demais.

Tarla piscou.

— Estava pensando.

— Em quê?

Ele pensou no Tooka mental preto, com trança atrás da orelha direita e fitas azuis na pata e na ponta do rabo. Pensou na criatura imaginária correndo atrás dele pelo Templo, subindo em relatórios, rosnando para diplomacia ruim, mordendo o tornozelo de frases inúteis, sentando orgulhosamente sobre o manto dele como se fosse território conquistado.

Com muito cuidado, manteve a imagem fechada.

— Em como este relatório do Conselho está mal estruturado. — Disse ele.

Rum'ea olhou para o documento dele imediatamente, distraída pela possibilidade de julgar uma coisa ruim.

— Me mostra.

Tarla virou o datapad para ela.

A suspeita desapareceu do rosto dela, substituída por atenção feroz.

— … Isso aqui devia ser crime.

— Um parecer severo.

— Um parecer necessário.

Ela puxou a cadeira para mais perto sem perceber. Não perto demais para seu corpo se alarmar. Apenas perto o bastante para ler melhor. O ombro dela quase tocou a manga dele. O vínculo não estalou. Também não recuou. Apenas continuou aberto, levando de um lado para o outro a irritação dela com a estrutura, a diversão dele com a irritação, a satisfação dela ao encontrar uma frase especialmente inútil, o acordo silencioso dele quando ela tinha razão.

Tarla percebeu então que já não estava apenas permitindo que Rum'ea se aproximasse.

Ele a esperava.

Não com ansiedade, nem com apego do tipo que a Ordem temeria nomear, nas com uma espécie de reconhecimento sereno: se havia um intervalo, era provável que ela aparecesse; se havia silêncio, era provável que o vínculo se abrisse; se havia um relatório ruim, era provável que ela o insultasse com precisão; se havia chá, era provável que ela o chamasse de crime arquitetônico e bebesse um gole mesmo assim. E, quando ela não vinha, o espaço não ficava errado, exatamente, mas ficava menos preenchido.

Rum'ea apontou para o terceiro parágrafo.

— “Considera-se aconselhável a observação continuada das circunstâncias emergentes”. Isso quer dizer “não sabemos o que fazer”.

— Sim.

— Escreva isso.

— Ainda não.

— Covarde.

— Diplomata.

— A diferença é pequena.

Tarla sorriu.

Pelo vínculo, deixou passar apenas o amusemento. Não o Tooka. Nunca o Tooka.

Rum'ea sentiu o humor e estreitou os olhos.

Você está escondendo alguma coisa.

Sim.

Confessou rápido demais.

Porque não é relevante.

É sobre mim?

Sim.

Ela ficou imóvel, perigosamente interessada.

É ofensivo?

Não.

É ridículo?

Tarla demorou uma fração de segundo a mais.

Rum'ea arregalou os olhos.

— Eu sabia. É ridículo.

— Continue analisando o relatório.

— Tarla…

— Rum'ea.

Ela tentou cutucar o vínculo como quem enfia uma ferramenta fina numa fechadura. Tarla manteve a porta fechada com toda a compostura de um Mestre Jedi que já negociara cessar-fogo entre famílias aristocráticas e não seria derrotado por uma Padawan curiosa com talento crescente para invasão emocional acidental.

Um dia eu descubro.

Talvez.

E vou usar contra você.

Não duvido.

Ela sustentou o olhar dele por mais um instante, depois voltou ao relatório com a dignidade de quem adiava uma investigação, mas definitivamente não desistira dela.

Tarla retomou a leitura ao lado dela.

Lá fora, a chuva de Coruscant continuava riscando as janelas altas. Dentro da sala, Mestre e Padawan sentavam-se juntos em um intervalo que já não pertencia a nenhuma agenda, com o vínculo aberto como uma porta confortável entre duas mentes improváveis. A estática dela ainda existia. O lago dele ainda era profundo. Pensamentos passavam, batiam, afundavam, voltavam à superfície. Nem tudo era dito. Nem tudo precisava ser.

E, em algum lugar cuidadosamente guardado no fundo da mente de Tarla, um Tooka preto de trança e fitas azuis continuou seguindo-o pelos corredores, absolutamente satisfeito com a própria importância.

Ele jamais deixaria Rum'ea ver aquilo.

… Provavelmente.