O toque de recolher já havia passado fazia quase uma hora quando Tarla percebeu que Rum'ea não estava nos aposentos dela.

Não foi uma percepção brusca. Nada no vínculo entre os dois se rompeu, nem gritou, nem chamou por ele com a urgência feroz que a presença dela às vezes assumia quando medo ou raiva atravessavam a estática deixada por Kyrmora. Foi justamente o contrário que o fez erguer os olhos do relatório que revisava: o vínculo estava pequeno e turvo, encolhido sobre si mesmo como uma luz vista através de névoa pesada ou uma estrela escondida atrás de muitas camadas de atmosfera ruim. Rum'ea não estava em perigo imediato. Tarla soube disso antes mesmo de se levantar. Mas também não estava onde deveria.

Ele deixou o datapad sobre a mesa, apagou a projeção suspensa e caminhou até a porta sem pressa aparente.

O Templo Jedi àquela hora tinha uma quietude diferente da noite comum. Durante o dia, o silêncio era disciplina. Depois do recolher, era arquitetura. Os corredores longos pareciam mais altos, as janelas mais profundas, a cidade de Coruscant mais distante, como se todo o brilho da galáxia tivesse sido colocado do lado de fora e o Templo respirasse, enfim, sem precisar ser visto. Tarla atravessou as passagens superiores seguindo não os passos dela, mas a direção tênue do vínculo: um fio apagado, irregular, às vezes coberto pela estática antiga que ainda se agarrava à Força em Rum'ea, às vezes claro o bastante para lembrar o lago mental onde ela aprendera a meditar pela primeira vez.

Ele parou diante da porta dos aposentos dela apenas por confirmação.

Vazio.

Não entrou – porque não precisava, e porque não tinha permissão. O quarto guardava sua ordem particular: a cama intacta demais para alguém ter deitado, algumas vestes dobradas de forma funcional mas definitivamente não estética, datapads empilhados perto demais da borda da mesa, o cabo de vassoura de treino agora pintado de azul — o que, por si só, Tarla considerava um triunfo silencioso da coerência estética sobre a tragédia teatral do Lado Negro e uma dor de cabeça a menos com o Conselho. A ausência dela ali não era surpresa, afinal, Rum'ea ainda tratava o sono como algo que se aceitava quando o corpo vencia, e não como uma parte legítima do treinamento.

Tarla fechou os olhos por um instante, procurando.

O vínculo apontava para baixo.

Para os arquivos.

Quando chegou à entrada principal, as portas estavam seladas para acesso regular. As luzes internas haviam sido reduzidas, e os painéis de registro indicavam repouso administrativo, o que significava que nenhum Padawan, Cavaleiro ou estudioso deveria circular entre as salas sem autorização específica. Tarla aproximou a mão do painel de identificação, e sensor reconheceu sua presença, sua patente e, talvez com alguma resignação eletrônica, a longa lista de permissões que acompanhavam um Mestre da Ordem com décadas de trabalho diplomático, consulta arquivística, e histórico suficiente de exceções educadas.

As portas se abriram como um sussurro.

O ar dos arquivos o recebeu frio, seco e cheio daquele cheiro de metal limpo, poeira antiga e conhecimento guardado com zelo excessivo. Projeções de segurança flutuavam apagadas em certos corredores, e as fileiras de terminais adormecidos lançavam pequenas luzes azuis sobre o piso. Tarla caminhou entre as estantes e salas laterais sem acender iluminação plena, guiado apenas pelos sensores de passagem e pela presença distante de sua Padawan. Não precisou procurar muito para encontrá-la em uma das salas de consulta linguística.

Rum'ea estava cercada de materiais.

Não era força de expressão. A mesa longa parecia ter sido tomada pelo mesmo fenômeno meteorológico de sempre: três datapads abertos, dois hololivros suspensos em projeções baixas, um mapa comparativo de famílias linguísticas da Orla Exterior, listas de fonemas, registros de dialetos comerciais, uma transcrição parcial em Basic, anotações cruzadas em linhas apressadas, três tomos em silabário durese por motivos desconhecidos, e uma xícara esquecida com chá que parecia ter sido abandonada há muito tempo. No centro daquilo tudo, Rum'ea dormia sobre a mesa.

A cabeça estava apoiada sobre um dos braços, o rosto virado de lado, os cabelos negros espalhados sobre documentos e tela como tinta derramada. A trança de Padawan, atrás da orelha direita, caíra para frente, e o fio azul no final repousava junto à mão dela. A respiração era lenta, mas não inteiramente tranquila — mesmo dormindo, Rum'ea parecia pronta para voltar ao mundo depressa demais, como se o corpo não confiasse no direito de se apagar por completo. Uma de suas mãos ainda tocava o datapad principal, os dedos frouxos perto do canto da tela, como se tivesse tentado continuar trabalhando mesmo enquanto o sono a puxava.

Tarla não se aproximou imediatamente.

Ficou à entrada da sala por alguns segundos, apenas observando. O vínculo, de perto, explicava o estado pequeno e turvo que ele sentira: era apenas exaustão. Exaustão densa, teimosa, acumulada sob a decisão muito característica dela de continuar só mais um pouco, só mais um parágrafo, só mais uma referência, só mais uma solicitação que talvez abrisse uma porta útil. Ele sentiu uma ponta de severidade consigo mesmo. Deveria ter antecipado aquilo. Depois de descobrir os arquivos, Rum'ea passara a tratá-los como tratava carcaças de nave em Kyrmora: lugares perigosos, ricos em peças, onde uma pessoa pequena o bastante para entrar em vãos estreitos e teimosa o bastante para sangrar as mãos podia encontrar algo de valor se não desistisse cedo demais.

Ele caminhou devagar até a mesa.

Rum'ea não acordou. Sequer se moveu.

Tarla inclinou-se sobre o datapad sem tocar nela. A tela ainda estava aberta em um formulário parcialmente preenchido. O cabeçalho identificava uma solicitação de acesso ampliado aos arquivos linguísticos internos do Templo, incluindo línguas comerciais periféricas, dialetos setoriais raros, registros de mediações bilíngues, glossários históricos e arquivos comparativos normalmente restritos a Cavaleiros em missões diplomáticas ou pesquisadores autorizados.

Ele leu o texto que ela havia escrito.

A solicitação não era longa. Rum'ea ainda estava aprendendo a vestir necessidade com formalidade suficiente para que instituições se sentissem respeitadas em vez de desafiadas, mas a precisão já estava ali, cada vez mais evidente. Ela argumentava que sua sensibilidade espontânea para equivalências linguísticas, observada em missões recente, poderia ser aprimorada por exposição controlada a registros comparativos; citava o impasse de tradução identificado em Alderaan sem exagerar a própria importância; sugeria que um estudo amplo permitiria distinguir intuição da Força, associação semântica e risco de interferência cultural; e concluía que o acesso solicitado serviria não apenas a seu treinamento individual, mas a futuras missões de mediação sob supervisão de Mestre Kesyk.

Tarla leu a última linha duas vezes.

Sob supervisão de Mestre Kesyk.

Rum'ea ainda não pedia portas para si como quem acreditava inteiramente merecê-las. Pedia-as ancorando-se nele, no vínculo formal, na autoridade do Mestre que a acolhera. Havia confiança nisso, mas também havia também cautela. Talvez as duas coisas nunca estivessem muito separadas nela, pensou.

Ele pegou uma cadeira e sentou-se ao lado da mesa, não perto demais de Rum'ea, mesmo com ela adormecida – sabia que ela mantinha a adaga escondida na faixa das vestes, e não tinha nenhuma curiosidade de descobrir o quão rápida ela seria com a arma ao acordar assustada. Por alguns instantes, ficou apenas revisando o texto em silêncio. Corrigiu uma duplicidade de termo, ajustou uma saudação muito rígida, substituiu uma formulação que poderia soar defensiva por outra mais direta e menos vulnerável a objeções administrativas. Depois abriu o campo de anexos.

Permissão de supervisão.

Tarla posicionou o dedo sobre o selo de autorização e anexou sua própria permissão ao pedido. O sistema solicitou confirmação adicional, como se também soubesse que Padawans recém-chegadas não costumavam pedir acesso a arquivos linguísticos amplos depois do recolher, dormindo sobre a mesa no meio do formulário. Tarla confirmou. O selo de Mestre apareceu abaixo da solicitação de Rum'ea — discreto, formal, suficiente.

Ele não enviou por ela.

Deixou o pedido salvo, completo, pronto para que Rum'ea o revisasse acordada e decidisse, com os próprios dedos, submetê-lo.

Só então voltou a olhar para ela.

A posição em que dormia parecia desconfortável. O braço sob o rosto começaria a doer, se já não estivesse. O pescoço, também. Havia uma pequena linha vermelha na pele pálida onde a borda da manga pressionava a bochecha. Tarla considerou acordá-la, conduzi-la de volta aos aposentos, repreendê-la com a gentileza firme que usava quando precisava lembrar que um corpo não era apenas recipiente de teimosia. Mas a exaustão nela era profunda demais, e o caminho de volta, embora curto para ele, talvez fosse longo demais para alguém que finalmente havia cedido ao sono.

Além disso… A adaga ainda estava ali.

Então não a tocou.

Desprendeu o próprio manto dos ombros. Era pesado o suficiente para aquecer, mas macio, gasto pelo uso, com o cheiro discreto dele: tecido limpo, ar frio, chá resinado do norte de Keshtara, uma sombra de madeira antiga. Rum'ea talvez reclamasse disso ao acordar. Provavelmente diria que o manto cheirava a biblioteca que aprendeu boas maneiras. Ou a muro desapontado com autorização de acesso. A possibilidade fez o canto da boca dele se mover.

Tarla ergueu o manto com cuidado e o colocou sobre os ombros dela devagar, sem encostar mais do que o tecido precisava encostar. O peso repousou primeiro sobre as costas, depois desceu pelas laterais dos braços, cobrindo parte das vestes do Templo e a curva pequena do corpo inclinado sobre a mesa. Rum'ea se mexeu apenas um pouco. A testa franziu, a mão próxima ao datapad se fechou por reflexo, e pelo vínculo veio uma ondulação turva, quase sem palavras, apenas reconhecimento adormecido de presença.

Tarla?

Não era uma pergunta consciente. Era a mente dela, meio submersa, tocando o nome como quem verifica se uma porta ainda está onde deveria.

Ele respondeu pelo vínculo, baixo e simples.

Durma.

Rum'ea não acordou.

O aperto da mão dela relaxou. A respiração se aprofundou uma fração, e o vínculo, antes pequeno e turvo, tornou-se apenas pequeno. Quieto. Guardado.

Tarla permaneceu mais um momento ao lado da mesa, olhando os materiais ao redor dela: línguas antigas, arquivos comerciais, glossários, termos sublinhados, tentativas de transformar um dom instintivo de sobrevivência em estudo consciente. Em Kyrmora, a Força lhe sussurrara traduções para que ela entendesse compradores, atravessadores, contrabandistas, ameaças. No Templo, Rum'ea tentava dar método ao sussurro. Tentava transformar ruído em ferramenta. Sobrevivência em disciplina. Estática em escuta.

Ele apagou as projeções que não precisavam ficar abertas, reduziu o brilho dos datapads para não ferir os olhos dela ao acordar e recolocou uma pilha de registros um pouco mais longe da borda da mesa para que não caísse. Não organizou demais. Rum'ea saberia, ao despertar, se alguém tivesse mexido no mapa mental do caos dela, e provavelmente o acusaria de sabotagem arquivística.

Por fim, caminhou até a porta e, antes de sair, olhou uma última vez.

A Padawan tardia que os corredores comentavam em sussurros dormia sob o manto dele, cercada por documentos linguísticos, com um pedido de acesso quase pronto e uma autorização de Mestre anexada sem alarde. Não havia cerimônia naquele gesto. Nenhum Conselho para testemunhar. Nenhum elogio. Nenhuma conversa. Apenas uma permissão deixada onde ela pudesse encontrá-la e um manto sobre os ombros de alguém que, de outro modo, continuaria tentando merecer calor até apagar de cansaço.

Tarla saiu dos arquivos em silêncio.

As portas se fecharam atrás dele com suavidade, e o Templo voltou à sua noite profunda.

No caminho de volta, o vínculo permaneceu pequeno, quieto e menos turvo.

O bastante para que ele soubesse onde ela estava.

O bastante para que ela, dormindo, soubesse também que ele ainda estava do outro lado.