Rum'ea sentou-se à mesa de Tarla no refeitório como se estivesse trazendo consigo uma pequena tempestade elétrica.

Ele percebeu antes de erguer os olhos da tigela. Não pelo som dos passos dela, embora já reconhecesse o ritmo de suas botas: rápidas demais, contidas demais, com aquele leve ajuste de peso que vinha de alguém sempre pronto para mudar de direção. Nem pelo modo como algumas conversas ao redor diminuíram de volume por meio segundo, porque a Padawan tardia de Mestre Kesyk ainda provocava curiosidade nos primeiros círculos do Templo, especialmente quando atravessava um espaço comum com os cabelos negros soltos, a trança cheia de adereços atrás da orelha direita e a expressão de quem poderia morder alguém que se aproximasse demais. Tarla percebeu pelo vínculo.

Havia ondulações estranhas nele.

Não medo – ou, pelo menos, não exatamente. Medo nela tinha uma textura mais aguda, metálica, cheia de ângulos e rotas de fuga. Aquilo era outro tipo de perturbação: a estática de Kyrmora estalava em pequenas faíscas ao redor da presença dela, como se uma criatura selvagem tivesse encontrado um objeto desconhecido no caminho, cheirado, cutucado com a pata, recuado, voltado a olhar, e agora estivesse furiosa porque o objeto continuava não tentando atacá-la.

Rum'ea colocou a bandeja diante de si e sentou com certa força.

Não começou a comer.

Esse detalhe, por si só, já era grave. Rum'ea podia esquecer sono, protocolos, horários e, ocasionalmente, o fato de que corredores continham pessoas sólidas, mas comida ainda era uma coisa que seu corpo tratava com uma atenção antiga, quase ritualística. Se havia comida diante dela e ela não a tocava, algo ocupava espaço demais na mente.

Tarla pousou a colher.

— Algum problema?

Ela olhou para o refeitório.

Para os younglings duas mesas atrás.

Para um grupo de Cavaleiros conversando perto das janelas.

Para uma Mestra ithoriana servindo chá.

Para o prato dela.

Depois para Tarla.

A pergunta não veio em voz alta.

O que você sabe sobre o Cavaleiro Jinn?

Tarla não deixou a surpresa aparecer no rosto. Pelo vínculo, porém, permitiu que uma curiosidade branda tocasse a superfície, apenas o bastante para não parecer que a pergunta era proibida.

Qui-Gon Jinn?

Quantos Cavaleiros Jinn existem?

Que eu saiba, apenas um.

Então não me faça perguntas idiotas.

Tarla recostou-se levemente, olhando para ela com a calma de quem considerava não apenas a pergunta, mas a forma dela. Rum'ea segurava o garfo com força demais, sem perceber. A comida permanecia intocada. A estática ao redor dela estalou outra vez, e, por baixo, veio uma sequência fragmentada: corredor, datapad caindo, uma mão estendida e solta rápido, olhos claros, cabelo comprido, uma risada baixa, uma mesa nos arquivos, silêncio compartilhado, plantas estranhas.

Sei que é um Cavaleiro competente, respondeu Tarla. Foi Padawan de Mestre Dookan. Tem uma relação incomum com a Força, muito intuitiva, às vezes mais guiada por escuta imediata do que por interpretação institucional. É respeitado, embora alguns Mestres o considerem... pouco previsível. Arruma problemas com o Conselho com tanta frequência que, agora, os Mestres apenas vêem que é ele, suspiram, e perguntam o que houve “desta vez”.

Rum'ea estreitou os olhos.

Pouco previsível bom ou pouco previsível “vai trazer um animal sagrado que morde pais diplomáticos”?

Tarla quase sorriu.

Depende de quem você pergunta. Mestre Dookan provavelmente escolheria palavras mais severas. Eu diria que Qui-Gon presta atenção em portas pequenas.

Ela olhou para ele como se aquilo fosse uma resposta irritantemente inútil.

Ótimo. Você também fala como ele agora?

Talvez ele fale como a Força fala com ele.

Pare de falar como sábio espiritual.

Tarla aceitou a crítica com serenidade, mas a observou com mais cuidado. Rum'ea ainda não tocara a comida. A ondulação no vínculo aumentou quando ela baixou os olhos para a própria bandeja.

O que ele quer comigo? perguntou ela.

A pergunta veio mais baixa. Não era acusatória como poderia ter sido. Havia suspeita, sim, a velha suspeita que nela funcionava quase como órgão vital, mas havia também confusão. Confusão genuína, desconfortável, quase envergonhada por existir. E, antes que Tarla formulasse resposta, as imagens vieram.

Qui-Gon caminhando ao lado dela nos corredores, sem tentar reduzir demais o passo, mas ajustando-o de modo natural. Qui-Gon sentado do outro lado de uma mesa nos arquivos, em silêncio verdadeiro, lendo sobre criaturas estranhas enquanto Rum'ea estudava equivalências linguísticas, sem interrompê-la para preencher o espaço. Qui-Gon empurrando um datapad na direção dela com uma anotação sobre anfíbios de um mundo pantanoso cujas larvas brilhavam quando pressentiam tempestades eletromagnéticas. Qui-Gon mostrando a ela, com uma satisfação discreta e quase infantil, uma pequena coleção de plantas esquisitas em recipientes transparentes: uma trepadeira azulada de folhas que se fechavam quando alguém mentia em um raio de 200 metros, um musgo dourado de um mundo de baixa gravidade que parecia flutuar dentro do próprio vaso, uma raiz torcida que se movia lentamente na direção de música, e uma planta pálida de pétalas translúcidas vinda de um planeta tão escuro que Rum'ea perguntara, com toda seriedade, se aquilo era vegetal ou assombração.

Na lembrança, Qui-Gon não ria dela. Ria com ela, ou, quando ela não ria, deixava que o humor existisse sozinho até que ela decidisse se o tocaria.

Outra imagem: Qui-Gon perguntando se poderia sentar-se ali, apontando para o lugar à frente dela nos arquivos. Rum'ea dizendo que não pretendia conversar. Qui-Gon respondendo que também não pretendia interromper. E então, de fato, não interrompendo por quase uma hora inteira.

Outra: ele comentando que uma criatura anfíbia de olhos laterais parecia “injustamente sábia”. Rum'ea respondendo que parecia um senador molhado. Qui-Gon ficando em silêncio por dois segundos antes de rir de verdade.

Outra: ele passando por ela no corredor e simplesmente erguendo dois dedos em cumprimento, sem tentar tocá-la, sem perguntar por que ela não dormira, sem usar gentileza como gancho.

Tarla recebeu tudo.

E, no meio das imagens, recebeu também a pergunta que Rum'ea ainda não sabia fazer direito: por que alguém continuaria voltando se não quer tomar nada?

A resposta surgiu em Tarla com uma clareza tão simples que por pouco ele a disse em voz alta. Conteve-se, porque Rum'ea havia escolhido o vínculo por uma razão. Além disso, havia coisas que, se ditas alto demais, poderiam assustá-la para longe.

Isso parece amizade, disse ele, com divertimento gentil.

Rum'ea travou.

O corpo dela realmente parou — a mão no garfo, o ombro, a respiração, até a estática pareceu falhar por um instante, como se Kyrmora inteira tivesse tropeçado dentro dela. Os olhos grandes permaneceram fixos na bandeja, mas Tarla sentiu o impacto da palavra atravessá-la com a força absurda de algo muito mais perigoso do que era.

Amizade.

Não aliança de sobrevivência. Não troca. Não dívida. Não utilidade temporária. Não alguém sendo gentil para pedir algo depois. Não alguém tolerando sua presença enquanto ela fornecia valor suficiente para justificar o espaço ocupado. Amizade. Uma categoria limpa demais, simples demais, quase suspeita por não vir imediatamente acompanhada de preço.

Não, ela pensou primeiro, reflexiva.

Tarla não respondeu.

Não é isso.

Ele ainda não respondeu.

Ele é Cavaleiro.

Sim.

Ele é homem.

Tudo indica que sim.

Ele é estranho.

Nisso também concordo.

Rum'ea ergueu os olhos para ele, indignada pela concordância parcial.

Ele só… Aparece.

Parece ser um hábito dele.

E senta.

De fato.

E mostra plantas.

Uma escolha social incomum, mas não alarmante.

Ela abriu a boca, fechou, olhou para a comida e espetou um pedaço qualquer sem levar à boca.

Pessoas não mostram plantas sem motivo.

Qui-Gon talvez mostre.

Isso não é resposta.

É uma possibilidade.

E se ele quiser alguma coisa?

Tarla inclinou ligeiramente a cabeça, mantendo o rosto tranquilo. Ao redor deles, o refeitório seguia funcionando: bandejas, talheres, vozes baixas, risos de younglings, passos de Cavaleiros. Nenhum deles sabia que, naquela mesa, Rum'ea enfrentava a palavra amizade como se fosse uma lâmina nova.

Então você pode observar o que ele pede, respondeu Tarla. Até agora, pelo que me mostrou, ele pediu companhia, conversa quando houve conversa, silêncio quando houve silêncio, e talvez uma opinião sua sobre plantas absurdas.

A mente de Rum'ea ofereceu imediatamente a imagem da planta pálida e translúcida.

Aquilo parecia uma assombração.

Talvez ele valorizasse sua avaliação taxonômica.

Eu chamei a planta de “fantasma de vaso”.

Parece uma definição adequada.

Ele riu.

Talvez porque seja precisamente o tipo de opinião que ele não encontra com frequência.

Ela encarou Tarla.

Você está se divertindo.

Um pouco.

Isso é sério.

O divertimento dele recolheu-se, não desaparecendo completamente, mas cedendo espaço à atenção.

Eu sei.

Rum'ea enfim levou a comida à boca, mastigou sem perceber o gosto e ficou olhando para um ponto qualquer entre a bandeja e o centro da galáxia.

… Eu não sei o que fazer com isso, admitiu.

A frase veio tão baixa no vínculo que quase não tinha forma.

Tarla deixou que o silêncio a sustentasse por alguns segundos antes de responder.

Talvez nada, por enquanto.

Ela franziu o cenho.

Nada é uma resposta preguiçosa.

Às vezes é uma resposta paciente.

Não piore.

Você não precisa decidir imediatamente o que ele quer, o que você deve, se é seguro, se é útil ou como isso termina. Pode apenas notar: Qui-Gon Jinn tem se aproximado de você de modo respeitoso, consistente e sem exigir pagamento emocional evidente. Isso pode ser amizade. Amizade não precisa ser resolvida no mesmo dia em que é percebida.

Rum'ea mexeu a comida com o garfo.

E se eu fizer errado?

Amizade costuma sobreviver a algum grau de estranheza.

Você diz isso porque nunca me viu conversando com plantas porque ele queria me mostrar como “as folhas abrem para pessoas mais incisivas”.

Vi você ameaçar uma queda para o Lado Negro por uma aula e um cabo de vassoura.

Isso era diferente.

Naturalmente.

Ela o olhou feio, mas a rigidez no vínculo começou a se desfazer aos poucos. Não relaxamento completo, porque mesmo com um vínculo conectando seus pensamentos, Rum’ea não relaxava comoletamente, mas a estática deixou de estalar tão alto e voltou a ser aquele ruído de fundo que Tarla já reconhecia como parte dela, não inimigo.

Ele sabe sobre mim? perguntou ela depois de um tempo.

Depende do que quer dizer.

Sobre Kyrmora. Sobre... Coisas.

Não sei. Mas, se sabe, não foi por mim.

Ela ergueu os olhos depressa.

Você não contou?

Não.

Nem para avisar?

Qui-Gon é perceptivo. Avisá-lo sem sua permissão sobre feridas que pertencem a você seria uma forma de tomá-las, e creio que isso se enquadre na promessa que lhe fiz.

A resposta atingiu nela um lugar quieto. Rum'ea baixou o olhar quase imediatamente.

Ele percebe algumas coisas.

Imagino que sim.

Mas não pergunta.

Isso também pode ser respeito.

Ela ficou em silêncio.

Pelo vínculo, Tarla sentiu outra memória recente surgir, menos imagem do que sensação: Qui-Gon se levantando para pegar um volume em uma prateleira alta dos arquivos e avisando, casualmente, que passaria atrás dela antes de passar. Não em tom grave como se estivesse lidando com vidro quebrado. Apenas aviso simples, integrado ao movimento. Rum'ea não respondeu na hora, mas o corpo não travou como teria travado semanas antes. Isso a deixara perturbada depois.

Ele é amigo de muita gente? perguntou ela.

Qui-Gon é conhecido por formar vínculos incomuns com pessoas, criaturas, causas e provavelmente plantas que outros Jedi deixariam passar.

Isso não ajuda a saber se sou uma planta esquisita para ele.

Tarla conteve um sorriso.

Não creio que ele a veja como planta.

Você não negou a parte do “esquisita”.

Não. Possivelmente vê. Mas com apreço.

Rum'ea pareceu considerar se “esquisita com apreço” era uma ofensa. Decidiu, aparentemente, que não tinha energia para processar mais uma categoria social.

— Odeio isso. — Disse em voz alta, baixo o bastante para a mesa apenas.

— Amizade? — Perguntou Tarla, também em voz baixa.

— Não fala a palavra.

— Certo.

— Odeio... Isso.

— Compreensível.

Ela apontou o garfo na direção dele.

— Pare de usar voz de Mestre paciente.

— Esta é minha voz normal.

— Sua voz normal é de Mestre paciente.

— Uma limitação persistente minha.

Rum'ea quase sorriu, mas o quase se perdeu no desconforto. Ela comeu mais um pouco, agora de verdade, embora ainda distraída. Tarla voltou à própria refeição sem pressionar. O vínculo permaneceu aberto, quieto, permitindo que as ondulações dela se movessem sem serem perseguidas.

Depois de alguns minutos, Rum'ea perguntou:

E se ele parar?

Tarla pousou a colher devagar.

Parar de quê?

De aparecer.

A pergunta vinha com uma vergonha tão funda que ela tentou escondê-la imediatamente atrás de irritação. Não conseguiu por completo. Tarla viu a forma real: não posse, não exigência, apenas o medo cru de começar a contar com uma presença e descobrir que ela fora temporária, circunstancial, tolerante enquanto novidade. De novo. Tarla decidiu não perguntar sobre a reincidência.

Então doerá, respondeu ele com honestidade.

Rum’ea ficou rígida.

Péssima resposta.

Sim.

Você deveria mentir melhor.

Não tenho intenção de mentir para você. Pessoas mudam de missão, de rotina, de atenção. Amizades também respiram. Algumas se aproximam, afastam, retornam. Outras não. O risco existe.

Então por que alguém faz isso?

Porque algumas presenças tornam o mundo menos estreito enquanto estão conosco.

Rum'ea desviou o rosto.

Ao redor, uma criança riu alto demais e foi gentilmente advertida por uma instrutora. Uma bandeja caiu em alguma mesa distante, produzindo um pequeno alvoroço que logo se dissolveu. A vida comum do Templo continuava, indiferente ao fato de Rum'ea estar tentando encaixar dentro de si a ideia de que alguém poderia acompanhá-la aos arquivos sem que aquilo fosse contrato, armadilha ou dívida.

Você tem amigos? ela perguntou de repente.

Tarla pareceu considerar.

Alguns.

Sério?

Não sou um Wampa de caverna.

Às vezes parece.

Rum’ea…

Tudo bem. Eu só nunca vi você com ninguém que fosse facilmente identificável como amigo.

O envelhecimento lento Keshtari torna a situação um pouco mais complexa.

Ah. Entendi. Você só pode ter amigos velhos. Como você.

Rum’ea.

Oppo?

Embora tenha sido meu Mestre... Sim, de certo modo.

Yoda?

Quando ele não está sendo enigmático por esporte.

Ela soltou um som breve pelo nariz.

Dookan?

Dookan é... Complexo.

Príncipe vilão.

Não chame assim em voz alta.

Ele ouviu?

Não.

Ainda.

Rum'ea.

Ela baixou a cabeça sobre o prato, escondendo o quase-riso atrás de uma mordida.

A estática acalmou mais um pouco.

Tarla observou isso com cuidado e não comentou. Havia vitórias que não deveriam ser nomeadas cedo demais. Rum'ea havia vindo até ele com o vínculo cheio de estalos porque Qui-Gon Jinn lhe oferecera algo tão simples que se tornara incompreensível. Agora, ao menos, a palavra amizade já não parecia uma ameaça imediata. Continuava enorme. Continuava suspeita. Continuava parada no meio da mente dela como uma criatura desconhecida.

Mas não havia fugido da sala.

— Então… — Disse ela, depois de um tempo, em voz baixa — Se ele me mostrar outra planta esquisita, eu faço o quê?

Tarla ergueu os olhos.

— Diga o que pensa da planta.

— Só isso?

— Só isso.

— E se o que eu penso for que ela parece um pulmão com folhas?

— Suspeito que Qui-Gon ficará encantado.

Rum'ea processou isso por alguns segundos.

— Ele é estranho.

— Sim.

— Você também.

— Sim.

— Talvez todos os amigos sejam algum tipo de problema com nome mais aceitável.

Tarla permitiu-se sorrir.

— Uma definição pouco ortodoxa, mas não completamente inútil.

Ela pareceu satisfeita com aquilo. Não feliz exatamente — mais como alguém que encontrara uma gaveta provisória onde guardar uma peça cujo mecanismo ainda não entendia.

Pelo vínculo, bem baixo, ela perguntou uma última coisa:

Se eu não souber fazer isso... Você me diz?

Tarla olhou para ela com a mesma paciência que usava diante de pedras que não se moviam, tratados que mentiam e Padawans que fingiam não se importar com o que importava.

Eu ajudo você a perceber. Mas não farei por você.

Rum'ea assentiu quase imperceptivelmente.

— Justo. — Murmurou.

E então, enfim, começou a comer com apetite real.

A tempestade no vínculo não desapareceu. Mas se transformou em algo mais leve, como chuva distante sobre um lago que não precisava decidir ainda se seria medo ou curiosidade. Tarla voltou à própria tigela, e, do outro lado da mesa, Rum'ea continuou pensando em Qui-Gon Jinn, em plantas impossíveis, em silêncio compartilhado nos arquivos e na palavra amizade, ainda desconfortável, ainda nova, mas um pouco menos parecida com uma armadilha.

Apenas um pouco.