O primeiro treino de Rum'ea começou quando Coruscant ainda parecia só sombra e vidro.

O céu além das arcadas altas do Templo ainda não tinha decidido se continuaria noite ou se cederia, finalmente, ao azul pálido que antecedia o nascer do sol. As luzes da cidade, infinitas e distantes, pulsavam abaixo como um coração mecânico, artificial, e o ar daquela hora tinha um silêncio raro, do tipo que só existia antes de os corredores encherem-se de passos, antes de os younglings serem conduzidos às primeiras aulas, antes de os Cavaleiros e Mestres se tornarem novamente parte do organismo vasto e estranhamente disciplinado do Templo.

Rum'ea chegou a uma das plataformas de treino abertas para o leste com a sensação pouco confortável de estar adiantada demais mesmo para um lugar que parecia nunca dormir. Ainda assim, Tarla já a esperava.

Ele estava junto à borda da plataforma, olhando para a cidade e para o céu ainda escuro, como se tivesse sido colocado ali antes mesmo da madrugada existir. Usava vestes do Templo em tons terrosos e claros, ajustadas por faixas e couro trançado na cintura, e havia nele algo que fazia a quietude parecer menos ausência de movimento e mais uma escolha antiga. Seu cabelo longo caía solto até abaixo dos ombros com a parte superior amarrada discretamente atrás da cabeça para manter os fios levemente ondulados longe do rosto, a barba curta apanhando a luz fria das lanternas do corredor e iluminando gentilmente os fios prateados. Alto demais, como sempre. Imóvel demais, como sempre. E com aquela presença que, para Rum'ea, continuava parecendo uma contradição: ele não fazia esforço para se impor, mas o espaço ao redor dele reorganizava-se mesmo assim, como se até mesmo o ar soubesse onde terminava o resto do mundo e onde começava Tarla.

Rum'ea diminuiu o passo ao vê-lo.

Ela vestia, pela primeira vez, roupas do Templo.

A túnica era de um tom claro, entre areia e marfim envelhecido, com textura discreta no tecido e faixas cruzando o peito de maneira correta demais, limpa demais, ordeira demais. Havia, porém, detalhes azuis nas bordas internas, finos e bem colocados, como pequenos caminhos de cor acompanhando o decote cruzado, as fitas que prendiam os punhos ajustados e certos remates do traje. Era o bastante para serem percebidos sem realmente gritarem por atenção. A faixa da cintura e o cinto, porém, marcavam-lhe o corpo de um jeito que Rum'ea não previra e definitivamente não apreciava. Em vez de fazê-la parecer com os outros jovens do Templo que ela vira atravessando os corredores nos últimos dias, com suas silhuetas mais retas, mais neutras, mais facilmente dissolvidas na uniformidade serena da Ordem, as vestes nela pareciam fazer justamente o contrário: destacavam a curva dos quadris, a plenitude do busto, a cintura mais estreita embora ainda cheia, o modo como o tecido caía e se ajustava sobre uma forma que ela jamais conseguira esconder de verdade, nem mesmo sob capas, cintos ou panos utilitários de Kyrmora.

Por isso, enquanto se aproximava, puxava discretamente as vestes para baixo. Depois para os lados. Depois ajustava os ombros. Depois tentava soltar um pouco a faixa do peito, como se algum gesto insistente pudesse convencer o tecido a moldar-se de forma diferente.

Não funcionava.

Nada funcionava. Ela sentia o desconforto como pequenas ondas de calor irritado sob a pele, uma consciência física demais de si mesma, e isso bastava para deixá-la tensa antes mesmo do treino começar.

Tarla percebeu.

Claro que percebeu.

Seus olhos verdes, com aquela leve queda melancólica nos cantos que poderia enganar qualquer um que não soubesse o que esperar, desceram sobre ela com atenção calma, não invasiva, mas nítida o bastante para que Rum'ea imediatamente largasse a borda da túnica, como se tivesse sido flagrada em algo pior do que insegurança. Por um segundo, ela pensou que ele fosse dizer alguma coisa sobre o corte das roupas, sobre padronização, sobre uniformidade, sobre a cor, sobre a discrição necessária aos Jedi. Mas antes que qualquer palavra viesse — em voz alta ou pelo vínculo — a mente dela falhou em manter-se inteiramente fechada.

A imagem escapou.

Foi rápida, mas clara o bastante para que ele a recebesse: Rum'ea durante a madrugada, sentada no quarto silencioso junto à mesa com as lanternas baixas para não chamar atenção por baixo da porta; um pequeno frasco de pigmento azul aberto ao lado de um copo de água; um pincel finíssimo entre os dedos; a concentração cuidadosa com que ela pintara delicadamente as bordas das vestes, quase escondendo a mão quando um ruído do corredor a fizera sobressaltar e o coração pulsar com tanta força que abafava os sons do mundo; o jeito como examinara o resultado com o cenho franzido, não por vaidade, mas por medo de que aqueles pequenos detalhes fossem vistos como insubordinação, como rebeldia, como desafio; e, por trás de tudo, o pensamento cru e desprotegido que escapou junto com a imagem: o medo de sumir dentro de algo neutro demais, de desaparecer em tecidos que não traziam sequer uma lembrança visível de si.

Rum'ea sentiu o próprio erro no instante em que o cometeu, e os olhos dela se arregalaram um pouco.

Não olha isso, pensou quase que por reflexo, mas já tarde demais.

Tarla não comentou a invasão acidental. Não lhe ofereceu piedade, nem surpresa, nem aquela bondade cuidadosa que às vezes parecia outra forma de exposição. Ele apenas se aproximou um passo, parou diante dela e ergueu as mãos devagar.

— Posso? — Perguntou, indicando o cinto.

Rum'ea hesitou por um segundo, ainda sem jeito por dentro por causa da imagem que lhe escapara e com o corpo reagindo primeiro à ideia de ele a tocar.

Respirou fundo uma vez.

Duas.

— Pode.

Tarla tocou apenas no cinto, e nada mais. Ajustou a faixa de couro na cintura dela com movimentos breves e precisos, não para escondê-la nem para apertá-la mais, mas para fazer o tecido cair de maneira mais estável, sem que Rum’ea precisasse ficar puxando as camadas o tempo todo. O gesto foi tão simples que, por um instante, ela ficou irritada com a própria tensão anterior. Quando Tarla terminou, ele recuou imediatamente.

Ela baixou os olhos para as vestes. Continuavam sendo as mesmas roupas. Continuavam acentuando o que acentuavam mesmo que não devessem, se ela tivesse o corpo certo. Mas assentavam melhor: menos como algo emprestado à força ou como um disfarce ruim.

Você não vai me repreender pelo azul? perguntou ela pelo vínculo, desconfiada.

Tarla encontrou os olhos dela, e a resposta veio pelo mesmo caminho, tranquila como água que não precisa correr depressa.

Não.

Rum'ea sentiu que havia mais, então esperou.

Contanto que não seja vaidade, você não precisa se anular para caber nas roupas do Templo.

Ela piscou.

A frase ficou ecoando por um instante longo demais para ser só entendimento. Não se anular. O Templo, até então, parecia feito justamente de coisas que pediam anulação: passos mais leves, voz mais baixa, reações mais controladas, roupa mais neutra, presença mais lisa. Não podia ameaçar ninguém. Não podia puxar a adaga. Não podia morder alguém que se aproximasse demais. Não que a Ordem exigisse explicitamente que ela desaparecesse, mas tudo nela ainda associava disciplina à invisibilidade, e invisibilidade à segurança dura de quem aprende cedo a não oferecer superfície demais ao mundo. Ouvir dele que aquilo não era necessário — não daquela forma, não ali — produziu dentro dela uma alegria tão súbita que quase doeu.

Tarla, sem qualquer mudança drástica no rosto, completou:

Além disso, acho os detalhes azuis esteticamente agradáveis.

Rum'ea arregalou os olhos.

Esteticamente agradáveis?

Sim.

Isso foi a coisa mais elegante que alguém já disse sobre uma desobediência minha.

Oh. Foi desobediência?

Ela quase sorriu.

Talvez.

Então foi uma desobediência esteticamente agradável.

O sorriso veio de verdade desta vez: pequeno, involuntário, rápido demais para que ela pudesse contê-lo. Foi tão raro e tão genuíno que pareceu transformar-lhe o rosto por um instante inteiro. Tarla viu, mas, misericordiosamente, não comentou.

Em vez disso, ele indicou o centro da plataforma de treino, onde esteiras simples haviam sido deixadas sobre o piso liso de pedra clara.

— Sente-se. — Disse Tarla em voz alta. — Quero ver primeiro se você consegue meditar.

A alegria recém-nascida em Rum'ea sofreu uma queda imediata e visível.

— Isso é crueldade antes do sol nascer.

— É observação pedagógica.

— Parece muito com crueldade.

— Muitas coisas úteis podem parecer.

Ela lançou a ele um olhar enviesado, depois foi até a esteira e sentou-se no chão de pernas cruzadas, ainda um pouco desconfiada do modo como as novas roupas se comportavam quando ela se movia. Tarla sentou ao lado dela, não em frente, o que Rum'ea já começava a reconhecer como um dos hábitos gentis dele: não colocá-la sob um olhar direto quando não era necessário. O céu à frente começava a clarear devagar, como um pano escuro perdendo tinta.

Rum'ea fechou os olhos.

Tentou.

Depois tentou com mais vontade.

Respirou uma vez, duas, três. Tentou ouvir o ar entrando, depois saindo. Tentou lembrar das poucas instruções de meditação que ouvira nos últimos dias, vindas de vozes serenas demais, de exemplos limpos demais, de pessoas que pareciam já nascer em paz. Tentou deixar os ombros caírem. Tentou soltar a mandíbula. Tentou não pensar nas roupas novas, nem no cinto, nem no azul, nem no fato de estar sentada ao lado de um homem com os olhos fechados, nem no ruído que sempre existia dentro dela.

Mas a mente não parava.

Nunca parava.

Os pensamentos vinham em sequência, mas não como linha.

Vinham como enxame.

O tecido está marcando demais, o chão está frio, alguém vai passar e olhar, eu devia ter comido menos ou mais, o azul está reto? e se secou manchado? e se alguém viu? e se eu abrir os olhos e ele estiver me observando demais? por que meditação exige que eu fique parada? parada é como se é pega, e se o som lá embaixo for uma nave de abastecimento, e se eu cair no sono sentada, e se ele perceber, e se ele já percebeu, ele sempre percebe, como alguém consegue não pensar, isso parece uma habilidade fisiologicamente suspeita-

Então, pelo vínculo, alguma coisa mudou.

A mente de Tarla, que até então ela percebia como presença profunda, calma, distante e viva ao lado dela, tornou-se de repente uma imagem tão vasta que Rum'ea quase abriu os olhos por reflexo. Não foi ele mostrando, pelo menos não intencionalmente. Foi mais como se, por estar tão perto, por o vínculo estar tão silencioso e a própria defesa mental dela tão desorganizada pela tentativa frustrada de meditar, ela tivesse escorregado até a superfície do estado em que ele entrava.

Era um lago.

Um lago imenso, espelhado, quieto a ponto de fazer o silêncio parecer uma forma de luz. Não havia margem visível de imediato, apenas a superfície vasta, lisa, escura e clara ao mesmo tempo, como os lagos gelados de Keshtara que ela jamais vira pessoalmente, mas que, de algum modo, reconheceu. E lá no fundo — não abaixo, exatamente, mas no fundo daquela vastidão interior — estava a presença de Tarla. Não como figura humana inteira, mas como um centro consciente, tranquilo e paciente, imóvel sem estar ausente.

Rum'ea abriu um olho.

E viu que Tarla estava flutuando.

Não alto. Não dramaticamente. Apenas alguns centímetros acima da esteira, as pernas cruzadas, as mãos apoiadas sobre os joelhos, o manto caindo em linhas tranquilas enquanto a gravidade ao redor dele parecia ter esquecido, por um momento, como deveria funcionar. Rum'ea ficou olhando aquilo com uma indignação silenciosa que não sobreviveu nem cinco segundos antes de se transformar em outra coisa.

Ela estendeu a mão.

Agarrou de leve a borda do manto dele e puxou para baixo.

Tarla desceu um pouco, como que obedecendo ao puxão, ainda de olhos fechados.

Rum'ea soltou.

Ele subiu de novo.

Ela piscou.

Puxou outra vez, um pouco mais.

Ele desceu.

Soltou.

Ele subiu.

Rum'ea ainda tentou sustentar a seriedade por um instante, mas foi inútil. O riso escapou dela de forma abrupta, verdadeira, sonora e leve, surpreendendo até a si mesma. Não foi uma risada grande, mas foi inteira, e saiu antes que ela pudesse prendê-la de volta. Tarla abriu apenas um olho para ela. Havia um brilho de divertimento muito discreto ali, acompanhado de um sorriso pequeno, sereno, quase preguiçoso. Depois fechou o olho novamente, como quem aceita a própria condição temporária de brinquedo estranho com uma dignidade impossível.

— Você parece um brinquedo com ímãs repelentes. — Murmurou Rum'ea, ainda contendo os últimos restos do riso.

Tarla não respondeu em voz alta, mas o vínculo trouxe de volta uma onda branda de diversão, seguida de um silêncio convidativo, como se ele dissesse, sem dizer, que ela já tivera sua vitória do momento e podia agora tentar outra vez.

Rum'ea fechou os olhos mais uma vez.

O lago estava lá.

Vasto. Espelhado. Sem pressa.

Desta vez, ela não recuou de imediato. Ficou olhando mentalmente para a superfície com certa desconfiança. A própria presença dela, em contraste, parecia um aglomerado de vento elétrico e fragmentos, uma criatura de estática parada à beira de algo muito liso. Havia certa humilhação nisso. Mas havia também curiosidade.

Devagar, com a incerteza de quem toca pela primeira vez algo que pode ser gelo fino ou profundidade sem fundo, Rum'ea se ajoelhou à beira daquele lago interior e estendeu a mão. Seus dedos tocaram a água.

A superfície abriu pequenas ondulações. Delicadas. Quase reverentes.

Elas se espalharam do centro, abrindo círculos que se expandiram preguiçosamente.

Rum’ea ficou imóvel imediatamente.

Eu machuquei? perguntou depressa pelo vínculo, a pergunta saindo antes de ela pensar no quão absurda soava.

A resposta de Tarla veio com uma suavidade que pareceu nascer do próprio lago.

Não. Não machucou. Apenas senti o toque.

Rum'ea olhou para as ondulações alargando-se e desaparecendo, absorvidas pela vastidão sem que nada se quebrasse. A mente dele continuava ali, profunda, quieta, sem se fechar por causa da presença dela, e isso a desconcertou mais do que qualquer repreensão teria.

Ela franziu o cenho, ainda dentro da própria tentativa de meditação.

Eu… começou, sem saber direito como formular. Posso tentar entrar?

Houve um intervalo quase divertido antes da resposta.

Não recomendo. Água funda entope os ouvidos.

Rum'ea soltou uma risada curta pelo nariz, olhos ainda fechados.

Isso foi horrível.

Foi preciso.

Você treinou essa frase?

Não. Mas, se quiser tentar, pode ir até o meio do lago e se deixar afundar.

Ela ficou em silêncio.

O convite parecia simples dito assim… Mas não era. Rum'ea se aproximou mentalmente da água, primeiro com cautela, depois com um esforço mais decidido, e avançou superfície adentro. Não houve frio. Não houve resistência. Era como caminhar sobre algo que aceitava o peso dela sem exigir nada em troca, não exatamente líquido, mas também não realmente sólido. Ela foi até o que lhe pareceu ser o meio, — embora “meio” fosse uma ideia quase ridícula naquele espaço vasto — parou e tentou se deixar afundar.

Nada aconteceu.

A água continuava sustentando-a.

Ela expirou, frustrada.

Tentou de novo, relaxando ombros, soltando os joelhos, cedendo o peso.

Nada.

O lago a mantinha na superfície como se conhecesse muito bem o fato de que Rum'ea passara a vida inteira aprendendo a não ceder de verdade.

Não funciona, disse ela, irritada.

Quer ajuda? perguntou Tarla.

A irritação dela vacilou um instante. Aceitar ajuda ainda soava como uma porta mal vigiada, especialmente em algo tão desconhecido e novo como o vínculo. Ainda assim, ali, à beira do lago dele, com o céu real começando a clarear e o corpo sentado ao lado do dele no mundo físico, a pergunta não trouxe ameaça. Trouxe somente possibilidade.

Sim, admitiu, por fim, muito baixo.

O que aconteceu em seguida foi tão gentil que Rum'ea quase não percebeu de início. A presença de Tarla, lá no fundo do lago, moveu-se sem pressa e sem invadir. Não veio como mão fechada, nem como onda cobrindo tudo, nem como poder impondo-se à força. Veio como uma atenção cuidadosa que se aproximava apenas o suficiente para ser sentida e, então, se fechava levemente ao redor de um dos pés dela, como água mais densa, como um toque submerso e tranquilo. A mensagem veio junto, clara e imediata.

Se você não quiser mais, eu solto. Se você não conseguir subir, eu empurro.

Rum'ea sentiu isso antes do puxão começar.

Ele a puxou lentamente.

Sem arrancá-la da superfície. Sem brusquidão. Sem arrastá-la para um lugar onde ela não pudesse mais escolher. Apenas um convite sustentado, uma tração delicada para baixo, até que a água cedesse e começasse a recebê-la. Rum'ea teve tempo de recusar. Teve tempo de recuar. Teve tempo de se debater, de travar, de ordenar que ele parasse, mas não fez nada disso.

Aos poucos, o lago subiu-lhe pelas pernas, pela cintura, pelo peito, pelos ombros. Não havia afogamento. Não havia pânico. Havia profundidade, sim, uma vastidão silenciosa envolvendo-a por todos os lados, e, embora a água agora estivesse acima de sua cabeça, ao redor do rosto, sobre os cabelos, sobre os olhos fechados, ela ainda respirava normalmente. O som do mundo afastou-se sem desaparecer por completo. Mais do que isso: transformou-se. Tudo ficou distante e íntimo ao mesmo tempo, como se a realidade tivesse sido coberta por camadas espessas de quietude.

A estática de Kyrmora, que sempre a circundava como um campo de interferência afiada, não desapareceu.

Mas se aquietou.

Não foi anulada. Não foi purificada. Não foi vencida. Apenas deixou de estalar. Tornou-se imóvel, quase como nuvens elétricas estáticas em suspensão perfeita, sem chicotear tudo em volta. A brutalidade do planeta permanecia nela, mas parou de arranhar por um momento. E, por baixo dela, a estrela pôde respirar.

Rum'ea soltou um suspiro longo dentro daquele lago impossível, e a sensação de contentamento que veio em seguida foi tão nova que ela quase abriu os olhos por medo. Não abriu. Permaneceu ali, submersa e serena, a mente enfim sem correr em círculos, o corpo no mundo real sentado sobre a esteira antes do amanhecer, e a presença de Tarla ainda ao fundo, vasta e estável, como quem lhe emprestara não paz pronta, mas um lugar onde a paz podia acontecer sem ser exigida.

O primeiro raio do sol rompeu o horizonte de Coruscant alguns minutos depois, dourando a borda da plataforma de treino, as pedras claras e o perfil dos dois Jedi sentados lado a lado. Tarla continuava suspenso alguns centímetros acima da esteira, manto quieto, respiração lenta, e Rum'ea, ao lado dele, estava enfim imóvel de um jeito que não parecia alerta, nem congelamento, nem resistência armada.

Parecia descanso.

Muito tempo depois — ou talvez não tanto, pois dentro do lago o tempo parecia ter desaprendido a marcha habitual — Tarla deixou que a própria presença se afastasse um pouco, não retirando dela o apoio de forma brusca, apenas devolvendo-lhe, devagar, a superfície, a margem e a escolha. Rum'ea emergiu da meditação como quem volta de um lugar estranho e muito bom, abrindo os olhos lentamente para a claridade rosada do amanhecer.

Ela virou o rosto para ele, surpresa.

Tarla já a observava com aquele mesmo sossego quase irritante, agora sem flutuar tanto quanto antes, embora ainda não completamente comprometido com a gravidade.

Rum'ea ficou em silêncio por um instante, como se temesse que qualquer palavra dita em voz alta pudesse espantar o que acabara de encontrar. No fim, escolheu o vínculo.

Foi… Quieto.

Tarla inclinou um pouco a cabeça.

Sim.

Eu não sabia que dava para ficar quieto sem parecer morto.

Agora sabe.

Ela desviou os olhos para a cidade e depois de volta para ele. O azul das bordas da própria túnica pareceu ainda mais vivo na luz nova.

Você faz isso com todo mundo?

Flutuar? Creio que isso independe de plateia.

Ela quase revirou os olhos.

O lago.

Não.

Rum'ea sentiu a resposta inteira antes mesmo das palavras seguintes chegarem.

Só comigo, então?

Tarla sustentou o olhar dela com calma.

Só com você.

Alguma coisa aquecida e leve se abriu no peito dela, discreta, mas inegável. Rum'ea não soube dar nome. Não tentou. Apenas baixou os olhos para as mãos no colo e deixou que um sorriso muito pequeno, existisse sem precisar ser escondido imediatamente.

O sol enfim nasceu por completo, e a luz dourada tocou os fios negros dela, o cabelo longo, ondulado e cheio, a pele pálida, o azul pintado à mão nas vestes, e também o rosto de Tarla, os olhos verdes, o castanho dos cabelos e seus fios prateados, a serenidade. O primeiro treino fora extremamente simples e mesmo assim algo essencial já havia acontecido: Rum'ea não aprendera a meditar sozinha naquela manhã, mas aprendera que, ao lado dele, seu ruído não precisava ser combatido como inimigo. Podia, ao menos por um tempo, tornar-se água imóvel.