No dia seguinte, mais cedo do que qualquer pessoa normal acordaria, Tarla levou Rum’ea para uma das salas de treino menores, longe das turmas comunais, dos iniciados curiosos e de qualquer instrutor que pudesse transformar observação em comentário.

Rum’ea entrou desconfiada antes mesmo de saber o que fariam. Isso, para Tarla, já era quase uma constante do treinamento dela: a desconfiança vinha primeiro, escoltando-a como sombra, e só depois a curiosidade se permitia aparecer. Ela usava as vestes claras do Templo com os detalhes azuis nos punhos e no cruzamento do peito, o cabelo negro preso alto, a trança de Padawan atrás da orelha direita, e aquela expressão de quem já esperava que a Força, o Mestre, a sala ou alguma pedra específica a ofendessem pessoalmente antes do fim da manhã. Tarla, por sua vez, trazia apenas as próprias vestes de treino, o sabre preso ao cinto e nenhuma pedra à vista.

Rum’ea notou isso imediatamente.

— Se houver uma pedrinha escondida em algum lugar, vou considerar traição.

Tarla parou no centro da sala e olhou para ela com a serenidade de sempre.

— Não haverá pedrinhas hoje.

— Isso é o tipo de frase que alguém diria antes de revelar uma pedrinha maior. Um pedrão.

— Também não haverá pedras maiores.

Ela estreitou os olhos.

Cristais? Fragmentos de metal? Objetos pequenos moralmente equivalentes a pedras?

Não.

Você respondeu rápido demais.

Porque a resposta era simples.

Respostas simples são suspeitas.

Hoje vamos trabalhar escudos.

Rum’ea ficou imóvel por um instante. O ruído dela no vínculo mudou de textura, como se a palavra tivesse encontrado um caminho menos hostil dentro dela. Escudos. Não mover algo para longe. Não convencer uma pedrinha indiferente a obedecer. Não provar valor fazendo o mundo levantar. Escudo era outra coisa. Era limite. Era barreira. Era “até aqui”. Era porta trancada por dentro. Era uma linguagem que o corpo dela compreendia antes mesmo de a mente decidir se queria compreender.

— Escudos… Com a Força? — Perguntou.

— Sim.

— Para bloquear golpes?

— Entre outras coisas.

— E por que isso vem depois de telecinese e não antes?

Tarla inclinou levemente a cabeça.

— Uma pergunta razoável.

— Isso quer dizer que você concorda comigo?

— Quer dizer que talvez devêssemos ter tentado antes.

Rum’ea o fitou como se quisesse guardar aquela frase em um arquivo chamado “Mestre admitindo erro: ocorrência rara, porém útil”.

Tarla afastou-se alguns passos e colocou-se diante dela. Não ativou o sabre, não pegou nenhuma esfera de treino, tampouco trouxe droide remoto. Apenas ficou ali, com as mãos dentro das mangas das vestes, e disse:

— Não pense em erguer algo. Pense em impedir passagem. Não ataque a Força. Não a empurre como se ela fosse uma porta emperrada. Apenas delimite. Dê forma ao espaço entre você e mim.

Rum’ea respirou uma vez, curta demais.

— Isso parece fácil demais.

— Talvez seja justamente por isso que funcione melhor para você.

Ela não respondeu, mas a estática de Kyrmora no vínculo estalou em pequenas faíscas de concentração. Tarla a sentiu procurar a Força do jeito dela: não como água, não como luz obediente, não como campo abstrato de treino Jedi, mas como um conjunto de pressões, perigos e intenções ao redor do corpo. Rum’ea fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, havia algo diferente entre eles.

Não era visível de maneira comum, não no início, nas Tarla sentiu por inteiro: uma resistência fina, irregular, quase transparente, erguida no espaço diante dela. Não grande. Não estável. Definitivamente real.

Ele não deixou a surpresa atravessar o rosto, embora ela passasse pelo vínculo antes que pudesse ser totalmente contida.

Rum’ea percebeu.

O quê?

Você fez.

Ela piscou, confusa.

— Eu fiz?

— Sim.

Ela olhou para o espaço vazio entre eles com desconfiança, como se esperasse que a Força estivesse zombando dela de algum lugar invisível.

— Só assim?

— Só assim.

— A pedrinha devia se envergonhar por me dar tanto trabalho.

— Talvez ela esteja refletindo sobre suas escolhas.

Rum’ea quase sorriu. Quase. Então ficou séria de novo quando Tarla deu um passo adiante.

— Vou testar.

A mudança no corpo dela foi imediata. Ombros rígidos, queixo levemente abaixado, peso distribuído para fuga. A palavra testar, na boca de qualquer outra pessoa, teria sido ruim. Na dele, era suportável, mas ainda assim acendia antigas luzes vermelhas dentro dela.

Tarla não se aproximou mais.

Primeiro com os dedos, explicou pelo vínculo. Muito leve. Se quiser parar, diga.

Eu sei.

Diga mesmo assim.

Ela apertou a mandíbula.

Continue.

Tarla ergueu a mão direita e tocou o escudo com a ponta de dois dedos.

A barreira ondulou.

Rum’ea sentiu o toque como uma pressão no ar diante do peito, não no corpo, e esse detalhe a fez prender a respiração. Não era como ser tocada — era como sentir alguém encostar na parte de fora de uma porta. Ela sustentou o escudo, instintivamente, e os dedos de Tarla não atravessaram.

— Bom. — Disse ele em voz alta.

O elogio pequeno atravessou-a como calor irritante. Rum’ea o ignorou com empenho.

Tarla tocou de novo, agora com os cinco dedos juntos. A barreira tremeu mais, mas permaneceu.

Não segure só na frente, orientou. Pense nas laterais.

Rum’ea franziu a testa.

Eu fiz uma parede.

Exato. Paredes racham sob impacto e as beiradas cedem primeiro. Faça uma concha rasa.

Isso é uma descrição ruim.

Faça uma parede que sabe que tem ombros.

Ela olhou para ele, ofendida por a frase ter feito sentido.

A barreira mudou.

Tarla sentiu quando as bordas se curvaram um pouco, ainda irregulares, mas menos frágeis. Tocou com os dedos outra vez, desta vez em diagonal. O escudo absorveu. Rum’ea recuou meio passo, não porque a força fosse grande, mas porque a sensação a surpreendeu.

— Isso é mais fácil… — Murmurou ela, como se confessasse algo vergonhoso.

— Para você, sim.

— Por quê?

Tarla abaixou a mão por um momento.

— Porque proteger limite talvez seja uma linguagem que sua presença na Força já conhece.

Rum’ea ficou quieta.

A resposta não a ofendeu. Também não a confortou de forma simples. Apenas encaixou-se em algum lugar de difícil acesso, onde o passado dela e o treinamento começavam a disputar o mesmo terreno com nomes diferentes.

Tarla ergueu a mão novamente.

— Agora, a palma.

A vontade de fugir apareceu antes do toque. Não grande ainda, mas clara. Uma mão aberta vinda em sua direção. Mesmo sabendo, mesmo vendo, mesmo com Tarla avisando, mesmo com o escudo entre ambos, o corpo dela não gostava da imagem. A mente começou a contar distâncias: porta, parede, joelho dele, mão dele, altura dele, peso dele. O vínculo trouxe tudo, e Tarla recebeu sem tentar suavizar.

Estou mirando no escudo, disse ele.

Eu sei.

Não em você.

Eu sei.

Ele não se moveu até que ela assentisse.

Rum’ea ergueu o escudo de novo.

A palma de Tarla bateu contra ele.

O som não foi de pele contra pele, nem de palma contra pedra. Foi um impacto surdo, condensado, como ar comprimido recebendo força. O escudo afundou um pouco, elástico, e Rum’ea deu dois passos para trás. O corpo dela se preparou para queda, mas a barreira sustentou.

Os olhos dela se arregalaram não de medo apenas.

De surpresa.

— Aguentou.

— Aguentou.

Tarla repetiu o golpe com a palma, um pouco mais forte. Depois outra vez, em outro ângulo. Rum’ea começou a entender que o escudo não era um objeto rígido, mas uma resposta. Se tentava endurecê-lo demais, ele rachava na sensação, tremia e a fazia perder equilíbrio. Se o deixava flexível demais, a força quase o atravessava. O ponto certo era uma firmeza viva, algo que aceitava impacto sem convidá-lo para dentro.

Isso, estranhamente, ela compreendia.

Melhor, disse Tarla. Agora não lute contra o golpe inteiro. Deixe parte dele ir para o chão.

Como?

Pelos pés. Pelo quadril. Pelo espaço atrás de você.

Isso não faz sentido.

Seu corpo está fazendo mesmo assim.

Ela percebeu que era verdade. O escudo se conectava a ela de modo estranho. Não ao corpo, mas por meio dele. Quando ajustava os pés, a barreira ficava mais estável. Quando prendia o ar, ela afinava demais. Quando soltava a respiração antes do impacto, resistia melhor.

Tarla bateu mais uma vez com a palma.

Rum’ea deu mais um passo para trás, mas não perdeu o escudo.

Então ele abaixou a mão.

O silêncio seguinte pesou.

Rum’ea soube antes que ele dissesse.

— Agora o punho.

O vínculo dela se encheu de ruído.

Não imagens completas. Sensações. Um punho não era palma. Um punho era outra coisa. Um punho vinha com memória própria. Mesmo o de Tarla. Talvez especialmente o de Tarla, porque era grande, porque ele era forte, porque o corpo dele tinha aquela solidez keshtari que parecia feita para carregar troncos em meio a tempestades de neve e atravessar gelo sem pedir licença. O punho dele, fechado, continha força demais para ser uma abstração pedagógica.

Tarla sentiu tudo.

— Podemos parar aqui.

Rum’ea olhou para ele.

A resposta veio primeiro pelo vínculo, áspera:

Não.

Depois em voz alta:

— Não.

Ele não discutiu, e apenas ajustou a postura.

Foi então que Rum’ea percebeu: Tarla não estava mirando nela.

Não exatamente.

Ele se posicionou diante do escudo, mediu a distância com uma precisão quase invisível e escolheu um ponto um centímetro depois da superfície da barreira. Não depois do corpo dela. Não onde seu rosto estaria se o escudo falhasse. Não onde seu peito estaria se a Força se desfizesse. Um centímetro depois do escudo. Se ela perdesse o controle, o punho dele não continuaria até atingi-la por acidente; o golpe morreria no espaço que ele já havia decidido como fim.

A percepção atravessou Rum’ea com uma força quase tão grande quanto o impacto que ainda não viera. Ele não estava segurando o golpe.

Mas estava segurando a consequência.

Você viu, disse Tarla pelo vínculo.

Rum’ea não respondeu.

A vontade de fugir continuava enorme. O corpo gritava para sair dali antes do punho vir. Mesmo sabendo do centímetro. Mesmo sabendo de Tarla. Mesmo sabendo que ele jamais tomaria a falha dela como permissão para machucá-la. O medo não se curvava a argumentos tão depressa. Ele se levantava do osso, do músculo, de lembranças que não se importavam com precisão pedagógica.

Mas havia outra coisa agora.

Uma raiva limpa.

Não contra Tarla, também inteiramente contra si — contra a ideia de que o medo decidiria por ela quando havia uma barreira entre seu corpo e o mundo.

Rum’ea ergueu o escudo com as mãos dessa vez, porque não confiava apenas na intenção para segurar um soco pleno de um Mestre Jedi de 150 anos.

Tarla fechou o punho.

— Pronta?

Ela respirou uma vez.

Não.

Tarla permaneceu imóvel, esperando.

Rum’ea ergueu o queixo e travou o maxilar.

— Vai.

O punho dele atingiu o escudo.

O impacto foi brutal.

Não havia suavização na força. Tarla não diminuiu o golpe para proteger a autoestima dela, nem o tornou simbólico. O punho bateu com peso pleno, seco, e a barreira de Rum’ea recebeu tudo. Por uma fração de segundo, ela pensou que o mundo havia se dobrado. O escudo afundou, brilhou em percepção, tremeu de cima a baixo, e o impacto a empurrou para trás com violência suficiente para fazê-la deslizar vários metros pela sala. As botas rasparam o piso, o corpo inclinou para frente e para baixo, e ela quase caiu.

Quase.

O escudo aguentou.

Rum’ea parou de pé, a vários passos de distância, respirando como se tivesse corrido, o cabelo negro com mechas caindo em ondas desordenadas ao redor do rosto, os olhos grandes fixos em Tarla. A estática de Kyrmora estalava em torno dela, mas por baixo havia brilho. Algo mais feroz. Mais vivo.

Tarla abaixou o punho.

A mão dele estava intacta, mas ele a flexionou uma vez, como se tivesse realmente atingido algo sólido. E atingira.

— Muito bom. — Disse.

Rum’ea olhou para o espaço vazio diante de si, onde o escudo havia estado. A barreira se desfizera depois do impacto, não por falha, mas por exaustão. Ela ainda sentia a vibração nos ossos. Sentia a vontade de fugir ainda latejando no fundo do corpo. Sentia também o impulso absurdo de rir, de gritar, de acusar a pedrinha de covardia por ter sido mais difícil que aquilo. Sentia medo, orgulho, tremor, raiva e uma alegria tão brusca que quase parecia perigosa.

Tarla deu um passo em sua direção, mas parou antes de encurtar demais a distância.

Chega por hoje, disse pelo vínculo.

Rum’ea olhou para ele.

Não.

Rum’ea…

Não.

Ela ergueu a mão outra vez.

A Força respondeu mais rápido agora.

O escudo nasceu entre eles, ainda irregular nas bordas, ainda instável, mas mais denso do que antes. Uma concha rasa de presença, feita não de delicadeza, mas de limite. Rum’ea firmou os pés, dobrou levemente os joelhos e deixou que a respiração descesse até o chão.

Tarla a observou em silêncio.

Ela sustentou o escudo, encontrou os olhos verdes dele e disse:

— De novo.