A missão deveria ter sido perfeita e isso, por si só, já deixara Rum’ea desconfiada desde o segundo dia.

Nada explodira. Ninguém morrera. Ninguém quase morrera. Não houvera atentado, tentativa de atentado, de envenenamento, de assassinato, sabotagem de nave, crise sucessória, animal sagrado mordendo Tarla, chá suspeito, sala explodida, mercenários contratados. Durante três dias inteiros, os representantes de Veyr-Talan e da Liga das Casas Rurais haviam se sentado à mesma mesa, debatido cláusulas de irrigação, trânsito de grãos, restituição de pastos e limites de mineração rasa com uma cordialidade tão irritantemente funcional que Rum’ea começara a achar que havia algo errado.

Tarla, por sua vez, parecera quase contente. Não feliz, porque Mestre Tarla Kesyk não parecia feliz com burocracia diplomática, apenas menos inclinado a considerar a sala uma punição cósmica, mas satisfeito.

O tratado fora revisado, duas ambiguidades perigosas removidas, três termos jurídicos corrigidos por Rum’ea antes que virassem armadilhas futuras, e nenhum dos negociadores tentara transformar uma vírgula em declaração de guerra.

Na manhã da assinatura, o salão principal da Casa de Vidro estava decorado com faixas claras, flores locais penduradas em arcos e uma mesa cerimonial ao fundo, apenas para esperando o bolo de celebração.

Sessenta e quatro fatias de bolo.

Rum’ea soubera disso porque um dos assessores fizera questão de anunciar, com orgulho, que o bolo fora cortado antecipadamente em sessenta e quatro porções perfeitamente iguais, uma para cada signatário, testemunha formal e observador convidado porque isso, aparentemente, era um símbolo de igualdade, harmonia e distribuição proporcional de responsabilidade.

Isso é uma quantidade absurda de bolo, pensou ela.

A proporção ritualística é uma forma legítima de linguagem política.

Continha sendo muito bolo.

Tudo correra bem até o intervalo final antes da assinatura.

Rum’ea saíra por alguns minutos para se refrescar num corredor lateral, porque a sala cheirava a flores doces demais, cera polida e diplomatas ansiosos. Enquanto isso, Tarla fora até uma das varandas abertas para suspirar e recuperar a paciência, o que, nas palavras dele, era “respirar ar menos ocupado por argumentos circulares”. Rum’ea sabia que isso significava: se mais um ministro dissesse “apenas para registro”, ele talvez começasse a responder com sinceridade pura.

Quando ambos retornaram, a mesa cerimonial estava vazia.

A redoma translúcida fora removida.

O prato estava lá.

O bolo, não.

Um servo entrou no salão correndo com a expressão de quem carregava a notícia de uma invasão militar.

- O bolo desapareceu!

O silêncio que se seguiu foi mais dramático do que qualquer ameaça de guerra que Tarla já presenciara. Um dos ministros levou a mão ao peito.

- O bolo?

- As sessenta e quatro fatias! — Confirmou o servo, horrorizado. – Todas!

Rum’ea olhou para o prato vazio.

Depois para Tarla.

Eu sabia.

Tarla não se moveu.

Você sabia que algo aconteceria ou especificamente que um bolo de sessenta e quatro fatias desapareceria?

Eu sabia que tanta normalidade na nossa volta só podia ser mentira.

Os representantes começaram a falar todos ao mesmo tempo. Alguém sugeriu sabotagem. Outro, insulto simbólico. Uma assessora quase chorou porque o corte cerimonial do bolo vinha antes da assinatura havia duzentos anos. Um barão rural declarou que, sem bolo, não havia presságio de doçura coletiva. Um magistrado urbano respondeu que aquilo era superstição agrícola. Em menos de dois minutos, três dias de diplomacia quase perfeita estavam sendo ameaçados por açúcar, farinha e glacé.

Então a suspeita virou, e não foi de qualquer forma lógica, porquê diplomacia raramente era tão gentil.

- Os Jedi estavam ausentes. — Disse uma mulher de colar prateado, estreitando os olhos.

Rum’ea parou.

Tarla também.

- A Padawan saiu durante o intervalo. — Acrescentou outro representante.

- E Mestre Kesyk foi até a varanda — Disse o barão rural.

- Separados. — Completou alguém, como se isso fosse prova de uma conspiração confeitada.

Rum’ea encarou a sala.

- Vocês acham que nós… Roubamos um bolo.

- Um bolo de sessenta e quatro fatias. — Corrigiu o servo, ainda pálido.

- A quantidade de fatias não torna a acusação melhor.

Tarla inclinou a cabeça com uma calma que, no vínculo, vinha perigosamente próxima da fadiga existencial e questionamentos sobre todas suas escolhas de vida que levaram àquele exato momento.

- Posso assegurar que nem minha Padawan nem eu removemos o bolo de celebração.

- O senhor estava sozinho na varanda. — Disse a mulher de colar prateado.

- Sim. Não creio, contudo, que isso configure qualquer crime ou infração.

- Sem testemunhas.

- Sim.

Rum’ea olhou para ele.

Você está piorando a situação.

Estou respondendo com precisão.

Eles acham que você roubou sessenta e quatro fatias de bolo e fugiu para a varanda para comer em silêncio.

Eu não conseguiria ingerir sessenta e quatro fatias de bolo no intervalo disponível.

Tarla…

Isso também é precisão.

Rum’ea respirou fundo.

Exatamente. Pare.

A sala continuava se agitando. O tratado estava sobre uma mesa lateral, pronto para assinatura, esquecido enquanto o bolo assumia a posição de questão central da paz regional. Era humilhante. Era absurdo. Era, infelizmente, o tipo de situação que parecia estar se tornando perigosamente corriqueira nas missões dos dois.

Rum’ea então teve uma ideia.

- Precisamos de um investigador.

Tarla virou ligeiramente o rosto para ela.

- Padawan Olphen, você não pode estar falando sério.

- Estou falando muito sério. Precisamos do melhor investigador que conhecemos.

Pelo vínculo, porém, ela anunciou o título com tanta solenidade que Tarla precisou fechar os olhos:

O cabrito lagarto.

… Cosiano, Rum’ea.

Você pode criticar meus apelidos, mas conseguiu entender quem era.

Isso não torna melhor chamar um Mestre Jedi centenário de “cabrito lagarto”.

- Mestre Sinube.

Tarla fechou os olhos por meio segundo mais uma vez, a respiração mais funda do que antes.

- Mestre Sinube está em Coruscant.

- Ótimo. Assim ninguém aqui pode acusá-lo de comer o bolo também.

Antes que Tarla pudesse argumentar, Rum’ea já estava abrindo o comunicador.

O holo levou alguns segundos para estabilizar. A imagem azulada de Mestre Tera Sinube surgiu pequena sobre o projetor, sentado em algum ambiente tranquilo do Templo, com seu bastão apoiado ao lado e uma expressão serena que parecia ter atravessado séculos sem se contaminar pela pressa alheia.

- Padawan Olphen. — Disse ele, com sua calma habitual. — Mestre Kesyk. Algo ocorreu?

Rum’ea virou o comunicador para mostrar o salão.

- O bolo de celebração desapareceu.

Sinube piscou uma vez.

- Entendo.

Tarla, ao fundo, parecia resignado a um grau quase artístico.

- Era um bolo de sessenta e quatro fatias. — Explicou Rum’ea. — Antes que pergunte, não fomos nós.

- Eu não teria começado por essa hipótese.

- Eles começaram.

Sinube olhou para Tarla.

- Mestre Kesyk, o senhor estava sozinho?

- Na varanda. Sim.

- E a Padawan?

- No corredor lateral. — Respondeu Rum’ea. — Também sozinha.

- Então temos oportunidade aparente, mas não motivo claro.

- Motivo claro seria querer bolo. — Disse um representante, sério demais.

Sinube voltou lentamente o olhar holográfico para ele.

- Querer bolo raramente basta para tornar alguém capaz de remover sessenta e quatro fatias sem ser visto.

Rum’ea decidiu, naquele instante, que Mestre Sinube era realmente o melhor investigador da Ordem.

A investigação começou.

E imediatamente piorou.

Primeiro, encontraram uma marca de glacé na lateral da porta que dava para a varanda.

Todos olharam para Tarla.

Tarla olhou para a marca.

- Eu não toquei nisso.

- É perto da varanda. — Proclamou o barão rural.

- Muitas coisas são perto da varanda.

Rum’ea abafou uma risada com tosse.

Depois encontraram migalhas no corredor lateral por onde ela passara.

Todos olharam para Rum’ea.

- Eu não derrubei migalhas.

- A Padawan esteve neste corredor. — disse a mulher de colar prateado.

- Eu estive respirando, não carregando um bolo imperial.

Sinube pediu que aproximassem o comunicador das migalhas. Rum’ea obedeceu. O Mestre observou com calma por alguns segundos.

- O padrão é concentrado. As migalhas caíram de algo baixo, não da altura de mãos humanas.

- Ou a Padawan segurou o bolo perto do chão. — Sugeriu alguém.

Rum’ea virou devagar para a pessoa.

- E por quê… Eu faria isso?

Ninguém respondeu.

Em seguida, encontraram uma fita azul presa embaixo da mesa cerimonial.

Rum’ea ficou imóvel.

Todos olharam para a trança dela. Para os detalhes das vestes. Para a fita que prendia as mechas frontais atrás da cabeça.

- Isso não é meu. — Disse ela imediatamente.

Tarla aproximou-se, examinou a fita e, antes que Rum’ea pudesse se ofender mais, falou:

- A tonalidade que a Padawan Olphen usa é diferente.

O salão inteiro ficou em silêncio.

Rum’ea olhou para ele.

Você reconhece a tonalidade dos meus azuis?

Sim.

Isso é muito específico.

Keshtaret possuem uma distinção de aspecto cromático maior que a maioria das espécies por causa da neve. Além disso, é evidência.

Você está usando minha coerência estética como defesa legal?

Com êxito, espero.

Sinube pediu que a fita fosse colocada próxima ao holo. Depois de observá-la, concluiu:

- A fibra parece de decoração cerimonial, não de vestes Jedi. As vestes da Padawan também não parecem apresentar rasgos.

Rum’ea ergueu uma sobrancelha para os representantes.

- Minha honra estética está intacta.

O próximo indício foi pior.

Havia uma pequena marca branca na bainha do manto de Tarla.

Glacé.

Tarla olhou para baixo.

Rum’ea olhou para a marca.

O salão inteiro prendeu a respiração.

- Mestre Kesyk. — Disse Sinube, com serenidade implacável. — Onde o senhor esteve exatamente antes de entrar na varanda?

Tarla demorou uma fração, e Rum’ea sentiu a resposta pelo vínculo antes de ouvi-la.

Ah.

O quê?

Passei perto da mesa do bolo.

Rum’ea fechou os olhos.

- Mestre Kesyk...

- Não toquei no bolo.

- Mas passou perto.

- Sim.

- E agora tem glacé no seu manto.

- Evidentemente.

Rum’ea sentiu uma vontade intensa de rir e gritar ao mesmo tempo.

Os representantes pareciam convencidos de que o enorme Jedi de olhos verdes, conhecido por paciência diplomática e postura impecável, havia roubado um bolo de sessenta e quatro fatias durante um intervalo para comê-lo em alguma varanda, deixando migalhas, glacé e falsas pistas por onde passava.

- Talvez — Disse um assessor, hesitante. — os Jedi tenham feito isso para testar nossa reação ao imprevisto?

Tarla virou o rosto para ele.

- Não.

- A Ordem Jedi faz testes estranhos. — murmurou outro.

Rum’ea pensou no lago do Templo.

Não comentou.

Mestre Sinube, pelo holo, parecia cada vez mais interessado.

- O bolo foi removido inteiro ou em partes?

O servo engoliu seco.

- A redoma estava no chão, virada. O prato permaneceu. As fatias sumiram. Havia glacé no tecido da mesa.

- Altura da mesa?

O servo indicou com a mão.

Sinube estreitou os olhos, pensativo.

- Havia janelas abertas?

- Duas.

- Animais no edifício?

Todos os locais se entreolharam.

- Não deveriam haver. — Disse a mulher de colar prateado.

Rum’ea conhecia aquela frase. “Não deveriam” era uma das portas favoritas da galáxia para o absurdo entrar sem pedir licença.

Sinube voltou-se para Tarla.

- Mestre Kesyk, recomendo verificar espaços baixos, aquecidos, próximos à mesa e longe do movimento principal. Especialmente locais onde uma criatura pequena poderia arrastar comida ou se esconder depois de comer demais.

Tarla assentiu.

- Entendido.

A busca se reorganizou. O servo encontrou outra migalha e quase anunciou uma nova crise constitucional. Dois representantes discutiram se “bolo desaparecido” poderia suspender a validade simbólica do tratado. Rum’ea precisou impedir que um assessor redigisse uma ata emergencial intitulada “Incidente das Fatias”. Sinube permaneceu no comunicador, fazendo perguntas lentas e certeiras, como se tivesse todo o tempo do universo e a plena confiança de que o bolo, em algum lugar, continuava sendo uma evidência física, não um conceito metafísico.

Tarla, enquanto isso, desapareceu por uma porta lateral.

Rum’ea sentiu pelo vínculo a presença dele mover-se pelos corredores internos da Casa de Vidro. Primeiro despensas. Depois sala de serviço. Depois área de armazenamento de tecidos cerimoniais. Depois uma pausa.

Uma pausa longa.

Tarla?

Silêncio.

Você encontrou o bolo?

A resposta veio com uma textura estranha, entre resignação, surpresa e algo muito próximo de diversão.

Não exatamente.

Isso quer dizer o quê?

Venha até a sala de aquecimento secundário.

Rum’ea foi.

Encontrou Tarla agachado com dignidade demais para a posição diante de um compartimento aberto na parede, do tipo comum usados para regular a temperatura das salas de recepção. A luz interna era quente, alaranjada, e o espaço parecia estreito demais para qualquer coisa diplomática.

Lá dentro, sobre um monte de panos dobrados, estava o meliante.

Um Tooka.

Ou algo muito próximo de um Tooka local, se a taxonomia planetária insistisse em discordar. Peludo, orelhas grandes, olhos semicerrados de satisfação criminosa e uma barriga tão estufada que parecia fisicamente incompatível com o tamanho do corpo. O pelo claro estava coberto de glacé. O focinho tinha manchas azuis do recheio de frutas. Uma das patas segurava, ainda, um fragmento de bolo amassado contra o peito.

Rum’ea parou ao lado de Tarla.

O Tooka olhou para os dois.

Arrotou.

Rum’ea levou a mão à boca tão rapidamente que produziu um estalo.

Tarla fechou os olhos.

Não ria.

Ele comeu sessenta e quatro fatias?

Possivelmente não sozinho. Mas assumiu uma parte significativa da culpa.

O Tooka fez um som baixo, satisfeito, e tentou lamber o próprio peito coberto de glacé. Falhou por causa da barriga redonda.

Rum’ea se agachou.

- Você quase destruiu um tratado inteiro por bolo?

O Tooka piscou lentamente.

- Claramente sem remorso. — Disse Tarla.

Rum’ea levantou o comunicador.

- Mestre Sinube, encontramos o suspeito.

O holo de Sinube apareceu no alto do comunicador. Ele olhou para o Tooka coberto de glacé.

Houve um silêncio.

- Ah. — Disse Sinube.

Rum’ea estreitou os olhos.

- Mestre, o senhor já suspeitava?

- Animais pequenos são frequentemente subestimados em investigações envolvendo comida.

Tarla passou uma mão pelo rosto.

- Naturalmente.

Remover o Tooka do compartimento exigiu técnica, paciência e uma quantidade de dignidade que a situação não merecia. O animal estava tão cheio que não resistiu de verdade; apenas fez sons indignados quando Tarla tentou levantá-lo com cuidado. Rum’ea precisou segurar um pano sob ele para impedir que pingasse glacé pelo corredor inteiro, o que falhou em três pontos distintos.

Quando entraram novamente no salão principal, todos se viraram.

A cena produziu um silêncio histórico.

Tarla Kesyk, Mestre Jedi, diplomata respeitado, retornou à sala carregando um Tooka coberto de glacé e barriga redonda como evidência viva. Rum’ea caminhava ao lado com o pano manchado e uma expressão ferozmente vitoriosa. No comunicador, Mestre Sinube observava com satisfação discreta.

- Encontramos o responsável. — Anunciou Tarla.

O Tooka, talvez reconhecendo seu momento político, miou.

O servo levou as duas mãos à cabeça.

- Rafi!

Rum’ea virou para ele.

- Ele tem nome?

- É o Tooka da cozinha. Ele nunca fez isso antes.

O Tooka lambeu o glacé do próprio bigode com a expressão de alguém que certamente faria de novo.

A mulher de colar prateado parecia horrorizada.

- Ele comeu o bolo cerimonial?

- Parte dele. — Disse Tarla. — O restante provavelmente foi arrastado e espalhado entre o compartimento de aquecimento e a área de serviço por cúmplices. Recomendo verificar o sistema de ventilação inferior.

- O tratado… — Disse alguém, com voz fraca. — O presságio de doçura coletiva...

Rum’ea olhou para o Tooka.

Depois para a sala.

- O presságio sobreviveu. Só foi redistribuído por meios não autorizados.

Tarla não olhou para ela, mas o vínculo trouxe uma advertência:

Rum’ea.

O quê? Foi diplomático.

Foi criativo.

Melhor ainda.

Mestre Sinube inclinou a cabeça no holo.

- Considerando que o desaparecimento foi causado por animal doméstico não supervisionado, sugiro que a assinatura prossiga. A responsabilidade administrativa pode ser tratada separadamente, e o símbolo do bolo pode ser preservado por substituição ou menção em ata.

- Menção em ata? — Repetiu o barão rural, ainda pálido.

- “O bolo cerimonial foi consumido prematuramente por Rafi, Tooka da cozinha, antes da assinatura, sem intenção política detectável”. — Sugeriu Rum’ea.

Tarla, contra todas as probabilidades, pareceu lutar contra um sorriso.

A frase foi aceita. O tratado voltou à mesa principal. Um novo prato de doces menores foi improvisado às pressas, embora todos passassem a olhar para Rafi com vigilância extrema. O Tooka criminoso, agora parcialmente limpo apenas no rosto, foi colocado sobre uma almofada cerimonial temporária porque o servo se recusava a deixá-lo sair de vista. Isso talvez não fosse parte do protocolo antigo, mas, depois de um bolo desaparecido, ninguém parecia disposto a desafiar o rumo dos acontecimentos.

Os signatários se posicionaram.

A ponta do tratado foi virada para a última conferência.

Rafi, demonstrando a precisão moral de um agente do caos, escolheu exatamente esse momento para escapar da almofada.

Foi rápido demais para a maioria dos presentes. Lento demais para Tarla, que poderia tê-lo impedido.

Não impediu.

Rum’ea percebeu isso pelo vínculo com uma clareza absoluta.

O Tooka subiu na mesa, pisou em um resto de glacé que ainda permanecia preso entre os pelos de sua pata dianteira e apoiou o pé diretamente na ponta inferior do tratado.

Uma marca pegajosa, azulada e branca, ficou sobre o papel cerimonial.

A sala inteira prendeu a respiração.

Tarla olhou para a marca.

Depois para Rafi.

Depois para Rum’ea.

Rum’ea manteve o rosto absolutamente sério. Pelo vínculo, porém, disse:

Ele também assinou.

Tarla fechou os olhos.

Por um instante, o vínculo ficou cheio de uma diversão tão quente e controlada que Rum’ea precisou morder a parte interna da bochecha para não rir alto.

- A marca do animal pode ser considerada... — Começou um dos representantes, incerto.

- Uma bênção doméstica. — Sugeriu o servo, desesperado para salvar Rafi de consequências políticas.

O barão rural, talvez por exaustão, assentiu.

- Um sinal de abundância.

A mulher de colar prateado encarou a pata de glacé no tratado.

- E de vigilância necessária sobre cozinhas cerimoniais.

O tratado foi assinado por todos os representantes.

Por Tarla, como observador.

Por Rum’ea, como testemunha auxiliar.

E, tecnicamente, por Rafi, Tooka da cozinha, destruidor de bolo, redistribuidor de doçura coletiva e participante não autorizado do processo diplomático.

Quando tudo terminou, Mestre Sinube despediu-se pelo comunicador.

- Fico satisfeito que tenham resolvido a questão.

- Mestre Sinube. — Disse Rum’ea — Se algum dia eu precisar investigar outro crime culinário, posso chamá-lo?

- Claro, Padawan Olphen. Crimes culinários costumam revelar mais sobre uma sociedade do que ela gostaria.

Tarla suspirou.

- Obrigado por sua assistência, Mestre Sinube.

- Eu quem agradeço. Foi um caso interessante, Mestre Kesyk.

O holo se apagou.

No caminho de volta à nave, Rum’ea caminhou ao lado de Tarla com o datapad do relatório preso contra o peito e uma expressão de quem estava prestes a se tornar insuportável.

Não diga, pediu Tarla.

Eu ainda não disse nada.

Está prestes a dizer.

Tarla, nós fomos acusados de roubar um bolo de sessenta e quatro fatias.

Sim.

O verdadeiro criminoso assinou o tratado com glacé.

Sim.

E você deixou.

Tarla olhou para frente.

Não havia risco diplomático significativo.

Você quis que ele assinasse.

Isso é uma interpretação sua.

Você gostou.

Isso é uma acusação.

Rum’ea sorriu.

Mestre Tarla Kesyk, diplomata fora do protocolo, cúmplice de Tooka confeitado.

Rum’ea.

Posso colocar no relatório?

Não.

“A assinatura procedeu após intervenção investigativa de Mestre Sinube e participação simbólica de animal doméstico local.”

Tarla ficou em silêncio por um segundo.

Essa formulação é estranhamente aceitável.

Rum’ea olhou para ele, triunfante.

Eu sabia.

Ao longe, dentro da Casa de Vidro, Rafi miou com indignação porque alguém finalmente impedira seu acesso aos doces substitutos.

Rum’ea abriu a rampa da nave.

Você percebeu, continuou ela pelo vínculo, que esta foi uma missão sem morte, atentado, veneno, sabre, neurotoxina ou colapso político real?

Sim.

E ainda assim terminou com nós dois sendo acusados de roubar um bolo e um Tooka coberto de glacé assinando um tratado.

Tarla subiu a rampa atrás dela.

Uma melhora significativa.

Rum’ea considerou.

Não sei se concordo.

Depois, antes de entrar na cabine, acrescentou:

Mas, da próxima, vez eu quero uma missão diplomática normal.

Tarla parou e olhou para ela. A expressão dele era tão serenamente descrente que Rum’ea começou a rir antes mesmo que ele respondesse.

- Rum'ea... — Disse Tarla, em voz alta. — Nós dois sabemos que isso não existe.

E ela, infelizmente, não pôde discordar.