Rum'ea estava lendo enquanto caminhava, o que, segundo Tarla, era uma forma extremamente eficiente de descobrir quinas, colunas, degraus e consequências.

Ela discordava apenas por princípio.

O datapad estava apoiado em uma das mãos, inclinado no ângulo exato para não refletir demais a luz clara dos corredores superiores do Templo Jedi, enquanto a outra mão mantinha um segundo datapad preso contra a lateral do corpo, junto ao cinto, onde a pequena bolsa com anotações, a pedrinha humilhante do treino de telecinese e a adaga de Kyrmora escondida enrolada em tecido balançavam a cada passo. A trança de Padawan, atrás da orelha direita, tocava-lhe a mandíbula de vez em quando, o fio azul no fim acompanhando os movimentos do cabelo negro solto. Ela caminhava rápido demais para alguém lendo um texto sobre protocolos de mediação setorial e devagar demais para admitir que estava, de fato, concentrada o suficiente para esquecer que o mundo continuava existindo fora da tela.

O corredor estava moderadamente cheio naquela hora. Cavaleiros passavam em pares, alguns iniciados seguiam uma instrutora mon calamari em fila irregular, dois dróides de manutenção deslizavam junto à parede e um Mestre ithoriano conversava em voz baixa com uma arquivista. Rum'ea desviou de todos sem erguer os olhos, por puro hábito do corpo, como se o mesmo instinto que a fazia atravessar carcaças instáveis de naves em Kyrmora pudesse também navegar o fluxo cerimonial do Templo.

O problema foi que o Templo tinha pessoas silenciosas demais, e algumas dessas pessoas também caminhavam como se a Força lhes dissesse onde colocar os pés.

Rum'ea virou uma página do relatório com o polegar, franziu o cenho diante de uma cláusula ridiculamente redigida, deu mais três passos e bateu de frente em alguém.

Não foi um esbarrão leve.

Foi um impacto sólido, inesperado e muito humilhante. O datapad saltou de sua mão, seu ombro encontrou uma superfície de túnica, peito e presença, e Rum'ea, pequena demais para vencer a física daquele encontro, caiu sentada no chão com um som seco e indigno. O segundo datapad escorregou debaixo do braço dela e deslizou alguns centímetros pelo piso polido. Por um instante, ela ficou ali, olhos arregalados, a mão espalmada no chão, mais surpresa do que machucada.

Depois a irritação chegou.

— Eu estava andando em linha reta. — Bufou ela, antes mesmo de olhar para cima.

— Então a culpa talvez seja da linha. — Respondeu uma voz masculina, baixa, tranquila e levemente divertida.

Rum'ea ergueu o rosto.

O homem diante dela já estava se abaixando para pegar o datapad que caíra mais longe. Era jovem, embora não tão jovem quanto muitos Cavaleiros recém-promovidos que ela vira nos corredores. Tinha talvez vinte e poucos anos, alto como Tarla, com cabelos castanhos compridos até perto dos ombros, barba ainda curta e um rosto que parecia feito de quietude e pergunta. Havia nele uma espécie de desalinho gentil, como se a postura Jedi estivesse ali, mas não tivesse apagado completamente algo mais orgânico, mais atento ao vento do que à simetria dos salões. Os olhos eram claros, azuis como céu de primavera, serenos, e traziam uma melancolia diferente da de Tarla: menos lago profundo sob gelo antigo, mais sombra de árvore atravessando um caminho ensolarado.

Ele pegou o datapad, verificou rapidamente se a tela não havia rachado, e o estendeu a ela.

— Desculpe. Eu deveria ter prestado mais atenção.

Rum'ea olhou primeiro para o datapad na mão dele, depois para o rosto dele, depois para o espaço entre ambos. Ele não avançou mais. Apenas permaneceu abaixado, braço estendido, sem aproximar o corpo inteiro. Isso contou a favor dele.

Ela pegou o datapad.

— Eu também deveria. — Admitiu, com uma honestidade tão brusca que parecia quase uma acusação contra si mesma.

O Cavaleiro sorriu de leve e estendeu a outra mão, oferecendo ajuda para que ela se levantasse. Rum'ea encarou a mão por uma fração de segundo a mais do que uma pessoa comum faria. Era uma mão grande. Dedos longos, palma marcada por treino, unhas limpas, nenhuma pressa. Ela considerou recusar. Considerou levantar sozinha apenas para provar que podia. Considerou também que cair sentada já havia sido vexame suficiente e que uma recusa dramática só faria o corredor prestar mais atenção.

Aceitou.

A mão dele fechou-se em torno da dela apenas o necessário para ajudá-la a ficar de pé. Assim que Rum'ea recuperou o equilíbrio, ele soltou. Sem demora. Sem aperto extra. Sem qualquer tentativa de transformar auxílio em permanência.

Mais um ponto a favor dele.

— Cavaleiro Qui-Gon Jinn. — Apresentou-se ele, inclinando a cabeça.

Rum'ea endireitou as vestes e demorou mais um instante observando-o, agora com atenção frontal. O nome lhe parecia vagamente conhecido de corredores, não de arquivos. Havia sempre nomes flutuando pelo Templo: aprendizes promissores, Cavaleiros recém-destacados, Mestres excêntricos, missões, linhagens. Ela ainda não sabia onde encaixar todos.

— Padawan Rum'ea Olphen.

O sorriso dele se aprofundou apenas um pouco, não em zombaria, mas em reconhecimento.

— Eu sei.

Ela inclinou a cabeça.

— Sabe?

— A Padawan tardia de um Mestre que não aceitava Padawans há setenta anos é algo que corre pelos corredores do Templo com bastante velocidade.

Rum'ea ficou imóvel.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Provavelmente não.

— Não sabia que Jedi podiam fofocar.

— Ainda somos seres sencientes.

Ela o encarou por mais um momento, decidindo, contra a própria vontade, que a resposta era aceitável. Não confortável. Mas aceitável. Qui-Gon Jinn não parecia ter a polidez afiada de Dookan, nem a solenidade antiga de Yoda, nem a presença de árvore enorme e peluda de Tyvokka. Também não tinha o lago de Tarla. Havia nele outra coisa, algo que não a pressionava de imediato, mas a fazia querer entender que tipo de silêncio carregava.

— Sua aparência é um pouco desconcertante. — Disse ela.

Qui-Gon piscou, como se aquela não fosse exatamente a direção esperada da conversa.

— Minha aparência?

— Não inteira. Só partes fundamentais.

O Cavaleiro pareceu aceitar a frase com interesse genuíno em vez de ofensa.

— Quais partes fundamentais?

Rum'ea segurou os datapads contra o peito, esquecendo por um instante o relatório aberto.

— Você se parece com Tarla em algumas coisas. Um pouco no rosto. E na altura. Mas não no resto do corpo. Ele é mais... — Ela fez um gesto vago para cima, como se tentasse indicar um edifício, uma montanha ou um problema estrutural. — Mais. Mas há uma melancolia parecida. E quietude. Só que a dele é diferente. Tarla parece um lago enorme que ainda estaria gelado mesmo se o sol explodisse em cima. Você parece mais uma árvore balançando as folhas preguiçosamente numa tarde ensolarada de primavera.

A frase ficou no corredor.

Dois younglings que passavam perto demais olharam para Qui-Gon como se esperassem para descobrir se aquilo era insulto. Uma Cavaleira rodiana, alguns passos atrás, sorriu para dentro e continuou andando.

Qui-Gon, para crédito dele, não pareceu ofendido. Pelo contrário: algo no rosto dele se iluminou de uma maneira suave, como se Rum'ea tivesse lhe oferecido uma pequena peça incomum e ele a estivesse virando na mão para admirar os lados.

— Acho que gosto da descrição. — Disse ele.

— Sério? É estranha.

— Muitas descrições precisas são.

— Não sei se é precisa. Eu não conheço você.

— Ainda assim, talvez a Força conheça o suficiente para lhe oferecer uma primeira impressão interessante.

Rum'ea estreitou os olhos.

— Você fala assim sempre?

— Assim como?

— Como se estivesse deixando espaço para uma resposta que ainda não existe.

Qui-Gon riu baixo.

— Mestre Dookan diria que isso é uma falha minha.

O nome provocou em Rum'ea uma reação interna imediata. Príncipe vilão. Ela quase sorriu, mas conteve por pura sobrevivência social.

— Dookan foi seu Mestre?

— Foi. E ainda é uma presença bastante formadora, mesmo depois de minha elevação a Cavaleiro.

— Isso explica alguma coisa.

— O quê?

— A postura. Mas não a árvore. A árvore é sua.

Qui-Gon pareceu gostar ainda mais disso.

Rum'ea percebeu, com uma cautela curiosa, que ele não tentava encaixá-la depressa em lugar nenhum. Não a olhava como problema, fofoca ou peça rara do Templo, embora soubesse dela. Não parecia ansioso para demonstrar que não tinha medo dela, nem interessado demais em provar gentileza. A presença dele era tranquila de outro modo: movia-se ao redor das coisas como vento leve, não como mão estendida. Isso era, de fato, desconcertante.

Ela olhou para o datapad e lembrou que estava indo a algum lugar.

— Eu estava ocupada.

— Imagino. O relatório parece muito interessante. Poucos fazem corredores desaparecerem.

— O corredor se colocou na frente.

— Entendo. Um comportamento infeliz mas extremamente comum em corredores.

Rum'ea franziu o cenho, mas o canto da boca quase traiu o início de um sorriso.

Qui-Gon indicou o caminho com uma leve inclinação da cabeça, sem apontar diretamente.

— Posso acompanhá-la?

Ela olhou para ele como se a pergunta tivesse sido feita de trás para frente.

— Você não sabe para onde estou indo.

— Não.

— E quer acompanhar mesmo assim?

— Gostaria de prolongar uma conversa interessante quando a Força tão gentilmente me oferece uma.

Rum'ea ficou quieta por um instante, avaliando-o. A frase era absurda o bastante para soar ensaiada em qualquer outra boca, mas nele parecia simplesmente verdadeira. Não porque fosse ingênuo — ela não achava que ele fosse, e Qui-Gon tampouco parecia. Havia quietude demais nos olhos dele para ingenuidade simples. Parecia apenas alguém disposto a aceitar um encontro acidental como coisa que talvez merecesse alguns passos a mais antes de ser descartada.

— Estou indo aos arquivos. — Disse ela.

— Surpreendente. — Respondeu Qui-Gon, com tanta suavidade que a ironia quase passou despercebida.

Rum'ea olhou para ele de lado.

— Você está zombando?

— Apenas reconhecendo que os corredores também falam sobre sua tendência a desaparecer entre datapads.

— Os corredores falam demais.

— Concordo.

Ela começou a andar, desta vez olhando para frente em vez de para a tela. Qui-Gon a acompanhou mantendo um passo confortável, sem fazê-la acelerar, sem obrigá-la a sentir que estava sendo escoltada. A altura dele era maior que a dela, como a de quase todos no Templo, mas não esmagadora. Ainda assim, Rum'ea percebeu que ele ajustava a distância naturalmente, sem precisar tornar o gesto visível. Mais um ponto a favor.

— Mestre Kesyk sabe que você lê caminhando? — Perguntou Qui-Gon.

— Sabe.

— E aprova?

— Ele diz que é uma forma eficiente de descobrir quinas, colunas, degraus e consequências.

Qui-Gon sorriu.

— Isso soa como Mestre Kesyk.

Rum'ea olhou para ele com interesse renovado.

— Você conhece Tarla?

— Todos conhecem Mestre Kesyk de algum modo. Alguns por missão. Alguns por instrução. Alguns por reputação. Eu o encontrei algumas vezes em contextos diplomáticos e em aulas abertas. Ele tem uma maneira rara de ouvir antes de decidir onde colocar a próxima palavra.

A descrição fez algo quieto se mover nela, uma pequena satisfação defensiva. Rum'ea não gostava quando falavam de Tarla como se ele fosse apenas bonito, alto, trágico ou excessivamente educado. Gostou que Qui-Gon tivesse notado a escuta.

— Ele também tem chá horrível. — Anunciou ela solemente.

— Isso eu não sabia.

— Agora sabe. Se ele oferecer algo do norte de Keshtara, fuja.

— Vou guardar esse conselho com seriedade.

— Ele diz que é gosto adquirido.

— Costuma ser uma frase perigosa.

— Foi o que eu disse.

Caminharam em silêncio por alguns passos. O Templo parecia reorganizar-se ao redor deles, e Rum'ea ficou consciente, de modo vago, de que algumas pessoas olhavam. Não por escândalo. Apenas por curiosidade. A Padawan tardia de Tarla Kesyk conversando com o jovem Cavaleiro Qui-Gon Jinn, ex-Padawan de Dookan, provavelmente era uma combinação suficiente para alimentar pelo menos três comentários discretos até o jantar.

Ela decidiu ignorar.

— Você sempre deixa a Força decidir com quem vai conversar? — Perguntou.

Qui-Gon pensou um instante antes de responder, como se realmente levasse a pergunta a sério.

— Nem sempre. Mas tento perceber quando ela empurra uma porta pequena. Muitas pessoas esperam grandes sinais. Visões. Vozes. Pressentimentos dramáticos. Às vezes, a Força oferece apenas uma colisão no corredor e um datapad caído.

Rum'ea apertou os olhos.

— Isso parece uma justificativa mística para eu ser desastrada.

— Talvez ambas as coisas sejam verdadeiras.

— Essa resposta é muito Jedi.

— Receio que sim.

— Você parece menos irritante do que a maioria quando faz isso.

— Considerarei um elogio.

— Foi uma observação.

— Mestre Dookan diria que a forma de uma observação muitas vezes revela a educação de um elogio.

Rum'ea parou de andar por meio segundo e olhou para ele.

— Isso é exatamente o tipo de coisa que um príncipe vilão diria.

Qui-Gon virou o rosto para ela, claramente lutando contra uma reação que talvez não fosse inteiramente adequada ao corredor principal do Templo.

— … Príncipe vilão?

Rum'ea ficou imóvel.

Havia cometido um erro. E, desta vez, não fora pelo vínculo.

Em voz alta.

— Não repita isso.

Qui-Gon apertou os lábios, mas os olhos estavam rindo.

— Naturalmente.

— Especialmente para ele.

— Jamais ousaria.

— Você parece alguém que ousaria se achasse necessário.

— Necessário, talvez. Prudente, não.

Ela o observou por um instante mais longo.

— Você gosta dele.

— Sim.

A resposta veio sem hesitação.

— Mesmo ele parecendo capaz de desaprovar uma cadeira até ela pedir desculpas?

Qui-Gon riu de verdade, baixo e quente, e algumas pessoas no corredor olharam brevemente para eles antes de seguir.

— Especialmente por isso, talvez.

Rum'ea decidiu que o Cavaleiro Jinn era estranho.

Não de modo ruim.

Estranho como certas peças encontradas dentro de motores antigos que não pertenciam ao modelo, mas faziam o conjunto funcionar melhor por razões desconhecidas. Estranho como uma árvore que crescia inclinada e, por isso, dava sombra no lugar certo. Ainda não confiava nele, porque isso seria absurdo. Mas ele não a incomodava da forma como muitos homens a incomodavam. Não suavizava a voz demais. Não forçava proximidade. Não parecia ofendido quando ela era áspera. E, acima de tudo, não tinha pressa de ser entendido.

Chegaram à entrada dos arquivos.

Rum'ea parou diante das portas altas e olhou para ele.

— Você ainda quer entrar?

— Se sua pesquisa permitir companhia.

— Não vou explicar tudo.

— Posso aceitar ignorância parcial.

— Também não vou conversar se encontrar algo interessante.

— Posso aceitar silêncio.

Ela avaliou a resposta.

— Você é muito conveniente.

— Já me chamaram de muitas coisas. Essa eu ainda não tinha ouvido.

As portas dos arquivos se abriram diante deles com um sussurro suave. O interior cheirava a metal frio, poeira limpa, memória e luz de projeções. Rum'ea deu um passo para dentro, depois olhou de volta para Qui-Gon.

— Se você falar enquanto eu estiver lendo uma cláusula complicada, vou mandar você embora.

Qui-Gon inclinou a cabeça com solenidade perfeita.

— Entendido, Padawan Olphen.

Ela fez uma careta pequena diante da formalidade, mas não corrigiu.

Enquanto caminhavam para uma das mesas laterais, Rum'ea sentiu, muito ao fundo do vínculo com Tarla, uma quietude familiar, distante, como um lago percebendo que uma pedra nova tocara a margem sem ameaça. Tarla não perguntava. Não invadia. Apenas estava ali, no modo discreto como sempre estava quando ela se afastava dentro do Templo e ainda assim podia encontrá-lo se precisasse.

Qui-Gon ocupou o assento à frente dela, deixando espaço suficiente para os datapads, e observou em silêncio enquanto Rum'ea reorganizava os documentos com uma rapidez possessiva. Depois de alguns minutos, ela ergueu os olhos e percebeu que ele realmente não falava.

— Você realmente vai ficar só olhando?

— Estou praticando aceitar silêncio.

— Isso é uma aula?

— Talvez.

— Minha?

— Talvez minha.

Rum'ea olhou para ele por mais um segundo, depois voltou ao datapad.

O corredor, a colisão e a queda sentada no chão já tinham começado a se transformar em algo menos humilhante na memória. Ainda ridículo, sim, mas menos inútil. Talvez Qui-Gon estivesse certo em uma coisa: às vezes, a Força oferecia apenas uma colisão no corredor.

Ainda assim, Rum'ea decidiu que, da próxima vez, leria andando mais devagar.

Ou colocaria a culpa no corredor outra vez.