A Profecia dos Amantes
10 O Bastão
O salão de treino para younglings estava cheio de barulho pequeno.
Não era desordem de verdade, porque o Templo Jedi dificilmente permitia que qualquer atividade chegasse a se tornar caos completo, mas havia ali aquela espécie particular de energia que só crianças em grupo conseguiam produzir: passos rápidos demais no chão polido, perguntas lançadas antes de as respostas terminarem, sabres de treino acesos e apagados sem necessidade, risadas curtas, indignações intensas por coisas que deixariam de importar em aproximadamente doze segundos, e uma agitação geral que fazia o ar parecer mais leve e mais difícil ao mesmo tempo. Tarla estava no centro disso tudo com a serenidade de quem já aceitara, muitos anos antes, que ensinar Forma I a um grupo de iniciados exigia tanto domínio espiritual quanto perícia marcial.
Rum'ea deveria ter ido ali apenas para observar.
Esse havia sido o plano inicial: acompanhar Tarla, fazer anotações, observar como ele conduzia uma aula comunal e talvez aprender alguma coisa útil sobre pedagogia Jedi, já que, segundo ele, “observar o ensino também ensina”. Rum'ea achara isso irritantemente circular, mas o seguira mesmo assim, datapad em mãos e disposição limitada para socializar com uma dúzia de pequenos seres cheios de energia e sabres de treino.
O problema começou quando os younglings decidiram se interessar por ela.
No início vieram as perguntas simples, lançadas enquanto Tarla organizava os alunos em semicírculo.
— Você é Padawan nova?
— Seu cabelo é tão comprido assim de verdade?
— Por que sua trança tem mais coisas do que a do Jom?
— Você já lutou com piratas?
— Você é da Orla Exterior?
— Você sabe fazer telecinese grande?
— Você vai ficar só olhando?
Rum'ea respondeu às três primeiras com frases curtas, ignorou deliberadamente a quarta, franziu o cenho para a quinta, fez uma careta à sexta e, à sétima, respondeu com total certeza:
— Sim.
Não foi suficiente.
As crianças continuaram orbitando ao redor dela com a insistência quase sobrenatural dos jovens. Um menino twi'lek perguntou por que ela parecia estar pronta para morder alguém. Uma pequena mirialana quis saber se Rum'ea já tinha um sabre de luz. Um humano de orelhas ligeiramente avantajadas perguntou se ela sabia todas as formas ou só algumas. Então uma garotinha nautolana, segurando um sabre de treino azul com duas mãos muito sérias, olhou para Rum'ea de cima a baixo e disse, com a crueldade inocente das crianças:
— Você realmente veio só olhar? Isso parece chato.
Tarla, que ouvira tudo enquanto distribuía posições com a calma de sempre, ergueu os olhos.
Rum'ea sentiu o perigo antes de ele falar.
— Padawan Olphen. — Disse ele em voz alta, sereno demais – Junte-se à formação.
Ela virou lentamente o rosto para ele.
— O quê?
— Será útil.
— Eu não tenho sabre de treino.
Tarla olhou ao redor, encontrou junto à parede um cabo de vassoura deixado ali por algum zelador ou por alguma intervenção irônica da própria Força, pegou-o e o entregou a ela.
O silêncio de Rum'ea durou um segundo inteiro.
Depois, ela recebeu o cabo.
Não porque quisesse, porque definitivamente não queria, mas porque a humilhação era tão pura que ultrapassara a resistência e entrara no território do destino inevitável.
Os younglings, naturalmente, acharam aquilo excelente.
E foi assim que Rum'ea Olphen, vinte anos, ex-catadora de Kyrmora, Padawan recém-chegada ao Templo Jedi, encontrou-se de pé em uma fileira de crianças da altura de seu esterno, segurando um cabo de vassoura no lugar de um sabre de treino, pronta para aprender Forma I comunalmente como se o universo tivesse decidido se vingar de cada comentário sarcástico que ela fizera nas últimas semanas e cobrar juros exorbitantes.
Tarla começou a aula como se nada naquele quadro fosse extraordinário.
Ele explicou os princípios de Shii-Cho com clareza simples e ajustada aos iniciados, falando da base, do alinhamento do corpo, do fluxo básico dos cortes, da importância de sentir o eixo dos movimentos antes de se preocupar com velocidade. Demonstrou com um sabre de treino desligado primeiro, depois com a lâmina breve acesa, verde-clara e suave. As crianças imitavam com graus variados de competência e entusiasmo, e Rum'ea, entre elas, fazia o mesmo com o cabo de vassoura.
Ela se destacava contra a própria vontade.
Não era apenas o fato de que era mais velha ou porque seu cabelo negro solto e a trança de Padawan a faziam parecer deslocada no meio de pequenos seres de treinamento inicial. Destacava-se porque, apesar da humilhação evidente, seu corpo aprendia rápido. Tinha rigidez onde não devia, tensão nos ombros e uma economia feroz demais para uma forma inicial que deveria ser ampla e limpa, mas havia nela o instinto de equilíbrio, de ajuste, de resposta... Mesmo com um cabo de vassoura ridículo, feio e ainda cheirando a produtos de limpeza. Mesmo alta entre eles. Mesmo tendo a expressão de alguém que estava simultaneamente absorvendo técnica e planejando como narraria aquela desgraça para traumatizar Tarla depois.
Apesar da humilhação, Tarla sabia que corrigi-la em voz alta teria sido pior, então as correções vieram pelo vínculo.
Afaste mais o pé esquerdo.
Rum'ea ajustou.
Não estrangule o cabo como se ele lhe devesse dinheiro.
Ela apertou o maxilar e afrouxou um pouco as mãos.
O corte não termina no seu rancor. Continua pelo eixo.
Meu rancor é parte do eixo, rebateu ela imediatamente.
Tarla continuou a andar entre os younglings, corrigindo posições em voz alta aqui e ali, elogiando um bloqueio, reposicionando uma guarda, enquanto por dentro seguia orientando Rum'ea.
Punho mais solto.
Se ele fosse um sabre de treino de verdade, eu estaria melhor emocionalmente.
Duvido que o cabo seja a origem central do problema.
Você me colocou numa aula com crianças que têm sabres e eu tenho um instrumento doméstico.
Tarla, sem virar o rosto, deixou que um fio de amusemento atravessasse o vínculo.
Um instrumento doméstico extremamente versátil.
É feio, ridículo, e tem cheiro do que quer que seja que usam para limpar os banheiros.
Vê? Versátil.
Rum'ea, ofendida em níveis filosóficos, começou então a mandar imagens mentais absurdas com a precisão vingativa de quem não podia falar em voz alta.
A primeira foi dela executando o movimento de corte horizontal enquanto fazia com a boca o som de um sabre: uón.
Tarla quase sorriu diante dos younglings.
O som está errado, advertiu ele.
Você não pode me impedir de fazê-lo na mente.
Infelizmente, não. Mas continua errado. Dois tons mais grave. Talvez um e meio.
A imagem seguinte veio imediata: Rum'ea apontando, em indignação total, para cada youngling à sua volta e proclamando mentalmente que seres com dentes de leite têm sabres de treino e eu não.
Tarla respondeu antes que o pensamento terminasse de se inflar.
Nem todas as raças trocam de dentição. Talvez você devesse fazer uma visita aos arquivos antes de transformar isso em argumento biológico.
Rum'ea, sem perder o ritmo do exercício, enviou-lhe a imagem de si mesma abrindo um enorme tomo anatômico Jedi enquanto declarava que aquele era um ataque pessoal muito específico.
A aula prosseguiu.
Tarla os fez repetir a sequência básica de guarda, corte descendente, recuperação e passo. Rum'ea executou com empenho quase agressivo, e os younglings, percebendo nela aquela mistura deliciosa de pessoa mais velha e alvo cômico involuntário, começaram a olhá-la com um respeito cauteloso. Ela claramente sabia se mover. O cabo de vassoura, por mais indigno que fosse, não a impedia de fazer os movimentos com melhor precisão do que a maioria deles. O que não era, por si, um feito muito relevante.
Ainda assim, o vínculo não lhe dava descanso.
Cotovelos mais baixos.
Um dia vou envenenar seu chá.
Você não sabe onde guardo as folhas.
Aprenderei.
Isso, tecnicamente, seria avanço pedagógico.
Rum'ea executou outro corte e então lhe mandou a imagem mental do cabo de vassoura sendo pintado. Tarla, de início, quase aprovou, até perceber que a imagem mudava de cor à medida que ela a construía.
Pinte-o de azul, sugeriu ele, porque aparentemente sua própria mente já estava resignada a colaborar com a insanidade.
Rum'ea o rebateu na mesma fração de segundo.
Depois dessa humilhação, vou pintar de vermelho e ir para o Lado Negro porque o Mestre me colocou numa aula com younglings que têm sabres de treino enquanto eu tenho um cabo de vassoura.
A imagem veio inteira: Rum'ea, com o cabo pintado de vermelho, capa dramática surgida do nada, chegando diante de um Lord Sith muito alto e sombrio. Ela lhe explicava, com absoluta solenidade, a origem de sua queda. O Lord Sith, sem qualquer traço de ironia, colocava as mãos atrás das costas, baixava a cabeça em grave compreensão e respondia que aquele era, de fato, um motivo mais que aceitável para abraçar as trevas.
Tarla sentiu o riso subir como perigo real.
Uma motivação incomum, respondeu, controlado.
Mas extremamente justa.
Talvez o Código Sith precise de um adendo específico sobre equipamentos de limpeza.
Ela quase errou com a satisfação ofensiva por tê-lo feito responder.
No exercício seguinte, enquanto as crianças treinavam pares básicos de desarme sem impacto, Rum'ea ficou novamente na ponta da fileira com o cabo de vassoura, demonstrando ângulos sozinha sob orientação do vínculo. Foi então que ela mandou a próxima imagem: uma roda de apoio moral no Lado Negro. Vários Sith encapuzados sentados em círculo, em cadeiras modestas, contando suas histórias trágicas e bebendo algum chá calmante. Um falava sobre traição do Mestre. Outro sobre abandono. Outro sobre sede de poder e vazio existencial. Então chegava a vez de Rum'ea. Ela contava, com voz grave, que um Mestre Jedi a colocara numa aula de Forma I com younglings armados enquanto ela portava apenas um cabo de vassoura. Na imagem, alguns Sith levavam a mão à boca. Um chorava abertamente. Outro dizia que aquilo explicava tudo.
Tarla desviou o olhar para o lado oposto do salão antes que os iniciados vissem qualquer reação imprópria em seu rosto.
Se houvesse grupo de apoio emocional, comentou ele pelo vínculo, talvez não houvesse Sith.
Rum'ea não perdeu o tempo.
Então por que os Jedi ainda tentam resolver o problema do equilíbrio da Força com sabres de luz quando um abraço e terapia seriam suficientes?
Tarla ajustou a postura de um pequeno ithoriano com a mão livre, enquanto mentalmente respondia, com toda a gravidade que o absurdo pedia:
Você pode mandar uma sugestão ao Alto Conselho.
Vou redigir em linguagem diplomática para piorar o impacto.
Isso seria coerente com seu desenvolvimento recente.
Ela quase soltou uma risada em voz alta.
O pior, para o orgulho dela, era que estava aprendendo de fato. Tarla corrigia só o necessário, sempre evitando fazer dela um exemplo público. Quando ela alargava demais o arco, ele a recolhia pelo vínculo. Quando o peso caía todo no pé errado, ele reposicionava sua atenção. Quando os ombros subiam como se ela estivesse se preparando para escalar uma carcaça de nave em vez de conduzir uma forma básica, ele a fazia descer a tensão.
Os younglings, por sua vez, pareciam tê-la aceitado como uma espécie de aluna estranha e temporária, o que, para Rum'ea, era preferível a ser tratada como visitante. Um menino zabrak pediu para ver como ela fazia o corte diagonal. Uma pequena togruta observou que Rum'ea “girava melhor do que o cabo merecia”. Rum'ea aceitou esse comentário como a maior honra do dia.
Então, em algum momento perto do fim, veio a imagem final da vingança.
Rum'ea projetou mentalmente o cabo de vassoura — agora devidamente pintado de vermelho e transformado em símbolo de sua queda hipotética para as trevas — sendo lançado na cabeça de Tarla com majestade trágica. A imagem era boa, dramática, satisfatória.
Tarla sequer hesitou.
Corrija a imagem mental. Do ângulo em que foi jogado, claramente erraria.
Rum'ea ficou tão ofendida com a precisão da crítica que errou de verdade o movimento seguinte.
Tarla sentiu a indignação dela explodir em chamas silenciosas.
Você acabou de analisar a balística do meu ataque imaginário!
Seu ataque imaginário carecia de rigor.
Eu odeio sua mente.
E ainda assim, a consulta com frequência.
Ela quis responder que era por falta de opção, mas nesse momento Tarla encerrou a última sequência e chamou os iniciados para formar o semicírculo final. Todos se alinharam, ofegantes, orgulhosos e um pouco suados, com sabres de treino nas mãos. Rum'ea estava entre eles, com o cabo de vassoura apoiado verticalmente ao lado do corpo como se fosse um bastão cerimonial de humilhação pública.
Tarla fez o encerramento da aula com simplicidade, elogiando esforço, postura, atenção e lembrando a todos que Forma I existia para ensinar base, não para alimentar pressa. Respondeu ainda duas perguntas finais, uma sobre por que Shii-Cho ainda importava se havia formas mais avançadas, outra sobre se um sabre podia “ficar com raiva”. Rum'ea suspeitou que a segunda fora feita apenas para ouvir a resposta dele.
Quando os younglings começaram a sair, alguns ainda olhando curiosos para Rum'ea e seu cabo, Tarla se aproximou dela com toda a compostura de quem não acabara de passar uma hora ouvindo teorias mentais sobre terapia Sith.
Ele não falou em voz alta.
Recomendo que pinte o cabo de azul.
Rum'ea ergueu os olhos para ele.
Depois de tudo isso?
Sim. Vermelho pode causar uma comoção menor entre os iniciados e uma comoção muito maior com o Conselho.
Ela cruzou os braços, ainda segurando o cabo.
Então é censura estética.
É prevenção institucional.
O Lado Negro teria me deixado usar vermelho.
O Lado Negro aprova muitas decisões ruins com excelente convicção.
Rum'ea inclinou a cabeça, desconfiada.
E por que azul?
Tarla deixou então passar pelo vínculo um fio de diversao tão calmo que a irritou imediatamente.
Azul mantém a coerência estética.
Ela ficou olhando para ele por um segundo inteiro.
Depois para o cabo de vassoura.
Depois de volta para ele.
Você está dizendo que meu cabo de humilhação combina comigo.
Estou dizendo que, se vai teatralizar sua queda, ao menos faça isso com consistência visual.
A queda precisa de um sabre vermelho.
De fato. Mas isto não é um sabre, é?
Rum'ea soltou ar pelo nariz, num quase-riso muito a contragosto, e apoiou o cabo no ombro como se aceitasse, temporariamente, sua condição de jovem candidata ao Lado Negro por razões domésticas.
— Você é insuportável. — Declarou enfim, em voz alta.
Tarla inclinou a cabeça.
— Isso já me foi dito anteriormente.
— Consigo entender o porquê.
Ela começou a se afastar com o cabo na mão e a dignidade parcialmente recuperada, mas antes de cruzar a porta do salão ainda lhe mandou uma última imagem mental: o cabo pintado de azul, brilhando solenemente, enquanto um grupo de Sith em círculo de apoio emocional assentia com aprovação e um deles enxugava discretamente uma lágrima.
Tarla, sozinho no centro do salão agora quase vazio, sorriu de verdade, e Rum’ea, no corredor, girou o cabo na mão.
Uón.
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