O quarto designado a Rum'ea Olphen era limpo demais.

Essa foi a primeira coisa que ela pensou ao atravessar a soleira naquela manhã, alguns passos à frente de Mestre Kesyk, ainda näo acostumada ao modo como as portas do Templo se abriam sem rangido, sem resistência e sem exigir força nos ombros. Estranho. Em Kyrmora, portas boas eram as portas que emperravam, porque ao menos avisavam quando alguém tentava entrar. Portas silenciosas pertenciam a lugares onde pessoas desapareciam misteriosamente. Ali, porém, tudo parecia feito para não ferir: o piso era aquecido sob as botas gastas, a janela alta tinha vista para as torres de Coruscant, a cama estreita era coberta por lençóis claros e leves, o armário embutido esperava, vazio, a bacia de água refletia luz, a bancada baixa com escova, toalha e um pequeno espelho oval apoiado numa moldura de metal fosco pareciam esperar em silêncio.

Limpo demais.

Calmo demais.

Aberto demais.

Rum'ea parou no meio do quarto como se tivesse sido colocada dentro de uma armadilha elegante, e agora esperava o momento da captura.

Tarla ficou do lado de fora. Não passou da soleira sem pedir.

Ele usava as mesmas vestes claras do dia anterior (e, Rum'ea suspeitava, de todos os dias que passaram e seguiriam), camadas de tecido cru presas por uma faixa escura na cintura, o cabelo comprido caindo sobre os ombros e alguns fios prateados tocando-lhe a barba curta, já também levemente prateada. A altura dele continuava sendo um absurdo, mesmo depois de uma noite inteira tentando convencer-se de que não era. Visto dentro do quarto pequeno, parecia ainda maior, como se uma parte da arquitetura tivesse decidido respirar. Uma pilastra, talvez. Mas ele mantinha as mãos visíveis, relaxadas, segurando uma caixa, e não bloqueava a saída. Rum'ea percebeu isso de imediato. Percebeu também que ele havia deixado espaço suficiente para que ela passasse por ele se quisesse fugir.

E aquilo a irritou.

Não porque fosse ameaça.

Justamente porque não era.

- Posso entrar? — Perguntou ele.

Rum'ea olhou para a janela, para a porta, para o espelho, para as mãos dele, para a própria cama. Depois ergueu o queixo, quase que em desafio.

- O quarto é de vocês.

- Sim. Mas foi dado a você.

- Por vocês.

Tarla aceitou a correção com um leve inclinar da cabeça. A paciência naquele homem, pensou Rum'ea, ou era gigantesca, ou era falsa.

- Então posso entrar no quarto que foi dado a você por nós?

Ela estreitou os olhos.

Você faz isso de propósito?

Faço muitas coisas. Você vai precisar ser mais específica.

Falar como se cada palavra tivesse que pedir licença antes de sair da sua boca.

Pelo vínculo, ela sentiu a resposta dele antes de vê-lo sorrir. Não foi um sorriso grande, nem aberto demais. Foi apenas uma curva suave no canto da boca, algo quente e paciente, que não exigia nada dela.

Com você, talvez as palavras precisem mesmo pedir licença.

Rum'ea desviou o rosto depressa, fingindo examinar a bancada. A resposta era estranha.

Ele era estranho.

- Entra logo.

Tarla entrou após um leve aceno com a cabeça, e não fechou a porta.

Esse detalhe passou por ela como uma lâmina sendo guardada na bainha. A porta aberta não a acalmou completamente, mas impediu que seu corpo entrasse em guerra antes que sua mente conseguisse decidir se havia de fato uma guerra. Ele caminhou até a pequena mesa próxima à janela e depositou sobre ela a caixa longa de madeira escura que carregava, já polida pelo tempo. Não era uma caixa do Templo, definitivamente. Não tinha a geometria lisa dos objetos Jedi, nem a impessoalidade perfeita das coisas de Coruscant. A madeira possuía veios profundos, avermelhados, e marcas finas talhadas à mão ao longo das bordas. Letras? Rum'ea sentiu, antes de perguntar, que aquele objeto tinha atravessado muitos anos com ele.

- A trança de Padawan será feita atrás da orelha direita. — Começou Tarla. — É a posição tradicional. As linhagens variam os adornos, mas o lugar permanece quase sempre o mesmo. A menos que tenha alguma objeção ao lado direito.

Rum'ea levou a mão automaticamente ao cabelo. Os fios negros, longos e ondulados ainda estavam soltos, caindo sobre os ombros e pelas costas como uma cortina pesada, cheios. Ela jamais os cortara por escolha estética. Ou por qualquer escolha. Em Kyrmora, cabelo comprido podia ser escondido sob capuz, trançado para prender ferramentas pequenas, usado como isolamento contra frio seco ou simplesmente deixado crescer porque pequenos objetos podiam ser escondidos ali, e por isso mesmo "trabalhadores" (porque, aparentemente, a palavra "escravos" era forte demais para ouvidos republicanos sensíveis e inconveniente demais para quem estava no topo desta cadeia) de cabelos curtos eram mais confiáveis. Ainda assim, a ideia de alguém tocá-lo a fez endurecer, porque era assim que se arrastava gente pequena demais para becos escuros demais.

Tarla percebeu.

Claro que percebeu.

Ele sempre percebia antes que ela decidisse se odiava isso ou não, afinal, estava dentro da cabeça dela.

- Não preciso fazer se você preferir fazer sozinha. — Disse ele, tranquilo. — Posso apenas orientar.

Rum'ea encontrou os olhos dele no espelho. Ver Tarla refletido era diferente de encará-lo diretamente. No espelho, ele parecia um pouco menos imediato. Ainda enorme, ainda claro, ainda absurdamente tranquilo, mas contido por uma moldura. Ela se agarrou a isso.

- Eu não sei fazer trança de Jedi.

- De Padawan.

- E Padawan não é Jedi?

- É. Mas esta trança é específica de Padawans.

- Que seja. Não sei fazer trança de Jedi ou de Padawan.

- Ninguém nasce sabendo.

Rum'ea parou por alguns segundos, pensando.

- Eu sei fazer nós que não arrebentam com vento.

Tarla também parou por um instante e, em seguida, fez um pequeno aceno com a cabeça, como quem considera um ponto válido.

- Isso pode ser mais útil do que muitas tranças de Jedi.

Ela ficou quieta, e os olhos avelã baixaram.

Pelo vínculo, a pergunta saiu mais baixa do que teria saído em voz alta.

... Você vai puxar?

A expressão dele não mudou, mas alguma coisa se enterneceu ao redor da presença dele na Força, não como pena, e sim como cuidado se dobrando para não ocupar espaço demais.

Gentil.

Não.

Rum'ea ergueu os olhos de novo, em desafio.

Bom. Porque se puxar, eu vou bater em você.

Imagino que sim.

Com força.

Também imagino que sim.

E posso morder.

Você já me avisou disso ontem.

Estou avisando de novo.

Aviso recebido novamente, então.

Rum'ea sentou-se no banco diante do espelho como se estivesse aceitando um interrogatório, não uma cerimônia. As botas permaneceram firmes no chão, os joelhos prontos para impulso, a coluna rígida sob as camadas escuras das roupas de Catadora. Tarla não foi imediatamente para trás dela. Primeiro, abriu a caixa, e Rum'ea espiou dentro com mais curiosidade do que admitiria.

Havia muitos adereços ali.

Muitos.

Pequenas contas metálicas, fios coloridos enrolados em círculos, fragmentos de madeira polida, argolas estreitas, peças minúsculas de osso, cristais opacos, tiras de couro fino, contas de pedra, marcadores de cobre, pequenas lâminas cerimoniais sem corte e objetos tão delicados que Rum'ea não conseguiu imaginar como sobreviveriam presos ao cabelo de alguém que corria, lutava, dormia em chão duro e entrava em ruínas abandonadas.

Ela piscou uma vez, confusa.

Depois outra.

Tudo isso vai na trança?

Tarla olhou para a caixa, depois para o reflexo dela, e dessa vez o sorriso veio um pouco mais nítido.

Não.

Rum'ea continuou encarando os adereços como se eles pudessem atacar.

Tem certeza?

Absoluta. Se eu colocasse todos, a trança sozinha pesaria mais de um quilo e poderia ser usada como arma. Também suspeito que tilintaria demais em missões que exigem furtividade.

Então por que você tem tantos?

Porque Jedi gostam de fingir que são desapegados enquanto acumulam objetos cheios de significado emocional.

Rum'ea soltou um riso curto antes de conseguir impedir.

O som pareceu deslocado dentro da serenidade dos aposentos. Não desagradável, não exatamente. Apenas raro. Tarla ergueu os olhos para o reflexo dela no espelho, parecendo se divertir.

Você é Mestre e acabou de insultar toda a Ordem Jedi.

Sim. Mas o fiz com precisão histórica.

Então você é o que chamam de Jedi cinzento?

Creio que o termo preferível é "maverick".

Que seja. É?

Depende do meu humor quando acordo.

Tarla escolheu uma escova simples e a ergueu para que ela visse pelo espelho.

- Posso?

Rum'ea olhou para a escova. Depois para a mão dele. A mão era grande, com dedos longos, marcada por pequenas cicatrizes pálidas, unhas curtas e limpas. Mãos de Jedi. E, ainda assim, mãos de homem. Mãos que poderiam prender o pulso dela inteiro sem esforço. O pescoço. O corpo quis travar. A mente procurou saída. A Força ao redor dela estalou com interferência, a estática brutal que ainda se agarrava à assinatura dela como tempestade grudada à pele.

Mas Tarla não se moveu.

Ele apenas esperou.

Enorme, sim. Ainda homem. Ainda forte. Ainda definitivamente capaz de subjugá-la com facilidade risível.

Mas esperou.

Eu vou ficar olhando, disse ela pelo vínculo.

Eu esperava que ficasse.

Não olhe para o meu pescoço.

Olharei apenas para a trança.

Se eu mandar parar, você para.

Antes de terminar a palavra.

Porque eu tenho uma adaga.

Eu sei.

E não vou ter pena de usar em você.

Não esperava que tivesse.

Ela engoliu em seco, odiando que a garganta tivesse denunciado qualquer coisa.

- ... Pode.

Tarla aproximou-se devagar, parando atrás dela, mas não perto o bastante para que suas vestes tocassem as costas dela. Pelo espelho, Rum'ea viu que ele se inclinava apenas o necessário, a atenção fixa no lado direito da cabeça dela. Quando a escova tocou os fios pela primeira vez, ela prendeu a respiração.

Não houve puxão.

A escova atravessou uma mecha com uma delicadeza quase irritante. Tarla começou pelas pontas, desfazendo nós pequenos antes de subir, paciente, como se tivesse todo o tempo de Coruscant à disposição. Rum'ea observava cada movimento pelo espelho, procurando descuido, pressa, posse. Não encontrou. Os dedos dele seguravam o cabelo como se aquilo fosse algo emprestado e frágil, não porque ela fosse frágil, mas porque a permissão era.

O silêncio se alongou, quebrado apenas pelas cerdas passando pelos fios.

Fora do quarto, o Templo seguia em sua ordem habitual. Passos distantes, portas suaves, vozes baixas, o rumor quase imperceptível de naves muito longe na cidade. Dentro, havia apenas a respiração dos dois, o som da escova e aquela ponte mental invisível que nenhum Mestre do Alto Conselho notara.

Você já fez isso antes, ela pensou.

A mão de Tarla hesitou por uma fração quase imperceptível.

Sim.

A resposta veio com uma sombra junto. Não uma imagem inteira. Tarla era cuidadoso demais para deixar memórias escaparem sem intenção. Mas Rum'ea sentiu idade, chuva, perda e uma trança menor entre dedos que ainda não tinham tantas cicatrizes. Mais jovens. Com menos perdas.

No Padawan que morreu.

A escova parou.

As mãos também.

Rum'ea se arrependeu no mesmo instante, mas o arrependimento nela parecia irritação, então foi isso que a superfície mostrou.

Desculpa, pensou, rígida. Não era pergunta. Eu só... Vi. Na sala redonda. Quando isso abriu.

Tarla retomou o movimento. Mais devagar, não por hesitação, mas por escolha.

Às vezes o vínculo deixa passar o peso antes da história.

Eu não queria pegar.

Eu sei.

Ele tinha quantos anos?

Quatorze.

Ele era pequeno.

Era.

Rum'ea olhou para o próprio reflexo. A dureza do rosto dela pareceu deslocada por um instante. Em Kyrmora, crianças de quatorze anos já roubavam peças de motores, carregavam lâminas, mentiam por comida, escondiam febre e aprendiam que chorar custava caro, embora não mais caro do que voltar com peças inúteis. Mas ainda eram pequenas quando dormiam. Disso ela lembrava com clareza. O mundo podia chamar de adultos; o sono desmentia.

Você não aceitou outro por causa dele?

Por causa de mim depois dele, respondeu Tarla.

Aquilo a fez erguer os olhos para o reflexo dele.

Qual é a diferença?

Se eu dissesse que foi apenas por causa dele, pareceria devoção. Parte foi medo. Parte foi culpa. Parte foi arrogância disfarçada de prudência.

Rum'ea franziu o cenho.

Jedi admitem essas coisas?

Alguns. Mas apenas em quartos fechados. Para Padawans que podem mordê-los se mentirem.

Dessa vez ela soltou ar pelo nariz, uma quase risada silenciosa. Tarla não comentou. Apenas separou uma mecha fina atrás da orelha direita, medindo a espessura com os dedos. O toque próximo à pele fez Rum'ea ficar imóvel outra vez, mas ele não tocou sua orelha, não roçou seu pescoço, não deixou os dedos se demorarem onde não precisavam. Dividiu a mecha em três partes praticamente iguais com uma precisão tranquila.

- Vou começar. — Ele avisou.

- Eu estou vendo.

- Ainda assim.

Rum'ea não respondeu, mas também não mandou parar.

A trança começou apertada o suficiente para manter forma, solta o bastante para não doer. Tarla cruzou a primeira mecha sobre a segunda, depois a terceira, criando o início de uma linha escura e ordenada no meio do cabelo selvagem. Rum'ea observou aquilo com estranhamento. A trança era pequena, quase discreta, mas parecia alterar tudo. Não mudava suas roupas, claro, nem apagava Kyrmora de suas botas, tampouco limpava a poeira antiga das unhas levemente crescidas. Ainda assim, era uma marca. Um anúncio. Uma frase que o Templo inteiro saberia ler antes mesmo de perguntar seu nome.

Padawan.

Ela ainda não sabia se gostava da palavra. Não sabia se odiava.

Talvez ambos.

Tarla pegou o primeiro adereço: um fio dourado, muito fino, flexível como luz transformada em linha. Ele o ergueu junto ao reflexo dela para mostrar.

Esse é o quê?

Um fio dourado.

A irritação ondulou na mente dela.

Eu estou vendo que é um fio e que é dourado.

Então sua observação está correta.

Ela estreitou os olhos no espelho.

Você está sendo engraçado?

Estou tentando.

Não faça isso enquanto segura meu cabelo. Você é péssimo.

Anotado.

Tarla passou o fio dourado junto às mechas e começou a trançá-lo junto ao cabelo negro, de modo que o brilho aparecia e desaparecia entre os fios como um caminho de sol atravessando pedra escura.

O dourado marca início, explicou ele. Nem sempre é usado. Em algumas linhagens, como a minha, aparece quando o treinamento começa fora da idade comum. Não como vergonha. Nunca como vergonha. Como reconhecimento. Um começo tardio carrega peso próprio. Você não chegou vazia. Chegou com vinte anos de mundo, medo, força, escolhas, feridas e instinto. A trança precisa saber disso.

Rum'ea olhou para o fio dourado pelo espelho.

Ele não parecia acusá-la de atraso. Parecia insistir que o atraso era também história.

E se eu não quiser que ela saiba?

Então ela saberá em silêncio.

Que coisa de Jedi.

Coisa de cabelo. Ele guarda tudo mesmo quando ninguém pergunta.

Ela abaixou os olhos, mas continuou acompanhando o movimento. O fio dourado mergulhava e retornava, às vezes brilhante, às vezes oculto, como se a trança respirasse.

Tarla então escolheu uma pequena conta de prata. Era simples, arredondada, gasta nas bordas por anos de uso. Não tinha o brilho de objeto novo; tinha o brilho macio de coisa tocada muitas vezes. Batida. Segurada. Roçada. Gasta, mas bem tratada. Antes de colocá-la, ele a segurou na palma da mão por um momento para mostrar.

Rum'ea percebeu.

Essa é velha.

Sim.

De onde vem?

Da minha trança de Padawan.

Ela sentiu a memória dele se aproximar, mas não invadir. Um menino keshtari, pequeno para seus trinta anos padrão, olhando para uma sala muito grande. Um Mestre serpentino de presença paciente, mas rígida. Uma trança recém-feita. O peso de não entender ainda o tamanho da galáxia. A saudade de três luas que ele não veria por mais de um século.

Por que está me dando?

Tarla encaixou a conta de prata na trança com cuidado, prendendo-a onde o fio dourado já se misturava aos cabelos.

Emprestando. E porque meu treinamento começou com perda também. Não da mesma forma que o seu, claro. Nenhuma perda é igual. Mas houve separação. Houve um planeta deixado para trás antes que eu pudesse compreendê-lo. Houve uma família transformada em cartas. Quando meu Mestre colocou esta conta em mim, disse que prata lembrava reflexo, não luz própria. Luz recebida, devolvida, transformada. Eu não entendi na época.

E agora?

Agora acredito que entendo um pouco mais.

Rum'ea observou a pequena conta de prata junto ao cabelo escuro e ao fio dourado. Era bonita. Bonita de um jeito discreto, quase perigoso, porque coisas discretas conseguiam entrar onde coisas grandiosas eram rejeitadas.

Você não quer guardar?

Já guardei por muitos anos.

Isso não responde.

Responde sim. Só não da forma que você queria.

Ela não gostou de admitir que isso a fez sentir alguma coisa. Então não admitiu.

Você teve uma também, então?

Tive.

Pesada?

Um pouco.

Menos de um quilo?

Bem menos.

O que acontece com a trança depois?

O Mestre corta. Ou o Cavaleiro.

Então um Padawan pode ser Padawan de um Cavaleiro?

Sim. Quando o Padawan se torna Cavaleiro, o Cavaleiro se torna Mestre.

Que bagunça.

Nem tanto. Faz sentido, se analisado com atenção.

Você disse "corta". Isso é literal, ou é mais linguagem Jedi simbólica?

Literal.

Com uma tesoura?

Não.

Adaga cerimonial feita de metais nobres que brilham bonito sob as luzes de um salão requintado?

Com o sabre.

O vínculo ficou silencioso por longos segundos.

Você vai cortar meu cabelo com um sabre de luz?!

Quando for elevada a Cavaleira, sim.

Isso é preocupante.

Não precisa se preocupar. Até hoje, nunca cortei nenhuma orelha junto.

"Até hoje"?!

Não sou arrogante o suficiente para fingir que sei o que acontecerá no futuro.

Péssimo.

Em seguida, Tarla escolheu um pequeno adereço de madeira. Era estreito, alongado, polido, com uma coloração que parecia indecisa entre castanho, verde profundo e cinza. Quando a luz da janela tocava sua superfície, o tom mudava ligeiramente, como se a madeira ainda lembrasse seiva, estação, tensão e sombra. Rum'ea inclinou a cabeça quase sem perceber.

Esse parece... Vivo.

Um pouco.

Madeira viva?

Não mais. Mas veio de uma árvore que reage ao frio de Keshtara chamada Kyyti. A cor muda conforme a tensão da fibra, a umidade, o calor da mão. Toda trança de Padawan precisa de algo de madeira.

Que estranho. Por que precisa de madeira?

Tarla inseriu o adereço com uma delicadeza cerimonial, prendendo-o abaixo da conta de prata.

Porque madeira muda sem deixar de ser madeira. Ela tensiona, curva, escurece, clareia, guarda marcas de corte, de arranhões, de batidas. Mesmo depois, lembra o que foi. Para um Padawan, isso importa. Treinamento não é pedra. Pelo menos, não deveria ser.

Rum'ea encarou o pedaço de madeira.

Em Kyrmora, madeira boa era rara.

Então justamente por ser rara talvez pertença à sua trança.

A resposta pareceu ficar entre eles como uma brasa pequena. Rum'ea pensou nas coisas raras de Kyrmora: água limpa, comida, sono seguro, abrigo, mãos que não tomavam, silêncio que não antecedia violência. Nenhuma delas caberia numa trança. Nenhuma delas deveria ser rara.

Tarla voltou à caixa e retirou um fragmento pequeno de osso claro, talhado em forma irregular, quase como um dente achatado ou lasca de costela polida pelo tempo. Havia inscrições minúsculas gravadas na superfície, tão finas que Rum'ea só as viu porque o reflexo captou a luz de lado, criando pequenas sombras. Aquele parecia muito antigo, embora não fosse quebrado. Antigo no sentido de ter sido guardado por mãos cuidadosas.

O sangue do rosto dela desapareceu.

Isso é osso.

Sim.

... De quê?

De mörën, um animal das florestas de Keshtara. Morreu antes de eu nascer. Minha família guardava fragmentos para cerimônias de infância.

Ela não piscou.

Você ganhou isso quando?

Quando eu tinha quatro anos keshtari.

A mão dele ficou imóvel por um instante, o fragmento entre os dedos, e os olhos verdes pareceram se perderem em lembranças.

Foi após a Vigília. Em Keshtara, crianças entre quatro e sete anos vão para as cavernas durante o meio do inverno. Não sozinhas no caminho, mas sozinhas no silêncio. Os adultos nos levam até a entrada e esperam fora. Lá dentro, ficamos sem falar. Ouvimos o planeta. Ouvimos a água sob o gelo, o vento nos túneis, as rachaduras da pedra, nossa própria respiração. A ideia é aprender que o mundo fala antes das pessoas, e que nós também fazemos barulho demais por dentro.

Rum'ea ficou muito quieta.

Vocës deixam crianças sozinhas em cavernas no inverno?

Sim.

E vocês acham isso normal?

Vocês em Kyrmora deixam crianças fazerem coisas perigosas?

Ela quase respondeu com agressividade, mas a resposta morreu antes de virar forma porque a respsota era óbvia. Sim. Claro que sim. Mas em Kyrmora ninguém chamava aquilo de cerimônia porque não havia cerimônia alguma. Chamavam de necessidade, quando chamavam de alguma coisa.

Alguém fica perto? ela finalmente perguntou.

Do lado de fora. Sempre.

E se a criança gritar?

Entram.

E se não gritar porque acha que não deixam?

Tarla olhou para o reflexo dela. Os olhos verdes dele, levemente caídos nos cantos, estavam muito calmos e muito tristes.

Então a Vigília e a própria Keshtara falhou com aquela criança.

Rum'ea não desviou o olhar.

Tarla prendeu o fragmento de osso na trança.

Esse simboliza escuta, disse ele. Não obediência. Escuta. Há diferença. Escutar o planeta, escutar a Força, escutar o medo sem torná-lo seu senhor, escutar o outro sem entregar a garganta. Escutar a si mesma quando todos ao redor tentarem nomeá-la antes de você.

Rum'ea sentiu a garganta apertar de novo e odiou aquilo com uma força quase cômica.

O que está escrito?

Tarla passou o polegar muito levemente pela inscrição antes de soltá-la. O cabelo não puxou.

"A neve não responde a quem grita. Ela espera quem aprende a ouvir."

Ela fez uma careta.

Keshtaret gostam de falar como se todo mundo tivesse tempo para virar poema?

Ele soltou o ar pelo nariz, parecendo achar graça.

Gostamos.

Isso explica muita coisa.

Você diz isso porque inda não conheceu minha mãe por cartas.

Ela é pior?

Muito.

Então sua mãe é perigosa.

Você não faz ideia...

Houve algo quente na resposta dele quando falou de Maree. Não a saudade dolorosa do menino arrancado, mas uma afeição antiga, sobrevivente, alimentada por anos de envelopes recebidos e páginas redigidas. Rum'ea sentiu isso pelo vínculo como se visse uma luz atrás de uma porta. Não entrou, embora a curiosidade quisesse. Apenas soube que estava ali.

O próximo adereço era um pequeno círculo prateado, fino como um anel minúsculo, sem pedra, sem inscrição, sem ornamento evidente. Tarla o segurou diante dela, e Rum'ea o analizou.

Esse é simples demais.

Paciência costuma parecer simples para quem não está tentando praticá-la.

Rum'ea bufou, sem realmente achar graça.

Paciência é uma palavra que pessoas confortáveis usam para mandar as outras suportarem coisas ruins sem reclamar.

Tarla não colocou o círculo imediatamente.

Às vezes, sim.

Ela ergueu os olhos, desconfiada da concordância.

Mas não é esse o sentido aqui, continuou ele. Paciência não é submissão. Não é espera vazia. Paciência é força que não se entrega ao primeiro impulso de ferir, fugir ou acreditar. Paciência para observar antes de decidir. Para aprender sem se ajoelhar por dentro. Para dar nome às coisas quando elas tentarem obrigá-la a reagir antes de pensar.

Rum'ea olhou para as próprias mãos apoiadas no colo. Os dedos estavam meio fechados. Ela os abriu devagar, como se aquilo fosse uma afronta ao corpo que respondia por conta própria.

Só que eu não sou paciente.

Ainda assim, aqui está. Você. E o círculo.

Você vai colocar símbolos de coisas que eu não tenho?

Às vezes colocamos símbolos de coisas que vamos aprender a reconhecer.

E se eu não aprender?

Então ele continuará na trança, sendo irritante.

Ela soltou uma risada curta, quase inaudível. Pequeno, áspero, surpreendido por si mesmo.

Tarla prendeu o círculo prateado na trança. Ele deslizou por um trecho dos fios e repousou ali, simples e inteiro, refletindo uma linha pálida da janela, seguro pela próxima sobreposição do cabelo.

Por fim, Tarla escolheu um fio azul.

Não era azul brilhante como algumas lâminas Jedi, nem escuro como céu noturno. Era todos ao mesmo tempo, um azul profundo e suave, com um brilho discreto que parecia se mover quando a luz mudava. Ele o passou entre os dedos e, por um instante, Rum'ea sentiu a atenção dele voltar-se não para o adereço, mas para ela. Não para o rosto, não para o corpo, não para as roupas de Catadora, mas para aquilo que ele havia visto no Alto Conselho: a Força nela sob ruído, a estrela sob a atmosfera brutal de Kyrmora.

Esse é o último?

Por hoje, sim.

"Por hoje"?

Tranças de Padawan mudam. Ganham marcas. Perdem marcas. Símbolos de provas superadas. Afinidades de estudo. Missões. Algumas contam histórias curtas. Algumas contam histórias longas.

Eu não pedi uma história longa.

Histórias longas raramente pedem permissão antes de começar.

Ela olhou feio para ele pelo espelho.

Isso foi muito Jedi.

Foi um pouco keshtari também.

Pior ainda.

Tarla aceitou a crítica com um sorriso quase invisível e começou a atar o fio azul ao final da trança, prendendo-a. O gesto era mais lento do que os outros. Não por dificuldade, mas por significado.

O azul é a Força em você, disse ele. Não a estática. Não a interferência. Não Kyrmora tentando esconder sua assinatura. A Força por baixo. Quando a senti pela primeira vez, ela parecia distante porque havia tempestade demais entre você e o resto do mundo. Mas não era fraca. Era uma estrela vista através de atmosfera hostil. Forte. Luminosa. Ali. Apenas escondida. Não inexistente. Escondida.

Rum'ea parou de respirar por um instante, e ele apertou o nó com cuidado, sem puxar o cabelo.

Este fio ata o fim da trança para lembrar que a interferência não é sua essência. Ela esteve em você porque você sobreviveu onde ninguém deveria ter precisado sobreviver. Mas há algo sob ela. Algo que brilha por conta própria.

Rum'ea encarou o fio azul no espelho.

Não falou nada.

Nem em voz alta, nem pelo vínculo.

Tarla retirou as mãos devagar e recuou meio passo antes que ela pudesse precisar pedir distância. A trança repousava atrás da orelha direita, fina, escura, atravessada pelo dourado do começo tardio, pela prata de uma memória antiga, pela madeira mutável, pelo osso inscrito de escuta, pelo pequeno círculo de paciência e pelo azul final que parecia segurar uma estrela em silêncio. Estranho. O resto do cabelo dela continuava solto, indomado, ondulado e negro sobre os ombros, cheio. Vivo. A trança não domesticava Rum'ea. Não a transformava em uma criatura do Templo, em uma Padawan criada sob aquele teto, entre aquelas paredes. Apenas acrescentava a ela uma linha nova, uma promessa estreita, uma marca que não apagava as marcas anteriores.

Rum'ea levantou a mão direita com cautela., e parou antes de tocar.

Pode tocar, disse Tarla.

É minha trança.

Sim.

Então eu sei que posso.

Mesmo assim, ela não tocou como se soubesse. Os dedos encontraram primeiro o fio dourado, depois a conta de prata. Detiveram-se no osso por mais tempo, onde a unha passou de leve pelas inscrições keshtari que ela não sabia ler, as letras pequenas e retas de um alfabeto estranho. Depois desceu até o fio azul no fim.

- É pesada. — Disse ela, por fim.

- Um pouco.

- Mas menos de um quilo.

- Fui comedido.

Ela olhou para ele pelo espelho, e havia algo novo no rosto dela. Não confiança inteira, não gratidão exposta, não paz. Nada tão simples. Mas a suspeita havia mudado de forma. Ainda estava ali, armada e viva, só que agora observava em vez de apenas morder. Agora havia também curiosidade.

Você deu coisas suas, ela disse.

Emprestei.

Emprestou.

Sim.

Por quê?

Tarla recolocou a escova na caixa, mas deixou a tampa aberta.

Porque uma trança de Padawan não deve ser apenas uma regra presa ao cabelo. Deve carregar testemunhas.

Testemunhas de quê?

De que você começou. De que alguém viu. De que, quando a estática ficou alta demais, ainda havia estrela. De que, se um dia você esquecer, haverá objetos pequenos e irritantes pendurados atrás da sua orelha para lembrar. E também para que você tenha algo que já caminhoou comigo agora caminhando com você.

Rum'ea virou-se no banco, devagar. Ele já havia recuado o suficiente para que ela pudesse encará-lo sem erguer demais o rosto e, ainda assim, precisava inclinar a cabeça para cima. O contraste entre os dois quase a fez franzir a testa: ele era claro, alto, calmo como neve antiga; ela era pequena, escura, envolta em camadas de sobrevivência, com uma trança nova atrás da orelha como se o próprio cabelo também estivesse aprendendo a respirar.

- Eu não sei ser Padawan. — A voz de Rum'ea veio baixa.

Tarla fechou a caixa com cuidado.

- Eu sei.

Ela ficou dura.

- Isso era para confortar?

- Não. Era para ser verdade.

E se eu fizer errado?

Vai fazer.

Você realmente não sabe confortar alguém.

Estou aprendendo isso também.

Rum'ea abaixou os olhos para as próprias botas. O fio azul no fim da trança tocou seu peito quando ela moveu a cabeça, leve e estranho. Uma parte dela queria arrancá-lo apenas para provar que podia. Outra parte, menor e mais perigosa, queria protegê-lo de tudo, inclusive de si mesma.

- Eu posso tirar quando dormir? — Perguntou, os dedos procurando incoonscientemente o fim do fio.

- Não recomendo. Mas pode.

Ela olhou rápido para Tarla.

- Posso?

- É sua trança, Rum'ea.

O nome dela, dito daquele jeito, sem comando depois, sem posse antes, pareceu preencher o quarto mais do que deveria. Quente. Gentil.

E se eu tirar e não conseguir colocar de novo?

Eu refaço.

Todas as vezes?

Quantas forem necessárias.

Ela engoliu em seco.

Isso é ridículo.

Provavelmente.

Por um momento, nenhum dos dois se moveu. Lá fora, Coruscant brilhava em linhas de tráfego e torres impossíveis, os sons entrando abafados pelas janelas. Dentro do quarto limpo demais, uma jovem de Kyrmora usava atrás da orelha direita uma trança de Padawan feita por um Mestre de Keshtara que não aceitava Padawans havia setenta anos. Nenhum dos Mestres do Alto Conselho estava ali para ver. Ainda assim, a Força pareceu se aquietar ao redor deles, protegendo o vínculo como antes, escondendo-o do mundo, como se aquela conversa silenciosa, aquela trança pequena e aqueles adereços escolhidos fossem uma coisa que ainda não devia ser tocada por interpretação alguma. Como um segredo que o mundo ainda não tinha o direito de saber.

Rum'ea ergueu os olhos para o espelho uma última vez.

A trança parecia estranha nela.

Estranha, mas não feia.

Atrás da orelha direita, o fio azul brilhou de leve quando ela inclinou a cabeça, e por baixo da estática que ainda arranhava sua presença na Força, Tarla sentiu a estrela responder outra vez.

Bem baixo, quase contra a vontade, ela pensou:

É... Não ficou ruim.

Tarla pegou a caixa e caminhou até a porta aberta.

Vindo de você, Rum'ea Olphen, aceitarei como grande elogio.

Rum'ea quase sorriu.

Quase.

Dessa vez, porém, não tentou esconder completamente.