A pedrinha não se moveu.

Era pequena, quase ofensivamente pequena, nada além um fragmento liso de rocha cinzenta que Tarla havia escolhido de propósito no jardim do Templo. Não tinha mais do que o tamanho da unha do polegar de Rum'ea. Leve o bastante para que uma corrente de ar mais firme a fizesse rolar por aí. Inofensiva, sem arestas, sem qualquer qualidade que justificasse a resistência absoluta com que permanecia sobre o piso da sala de treino, imóvel no centro do círculo marcado por linhas claras. Um pedaço patético de cascalho que não possuía tamanho suficiente para ser chamado apropriadamente de “pedra”.

Rum'ea a odiava.

O ódio pela pedra começou na segunda hora. Na primeira havia apenas irritação comum, aquela dureza familiar que vinha quando alguma coisa não funcionava imediatamente e ela precisava decidir se insistia, quebrava, fugia ou fingia que não se importava. Tarla havia lhe explicado, com aquela paciência de lago que às vezes tornava tudo pior, que erguer objetos pela Força não era empurrar com a vontade, nem agarrar com raiva, nem ordenar que o mundo obedecesse. Era sentir a pedra dentro da rede viva da Força, reconhecer seu peso, sua posição, sua quietude, e convidá-la ao movimento.

Rum'ea havia tentado convidar.

A pedrinha claramente não aceitou.

Na segunda hora, parou de acreditar na palavra “convidar” e decidiu que “coerção” era melhor.

Na terceira, começou a desejar que a pedra tivesse garganta para poder estrangula-la.

Na quarta, a sala de treino parecia ter encolhido ao redor dela até restarem apenas o chão, a pedrinha, o olhar cuidadoso de Tarla e o ruído insistente dentro da própria cabeça. A estática de Kyrmora, que em alguns treinos se aquietava sob a presença dele, agora arranhava em todas as direções. Não como tempestade imóvel — como vidro quebrado, cheio de pontas para todos os lados, o fluindo para dentro. Toda vez que ela estendia a mão e tentava tocar a Força ao redor do fragmento, alguma coisa escapava. Ou vinha forte demais e se desfazia em tremor, ou não vinha, ou parecia vir, mas a pedra continuava ali: muda, inteira, absolutamente indiferente ao fato de que Rum'ea Olphen havia sobrevivido a vinte anos de um mundo que deveria tê-la esmagado.

Tarla estava sentado diante dela, a alguns passos de distância, com as pernas cruzadas e as mãos repousadas sobre os joelhos. Usava vestes claras, simples, sem a formalidade diplomática de Alderaan e sem as camadas mais pesadas que às vezes escolhia para o Conselho. O cabelo longo caía sobre um dos ombros, e os olhos verdes, com aquela leve queda irritante nos cantos, observavam não a pedra, mas Rum'ea.

Isso também a irritava.

— De novo. — Disse ele, sem dureza.

Rum'ea fechou os dedos sobre o próprio joelho.

— Eu já fiz de novo.

— Faça mais uma vez.

— Você disse isso quarenta vezes!

— Então a próxima será a quadragésima primeira.

Ela olhou para ele como se considerasse a possibilidade real de arremessar a pedra com a mão, apenas para provar que, de algum modo, era capaz de fazê-la sair do lugar… Mesmo que fosse para aterrisar na testa do Mestre.

Não arremesse a pedra com a mão, veio a voz dele pelo vínculo.

Rum'ea estreitou os olhos.

Saia da minha cabeça.

Estou na soleira. Você deixou a porta aberta quando imaginou bater em mim com a pedra.

Eu não imaginei bater em você.

Imaginou acertar minha testa.

Exatamente. Acertar não é o mesmo que bater.

Entendo.

Além disso, foi um pensamento hipotético.

Foi muito detalhado para ser apenas hipotético.

Ela soltou ar pelo nariz, mas o quase humor morreu antes de nascer. A pedra continuava ali. O chão continuava ali. A mão dela parecia inútil demais no espaço entre ambos.

Rum'ea respirou fundo, ergueu a palma em direção ao fragmento e tentou outra vez.

Sentiu a Força — ou algo que ela chamava de Força porque Tarla dizia que era — como uma pressão irregular ao redor de tudo. Para ela, a Força como conhecia parecia sussurro atravessado por interferência, vozes de línguas que ela quase compreendia, mapas surgindo sob a pele, intenções escondidas atrás de palavras polidas, perigos chegando antes de qualquer som. Não como ferramenta, ou como extensão obediente do corpo. Em Kyrmora, a Força nunca lhe erguera objetos por gentileza; apenas avisara, traduzira, arranhara, puxara o estômago na direção errada quando uma porta não devia ser atravessada. Era instinto. Sobrevivência. Ruído.

E agora Tarla queria que essa coisa levantasse uma pedrinha.

Rum'ea fechou os olhos com força.

A pedra permaneceu imóvel.

A frustração veio quente, violenta, subindo pela garganta. Ela tentou prendê-la, porque prender era sempre o primeiro reflexo. Prender raiva, prender choro, prender fome, prender medo, prender qualquer coisa que pudesse ser usada contra ela. Mas já haviam se passado quatro horas e meia de instruções suaves, pausas curtas, tentativas recomeçadas, respirações contadas, variações de postura, olhos abertos, olhos fechados, mãos erguidas, mãos abaixadas, voz de Tarla dizendo que ela devia sentir antes de mover, sentir antes de pedir, sentir antes de-

— Eu estou sentindo! — Explodiu ela, irritada.

A voz bateu nas paredes da sala de treino.

Tarla ficou imóvel.

Rum'ea também ficou, como se o próprio grito a tivesse traído.

A pedra, obviamente, não se moveu.

E então ela chorou.

Não foi bonito, ou silencioso, muito menos controlado. As lágrimas apareceram com uma raiva humilhante, grossas e rápidas, antes que ela conseguisse virar o rosto. Rum'ea passou a manga pelo rosto de modo brusco, como se pudesse apagar não só o choro, mas o fato de que Tarla vira. A respiração dela quebrou uma vez. Depois outra. A estática ao redor de sua presença se tornou irregular, cheia de cortes, e pelo vínculo vieram fragmentos que ela não conseguiu segurar: não é suficiente, nunca é suficiente, não sou suficiente, tem alguma coisa errada, se eu não sirvo eles mandam embora, sempre mandam embora quando a peça não presta, quando a peça não paga o teto, quando a peça não vale o pão, quando a peça ocupa espaço demais, come demais, respira demais, corpo demais, erro demais-

Tarla sentiu o golpe antes de compreendê-lo: não era sobre a pedra.

Jamais fora apenas sobre a pedra.

A pedrinha no chão havia se tornado uma peça trazida para casa em Kyrmora, suja de graxa, talvez quebrada demais para vender, pequena demais para justificar o caminho percorrido, inútil demais para comprar um pedaço seco de pão de poliamido ou uma noite sob um teto qualquer. A sala de treino transformou-se, por um instante, numa porta fechando; numa voz dizendo que não bastava; num olhar calculando o custo de alimentar alguém; numa criança aprendendo que valor era medido por aquilo que trazia nas mãos e, se as mãos viessem vazias, o corpo inteiro passava a ser dívida.

Tarla olhou para a pedra.

Depois para Rum'ea.

E sentiu, com uma clareza que lhe apertou o peito, que havia exagerado. Não por crueldade ou por impaciência. Talvez justamente pelo contrário. Ele a vira perceber tradução oculta em Alderaan, compreender subcamadas diplomáticas com instinto feroz, meditar dentro do lago da mente dele quando a estática de Kyrmora finalmente se aquietava. Vira força demais e esquecera que força não era a mesma coisa que prontidão. Vira brilho sob tempestade e, naquela manhã, pedira à estrela que iluminasse uma sala inteira antes de ela aprender onde terminava a própria noite.

Tarla se levantou devagar.

Rum'ea enrijeceu imediatamente, limpando o rosto outra vez, agora com mais raiva.

— Não. — Disse ela, antes que ele falasse. — Não diga que eu preciso respirar.

Ele parou.

— Não vou dizer.

— Nem que a Força tem tempo, ou qualquer outra bobagem que Mestres dizem.

— Também não.

— Nem que eu fui bem.

A garganta dele se fechou um pouco.

— Não era isso que eu ia dizer.

Rum'ea olhou para ele, olhos grandes e molhados, avelã escurecido por vergonha, fúria e aquele medo antigo que a fazia parecer prestes a morder mesmo enquanto tremia.

— Então o quê é?

Tarla baixou a cabeça, não em teatralidade, mas em reconhecimento.

— Desculpe.

Ela piscou.

A palavra pareceu desorganizá-la mais do que qualquer repreensão.

— Eu… O quê?

— Eu exagerei. Quatro horas e meia foi demais para um primeiro treino consciente de telecinese. Eu vi sua resistência e confundi com capacidade de continuar. Devia ter parado antes.

Rum'ea ficou olhando para ele como se a frase tivesse sido dita em um idioma que sua habilidade de tradução não alcançava. A Força podia sussurrar línguas desconhecidas para ela, mas aparentemente ainda não sabia traduzir com facilidade a ideia de um adulto admitindo erro sem transformá-lo imediatamente em acusação contra a criança diante dele.

Você só está dizendo isso para eu parar de chorar, pensou ela, e o vínculo levou junto a suspeita áspera.

Não. Estou dizendo porque é verdade.

Verdade também pode ser usada.

Sim.

Então?

Então você terá que decidir, com o tempo, se esta foi.

Ela desviou o rosto, e as lágrimas continuaram caindo, agora mais silenciosas, o que parecia deixá-la ainda mais humilhada. Tarla manteve a distância, não se aproximando mais.

Rum'ea, porém, levantou-se.

O movimento foi abrupto o bastante para que ele quase desse um passo para trás, mas se conteve. Ela atravessou o espaço entre ambos com a rigidez de quem não sabia se estava indo, atacando ou caindo. A diferença de altura entre eles se impôs de forma quase absurda quando ela parou diante dele: um metro e cinquenta e três de tensão, cabelo negro caindo em ondas desordenadas, a trança de Padawan tremendo junto ao rosto molhado, tudo isso diante de um metro e noventa e quatro de quietude keshtari, vestes claras, ombros largos, mãos cuidadosamente visíveis.

Rum'ea não ergueu os braços.

Não tocou as mãos dele.

Não procurou abraço.

Apenas inclinou a cabeça para frente e encostou a testa no esterno de Tarla.

Mais nada.

O toque foi tão pequeno que, em outro corpo, talvez não parecesse toque. Só a testa dela contra o centro do peito dele, exatamente onde a respiração era mais funda. As mãos de Rum'ea permaneceram junto ao próprio corpo, fechadas em punhos frouxos. Ela não se apoiou. Sequer se permitiu peso. Apenas ficou ali, como uma criatura que chegara perto de uma fogueira, mas não sabia se tinha permissão para sentir calor.

Tarla congelou por um segundo.

Não por repulsa.

Por cálculo.

Por medo.

Por consciência absoluta de que qualquer gesto errado naquele instante poderia quebrar algo que talvez ela nunca mais oferecesse. A presença dela no vínculo estava escancarada demais por exaustão e, através dela vieram pensamentos tão rápidos e tão dolorosamente condicionados que Tarla quase perdeu a própria respiração.

Ele não vai tocar. Claro que não vai. Ninguém toca quando vê de perto. Ninguém toca sem querer alguma coisa. Se tocar, é porque quer. Se não tocar, é porque viu. Porque sente nojo. Porque é errado. Corpo errado. Corpo demais. Sempre demais.

Depois vieram as memórias.

Quebradas. Sem ordem. Sem piedade.

Uma criança menor do que deveria ser e, ao mesmo tempo, considerada grande demais para merecer compaixão. Um canto de abrigo improvisado em Kyrmora, cheiro de metal úmido, sopa rala sendo distribuída em porções desiguais. Mãos adultas contando pedaços de alimento como se cada migalha fosse investimento, e a voz de alguém dizendo que ela “não cabia”, que não adiantava gastar comida em um corpo que se recusava a diminuir. Dias de quase nada no estômago, fraqueza nos braços, tontura ao levantar, e ainda assim o corpo permanecendo cheio onde queriam que fosse magro, curvo onde queriam que fosse reto, visível onde queriam que fosse descartável. A vergonha de existir em uma forma que nem fome suficiente parecia corrigir enchia uma criança jovem demais para saber o que aquilo significava.

Outra memória veio sobreposta, mais velha em dor do que em anos: mulheres mais velhas, rostos duros, mãos ásperas, ensinando uma menina jovem demais a andar com balanço de quadril, não como dança ou qualquer demonstração de alegria, mas como cálculo. “Compensa a forma”, dizia uma delas. “Se vão olhar, faz parecer escolha”. O corpo de Rum'ea aprendendo um movimento antes de compreendê-lo, um balanço que depois se enraizou no modo de andar, natural e condenado ao mesmo tempo, algo que ela perceberia anos depois e odiaria, porque até seu passo parecia carregar instruções de sobrevivência dadas por pessoas que chamavam adaptação de sabedoria. Em Kyrmora, talvez fosse.

Outra: pedras.

Pedras reais, não pedrinhas de treino.

Pedras pesadas, com pontas quebradas e afiadas.

Pedras jogadas com força. Uma atingindo a lateral da cabeça. Outra cortando a sobrancelha. Outra abrindo a pele perto da maçã do rosto. Sempre mirando alto — cabeça e rosto. O lugar que mais sangrava, o lugar que mais humilhava, o lugar que podia deformar mais do que já a achavam deformada. Vozes de crianças e adultos misturadas, dizendo que ela não era nativa de Kyrmora, que ninguém daquele planeta nascia daquele jeito, que devia ter sangue de Hutt, que era nojenta, que era uma coisa inchada, errada, pálida demais, grotesca.

Tarla fechou os olhos.

A testa dela continuava em seu esterno. As mãos dele permaneciam suspensas ao lado do próprio corpo. Havia apenas duas escolhas diante dele, e ambas eram perigosas.

Se não a tocasse, talvez confirmasse a expectativa que queimava nela como marca antiga: nojo, recusa, distância, a certeza de que até a gentileza tinha limites quando o corpo dela se aproximava demais. Se a tocasse, poderia acionar todos os alarmes que ele já conhecia nela: homem, altura, força, proximidade, mãos, prisão. Poderia transformar o primeiro gesto de consolo em ameaça. Poderia fazer o corpo dela se lembrar de coisas que a mente dela segurava com dentes.

Pelo vínculo, uma parte dessas memórias estava mais trancada. Não imagens inteiras, não rostos, não cenas completas. Mas sensações passaram mesmo assim, porque sensações eram mais difíceis de conter. Toques começando como segurança, como conforto, como gentileza oferecida num canto frio; uma mão que primeiro protegia o ombro e depois descia; uma voz que primeiro acalmava e depois cobrava; a terrível educação do corpo aprendendo que ternura podia ser só o primeiro corredor para uma sala sem saída de onde se precisava escapar com violencia. Rum'ea segurava aquilo com força, mas a sombra atravessou o bastante.

Tarla quis se afastar.

Quis abraçá-la.

Quis voltar no tempo e encerrar o treino na primeira hora.

Mas nada disso era simples ou sequer possível. Então, ele fez a única coisa que podia fazer sem mentir com o corpo.

Falou primeiro pelo vínculo, muito devagar, cada palavra colocada como uma pedra firme sobre gelo fino.

Rum'ea. Vou tocar suas costas. Muito devagar. Se você quiser que eu pare, eu paro antes de terminar o pensamento.

A testa dela se pressionou um pouco mais contra o esterno dele.

Não assentiu.

Não disse sim…

Mas também não disse não.

Tarla ergueu os braços lentamente, dando a ela todos os segundos possíveis para recuar. A primeira mão tocou o alto das costas dela com a leveza de uma pergunta. Não apertou. Não desceu. Não a puxou contra ele. Apenas repousou ali, por cima do tecido, firme o bastante para existir, cuidadosa o bastante para não tomar. A outra mão ficou mais baixa, abaixo as omoplatas e não na cintura, onde a memória dela poderia transformar qualquer intenção em perigo. Ele a envolveu devagar, não como quem fecha uma prisão, mas como quem ergue uma parede contra o vento deixando uma porta aberta.

Rum'ea ficou rígida no mesmo instante.

O corpo dela se transformou em tábua contra ele. A mente explodiu em trajetórias: joelho, cotovelo, morder a parte interna do braço, pisar no pé, recuar para a esquerda, bater com a cabeça no queixo, girar para fora, usar a diferença de altura contra ele, cair de propósito para escapar por baixo, gritar, arranhar o rosto, alcançar o cinto, procurar a porta. Tarla recebeu tudo sem se mover. Não fechou mais os braços. Não disse que estava tudo bem, porque sabia que para ela não estava. Apenas permaneceu.

Eu solto, disse ele.

A resposta veio como um rosnado mental, mais instinto do que palavra.

Não.

Então ele não soltou.

Rum'ea tremia. Pouco no início, depois mais. A testa continuava contra o esterno dele, e agora ela podia sentir a respiração de Tarla por baixo das vestes: lenta, constante, sem pressa, sem aceleração predatória, sem a tensão escondida de quem esperava algo em troca. A mão dele no alto das costas não se moveu. A outra continuou onde estava, imóvel, respeitando exatamente o limite que havia escolhido. Nenhum dedo procurou caminho. Nenhum braço apertou mais. Nenhuma parte do gesto se transformou em outra coisa.

A mente dela, ainda assim, demorou a acreditar.

O corpo demorou ainda mais.

Aos poucos, os planos de fuga deixaram de vir todos ao mesmo tempo. Continuaram ali, prontos para serem usados se necessários, mas menos urgentes. O joelho. O cotovelo. A mordida. A porta. Tudo permaneceu disponível, e talvez justamente por permanecer disponível tenha se tornado menos necessário. Rum'ea respirou uma vez contra o peito dele, curta e falha. Depois outra. O choro, que ela tentara esmagar, voltou sem som, molhando o tecido claro de Tarla onde sua testa repousava.

Ele não comentou.

Não disse que ela estava segura.

Não disse que ninguém a colocaria para fora.

Palavras assim poderiam ser verdadeiras, mas ainda eram grandes demais para caber no lugar quebrado onde ela estava, então Tarla apenas a segurou com a exatidão que conseguia, imóvel como uma árvore de Keshtara sob neve pesada, forte não para aprisionar, mas para não cair quando algo ferido finalmente encostava.

Muito tempo depois — talvez minutos, talvez menos, talvez mais — os punhos de Rum'ea se abriram.

Os dedos dela tocaram primeiro as laterais das vestes dele como se tateassem algo que poderia desaparecer. O gesto foi tão leve que Tarla não teria sentido sem o vínculo. Depois as mãos se fecharam no tecido, uma de cada lado, não exatamente abraçando-o de volta, mas segurando-o. Prendendo-se ali. Pequenas mãos agarradas às dobras claras das vestes dele, na altura em que alcançavam, com uma força crescente que dizia o que ela não conseguiria dizer em voz alta sem se despedaçar de vergonha.

Não me põe para fora, veio o pensamento sem palavras.

Aquilo atravessou o vínculo tão cruamente que Tarla sentiu uma dor física atrás do esterno, exatamente onde a testa dela repousava.

Ele baixou o rosto, não o bastante para tocar o cabelo dela, apenas o suficiente para que a voz, quando viesse, fosse baixa e inteira.

— Não vou.

Rum'ea tremeu.

Porque eu não levantei a pedra.

Não vou.

Porque eu chorei.

Não vou.

Porque eu não sirvo.

A mão dele no alto das costas dela firmou-se apenas uma fração, ainda sem apertar.

Rum'ea… Você não precisa justificar teto com pedra erguida.

O silêncio que veio depois foi enorme.

A estática de Kyrmora, antes cortante, começou a perder as pontas. Não desapareceu, porque nunca desaparecia de verdade, mas tornou-se mais baixa, como vento ouvido de dentro de uma caverna fechada. A presença dela, enterrada sob interferência, brilhou de modo fraco e cansado como uma brasa protegida por duas mãos.

— Eu devia conseguir… — Sussurrou ela, a voz abafada pelo tecido. – Iniciados conseguem, Tarla… Crianças.

— Um dia, talvez você também consiga.

— E se não conseguir?

Tarla olhou para a pedrinha imóvel no chão, pequena, cinzenta, absurdamente sem importância diante da criatura viva agarrada às suas vestes.

— Então começaremos por outra coisa.

Rum'ea ficou quieta.

Você está decepcionado.

Estou triste por ter feito você acreditar que precisava provar seu lugar em quatro horas e meia.

Ela apertou mais o tecido dele.

Isso não é resposta.

É a única verdadeira.

Por algum motivo, aquilo pareceu atingi-la mais fundo do que qualquer garantia. Rum'ea chorou mais um pouco, agora sem a mesma violência, ainda envergonhada, mas menos sozinha dentro da vergonha. Tarla permaneceu onde estava. A escolha continuava perigosa, e ele sabia disso. Não havia gesto capaz de apagar o passado, e talvez alguns abraços futuros ainda fossem recusados, temidos, até mesmo mordidos antes de existirem. Talvez aquele mesmo abraço, mais tarde, a fizesse sentir raiva com a memória, ou talvez ela se arrependesse de tê-lo permitido. Talvez o odiasse por alguns minutos por não ter soltado quando ela não pediu que soltasse.

Mas, naquele instante, as mãos dela seguravam as laterais de suas vestes.

E o corpo dela, ainda rígido em muitos lugares, começava a aceitar que a firmeza ao redor não estava se transformando em cobrança.

Tarla respirava devagar. Rum'ea, sem perceber, acompanhou.

A sala de treino continuava vazia. A pedra continuava no chão. O primeiro treino de telecinese havia fracassado de modo total, se medido pela métrica absurda de um pedaço de cascalho levantado. Mas Tarla já não olhava para a pedra.

Quando Rum'ea finalmente se afastou, foi apenas alguns centímetros. O rosto estava vermelho, os olhos molhados, a expressão pronta para atacar qualquer comentário que tentasse suavizar demais o acontecido. As mãos, porém, não soltaram imediatamente as vestes dele. Ficaram ali mais um instante, agarradas ao tecido, como se ela precisasse provar a si mesma que podia largar por escolha e não por expulsão.

Tarla baixou os braços antes que o abraço durasse mais do que ela pudesse suportar.

Ela percebeu.

Você soltou primeiro.

Sim.

Por quê?

Para que o resto fosse escolha sua.

Rum'ea olhou para ele com raiva, alívio, vergonha e algo pequeno demais para nomear.

Depois soltou as vestes dele, deu um passo para trás, e limpou o rosto com a manga, agressiva consigo mesma como sempre.

— A pedra continua me odiando.

Tarla olhou para o fragmento no chão.

— Talvez ela seja apenas tímida.

Rum'ea soltou uma risada quebrada, quase um soluço, e imediatamente fez uma careta como se o próprio som a tivesse ofendido.

— Pedras não são tímidas.

— Talvez você só não tenha conversado com ela o suficiente.

Ela encarou-o.

— Você é insuportável.

— Já me disse.

— Vou levantar essa pedra só para jogar em você.

— Um objetivo questionável, mas motivador.

Dessa vez, o canto da boca dela se mexeu de verdade, embora ainda houvesse lágrimas no rosto. Tarla não sorriu demais. Não se aproximou de novo. Apenas se abaixou, pegou a pedrinha com a mão e a colocou sobre a palma aberta.

— Por hoje, terminamos.

Rum'ea olhou para a pedra na mão dele, depois para ele.

— Terminamos porque eu falhei?

— Não, Rum’ea. Terminamos porque eu aprendi que comecei pelo lugar errado.

Ela ficou em silêncio.

Tarla estendeu a pedra para ela, não como tarefa, mas como objeto simples.

— Pode ficar com ela, se quiser.

Rum'ea aceitou com desconfiança, fechando os dedos ao redor do fragmento.

— Para quê?

— Para lembrar que ela não decidiu seu valor.

Rum'ea olhou para a mão fechada.

Pelo vínculo, veio algo baixo, quase inaudível:

E você também não?

Tarla encontrou os olhos dela.

Eu também não.

A resposta ficou entre eles, quieta, mais pesada que a pedra e mais leve que o choro. Rum'ea guardou o fragmento em uma pequena bolsa no cinto, como se aquilo fosse uma peça de sucata cujo uso ainda não havia sido descoberto, mas que talvez, apenas talvez, valesse a pena não jogar fora.

Quando saíram da sala de treino, ela caminhou ao lado dele.

Ainda não conseguia erguer uma pedrinha, nas, por alguns corredores, conseguiu não se afastar quando a manga de Tarla roçou de leve a dela.