A oficina do Professor Huyang tinha cheiro de metal antigo, poeira limpa e paciência mecânica, e Rum’ea ainda não decidira se isso era reconfortante ou ofensivo.

A sala não se parecia com as oficinas improvisadas de Kyrmora. Não havia óleo escorrendo por juntas rachadas, nem peças suspeitas amontoadas por valor de revenda, nem cabos descascados esperando matar alguém com uma descarga mal-humorada. Tudo ali tinha lugar, etiqueta, idade, função e uma ordem tão antiga que parecia ter sobrevivido a gerações de Padawans apenas por teimosia.

Sobre a bancada principal, cuidadosamente separados em grupos que o Professor Huyang chamara de “organização mínima aceitável” e Rum’ea chamara mentalmente de “ameaça estética com subdivisões”, estavam os componentes do sabre dela.

Ferro negro no corpo principal da empunhadura não polido, escuro, com marcas finas de uso e veios sutis que capturavam a luz da oficina como se houvesse rachaduras de noite dentro do metal. As peças usadas eram reaproveitadas, sim, mas limpas, ajustadas e refinadas. A parte central era alongada, firme, com placas encaixadas em linhas assimétricas demais para um sabre tradicional e precisas demais para serem acidente. Pequenos tubos capilares percorriam canais laterais, por onde o sistema de resfriamento de gás tibanna deveria manter estável a condução térmica. Havia anéis de contenção, microtravamentos, linhas internas azuis e finas gravações em alfabetos diferentes nos aros menores com frases sobre escuta, paciência e honra. E, no anel principal, a frase em keshtari.

Escrita pela mão de Tarla.

Rum’ea ainda não olhara para ela por tempo demais. O anel estava separado do resto dos materiais da empunhadura, repousando sobre um tecido escuro. As letras tinham sido gravadas com uma precisão impossível de confundir com máquina. Havia ali uma regularidade viva, uma pequena variação na pressão de cada traço, a linha exata de alguém que conhecia a língua antes de conhecer a tradução.

Tai nil kaëla ailunë-sara.

Nunca um sem o outro.

Rum’ea passara dois dias fingindo que não se importava com a frase. Fora ela quem pedira que Tarla gravasse algo em keshtari. Dissera apenas que queria “uma inscrição funcionalmente bonita e culturalmente não embaraçosa”, o que, no vocabulário de Rum’ea, significava: “escolha você, porque eu quero carregar uma palavra sua, mas prefiro enfrentar um rancor raivoso do que dizer isso em voz alta”.

Tarla não perguntara por quê. Também não lhe mostrara a frase antes. Apenas entregara o anel pronto, envolto em tecido, pelo lado de fora da porta dos aposentos dela, porque ela ficara súbita e estranhamente incapaz de receber o objeto na frente dele.

Agora, sob a luz branca da oficina de Huyang, as letras pareciam mais perigosas.

- A senhorita está olhando para esse anel há quarenta e sete segundos sem movê-lo. — Observou o Professor Huyang.

Rum’ea ergueu os olhos. O droide estava diante da bancada, alto, metálico, antigo de um modo que a maioria dos seres vivos não conseguia ser sem parecer cansada. Os olhos amarelos brilhavam com atenção metódica, e a cabeça inclinada levemente sugeria a forma particular de julgamento que só um droide com milênios de experiência em Padawans poderia aperfeiçoar.

- Estou avaliando.

- Está adiando.

Rum’ea estreitou os olhos.

- Isso foi uma acusação?

- Foi uma conclusão preliminar baseada em comportamento observado.

- Droids deveriam ser impedidos de parecer satisfeitos.

- Já tentaram. Não funcionou.

Ela decidiu que não gostava dele. Ou gostava, o que era pior.

Huyang voltou-se para o conjunto das peças com a solenidade de quem supervisionava não apenas a montagem de uma arma, mas a continuação de uma linhagem.

- Seu cristal.

Rum’ea abriu o estojo.

O kyber repousava ali, pequeno, irregular, ainda sem cor definida. À luz da oficina, parecia quase transparente, mas não vazio. Dentro dele havia uma quietude condensada, a mesma nota sustentada que a chamara em Ilum, o mesmo silêncio que agora parecia ter peso.

Rum’ea tocou a borda do estojo com o polegar. O vínculo, estreito e discreto, tocou-lhe a mente como uma luz atrás de vidro.

Respire, disse Tarla.

Ela não moveu o rosto.

Não comece.

Ainda não comecei nada.

Você pensou em respirar com voz de Mestre.

É difícil pensar em respiração com outra voz.

Pense com a voz de Huyang. Aí eu paro por irritação.

Do outro lado, em algum lugar do Templo em Coruscant, Tarla deixou passar uma diversão mínima, quase nada, apenas o suficiente para aquecer a borda do vínculo sem abrir demais.

Huyang não percebeu.

Ninguém perceberia. O vínculo continuava segredo absoluto, escondido sob a própria Força como neve cobrindo marcas antigas.

- O cristal deve ser posicionado por último. — Disse Huyang. — Antes disso, alinharemos as câmaras de energia, os condutores, o eixo de emissão e o circuito do botão de ativação.

Rum’ea olhou para o botão oval escuro.

- Ele é mesmo silencioso?

- Será, se a senhorita não inverter os contatos de isolamento acústico.

- Se eu inverter, ele explode?

- Não.

Rum’ea relaxou uma fração.

- Ele apenas emitirá um som agudo e desagradável toda vez que for ativado.

Ela congelou.

- Isso é quase pior do que explodir.

- Muitos Padawans descobrem tarde demais que nem toda falha técnica resulta em destruição dramática. Algumas resultam em constrangimento duradouro.

Gosto dele, disse Tarla.

Naturalmente. Ele também transforma vergonha em pedagogia.

- Professor? — Chamou Rum’ea, pegando a primeira peça com cuidado — O senhor lembra de todos os sabres já construídos aqui?

Huyang fez um som mínimo de servoajuste interno, como se a pergunta tivesse ofendido um arquivo perfeitamente organizado.

- Naturalmente.

- Todos?

- Todos.

- Mesmo os feios?

- Especialmente os feios. A história exige precisão, não conforto estético.

Rum’ea segurou a peça de ferro negro entre os dedos, mas não a encaixou ainda.

- Então lembra do sabre de Mestre Kesyk.

Huyang ficou imóvel por um instante muito pequeno. Se Rum’ea não tivesse passado a vida lendo microvariações em vozes, mãos, portas e intenções, talvez não percebesse — mas percebeu.

- Sim. – Respondeu Huyang. — Lembro-me do sabre de Mestre Tarla Kesyk.

O vínculo ficou mais atento do outro lado.

Rum’ea.

O quê?

Por que sinto que estou prestes a ser discutido por um droide antigo sem direito à defesa?

Porque está.

Estou em outro planeta.

Isso reduzirá sua capacidade de interromper.

Huyang virou um pouco a cabeça, como se acessasse uma prateleira interna de memória.

- Empunhadura longa, adequada a mãos grandes e a um estilo de controle amplo. Corpo principal em beskar envelhecido, superfície polida de maneira discreta, com marcas de uso preservadas. Anel de madeira de Koivën incorporado ao centro para equilíbrio térmico e simbólico. Anel de ferro negro trançado abaixo da seção de empunhadura. Detalhes gravados em diferentes alfabetos ao longo dos aros inferiores, similares aos seus. Botão de ativação elevado, circular, posicionado para acionamento por polegar, com resistência levemente superior ao padrão. Inscrição em keshtari no aro principal: Krëain, aki na soravëin. “Caído, mas não abandonado”.

Rum’ea ficou quieta. Ela conhecia o sabre atual de Tarla. Vira-o muitas vezes no cinto dele, aceso em verde durante treino, repousando em silêncio sobre bancadas, girando nas mãos dele com aquela naturalidade irritante de quem parecia ter nascido já sabendo onde cada objeto deveria estar — mas ouvir a descrição de Huyang tornava o sabre quase uma pessoa.

Beskar envelhecido.

Koivën.

Ferro negro trançado.

“Caído, mas não abandonado”… Kairn.

Você deixou ele descrever muito bem, disse ela pelo vínculo.

Não tive participação na memória dele.

Como você conseguiu beskar suficiente para um sabre?

É apenas a parte externa. Mas, respondendo sua pergunta — cobrei um favor.

… Você está me dizendo que algum Mandaloriano-

Um clã.

Ah. Claro. Tolice a minha. Que um clã Mandaloriano devia a você um favor tão grande a ponto de ser quitado com “só” o metal sagrado deles?

Sim.

Eu preciso saber desta história.

No momento, você precisa montar seu próprio sabre.

Depois?

Não.

Estraga prazeres.

Obrigado.

- Esse é o sabre atual. — Acrescentou Huyang.

Rum’ea ergueu os olhos com interesse.

- Atual?

- Sim.

Ela ficou imóvel.

Do outro lado do vínculo, Tarla emitiu uma espécie de silêncio que, para qualquer outra pessoa, pareceria ausência. Para Rum’ea, era a confirmação de que algo interessante fora tocado.

- O sabre de Mestre Kesyk é o segundo dele. — Continuou Huyang. — Mesmo kyber, empunhadura diferente.

Rum’ea virou lentamente a cabeça na direção do vazio, como se Tarla estivesse fisicamente na sala e pudesse ser acusado com o olhar.

Você nunca mencionou isso.

Não surgiu naturalmente.

Nós conversamos sobre sabres várias vezes.

Falamos sobre o sabre atual.

Tarla.

Sim?

Você é insuportável por precisão.

Huyang continuou, indiferente ao diálogo invisível:

- O primeiro sabre de Mestre Kesyk foi construído durante sua formação inicial como iniciado, pouco antes de se tornar Padawan. Empunhadura em durânio, resistente e bastante apropriada para aprendizes que ainda não dominam a diferença entre firmeza e excesso de força. Revestimento parcial de couro de mörën, tratado para aderência em ambientes frios. Detalhes em kultenin, metal dourado conhecido como Ouro de Keshtara, notável por resistência à corrosão e estabilidade em baixas temperaturas. Um projeto incomum para o Templo, mas culturalmente coerente.

Rum’ea parou no meio de alcançar uma peça.

Mörën?

A resposta de Tarla veio com uma hesitação quase divertida.

Animal de Keshtara.

Isso eu imaginei pelo som da palavra e por ser couro. A explicação foi insuficiente.

Você quer a imagem?

Obviamente.

Ele mostrou. Por um instante, a oficina de Huyang permaneceu diante dos olhos dela, mas por trás, pelo vínculo, abriu-se um fragmento de Keshtara: rochas escuras, neve dura, céu claro demais e, entre pedras negras, algo enorme se moveu.

Rum’ea viu um animal gigantesco, coberto por pelos densos e escuros, quase negros, com placas de espinhos duros surgindo ao longo do dorso e dos ombros. A pelagem se camuflava nas rochas como sombra viva. O corpo era pesado, baixo nas articulações, feroz de um modo quieto, como uma montanha decidindo que também possuía dentes. Olhos pequenos, atentos, focinho largo, garras capazes de rasgar gelo. Quando o mörën respirou, vapor saiu de sua boca em nuvem branca. Rum’ea ficou muito imóvel.

Vocês colocam couro disso em sabre de criança?

Não de criança. Me tornei Padawan menos de um ano depois.

Ah, sim. Perdão. Criança com título.

“Adolescente” seria mais preciso. Além disso, o couro era de um mörën morto por causas naturais. Eu não o cacei.

Ainda assim.

Ele oferecia excelente aderência.

Tarla.

Sim?

Seu planeta é psicologicamente irregular.

Uma análise frequente entre estrangeiros.

Consigo ver perfeitamente o por quê.

Huyang, sem saber que uma imagem de um mörën acabara de atravessar o vínculo secreto, inclinou a cabeça.

- O revestimento foi substituído quando Mestre Kesyk construiu a empunhadura atual, ao ser elevado a Mestre. A mudança de empunhadura, mantendo o mesmo kyber, é uma prática rara, mas não anômala. Alguns Jedi reformulam o sabre quando uma etapa de vida exige outro equilíbrio.

Rum’ea olhou para o próprio kyber.

- Ele manteve o cristal.

- Naturalmente. O kyber não era o problema.

O vínculo ficou quieto, porque a frase repousou em Rum’ea de um jeito estranho.

O kyber não era o problema.

Ela pensou em Ilum. No silêncio. No cristal caindo na mão dela como se confiasse. Pensou em seu corpo atrasado para os ritos, em sua Força cheia de estática, em todos os exercícios que não funcionavam como deveriam, em pedras que se recusavam a obedecer, em escudos que nasciam mais rápido que o medo, em portas mentais, em ruído demais, em escolha.

O kyber não era o problema.

- Padawan Olphen? — Chamou Huyang.

Ela piscou.

- O quê?

- A senhorita está olhando para seu kyber com intensidade suficiente para assustar aprendizes menos experientes.

- O cristal não se assusta.

- De fato, não. Mas eu registro tendências.

Rum’ea franziu a testa.

- Isso é uma ameaça de arquivo?

- É uma observação histórica.

- Parece ameaça.

- Continua sendo observação.

Ele combina com você, disse Tarla.

Porque é irritante?

Porque não esquece detalhes.

Bom saber que é assim que meu Mestre me vê.

Rum’ea respirou fundo.

- Vamos montar.

- Excelente. — Disse Huyang. — Por favor, não tente fazê-lo com as mãos.

Rum’ea olhou para a bancada. As peças pareciam, subitamente, numerosas demais.

- Não…

- Sim.

- Você só pode estar brincando.

- Não estou.

— … A montagem é feita com telecinese.

- Sim.

- Claro. Porque a Ordem Jedi gosta de transformar requisitos técnicos em humilhações espirituais.

- Porque o alinhamento interno do kyber exige precisão que as mãos frequentemente atrapalham.

- Isso foi uma resposta séria demais.

- A construção de um sabre de luz é um processo sério.

Rum’ea olhou para o próprio conjunto de peças em ferro negro, tubos capilares, botão silencioso, anéis gravados e cristal incolor.

- Ele pode explodir?

- Sim.

Ela virou devagar para Huyang.

- Professor.

- Você perguntou. Eu respondi.

- Em que escala?

- De constrangimento a amputação, dependendo da natureza do erro.

… Tarla?

Estou aqui.

Eu odeio tradições Jedi.

Compreensível.

Esse droide acabou de classificar explosão em escala pedagógica.

Também compreensível.

Você não está ajudando.

Creio que não.

Huyang posicionou-se ao lado da bancada, as mãos metálicas dobradas atrás do corpo, em uma postura que sugeria supervisão, julgamento e a memória de inúmeros Padawans que provavelmente haviam feito perguntas piores.

- Comece pelo eixo central.

Rum’ea fechou os olhos. A Força respondeu como sempre respondia a ela no início: com estática. Não a estática brutal de Kyrmora inteira esmagando sentidos, mas o ruído familiar, a interferência que lhe rondava a presença como um segundo clima. Ela alcançou a primeira peça com a intenção. O cilindro de ferro negro tremeu sobre a bancada e nada mais.

Rum’ea apertou a mandíbula.

Não brigue com ele, disse Tarla.

Eu não estou brigando.

Você está tentando convencê-lo de que ele lhe deve dinheiro.

Talvez deva.

Nao deve.

Talvez ele só não saiba ainda.

Rum’ea.

Ela soltou ar pelo nariz. O cilindro ergueu-se alguns centímetros. Depois girou rápido demais.

- Devagar. — Orientou Huyang.

- Eu sei.

- Saber e executar são etapas distintas.

- Professor, já lhe contaram que eu sou ótima desmontando peças?

- Anotado.

- E…?

- Não seria a primeira tentativa infrutífera.

O cilindro parou no ar, oscilando. Rum’ea tentou então puxar os condutores menores — dois vieram ao mesmo tempo. Um terceiro saltou da bancada como se tivesse sido pessoalmente ofendido pelo conceito de ordem. Huyang moveu uma mão com velocidade surpreendente e o apanhou antes que batesse no chão.

- Isso teria comprometido a simetria interna.

- Ele fugiu.

- Componentes não fogem.

- Esse parecia ter motivação.

A estática dela subiu, embora ainda não por pânico, mas por pura frustração. A Força ao redor das peças parecia areia elétrica entre os dedos. Quando Rum’ea tentava firmeza, as peças vibravam. Quando tentava suavidade, perdiam direção. Telecinese ainda era uma língua que ela entendia com sotaque hostil.

Do outro lado do vínculo, Tarla se aproximou, e presença dele tocou a borda da estática como uma mão pousando do lado de fora de uma porta.

Permissão?

Rum’ea ficou imóvel. Ela sabia o que ele perguntava.

Não faça por mim.

Não farei.

Se fizer, eu desmonto seu sabre e coloco peças areia dentro.

Uma ameaça específica.

Pode, disse ela.

Tarla entrou apenas o bastante. Primeiro, ele tentou colocar a presença sob a dela, como uma rede de segurança, o que só piorou a estática e quase derrubou tudo que ela conseguia sustentar com tanta dificuldade – Tarla se afastou imediatamente.

Ele então tentou o equivalente a colocar as mãos por sobre as dela. A estática respondeu com pontas agudas, estalando alto como se estivesse se protegendo, e Tarla se afastou mais uma vez.

Rum’ea achou que ele havia desistido, até que sentiu imediatamente a diferença de algo novo.

Ele não “emprestou” a Força como alguém derramando água de um recipiente para outro. Não havia uma porção dele passando para dentro dela. Não havia tomada, nem condução do braço invisível, nem substituição da vontade. A Força de Tarla não se misturou à dela como ferramenta.

O que ele fez foi muito mais sutil.

A presença dele desceu sobre a estática como neve grossa sobre fios expostos — não apagou ou silenciou nada. Apenas baixou o volume do ruído, organizou as bordas, e segurou os estalos maiores antes que atravessassem as peças. O lago dele não invadiu, simplesmente refletindo o suficiente para que a superfície dentro dela parasse de quebrar em todas as direções. Rum’ea abriu os olhos.

Você não está me dando sua Força.

Não.

Você está baixando a minha estática.

Sim.

Você poderia ter feito isso com a pedrinha.

A pedrinha não explodiria.

Ainda assim.

Rum’ea?

O quê?

Por favor, vá mais rápido.

Por quê?

Há desgaste considerável para fazer o que estou fazendo.

Machuca?

Um pouco. Mas cansa mais.

Ela voltou ao sabre imediatamente. Desta vez, o cilindro central permaneceu suspenso sem tremer. Os condutores se alinharam um a um. As pequenas peças internas ergueram-se da bancada em ordem: célula de energia, matriz de foco, isoladores do botão silencioso, microcanalizações de resfriamento, anéis de estabilização.

Huyang inclinou a cabeça.

- Melhor.

- Eu percebi.

- Continue percebendo e faça menos movimentos bruscos.

Rum’ea ignorou o desejo de responder. As peças começaram a girar ao redor do eixo central — não era nada elegante, mas estava certo.

O anel com a frase em keshtari ergueu-se por último entre os componentes externos. Rum’ea sentiu o metal escuro no ar como se sentisse o peso das palavras sem tocá-las. As letras de Tarla capturaram a luz por um instante.

Tai nil kaëla ailunë-sara.

Você escolheu essa frase por quê? perguntou ela, sem olhar para o anel.

Tarla demorou um pouco.

Porque você pediu que eu escrevesse algo em keshtari.

E você simplesmente decidiu escrever a frase mais romântica de Keshtara?

Talvez a mais culturalmente importante.

Essa é uma resposta inútil.

Escolhi a frase porque seria gravada no seu sabre. Uma arma. Um instrumento Jedi. Uma coisa que você carregará quando estiver sozinha e quando não estiver. Mesmo que a frase em Keshtara seja usada exclusivamente como algo relacionado a romance, eu quis que houvesse com você uma frase de permanência.

Rum’ea quase perdeu o controle do anel. Tarla estabilizou a estática antes que a peça oscilasse demais, mas não tocou o movimento. Ainda assim, o mesmo homem que não parecia sequer respirar um pouco mais pesado após treinos físicos agora se cansava com rapidez surpreendente.

Permanência, repetiu ela.

Sim.

O anel encaixou enquanto Huyang observava a sequência com atenção crescente.

- Alinhamento externo satisfatório. Agora o kyber.

O cristal ergueu-se do estojo.

Rum’ea prendeu a respiração.

O kyber flutuou sobre a bancada, pequeno e incolor, cercado por peças escuras demais, antigas demais, dela demais. Por um momento, parecia impossível que aquele fragmento silencioso pudesse sustentar uma lâmina. Parecia mais provável que ele simplesmente recusasse toda a estrutura, voltasse para Ilum e apresentasse queixa formal contra decisões estéticas — mas a nota veio.

Baixa.

Limpa.

Sustentada.

A estática de Rum’ea recuou por conta própria, e Tarla também sentiu.

Ele sabe onde ir, disse ele.

Rum’ea não respondeu – precisava de todo foco possível para guiar o cristal até o centro da empunhadura.

As peças internas se abriram ao redor dele como uma flor mecânica e escura. O kyber entrou no espaço reservado sem resistência. Não preso ou forçado, mas simplesmente recebido. Huyang ajustou a posição de uma das mãos metálicas, mas não interferiu.

- Feche.

Rum’ea fechou.

A empunhadura começou a montar-se ao redor do cristal. O ferro negro encontrou ferro negro. Os tubos capilares encaixaram nos canais laterais. Os condutores travaram em sequência. O botão silencioso afundou no próprio lugar com um clique tão baixo que quase não existiu. Os anéis externos giraram uma vez, alinhando as inscrições. As peças menores assentaram, uma a uma, até o sabre pairar inteiro no ar diante dela.

Escuro.

Assimétrico e preciso.

Com veios azuis quase escondidos entre as placas.

Com escritas em alfabetos diferentes nos aros inferiores.

Com a frase keshtari no anel principal.

Com um botão que não gritaria… Provavelmente.

Com tubos de resfriamento que brilhavam em azul.

Com um kyber pequeno, incolor e irregular no coração.

O sabre baixou devagar até a palma de Rum’ea. Quando o metal tocou sua mão, ela ficou muito quieta.

Era mais pesado do que imaginara. Não em massa, embora houvesse um peso considerável, mas em peso de existência.

A empunhadura cabia na mão dela de um jeito estranho, como se fosse longa demais para o corpo pequeno dela e, ao mesmo tempo, absolutamente correta. Não parecia uma arma comprada, nem uma peça roubada, nem uma ferramenta de sucata remendada para durar até a próxima fuga. Era dela. Feita de peças que conheciam queda, calor, ruído, reparo, frase, escolha.

Tarla afastou a presença um pouco, removendo a cobertura da estática dela. Do outro lado do vínculo, Rum’ea pôde senti-lo respirar em alívio.

Huyang aproximou-se.

- Montagem concluída.

Rum’ea não respondeu.

Respire, disse Tarla, muito baixo.

Dessa vez, ela não reclamou, e apenas espirou. Huyang estendeu uma mão.

- Acenda-o.

Foi então que o corpo de Rum’ea endureceu. A empunhadura, que até então parecia pesada, tornou-se subitamente enorme.

A lâmina.

A cor.

A resposta.

Ilum voltando. O silêncio. O corredor escuro à margem. O cristal caindo na mão dela. A Força não a esquecendo. A possibilidade de que, ao acender, tudo aquilo se tornasse visível demais. Real demais. Irreversível demais.

Ela fechou os dedos ao redor do sabre.

- Não.

Huyang inclinou a cabeça.

- Não?

- Ainda não.

- Padawan Olphen, o teste de ignição é parte essencial do processo de montagem.

- Eu sei.

- Um sabre montado incorretamente pode apresentar instabilidade, superaquecimento, falha de contenção ou explosão.

- Eu sei.

- Então acenda-o.

Rum’ea engoliu. Pelo vínculo, Tarla não disse nada. Ele apenas ficou ali, do outro lado, esperando que a decisão fosse dela. Rum’ea então olhou para Huyang.

- Eu não estou preparada para ver a lâmina ainda.

O droide ficou em silêncio. Por um instante, Rum’ea esperou uma correção. Uma explicação sobre tradição. Uma frase sobre Padawans, coragem, dever, sequência, procedimento… Mas Huyang apenas a observou.

- Entendo.

Rum’ea piscou em confusão.

- Entende?

- Não emocionalmente. Mas compreendo a informação.

- Isso foi quase gentil.

- Foi funcional.

- Claro que foi.

Huyang estendeu a mão metálica.

- Posso testar que não explodirá?

Rum’ea olhou primeiro para o sabre, depois para o droide.

- Você quer acender meu sabre?

- Quero verificar se a montagem não colocará a senhorita, esta oficina e uma porção significativa de minha coleção histórica em perigo.

- Isso parece razoável.

- Fico satisfeito que reconheça.

Rum’ea segurou o sabre mais um instante, percebendo que o anel em keshtari tocava a lateral de seus dedos.

Está tudo bem, disse Tarla.

Ela apertou os olhos.

Você não sabe. Pode explodir.

Isso realmente pode. Eu quis dizer que está tudo bem não querer ver ainda.

A mão dela relaxou um pouco.

Ah.

Huyang aguardava. Rum’ea colocou a empunhadura na mão dele com cuidado quase agressivo.

- Pode testar.

- Condições?

- Eu não vejo.

- Aceitável.

- E, se explodir, você não diz “eu avisei”.

- Se explodir, provavelmente estarei ocupado demais sendo danificado.

Huyang pegou o sabre e caminhou até uma porta lateral da oficina. Rum’ea virou o rosto antes mesmo que ele saísse.

- Sala de teste três. — Disse o droide, provavelmente para registro próprio. — Blindagem adequada. Distância segura. Procedimento padrão de escaneamento e, posteriormente, ignição.

- Ótimo.

- A senhorita pode cobrir os ouvidos se desejar.

- Mas o botão não é silencioso?

- Eu me referia a explosão.

Rum’ea fechou os olhos.

- Professor…

- Entrando na sala de teste.

A porta fechou-se, deixando Rum’ea sozinha na oficina. Não completamente, claro — Tarla estava ali no vínculo, silencioso, presença cuidadosa, claramente mais cansado do que ela já o vira antes. Mas fisicamente, havia apenas a bancada vazia, as peças sobressalentes, o estojo aberto do kyber, as ferramentas de Huyang, a luz branca e a ausência do sabre em sua mão.

A ausência pesou.

Ele está com meu sabre, pensou ela.

Sim.

Isso é estranho.

Imagino.

Se ele explodir, eu vou ficar sem sabre.

E Huyang ficará sem parte do braço, talvez.

Você acha que ele tem peças substitutas?

Provavelmente muitas. Ele se orgulha bastante de ter 78% das peças originais.

Então o risco emocional está mais do meu lado.

Uma avaliação possível.

Ela respirou. Do outro lado da porta, não houve som. Absolutamente nada.

Nenhum zumbido.

Nenhum estalo.

Nenhuma explosão.

Nenhum barulho ensurdecedor de montagem errada.

O botão silencioso, ao menos, parecia ter mantido a própria promessa e ter sido colocado corretamente. Rum’ea percebeu que estava segurando a borda da bancada com força demais e soltou os dedos um por vez.

Tarla?

Sim?

E se a lâmina for… Errada?

A resposta demorou um instante.

Errada como?

Não sei.

Então talvez não seja a lâmina que você teme.

Rum’ea odiou a resposta por ser provavelmente verdadeira.

Existe alguma aula de “como ser irritante e certo ao mesmo tempo com respostas Jedi”?

Não. Mas posso sugerir ao Conselho.

Não.

- Testes concluídos. — Anunciou Huyang do outro lado da porta.

Rum’ea virou-se tão rápido quando a porta abriu que quase pareceu que não estivera fingindo indiferença.

Professor Huyang retornou intacto.

O sabre estava em sua mão. Não havia fumaça. Não havia rachaduras. Não havia peças faltando. Nenhum cheiro de queimado. Nenhuma expressão de tragédia mecânica, embora droids fossem injustamente limitados nesse campo.

Rum’ea olhou primeiro para Huyang, depois para o sabre.

- Funcionou? — Perguntou.

Huyang entregou-lhe a empunhadura.

- A montagem funcionou. Emissão estável. Contenção adequada. Botão de ativação silencioso. Nenhuma explosão. Nenhum superaquecimento, obviamente, embora eu ainda considere tibanna excessivo. Nenhum dano estrutural detectado.

Rum’ea recebeu o sabre. O metal parecia diferente agora. Não visivelmente, claro, mas ela sabia — o sabre fora aceso. A lâmina existira.

Ela ainda não a vira, mas o objeto em sua mão havia se tornado completo do outro lado de uma porta. Isso, estranhamente, ela entendia.

Algumas coisas podiam existir antes que ela estivesse pronta para olhar diretamente.

Huyang recolheu duas ferramentas da bancada.

- A lâmina é incomum.

Rum’ea ficou imóvel.

- Professor!

- A senhorita disse que não estava preparada para ver. Não disse que não estava preparada para ouvir descrição.

- Estou dizendo agora.

- Entendido.

O droide calou-se. Rum’ea olhou para ele com suspeita.

- Você realmente calou.

- Sim.

- Isso é perturbador.

- Posso voltar a falar.

- Não.

- Entendido.

Pelo vínculo, Tarla estava muito silencioso.

Você quer saber, disse ela.

Sim.

Mas não vai perguntar.

Não.

Porque é meu.

Sim.

Ela olhou para a empunhadura escura em sua mão, para os tubos finos, as inscrições, o anel de Tarla, o botão silencioso.

Eu também quero saber.

Eu sei.

Mas não ainda.

Então não ainda.

Rum’ea fechou os dedos ao redor do sabre. O Professor Huyang observou-a com olhos amarelos antigos.

- Guardarei o registro técnico da montagem. A aparência externa também será arquivada.

Rum’ea olhou para ele.

- Sem comentários poéticos.

- Meus registros raramente são poéticos.

- Sei.

- Embora eu possa assinalar que a escolha de ferro negro, inscrições múltiplas e tubos capilares de tibanna cria uma identidade visual notavelmente coerente com uma Padawan de formação tardia, origem não convencional e tendência a discutir com objetos pequenos.

Rum’ea ficou olhando para ele.

- Isso foi um comentário poético disfarçado de histórico.

- Foi uma observação técnica com implicações culturais.

Definitivamente gosto dele, disse Tarla.

Você está proibido de gostar de qualquer droide que registre minha tendência a discutir com objetos pequenos.

Registro mental feito.

Tarla.

Não em papel.

Rum’ea prendeu o sabre no cinto. O peso dele mudou o modo como seu corpo ocupava a sala. Ela olhou para a bancada vazia, para o estojo agora sem kyber, para o tecido escuro onde a frase keshtari repousara antes de se tornar parte da empunhadura.

- Professor Huyang?

- Sim, Padawan Olphen?

- Obrigada.

Huyang inclinou a cabeça.

- De nada. Sua montagem foi aceitavelmente pouco destrutiva.

Rum’ea estreitou os olhos.

- Isso é elogio?

- Considerando alguns registros históricos, sim.

- Vou aceitar.

- Recomendo meditação adicional antes da primeira ignição pessoal. O kyber está claramente ativado, mas quanto melhor a conexão com o portador, melhor.

- Eu sei.

- E supervisão.

- Eu sei.

- E distância de materiais inflamáveis.

- Professor…

- Também recomendo não ameaçar componentes internos durante manutenção futura.

Rum’ea pousou a mão sobre o sabre no cinto.

- Eles devem se comportar.

- Componentes não respondem a intimidação.

- Veremos.

Huyang ficou imóvel por um instante.

- Atualizarei o registro conforme necessário.

Rum’ea quase sorriu.

Ela saiu da oficina com passos mais lentos do que usaria se estivesse fugindo de qualquer coisa. O corredor da nave parecia igual, mas o peso no cinto fazia tudo inclinar ligeiramente para uma nova realidade.

Ela tinha um sabre. Ainda não vira a lâmina. Ainda não sabia se conseguiria acendê-lo sem sentir que alguma parte dela ficaria exposta demais à própria luz… Mas ele existia.

Montado.

Testado.

Inteiro.

Com o kyber que caíra em sua mão como confiança.

Com ferro negro que parecia ter sobrevivido a mundos difíceis.

Com tubos capilares preparados para calor que ainda não havia vindo.

Com inscrições de línguas diferentes, porque uma vida só em um alfabeto jamais seria suficiente para ela.

Com uma frase em keshtari gravada pela mão de Tarla.

“Nunca um sem o outro”.

Rum’ea, chamou ele, baixo.

O quê?

Parabéns.

Ela caminhou mais alguns passos antes de responder.

Ele não explodiu.

Um começo promissor.

Huyang também não explodiu.

Excelente para a continuidade histórica.

E eu não vi a lâmina.

Você verá quando escolher.

Rum’ea tocou o anel gravado com o polegar. As letras eram pequenas sob o dedo. Firmes. Reais.

Tarla?

Sim?

Obrigada pela frase.

O vínculo ficou silencioso por um instante. Não vazio — cheio demais.

Ela é sua agora, respondeu ele.

Rum’ea olhou para o corredor adiante. A presença dele estava distante, invisível, secreta, escondida de todos os outros como sempre.

Mas a frase estava no sabre.O kyber estava no centro. A empunhadura estava no cinto. E, pela primeira vez, a arma que ela ainda não acendera parecia menos uma pergunta sobre o que a Força veria nela e mais uma resposta que ela poderia carregar até estar pronta para olhar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.