A Profecia dos Amantes
26 A Distância
A ideia veio a Tarla de modo inconvenientemente simples: eles já haviam aprendido a fechar o vínculo.
Não a rompê-lo, porque rompimento era uma palavra errada para aquilo. O vínculo entre ele e Rum’ea não se comportava como uma linha comum, uma ponte comum ou qualquer coisa que os arquivos de fenômenos raros da Força descrevessem com precisão satisfatória – exceto, talvez, uma díade, mas Tarla se recusava veementemente a sequer considerar a opção. Podiam estreitá-lo, filtrar a passagem, fechar portas internas, deixar apenas a presença do outro como uma luz pequena do outro lado de uma parede translúcida. Podiam sentar no mesmo cômodo, um lendo relatórios e a outra rosnando contra arquivos linguísticos, e manter o vínculo fechado o bastante para que nenhum pensamento passasse sem escolha. Ainda assim, a presença permanecia. Sempre. Um ponto de orientação. Um “aqui” que não dependia de olhos, voz ou distância física.
Isso, por si só, já era impossível o bastante, mas Tarla começou a se perguntar o quanto.
No início, a pergunta ficou no fundo da mente como muitas perguntas perigosas ficavam: quieta, polida, fingindo não exigir resposta. Depois surgiu novamente durante uma reunião. Depois durante meditação. Depois quando Rum’ea estava sentada à frente dele no refeitório, mordendo uma fruta com expressão desconfiada enquanto o vínculo permanecia cuidadosamente estreito entre eles, apenas presença, apenas contorno, nada além do conhecimento silencioso de que o outro estava ali.
Até onde? pensou Tarla.
Rum’ea ergueu os olhos imediatamente.
Você pensou alguma coisa.
Tarla tomou chá.
Penso muitas coisas.
Essa resposta já devia ser considerada evasão formal pela Ordem.
Ele não respondeu.
O teste, quando decidiu fazê-lo, exigiu mais preparação do que a ideia inicial sugeria – ele não podia simplesmente desaparecer. Ainda tinha missões, relatórios, instruções da Padawan, reuniões do Conselho e uma quantidade quase ofensiva de pareceres administrativos que pareciam se reproduzir sobre a mesa quando ninguém olhava. Acabou escolhendo uma viagem de três semanas: uma semana para ir, uma para resolver uma inspeção secundária em uma colônia distante para catalogação e verificação de mensagens em uma subestação orbital, outra para voltar. O percurso era quase uma linha reta através de rotas pouco usadas, longe o suficiente para testar distância, simples o suficiente para não exigir uma equipe maior, e tedioso o bastante para que ninguém o invejasse ou sequer quisesse ir junto.
Rum’ea recebeu a notícia com uma quietude ruim. Não protestou de início – e isso era o sinal mais perigoso. Ficou sentada na borda da fonte pequena dos jardins internos, um datapad desligado no colo e o cabelo negro caindo sobre um ombro, enquanto Tarla explicava que, durante sua ausência, ela ficaria sob tutela parcial de Mestre Yaddle. Não uma substituição de vínculo ou uma transferência, apenas supervisão formal para treinos leves, alimentação, rotina e acesso aos arquivos.
Yaddle estava presente, mãos entrelaçadas diante do corpo, observando Rum’ea com aquela calma antiga que nela parecia menos enigma e mais delicadeza.
— Mestre Kesyk retornará. — Disse Yaddle, sem a inversão gramatical de Yoda (o que sempre surpreendia Rum’ea, que achava que falar estranho era inerente à espécie), com voz baixa e clara. — Enquanto ele estiver fora, você pode me procurar para qualquer questão prática. Não tentarei ocupar um lugar que não é meu.
Rum’ea olhou para ela por um instante.
— Isso é... Melhor do que eu esperava.
Yaddle sorriu de leve.
— Vou aceitar como elogio.
Tarla sentiu, pelo vínculo estreito, uma pequena ondulação de aprovação cautelosa em Rum’ea. Ela gostava de Yaddle mais do que admitia. Talvez porque Yaddle não a tratasse como criatura quebrada, nem como projeto curioso, nem como ameaça. Para ela, Rum’ea era apenas uma Padawan tardia que precisava de espaço, comida e alguém capaz de responder perguntas sem transformar tudo em exame espiritual.
Ainda assim, quando Tarla partiu, a presença dela no vínculo ficou pequena.
Não fechada — pequena.
Rum’ea não tentou alargar. Não ofereceu consolo demais. Simplesmente deixou a própria presença do outro lado, estável e disponível, como haviam treinado. Ela não disse adeus em voz alta. No hangar, segurando três datapads contra o peito como se fossem armadura cerimonial, apenas olhou para ele e falou pelo vínculo:
Não morra no meio do teste.
Farei o possível.
Isso não é garantia.
É o mais honesto que posso ser.
Ela estreitou os olhos.
Também não desapareça.
A frase veio mais baixa.
Tarla encontrou o olhar dela.
Não pretendo.
Também não é garantia.
Porque não posso dar garantias do que está além do meu controle.
Rum’ea pareceu odiar que a falta de algo concreto a confortasse um pouco.
A nave partiu antes do nascer do sol.
Nos primeiros dois dias, Tarla manteve o vínculo quase inteiramente fechado, deixando apenas a percepção de presença. Era exatamente como no Templo. Isso o surpreendeu menos do que deveria, talvez porque uma parte dele já suspeitasse que a distância comum não explicava aquele laço. No terceiro dia, já fora do núcleo de rotas mais movimentadas, ele sentou-se na pequena cabine de descanso da nave e abriu uma caixa baixa de metal sem identificação. Dentro havia folhas de papel verdadeiro — caras, pouco práticas, absolutamente desconectadas dos sistemas do Templo — e uma caneta de ponta fina.
Tarla anotava tudo sobre o vínculo em papel — não em um datapad, nem em registro criptografado, nem mesmo em arquivo pessoal protegido por selo de Mestre.
Papel.
Pequenas folhas guardadas entre dois compartimentos falsos de uma caixa de chá keshtari, porque ninguém no Templo teria motivo razoável para vasculhar folhas de infusão com cheiro de “muro desapontado” (Tarla ainda sentia um fio de diversão ao pensar na definição que Rum’ea atribuíra ao chá) e, mesmo quem encontrasse, teria dificuldade tanto em decifrar a língua quanto o alfabeto.
Ele escreveu com letra precisa, em keshtari:
“Dia 3. Distância crescente. Vínculo reduzido a presença mínima. Não há afinamento perceptível. Qualidade idêntica à observada quando Padawan Olphen se encontra em ala oposta do Templo. Sem eco, sem atraso, sem resistência adicional. A Força parece ignorar distância linear.”
No quinto dia, acrescentou:
“Rum’ea irritada com aula de Yaddle sobre paciência. Presença detectável mesmo com vínculo fechado. Estalos de estática atravessam apenas quando emoção intensa; ainda assim, sem perda de nitidez. Não houve tentativa consciente de abertura.”
No sétimo, escreveu apenas:
“Fascinante.”
Tarla olhou para a palavra por um longo momento. Depois, a sublinhou uma vez.
Quando chegou ao destino, uma colônia de abastecimento instalada em um sistema tão afastado que até os mapas pareciam preenchê-lo com má vontade, ele já tinha várias páginas de notas. A missão em si era simples: verificar se os droides de manutenção precisavam de manutenção, conferir se as gravações de mensagens coincidiam com os arquivos e etiquetas, garantir que nada estava quebrado, e corrigir quaisquer falhas na sessão de redistribuição. Ele fez tudo com competência, como sempre, mas a parte de sua mente que não estava dedicada àquilo continuava voltada ao vínculo.
Na primeira noite na estação, sozinho em um quarto estreito de alojamento oficial que provavelmente foram construído com a intenção primária de guardar quinquilharias, com vento seco batendo contra as placas externas e um céu estrangeiro sem beleza particular visível pela janela, Tarla finalmente abriu o vínculo.
Não devagar ou inteiro demais, mas o suficiente para chamar.
Rum’ea?
A resposta veio quase imediata.
Não parecia eco distante ou transmissão atrasada – era simplesmente como se ela estivesse sentada do outro lado de uma mesa.
Tarla.
Ele sentiu a abertura dela expandir-se com facilidade. A porta interna do vínculo, antes mantida fechada para privacidade, destrancou sem esforço. Pensamentos passaram de um para o outro com a naturalidade que tinham no Templo: o cansaço dela, a lembrança de alguma sopa do refeitório que ela julgava “moralmente indecisa”, a imagem de Yaddle corrigindo a posição dos pés dela com paciência, a irritação por Qui-Gon ter perguntado se uma planta podia sentir saudade de umidade quando a planta claramente parecia ter na verdade saudade de carnificina e dedos humanoides, e, por baixo de tudo, o alívio escondido de senti-lo inteiro.
Tarla deixou que o próprio alívio passasse também — não todo, mas o suficiente.
Você está longe, disse ela.
Sim.
Não parece.
Não.
Houve uma pausa.
Isso é normal?
Não creio.
Você está anotando?
Tarla olhou para a caixa de papel aberta sobre a mesa.
Sim.
Num datapad?
Não.
Não?
Não.
Então no que?
Papel.
Em papel?
Sim.
Isso custa caro.
Alguns créditos a mais, sim.
E você está desperdiçando coisa cara com anotações?
Não considero minhas anotações um desperdício.
Ainda assim. Por que papel?
Porque prefiro que ninguém encontre registros digitais sobre isso.
Paranóico de um jeito elegante, confirmou ela com orgulho da própria constatação.
Ele quase sorriu. Então Rum’ea ficou quieta por um instante, e o vínculo trouxe uma mudança de textura. Curiosidade. Não a curiosidade ruidosa dos arquivos, mas uma concentração mais afiada.
Posso testar uma coisa?
Tarla ficou imóvel.
Pode.
Feche mais o vínculo pelo seu lado. Eu vou abrir mais pelo meu.
Tarla não respondeu de imediato.
… Rum’ea, isso pode puxar informações demais.
Eu sei. Mas vou tentar só pela borda. Se doer ou ficar errado, você fecha e me avisa para que eu também feche.
Ele considerou por alguns segundos. O quarto era silencioso. Distante. Inóspito. Feio. Apertado. Com cheiro de algo guardado a tempo demais mesmo estando limpo. A presença dela, apesar da distância absurda, permanecia clara.
Muito bem.
Tarla fechou o próprio lado do vínculo até quase deixá-lo como uma fenda. Não cortou a presença, mas a restringiu, transformando-a em um ponto estreito, controlado, como se fechasse a porta e deixasse apenas uma fresta por onde luz pudesse passar. Rum’ea, do outro lado, abriu mais.
No primeiro instante, nada aconteceu.
Depois o mundo mudou.
Tarla estava no quarto — e não estava.
Viu pelos olhos de Rum’ea.
Não como antes, quando imagens escapavam pelo vínculo em fragmentos, distorcidas por emoção, memória ou intenção. Não como eco. Não como lembrança recebida. Aquilo era visão real em tempo real. A perspectiva dela. A sala do Templo onde ela estava sentada, o ângulo ligeiramente mais baixo do mundo por causa da altura dela, a borda de um datapad sobre a mesa, a própria mão pálida repousando ao lado, as mangas claras com detalhes azuis, a pequena marca de tinta no dedo indicador por mais que a Stylus sequer usasse tinta, indicando mais atividades clandestinas relacionadas às vestes. Viu Yaddle ao fundo, conversando baixo com uma bibliotecária. Ouviu também. Havia ruído distante dos corredores, uma porta abrindo, a voz de alguém que passava, o zumbido baixo do projetor do holopad.
Tarla parou de respirar por um segundo. Ele não tinha controle do corpo dela. Não podia mover os olhos. Não conseguia virar a cabeça. Ele apenas recebia. Vê-la por dentro de sua própria percepção foi tão íntimo que Tarla imediatamente verificou se havia atravessado mais do que deveria. Nao encontrou dor, e percebeu que não havia medo nela. Havia apenas concentração intensa e uma surpresa crescente.
Está funcionando? perguntou Rum’ea.
A voz mental dela veio de dentro da própria percepção, curiosa, cautelosa.
Sim.
O que você vê?
Seu holopad. Sua mão. Mestre Yaddle ao fundo. Ouço também.
Rum’ea virou a cabeça de propósito. O movimento foi tão estranho para Tarla que por pouco ele não se desequilibrou sentado. O mundo visual inclinou, deslocou, focou nas janelas altas do Templo. Ele viu o céu de Coruscant pela perspectiva dela.
É ruim quando eu faço isso? perguntou ela.
Não. Mas é... Intenso.
Você quer parar?
Tarla levou um instante.
Ainda não. Agora testaremos o oposto.
Eles inverteram.
Rum’ea fechou seu lado do vínculo, deixando uma fenda estreita. Tarla abriu mais o dele, com cuidado.
A surpresa dela veio como uma explosão pequena.
Ah.
Tarla sentiu o instante em que ela viu o quarto pelos olhos dele: a mesa estreita, o papel com anotações, a caixa de chá, as paredes metálicas, a janela mostrando um terreno pálido e árido sob estrelas distantes, o canto de uma mala de viagem, o sabre no cinto sobre a cadeira ao lado. Ouviu pelos ouvidos dele o som do vento seco batendo contra a estrutura externa, o zumbido de um gerador antigo, o silêncio enorme de um lugar sem vida comum ao redor.
Esse lugar é realmente no meio do nada para lugar nenhum, disse ela.
Tarla olhou pela janela, permitindo que ela visse melhor.
Uma descrição geográfica pouco técnica, mas precisa.
Tem certeza de que não pousaram você em um erro cartográfico?
Quase.
É feio.
Funcional.
Feio funcional.
Também é uma descrição precisa.
Rum’ea ficou em silêncio por alguns segundos, ainda vendo por ele. A sensação dela dentro da percepção dele era diferente de quando ele vira por ela. Havia fascínio, sim, mas também uma espécie de estranhamento: a altura dele mudava tudo. O mundo ficava mais baixo, e o teto ficava perigosamente mais próximo. A mesa parecia menor. As mãos dele, quando ele as levantou para testar a sensação visual, pareciam enormes em comparação às dela. O corpo dele era uma paisagem física completamente diferente.
Você é absurdamente alto, disse ela.
Você já sabia.
Eu sabia por fora. E de baixo. Por dentro é pior.
Tarla quase riu.
Depois fechou um pouco o vínculo.
Agora vamos abrir juntos. Devagar.
Para quê?
Para mapear o limite antes de perdermos escolha.
Rum’ea aceitou sem piada — isso, por si só, indicava que compreendia o risco.
Eles começaram com a abertura confortável de sempre. Depois um pouco mais. Pensamentos passaram mais livres, não apenas palavras: a fadiga dele, o gosto metálico e estéril do ar da estação, o peso da roupa nos ombros; do lado dela, o calor do refeitório ainda preso à memória, a irritação com uma anotação ruim, o som da própria respiração. Mais um pouco, e vieram impressões antigas, não memórias inteiras, mas sombras: Keshtara ao longe em Tarla, Kyrmora em Rum’ea, o lago mental dele, a estática dela, o quarto vazio, a mesa do Templo.
Mais.
O vínculo abriu em uma largura que jamais haviam permitido antes.
Tarla sentiu Rum’ea como presença inteira demais. O cansaço dela nos olhos. A tensão residual dos ombros. A curiosidade. A cautela. A confiança. A maneira como, mesmo sentada no Templo, uma parte dela parecia inclinada em direção a ele através de uma distância que deveria ser enorme e não era. Ela sentiu nele a solidão do quarto, a disciplina mantendo-a contida, a exaustão da missão, o fascínio intelectual pelo fenômeno, a preocupação com limites, e uma camada mais funda, silenciosa, que ele não havia pretendido abrir tanto.
Tarla parou.
Pare.
Rum’ea obedeceu no mesmo instante. O vínculo estabilizou naquela abertura ampla por uma fração de segundo, depois recuou com cuidado até o estado confortável que conheciam: aberto o suficiente para pensamento, fechado o bastante para escolha.
Foi demais? perguntou ela.
Quase.
Você quer deixar mais fechado de novo?
Tarla olhou para a janela do quarto. O terreno lá fora era escuro, vazio, sem árvores, sem jardins, sem vozes do Templo, sem água corrente, sem Rum’ea entrando em uma sala com quatro datapads nos braços e uma acusação contra algum termo diplomático, esperando que ele concordasse com ela e depois quase rosnando quando ele discordava porque era mais uma “faca macia”. Ele pensou em responder que sim, por prudência. Pensou em fechar até a presença mínima, como faria normalmente para preservar disciplina, distância, serenidade.
Mas o vínculo, ainda aberto confortavelmente, deixou passar a verdade antes da versão prudente: naquele ponto inóspito, ele não queria estar sozinho. E gostava da companhia dela.
A frase não veio inteira em palavras. Veio como sensação: o quarto ficando menos vazio porque ela estava ali do outro lado; a presença dela tornando o vento seco menos amplo; o alívio de não precisar reduzir tudo a silêncio; o reconhecimento simples, quase vulnerável, de que a companhia de Rum’ea não o cansava. Pelo contrário.
Rum’ea silenciou.
Um silêncio absoluto e imóvel, embora não fechado.
Tarla sentiu que ela ouvira. Por um momento, pensou que ela comentaria. Talvez com uma frase ríspida. Talvez chamando-o de sentimental de modo acusatório. Talvez fugindo para alguma piada.
Mas ela não comentou.
Apenas deixou a própria presença permanecer ali, estável, com uma delicadeza que nele causou mais efeito do que qualquer resposta.
Depois, algum tempo mais tarde, Rum’ea se levantou. Tarla percebeu o movimento pelo vínculo antes de ela dizer qualquer coisa.
Onde vai?
Refeitório.
Por quê?
Testar outra coisa.
Rum’ea.
Você disse que eu podia testar.
Eu disse uma coisa, não uma campanha experimental completa.
Você também está curioso.
Infelizmente, estava.
Rum’ea atravessou os corredores do Templo com o vínculo aberto no modo confortável, carregando apenas um datapad e uma determinação que Tarla reconhecia como irreversível. Era noite em Coruscant, mas o refeitório do Templo ainda mantinha uma área pequena disponível para Cavaleiros em missões tardias, curandeiros e criaturas noturnas que, como Rum’ea, poderiam argumentar que pesquisa da Força justificava lanche. Ela entrou, pegou uma bandeja e começou a escolher itens com uma seriedade quase científica.
Feche mais o vínculo, pediu ela.
Para você abrir?
Sim. Vamos descobrir se, além de visão e audição, passa tato, olfato e paladar.
Isso pode cansar você.
Então eu paro quando cansar.
Tarla duvidou da segunda parte, mas concordou sob condição.
Se eu disser parar, você para.
Se ficar perigoso, sim.
Rum’ea.
Está bem, está bem. Se você disser parar, eu paro. Estraga prazeres…
Ele fechou o próprio lado em fenda outra vez. Ela abriu mais. Primeiro veio a visão: a bandeja, as mãos dela, a linha de alimentos. Depois a audição: utensílios, vozes distantes, o zumbido térmico dos recipientes. Então Rum’ea se concentrou em algo diferente. Levou um pequeno pedaço de fruta cítrica ao nariz.
O cheiro atingiu Tarla com nitidez surpreendente — ácido, fresco, levemente adocicado, com uma nota verde que parecia quase cortar o ar do quarto da colônia. Tarla inspirou por reflexo, embora o aroma não estivesse fisicamente ali.
Olfato confirmado, disse ele.
Rum’ea mordeu a fruta.
O gosto veio um instante depois.
Forte o bastante para fazê-lo fechar os olhos. Ácido primeiro, depois doçura, depois a textura suculenta estourando contra a língua dela. Não era lembrança dela comendo — era paladar recebido. O corpo dele não mastigava, mas sua mente registrava o gosto por meio dela com precisão desconcertante.
Paladar também, disse ele.
Rum’ea, satisfeita, pegou algo salgado. Depois algo amargo. Depois, sem aviso, uma colherada de um condimento picante usado por algumas espécies do Templo.
Tarla ficou imóvel.
Isso foi desnecessário.
Rum’ea tossiu do outro lado.
É ciência.
Isso é imprudência temperada.
Arde.
Eu percebi.
O picante veio como calor na boca dela, no fundo da garganta, nos olhos lacrimejando. Tarla sentiu tudo por transmissão, não com a mesma intensidade plena dela, mas o suficiente para considerar seriamente se deveria interromper a pesquisa e talvez escrever uma nota disciplinar para ambos.
Água, disse ele.
Eu sei.
Ela bebeu.
A água fria passou também, aliviando parte do ardor. E então Rum’ea testou tato. Primeiro tocou com a ponta dos dedos a superfície fria de uma jarra metálica. Tarla sentiu o frio na pele dela, não em sua própria mão, mas através de uma correspondência estranhamente exata. Depois ela segurou uma caneca quente. Calor. Pressão. Peso. A textura lisa do material. Mais tarde, passou os dedos pela borda áspera da mesa, e ele percebeu a granulação leve sob as digitais dela.
A cada teste, Rum’ea precisava abrir mais.
Tarla sentiu a fadiga chegando antes que ela admitisse: a presença dela começando a perder nitidez nas bordas, a estática ficando mais grossa, a concentração se tornando pesada. Ainda assim, ela tentou pegar um pedaço de pão quente para testar textura e sabor juntos.
Pare, disse ele.
Rum’ea congelou. Por meio segundo, houve resistência – e então, ela pousou o pão.
A abertura dela recuou devagar. O vínculo deixou de transmitir sentidos e voltou primeiro à visão turva, depois à audição distante, depois ao pensamento, depois ao confortável estado habitual. Rum’ea ficou sentada no refeitório, respirando mais fundo do que antes, a cabeça baixa, uma mão na borda da bandeja.
Você está cansada, disse Tarla.
Um pouco.
Bastante.
Um pouco bastante.
Volte aos aposentos.
Vou comer primeiro.
Tarla quase respondeu que ela deveria descansar imediatamente, mas parou. A bandeja estava ali. Ela havia gastado energia. Comer era sensato.
Coma. Depois volte.
Rum’ea pegou o pão quente e mordeu, agora sem tentar transmitir nada. Ainda assim, pelo vínculo aberto, passou uma satisfação pequena, simples demais para ser escondida.
Está bom? perguntou Tarla.
Está.
Ele sentou-se no quarto distante, ouvindo o vento da colônia e sentindo a presença dela na cantina do Templo como se fosse uma luz colocada em uma janela muito distante mas que, inexplicavelmente, ainda iluminava a parede ao lado dele.
Mais tarde, quando Rum’ea voltou aos aposentos e se deitou, o vínculo permaneceu aberto em presença confortável. Não sensorial. Tampouco excessivo. Apenas ali.
Tarla pegou o papel e a caneta.
Escreveu:
“Distância extrema não afina vínculo. Abertura assimétrica permite transmissão sensorial visual e auditiva completa. Olfato, paladar e tato possíveis com expansão significativa do lado emissor; causa fadiga em Rum’ea. Necessário cuidado. Abertura conjunta acima do padrão confortável aproxima-se de zona de perda de escolha. Interromper antes de ultrapassar.”
Parou, olhou para a última linha, e acrescentou, em letra menor:
“Companhia percebida como presença estável apesar de separação física. Efeito emocional relevante. Não registrar em sistemas.”
Ficou olhando para o papel por muito tempo antes de guardá-lo.
Do outro lado da galáxia, Rum’ea já estava quase dormindo, mas ainda consciente o bastante para tocar o vínculo uma última vez.
Tarla?
Sim?
Meio do nada para lugar nenhum ficou menos feio?
Ele olhou pela janela para o mundo árido, escuro e sem graça sob o céu distante.
Um pouco.
Rum’ea não respondeu em palavras, embora o vínculo trouxesse um calor pequeno, satisfeito, e sonolento. E Tarla, pela primeira vez desde que partira, não achou o quarto silencioso demais.
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