A nave pousou no hangar do Templo pouco depois do fim da tarde, quando a luz de Coruscant entrava lateral pelas aberturas altas e transformava o metal do piso em uma superfície dourada, longa e fria.

Tarla permaneceu sentado por alguns segundos depois que os motores entraram em repouso. Não por necessidade técnica, uma vez que o painel já indicava estabilização completa, autorização de desembarque, acoplamento seguro e envio automático do relatório preliminar de chegada. A viagem terminara sem incidentes relevantes, a missão fora resolvida com a eficiência esperada, e as três semanas tinham se cumprido com a estranha elasticidade que apenas deslocamentos longos em hiperespaço conseguiam criar: tempo demais para pensar, pouco o bastante para parecer que algumas coisas no Templo não deveriam ter mudado.

O vínculo estava fechado de forma habitual – não por rejeição. Nunca por rejeição. Estava simplesmente filtrado. Presença, contorno, o conhecimento silencioso de que Rum’ea estava em algum lugar do Templo. Depois dos testes de transmissão sensorial, ambos haviam sido cuidadosos. O vínculo permanecera confortável durante a viagem, mas não aberto demais — uma porta interna, não uma passagem escancarada. Tarla soubera que ela estava bem. Rum’ea soubera que ele estava vivo. Entre esses dois pontos, haviam permitido que pensamentos atravessassem apenas quando escolhidos.

Ele pegou a caixa de chá onde guardava as anotações em papel, prendeu-a dentro da bolsa de viagem com cuidado e então saiu da nave.

O hangar cheirava a ozônio, metal aquecido e circulação de ar filtrado. Técnicos do Templo se moviam ao longe, dois dróides de manutenção já se aproximavam da lateral da nave, e uma pequena equipe de recepção administrativa aguardava em outro setor para recolher registros formais porque, aparentemente, havia pouquíssimas coisas mais importantes do que relatórios. Tarla desceu a rampa com o manto pesado sobre os ombros, o sabre no cinto, a expressão calma de quem retornava de uma viagem tediosa, distante e útil.

O impacto veio antes de qualquer saudação.

Braços ao redor da cintura. Rosto contra o peito. Um aperto firme o bastante para tirar dele, por uma fração mínima, a organização tranquila do corpo e um pouco do equilíbrio.

Tarla parou no meio da rampa.

Não havia sentido o deslocamento dela. Não a sentira correr pelo vínculo, nem aproximar-se pelos corredores do hangar, nem escolher aquele gesto antes de realizá-lo. Com o vínculo filtrado e com as portas internas quase fechadas, Rum’ea conseguira atravessar a distância física até ele sem que a intenção chegasse antes. E agora, de repente, ela estava ali, pequena contra o corpo dele, os braços fechados em torno de sua cintura com uma força que não combinava com o silêncio absoluto do gesto.

Por baixo da porta do vínculo, tudo vazava.

Saudade.

Alívio.

Um alívio tão bruto que mal tinha nome, uma onda quente e desordenada subindo dela como vapor depois de frio prolongado. Ele voltou. Ele voltou mesmo. Não era mais um que ia embora porque ela era difícil demais, quebrada demais, barulhenta demais, cheia de interferência demais, corpo demais, medo demais, fome demais, perguntas demais, vínculo demais, qualquer coisa demais. Ele não ficara no meio do nada para lugar nenhum. Não se cansara de uma distância segura. Não descobrira, longe dela, que o silêncio era melhor, que a vida sem a estática de Kyrmora era mais simples, que uma Padawan tardia com adagas escondidas, arquivos demais e pânico demais não valia o retorno.

Você voltou.

Tarla fechou os olhos por meio segundo. Depois, ergueu os braços devagar. Não a envolveu de uma vez porque, mesmo naquele gesto inesperado dela, mesmo com o rosto dela contra seu peito e os braços dela já ao redor de sua cintura, ele ainda se moveu como sempre: dando tempo ao corpo dela para mudar de ideia. Primeiro uma mão pousou no alto das costas, firme e leve. Depois a outra, um pouco mais baixa, sem descer à cintura. O abraço dele fechou-se com gentileza, não como contenção, mas como resposta.

Mesmo assim, Rum’ea ficou rígida no mesmo instante.

O corpo dela endureceu contra ele como se a própria escolha tivesse se tornado perigo depois de existir. Tarla sentiu a mudança com a clareza de algo já conhecido e, ainda assim, doloroso. A mente dela, antes inundada de saudade e alívio, abriu rotas. Porta. Rampa. Lateral esquerda. Cotovelo. Joelho. Unhas no rosto. Mordida no braço. Cabeça contra o queixo. Cair de propósito. Escapar por baixo. A mão dele nas costas era gentil, mas mão ainda era mão. O braço dele era cuidadoso, mas braço ainda era braço. Tarla era Tarla, sim. Era presença, lago, Mestre, retorno, segurança construída dia após dia. Mas também era homem. Mais alto. Mais forte. Capaz, em termos físicos, de prendê-la, dobrá-la, tirar sua autonomia do corpo, subjugá-la. A confiança não apagava esse conhecimento. A saudade não apagava. O alívio por vê-lo voltar não apagava.

Ela sabia que ele poderia, e era precisamente por isso que escolher não fugir custava tanto.

Tarla não apertou mais. Não disse que estava tudo bem. Não disse que ela estava segura. Não disse que jamais faria isso, embora a verdade da frase existisse nele com força. Palavras assim, ele aprendera, às vezes exigiam demais de alguém que ainda precisava provar ao próprio corpo que podia sair se quisesse. Então permaneceu imóvel, apenas respirando devagar, deixando que o abraço existisse com espaço dentro dele.

Posso soltar, disse pelo vínculo, baixo, encostando o pensamento na porta sem empurrá-la.

Rum’ea não respondeu de imediato, mas dedos dela se fecharam mais um pouco no tecido das vestes dele.

Não.

Era quase um rosnado. Quase uma ordem. Quase uma súplica.

E Tarla, por pura escolha, obedeceu.

Ficaram assim no meio da rampa, com técnicos fingindo não ver com toda a habilidade diplomática de quem trabalhava no Templo Jedi e já presenciara coisas mais estranhas do que o retorno de um Mestre sendo interceptado pela própria Padawan. O vínculo continuava deixando passar fragmentos. O medo não desaparecia – ele apenas corria por baixo, como água escura sob gelo fino. Mas, pouco a pouco, outra coisa se impôs por escolha, não por facilidade. Rum’ea respirou contra o peito dele. Uma vez. Outra. A rigidez das costas começou a ceder um milímetro por vez. Os planos de fuga permaneceram disponíveis, mas cada vez menos urgentes. As mãos dela, em vez de se prepararem para empurrar, agarraram as laterais de suas vestes com mais consciência. O peso do corpo dela, antes mantido pronto para recuo, encostou nele de verdade.

Tarla sentiu o momento em que ela decidiu relaxar ainda atravessando dúvidas. Atravessando memória. Atravessando o conhecimento horrível de que suavidade já fora, em outras bocas e outras mãos, apenas a primeira mentira antes da cobrança. Ela relaxou porque escolheu, não porque o medo se ausentou.

A mão dele no alto das costas dela se firmou uma fração, não mais que isso. O pensamento veio então, rápido, agitado, quase violento em seu impulso: o que fizeram com você para que um abraço escolhido ainda precise ser vencido como uma batalha?

Tarla segurou-o antes que atravessasse como alguém seguraria um pequeno inseto entre as mãos no meio do pulo: depressa, com cuidado e com a consciência de que qualquer descuido o deixaria escapar. Não podia deixá-la ouvir aquilo. Não ali. Não quando ela acabara de se permitir chegar até ele sem aviso, sem escudo, sem adaga na mão, sem uma explicação que preservasse orgulho. E, além da pergunta, vinham as conclusões. Desagradáveis. Quase certas em suas formas gerais, mesmo que ele não soubesse as linhas exatas. Havia noites em que Rum’ea dormia e o vínculo, mesmo filtrado, deixava passar pesadelos antes que ela conseguisse fechar as portas. Tarla nunca segurava as imagens. Nunca as puxava. Nunca as examinava depois como quem recolhe prova. Deixava-as passar, como prometera a si mesmo que faria quando uma dor não era oferecida.

Mas Tarla não era cego.

Também não era idiota.

Sabia que não fora uma única situação. Sabia que não fora apenas ameaça abstrata. Sabia que havia mãos, vozes, aproximações chamadas de gentileza, segurança usada como corredor para captura, medo do corpo se tornando moeda no olhar alheio. Não sabia quão longe tudo chegara. Não sabia quais limites tinham sido rompidos e quais ela conseguira defender com unhas, dentes, fuga, Força ou pura sorte. E, se fosse honesto consigo mesmo, nem deveria querer saber. Não por indiferença — justamente por respeito. A curiosidade, mesmo nascida de cuidado, poderia se tornar outra forma de tomar.

Então Tarla guardou o pensamento. Guardou as conclusões. Guardou também, com disciplina quase absurda, a antiga imagem mental que sua mente ameaçou oferecer por associação: o pequeno Tooka preto de trança atrás da orelha direita, fitas azuis na pata e na ponta do rabo, correndo até ele no hangar. Aquela imagem não passaria. Não agora. Talvez nunca. Preferencialmente nunca. Rum’ea não sabia do Tooka mental, e Tarla pretendia manter essa ignorância intacta como uma das poucas misericórdias completas que ainda podia oferecer a ambos.

Em vez disso, deixou passar apenas o essencial.

Eu voltei.

Rum’ea ficou imóvel. O rosto dela ainda estava contra o peito dele, e a resposta veio abafada pelo tecido, primeiro como pensamento, depois como sensação.

Eu sei.

Mas por baixo disso havia o complemento não dito: agora eu sei.

Tarla baixou ligeiramente o rosto, não para tocar o cabelo dela, apenas para que a voz, se precisasse existir, não atravessasse o hangar inteiro.

— Senti sua falta. — Disse em voz alta, baixo o bastante para ser só dela.

Rum’ea endureceu de novo, mas de outro modo. Não por medo desta vez – por impacto. A frase pousou nela como uma coisa muito pesada e muito delicada, e por um segundo o vínculo ficou cheio de estática branca, como se a mente dela não soubesse onde guardar aquilo. Saudade recebida era tão difícil quanto saudade sentida, talvez até mais. Sentir falta de alguém podia ser escondido sob irritação, horários, datapads e fome. Ouvir que alguém sentira falta dela não tinha o mesmo abrigo.

— Você ficou no meio do nada. — Murmurou ela contra as vestes dele. — Não tinha mais nada melhor para fazer.

Tarla aceitou a fuga como quem aceita uma ponte improvisada sobre água funda.

— Havia relatórios.

— Não parece melhor.

— Três droides necessitando manutenção.

— Ainda não é melhor.

— Uma antena torta e uma sessão inteira de mensagens que foi escrita metade em huttês, um quarto em Basic e outro quarto em binário.

— Então definitivamente não tinha nada melhor.

O canto da boca dele se moveu.

Havia também vento seco, uma janela feia e comida funcional.

Lugar horrível.

Você disse isso.

Continuo certa.

Sim.

Aos poucos, Rum’ea afastou o rosto do peito dele, mas não soltou completamente. Primeiro levantou apenas a cabeça. Os olhos grandes estavam secos, embora brilhantes de um jeito que ela provavelmente negaria mesmo sob tortura e com alguma acusação estapafúrdia contra o ar do hangar. O cabelo negro caía desordenado pelos ombros, e a trança de Padawan descendo por sobre a clavícula parecia mais longa. Ela o examinou de perto, como se precisasse confirmar que ele voltara inteiro: olhos verdes levemente caídos nos cantos, cabelos longos um pouco desalinhados pela viagem, barba um pouco mais cheia e irregularmente aparada, vestes gastas, a presença firme no vínculo, o sabre no cinto, a caixa de chá presa na bolsa.

— Você está com cara de quem escreveu coisas demais em papel.

Tarla ergueu uma sobrancelha.

— Essa é uma expressão específica?

— A sua cara é específica.

— E o que ela diz?

Rum’ea semicerrou os olhos.

— Diz que você encontrou alguma coisa fascinante e tentou fingir que era só pesquisa, mas provavelmente escreveu a palavra “fascinante” e sublinhou.

Tarla ficou em silêncio meio segundo a mais do que deveria. O erro foi suficiente para Rum’ea notar imediatamente.

— Você sublinhou.

— Não confirmo.

— Confirmou com a cara.

— Então creio que precisarei treinar uma expressão menos específica.

— Precisa.

Ela soltou a cintura dele devagar. As mãos ficaram presas ao tecido por um segundo a mais, como se quisessem ter certeza de que largar era diferente de perder. Depois se afastaram de fato. Tarla baixou os braços assim que ela o fez, sem prolongar o abraço por conta própria.

Ela percebeu, e gratidão por isso atravessou por baixo da porta do vínculo sem palavras. Tarla também não comentou.

Um dos técnicos pigarreou discretamente ao longe, informando que a nave seria levada para revisão assim que o Mestre removesse seus pertences restantes. Tarla assentiu na direção dele, e Rum’ea imediatamente pegou a bolsa menor que estava junto à rampa, como se tivesse direito territorial sobre a logística do retorno.

— Eu carrego.

— Não é pesada.

— Eu sei.

— Então por quê?

Ela olhou para ele como se a pergunta fosse óbvia demais para merecer paciência.

— Porque você ficou três semanas no meio do nada para lugar nenhum com comida que só você consegue considerar funcional ao invés de um crime biológico e janela feia. Isso enfraquece o espírito.

— Uma teoria médica inovadora.

— Vou apresentar à ala de cura.

Ele permitiu que ela carregasse a bolsa. Caminharam para fora do hangar lado a lado com o vínculo ainda filtrado, mas menos estreito do que antes — não escancarado, mas confortável o bastante para que pequenas coisas passassem: a satisfação dela por vê-lo andando no corredor do Templo outra vez; o alívio dele ao perceber que a luz das galerias parecia menos fria com a presença dela ao lado; a irritação dela porque os técnicos tinham visto o abraço; a decisão imediata de fingir que não se importava mas se importava muito e morderia se perguntassem diretamente; a diversão dele, cuidadosamente suavizada para não provocá-la demais.

— Yaddle me disse que você escalou uma prateleira dos arquivos. — Disse Tarla depois de alguns passos.

Rum’ea olhou para frente.

— Yaddle exagera.

— É mesmo? Porque ela disse que você escalou três.

— Então por que disse uma?

— Eu estava lhe oferecendo oportunidade de confissão parcial.

— Isso é manipulação diplomática.

— Sim.

— Funcionou mal.

— Também sim.

Ela caminhou mais alguns passos, a bolsa dele em ambas as mãos, quase arrastando no chão.

— Qui-Gon mostrou uma planta que fecha as folhas quando se sente intimidada.

— E?

— Ela se fingiu de morta perto de Mestre Dookan.

Tarla parou por meio passo.

Rum’ea continuou andando, mas pelo vínculo deixou passar um prazer tão evidente que quase brilhava.

Rum’ea.

Eu não disse nada a ele.

Você pensou alto?

Não no vínculo dele.

Você não tem vínculo com ele.

Exatamente.

Então o quê?

Eu ri.

Rum’ea…

Alto.

Tarla respirou devagar.

— Precisaremos conversar sobre prudência.

— Depois.

— Depois?

Ela olhou para ele de lado.

— Você acabou de voltar. Não desperdice a primeira hora sendo Mestre.

A frase poderia ter sido insolente, e talvez realmente fosse. Mas, por baixo dela, havia algo mais simples e mais frágil: fica um pouco antes de corrigir. Só fica.

Tarla compreendeu.

— Muito bem. — Concedeu.

Rum’ea assentiu, satisfeita com a vitória.

Eles caminharam em silêncio por um tempo. O Templo parecia igual e diferente para Tarla. As mesmas colunas, a mesma luz, os mesmos corredores, os mesmos sons distantes. Mas a presença de Rum’ea ao lado devolvia proporção às coisas. A viagem provara que a distância não afinava o vínculo, que os sentidos podiam atravessar espaços impossíveis, e que a Força parecia rir de medidas lineares quando se tratava deles. Ainda assim, nada disso substituía a realidade simples do corpo dela andando ali, pequena e firme, com a bolsa dele nas mão, a trança de Padawan balançando atrás da orelha direita e a mente menos protegida do que fingia.

Perto da bifurcação que levava aos aposentos, Rum’ea finalmente falou, sem olhar para ele:

— Você voltou mesmo.

Tarla diminuiu o passo.

— Sim.

— Não precisava dizer de novo. Eu só...

Ela parou. A frase incompleta ficou no ar, e pelo vínculo veio a borda de muitas coisas que ela não diria em voz alta: eu só precisava ouvir confirmação; eu só precisava ver se o Templo ainda tinha você dentro; eu só precisava saber que sentir falta não me fez ridícula; eu só precisava saber que soltar não faz você desaparecer.

Tarla não completou por ela.

— Eu voltei. — Repetiu, porque às vezes uma resposta simples precisava ser dita mais de uma vez para alcançar lugares que haviam ouvido promessas demais quebrarem.

Rum’ea respirou pelo nariz, firme demais.

— Ótimo. Porque seus relatórios estão acumulados, seu chá está acabando, a Sinisära quase escureceu nas pontas porque Qui-Gon disse para borrifar só na base, mas eu acho que ela é dramática, Mestre Dookan me colocou para tirar o pó de debaixo das estantes dos arquivos, e há três formulários que você precisa assinar antes que alguém menos competente tente decidir alguma coisa.

Tarla olhou para ela.

— A primeira hora sem ser Mestre terminou rápido.

— Eu disse para não desperdiçar sendo Mestre. Não disse que eu não ia desperdiçar sendo Padawan.

Ele sorriu. Rum’ea fingiu não ver, mas o vínculo deixou passar que vira e, quando chegaram aos corredores mais tranquilos dos aposentos, ela caminhou um pouco mais perto do que antes. Não encostada — não ainda – mas perto o suficiente para que a manga dela quase tocasse a dele a cada passo, perto o suficiente para que o corpo dela testasse a distância sem precisar nomear o teste.

Tarla não se afastou. Também não se aproximou. Simplesmente caminhou ao lado dela, de volta ao Templo, deixando que o retorno fosse exatamente o que era: não uma promessa grandiosa, não uma reparação impossível, não uma cura para tudo o que ainda a fazia planejar fugas até dentro de um abraço.

Era apenas retorno – e isso, para Rum’ea, já era imenso.