A Profecia dos Amantes
12 A Confiança
Na terceira semana, Rum'ea encontrou Tarla no corredor leste com uma prancheta nas mãos e uma expressão que, nele, equivalia a completa contrariedade.
Não era irritação aberta, porque Tarla raramente oferecia coisas tão simples ao rosto, mas Rum'ea já começava a aprender as pequenas alterações dele: o modo como a boca ficava mais reta, como os olhos verdes se tornavam mais quietos do que suaves, como a postura inteira parecia ainda mais correta quando ele estava descontente com alguma coisa que não pretendia descarregar em ninguém. Ele vestia túnicas claras de treino, simples, sem formalidade excessiva, e segurava a prancheta como quem preferia muito mais estar segurando algum animal peçonhento.
Rum'ea parou diante dele, estreitando os olhos.
— O que aconteceu?
Tarla olhou para a prancheta, depois para ela.
Pelo vínculo, ele lhe deixou sentir apenas a borda da informação: havia um pedido do Conselho; era oficial; era inconveniente; e ele não estava contente com a necessidade dele. Mas a frase exata, a parte mais desagradável, ele a manteve atrás de uma parede deliberada.
O Conselho pediu que eu conduzisse uma análise física completa sua, disse ele, pelo vínculo, com aquela clareza calma que usava quando não queria que ela fizesse perguntas demais. Resistência, coordenação, força, agilidade, recuperação.
Rum'ea inclinou um pouco a cabeça.
Por quê?
Ele hesitou só o suficiente para que ela percebesse que havia mais, e reforçou a barreira em frente ao pensamento.
Porque querem dados antes de ampliar certas etapas do seu treinamento.
Ela ficou olhando para ele por mais um instante, desconfiada do pedaço que ele não lhe dera, mas não forçou. Ainda não. Em vez disso, ergueu o queixo.
— Então vamos logo.
Tarla conduziu-a até uma das áreas externas de exercício, uma mais ampla, aberta ao vento alto de Coruscant, com trilhas marcadas no piso, barras, plataformas de escalada, estruturas móveis de desvio e módulos de resistência. O lugar, normalmente usado por Cavaleiros, ainda estava relativamente vazio naquela hora do dia, o que Rum'ea agradeceu em silêncio. Havia menos olhos, e menos olhos significava menos possibilidade de alguém assistir ao que quer que a Ordem decidisse medir nela.
Tarla consultou a prancheta e começou pelo que julgou mais simples: corrida.
Rum'ea saiu rápido no instante em que ele mandou.
Não havia a graça limpa de quem fora treinada desde a infância em pistas do Templo, nem a técnica elegante de muitos younglings e Padawans mais jovens que Tarla já observara ao longo de décadas. Rum'ea corria como quem aprendera a usar o corpo para chegar exatamente antes de uma porta fechar, antes de alguém tomar algo, antes de alguma peça valiosa desaparecer das mãos. O passo dela era econômico, firme e, fazendo Tarla erguer as sobrancelhas, surpreendentemente estável. A respiração, embora mais dura que a dos corredores disciplinados da Ordem, se ajustava bem. Havia resistência real ali, construída não por programas de treino perfeitos, mas por anos de deslocamentos irregulares, fome, clima ruim, tensão contínua e necessidade. Quando ela terminou a primeira sequência e voltou até ele com o cabelo negro colando um pouco nas têmporas e os olhos brilhando de esforço, Tarla anotou o tempo e precisou esconder a própria satisfação sob neutralidade profissional.
— Muito bem. — Foi tudo que ele disse.
Rum'ea bufou.
— Isso significa o quê? Que eu sou rápida ou que não morri?
— Significa que você tem resistência melhor do que muitos iniciados mais jovens do Templo.
Ela pareceu aceitar isso com um orgulho extremamente discreto, imediatamente escondido sob um dar de ombros.
Depois vieram os desvios de obstáculo, e ali Rum'ea começou a brilhar de verdade.
No primeiro percurso, Tarla ainda a observava como Mestre avaliando uma Padawan. No segundo, já a observava como alguém tentando entender exatamente de que matéria aquele instinto havia sido feito. Rum'ea não se movia como uma estudante aprendendo um exercício. Movia-se como uma criatura cuja musculatura inteira sabia reagir ao imprevisto antes que o pensamento terminasse de se formar. Saltava sem hesitação inútil, mudava o peso do corpo em frações mínimas, encolhia-se para atravessar vãos estreitos, girava o quadril no último segundo para escapar de uma barra, encontrava apoio com a ponta da bota em superfícies pequenas demais para parecerem confiáveis. Não havia floreio. Não havia desperdício. Só adaptação imediata.
No vínculo, Tarla recebeu a origem daquilo sem precisar perguntar.
Rum'ea mais nova, ainda criança, ainda pequena demais para o trabalho que lhe era imposto, escalando carcaças de naves tombadas em Kyrmora. O corpo dela, já redondo de um jeito que o mundo ao redor condenava, movendo-se sobre estruturas de durasteel rasgado, placas afiadas, vigas expostas. As mãos cortando em metal agressivo demais para sustentar com segurança um corpo inteiro. As botas gastas perdendo camadas à medida que as superfícies as raspavam. Partes das carcaças cedendo sob ela, rangendo, afundando, soltando fumaça quente, obrigando-a a encontrar outro ponto de apoio sem tempo sequer para amaldiçoar o primeiro. E, mais tarde, Rum'ea um pouco mais velha, com o mesmo corpo macio e curvilíneo, ainda recusando-se a emagrecer apesar da fome evidente, deslocando-se por plataformas de construção onde nenhuma norma de segurança parecia existir e onde uma única hesitação significaria queda.
Tarla baixou a prancheta por um segundo, só para vê-la terminar o último desvio.
Quando Rum'ea pousou do outro lado do percurso e virou-se para ele, respirando mais forte, havia em sua expressão uma espécie de desafio quase infantil.
— E então?
— Continue. — Disse ele, porque qualquer elogio mais longo teria rompido demais a distância disciplinada do teste.
Rum’ea fez uma careta para a secura da resposta, mas voltou ao ponto seguinte.
Na escalada, o brilho dela foi ainda mais evidente.
A estrutura vertical de treino imitava rocha irregular e trechos metálicos, com apoios falsos, saliências estreitas e alguns pontos deliberadamente instáveis. Rum'ea subiu como se o corpo inteiro se lembrasse de coisas que a mente preferiria não nomear. As mãos encontravam rota, os pés redistribuíam peso, o torso se aproximava ou afastava da superfície com uma inteligência física rara. Tarla anotava, mas em vários momentos percebia que estava olhando mais do que escrevendo. Não porque ela fosse perfeita em técnica formal – definitivamente não era; sua forma era improvisada, às vezes pouco ortodoxa, às vezes bruta demais para o gosto de instrutores clássicos — mas porque funcionava com uma eficiência que não se ensinava em salas acolchoadas.
Depois veio a escada horizontal.
Rum'ea subiu, executou o número pedido com uma expressão teimosa e, em vez de descer ao terminar, simplesmente trancou as pernas no ferro anterior, soltou o corpo para ficar de cabeça para baixo e cruzou os braços sobre o peito. O cabelo negro caiu todo para baixo como uma cortina, balançando levemente, e os olhos grandes procuraram Tarla de cabeça invertida com um brilho atravessado de divertimento e desafio.
— Como foi? – Ela perguntou, pendurada de cabeça para baixo como se aquele fosse um estado perfeitamente normal para se ter uma conversa.
Tarla olhou para a prancheta. Depois para ela. Depois para a prancheta outra vez.
Não havia anotado nada dos últimos segundos.
Rum'ea percebeu antes mesmo que ele admitisse.
— Você esqueceu de escrever.
Tarla voltou os olhos para ela, e havia um traço de espanto sincero, quase admirado, na voz quando respondeu:
— Não esperava esse resultado.
Rum'ea deu de ombros na posição absurda, ainda presa de cabeça para baixo.
— É o que acontece quando se vira Catadora em vez de Youngling.
Pelo vínculo, a frase veio acompanhada de mais imagens: a criança gordinha que não deveria, pelos sinais de fome, tontura e secura geral do corpo, continuar tão cheia; a adolescente com o mesmo corpo curvo e macio movendo-se em alturas ridículas porque ficar embaixo significava conseguir menos, comer menos, valer menos. Tarla sentiu um aperto antigo no peito diante da injustiça silenciosa daquilo. O corpo dela, que tantos haviam julgado como excesso, era também o corpo que sobrevivera a durasteel cortante, plataformas ilegais, quedas quase certas e fome prolongada sem ceder.
— Pode descer. — Disse ele, retomando a prancheta.
— Você fala isso como se eu fosse cair.
— E você fala isso como se eu não devesse considerar a possibilidade.
Rum'ea soltou as pernas, girou e pousou com leveza surpreendente.
Quando o teste terminou de fato, Tarla já tinha a prancheta cheia de anotações, tempos, observações e o tipo de avaliação que teria deixado alguns conselheiros menos apressados envergonhados da própria premissa. Rum'ea estava suada, com o cabelo ainda mais rebelde, a respiração firme, o rosto corado de esforço e a irritação típica de quem tinha se saído bem demais para poder reclamar do procedimento, mas queria reclamar mesmo assim.
— Acabou?
— Acabou.
— E…?
Tarla fechou a prancheta.
— E seu corpo aparentemente aguenta mais do que a dúvida de algumas pessoas.
Rum'ea o observou em silêncio por um instante.
Algumas pessoas?
Ele não respondeu àquilo de imediato. Em vez disso, começou a caminhar, prancheta sob o braço.
— Venha comigo.
Ela foi, curiosa.
Tarla a levou para uma das regiões mais silenciosas do Templo, onde pequenos lagos ornamentais e de meditação ficavam entre pedras antigas, árvores baixas e pontes estreitas. O sol caía num ângulo suave sobre a água, fazendo a superfície refletir ouro pálido e sombras verdes. Rum'ea franziu o cenho por dois motivos: o primeiro era pelo absurdo de aquele lugar ter lagos; o segundo era porque aquilo não parecia parte de teste físico algum.
Tarla aproximou-se de algumas pedras mais altas próximas à margem e deixou a prancheta ali.
Rum'ea olhou da prancheta para ele.
— O que exatamente estamos fazendo?
— Entre. — Disse ele, já tirando as próprias botas.
Ela não discutiu imediatamente, o que por si só já dizia muito sobre quanto a curiosidade a tinha capturado. Tirou as botas também e o seguiu. A água estava fria, mas não gélida, subindo primeiro pelos tornozelos, depois pelas canelas, depois até um pouco abaixo dos joelhos. Rum'ea sentiu o tecido das vestes pesar e grudar-se à pele.
Tarla avançou mais um pouco.
Rum'ea foi junto.
Ela ainda estava tentando decidir se aquilo era alguma espécie de exercício respiratório Jedi, uma estranha variante de meditação ou apenas um costume incompreensível de Keshtara, quando Tarla segurou as vestes dela pelo ombro e a puxou mais para o fundo.
Tudo aconteceu rápido demais.
Antes que Rum'ea formasse a pergunta inteira, ele a empurrou para baixo e manteve-lhe a cabeça submersa.
O mundo virou luta.
A água explodiu em ruído abafado, tecido pesado, cabelo puxando para todos os lados, reflexo puro de sobrevivência. Rum'ea tentou subir imediatamente. As mãos agarraram, empurraram, bateram. As unhas buscaram onde arranhar. O joelho quis subir. O corpo inteiro reagiu como faca acuada. Tarla sentiu isso com uma satisfação fria e precisa: os reflexos dela estavam ali, vivos, inteiros, ferozes. Ela queria viver, e lutaria por isso. Não congelava. Não entregava. Não se rendia sem custo.
Por um momento, ele a manteve ali, apenas avaliando a velocidade, a direção, a inteligência da reação.
Então abriu o vínculo por inteiro e tocou a mente dela com uma delicadeza muito diferente da violência aparente do gesto.
Rum'ea.
A resposta veio em choque, água, raiva, pânico.
Tarla, o que você-
Confie em mim.
Demorou um segundo.
Talvez menos.
Talvez um século inteiro, medido pelo medo.
E então ela confiou.
Tarla sentiu o instante exato em que isso aconteceu. A resistência não desapareceu por fraqueza; foi simplesmente escolhida para parar. Os braços deixaram de bater. O corpo soltou a rigidez ofensiva. Rum’ea baixou as mãos, e sob a água a mente dela encostou na dele com uma frase tão simples e tão terrível em sua pureza que Tarla a levaria consigo por muito tempo:
Eu confio em você — por favor, não me prove que isso foi um erro.
Com a mão livre, ele alcançou um pequeno bolso no próprio cinto e tirou um respirador A99. Colocou-o na boca dela com cuidado, firme para que vedasse direito, preciso para não machucá-la. Rum'ea aceitou a colocação sem protestos, mas também sem nenhuma gratidão. Ficou ali por algumas respirações, ainda submersa, o corpo agora quieto, deixando apenas o vínculo dizer a Tarla quão enorme era a decisão que ela acabara de tomar.
Depois ele retirou o aparelho.
E ela aceitou a remoção também.
Tarla continuou sustentando-a sob a água.
Os segundos se alongaram. Rum'ea não voltou a se debater. A mente dela permaneceu encostada à dele, atenta, firme, entregue apenas na medida exata em que tinha escolhido entregar. Depois de quase um minuto, vieram os “tapinhas” mentais: pequenos toques no vínculo, insistentes, objetivos.
O ar vai acabar.
Quase apesar de si mesmo, ele sentiu um calor estranho e contido no peito diante daquela forma muito dela de comunicar urgência sem histeria.
Com um único movimento, ele a puxou de volta para a superfície.
Rum'ea emergiu cuspindo água, puxando ar, cabelo colado ao rosto, olhos enormes e indignados, e pouca a nenhuma graça nos movimentos. Tarla soltou o ombro da veste dela e recuou um passo, dando-lhe espaço imediato – a liberdade dele em toca-la acabava junto com qualquer necessidade de treino, teste e, talvez um dia, combate real.
— Vá se secar e troque de roupa. — Disse ele, como se aquilo tudo tivesse sido tão razoável quanto uma corrida cronometrada. — Eu também vou tirar estas vestes molhadas.
Rum'ea afastou os cabelos do rosto com agressividade, ainda respirando forte.
— Só me diz antes… Todo teste de confiança Jedi é arcaico assim?
Tarla olhou para ela, água pingando das mangas e dos cabelos, e respondeu com a calma de sempre:
— Não. Apenas os meus.
Ela o encarou por um segundo inteiro, como se tentasse decidir se aquilo era piada, confissão ou mais um aspecto insuportável de sua personalidade.
— Ótimo. Maravilhoso. Muito tranquilizador.
Tarla curvou ligeiramente a cabeça.
— Achei que sim.
Rum'ea fez um som entre indignação e incredulidade, virou-se e começou a sair da água, pesada e encharcada, levantando ondas altas a cada passo, ainda resmungando alguma coisa sobre “gente que chama isso de método”, “poderiam ter me avisado antes de aceitar esse Mestre”, “talvez tivesse opções menos assassinas”, e “o pequeno verde provavelmente aprovaria só por ser antigo demais e achar que coisas assim ‘constroem caráter’”.
Tarla a observou subir pelas pedras, recolher as botas e desaparecer em direção aos aposentos.
Apenas quando ficou sozinho junto ao lago ele se permitiu pensar no que, durante o exercício, havia mantido em suspenso.
A água ainda pingava das vestes dele. A prancheta permanecia sobre as pedras mais altas, esquecida por um instante. O vento leve da tarde corria sobre a superfície do lago, quebrando o reflexo em ondulações pequenas. Tarla permaneceu onde estava, água até pouco abaixo das coxas, e deixou a pergunta finalmente abrir espaço inteiro dentro de si.
Por que?
Por que sua Padawan — uma jovem cuja relação com toque era feita de cautela, reflexo e memória ruim; cuja mente carregava venda, abuso, exploração, fome, insulto e o conhecimento muito claro do que mãos mais fortes podiam fazer com um corpo menor — confiara nele em três semanas o suficiente para parar de lutar debaixo d’água apenas porque ele? Um teste daquele tipo, se realizado mal, se conduzido sem precisão, se simplesmente feito com malícia, poderia tê-la ferido de verdade. Poderia tê-la traumatizado ainda mais. Poderia até tê-la matado. E Rum'ea sabia disso com total clareza. Não era ingênua ou dócil.
Ainda assim, confiara.
Talvez, pensou Tarla, fosse porque a Força entre eles protegia o vínculo de um modo que ainda escapava à compreensão dele. Talvez fosse porque ela o sentira pedir antes, sempre, antes de tocar, antes de aproximar, antes de impor. Talvez porque, em três semanas, ele nunca usara contra ela aquilo que sabia. Talvez porque Rum'ea, por mais ferida que fosse, reconhecesse com ferocidade quase animal a diferença entre risco e traição, entre teste e crueldade. Talvez porque, no fundo mais íntimo e mais perigoso de tudo, ela simplesmente tivesse decidido que ele valia aquela confiança.
O pensamento não o confortou inteiramente.
Tornou tudo mais sério.
Mais precioso.
Mais assustador.
Tarla passou a mão molhada pelo rosto e finalmente saiu do lago. Enquanto caminhava para trocar de roupa, levou consigo a certeza incômoda de que o Conselho podia pedir todas as análises físicas que desejasse, podia desconfiar do corpo dela, do passado dela, da adaptação tardia dela, mas que nenhuma prancheta, nenhum tempo de corrida, nenhuma escalada e nenhum teste escrito registraria a verdade mais importante daquela tarde:
Rum'ea Olphen confiara a própria vida a ele por quase um minuto inteiro.
E Mestre Tarla Kesyk, que há setenta anos não aceitava Padawans, descobria cada dia mais que o peso disso era maior do que qualquer treinamento.
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