A Profecia: Guerra Nos Campos De Tandara
7 Um Encontro Que Pode Mudar Destinos
Vinte anos depois...
A passagem dos anos não trouxe benefícios para o mundo Tandara. Hannes e Valence se mantêm no poder, e comandam com mãos de ferro e lei marcial este belo mundo. Aqueles que não obedecem aos dois, são castigados com pena de morte, sem qualquer direito a defesa.
Chantagem, medo, opressão. Essas são as principais características dos usurpadores, que em momento algum deixam de dizer que são eles a mandar neste mundo, que eles são os verdadeiros reis e rainhas deste mundo.
Hannes proibiu a prática da arte da espada por homens, meninos e rapazes, alegando que no mundo onde ele é rei, só os escolhidos por ele têm permissão para praticar uma arte tão nobre, e, obviamente, os escolhidos pelo usurpador são os membros de seu próprio clã, os membros da Legião Maligna de Perrin, os únicos que obedecem cegamente as suas ordens, sem questionar. Para os membros da Legião Maligna de Perrin, Hannes e Valence são os verdadeiros salvadores de Tandara, aqueles que lhe devolveram a liberdade e que salvaram o mundo do caos que os membros da família real de Tandara sempre deixaram.
Bernadette continua no posto mais alto da Ordem dos Magos de Tandara, e, assim como Hannes proibiu a prática da arte da espada, ela criou a lei que proibiu prática de magia por qualquer pessoa que ela não aprove, lei esta que Hannes assinou sem pestanejar. Assim, os únicos que conseguem estudar e praticar magia são escolhidos a dedo pela Maga que se diz a mais poderosa de Tandara, e, todos os escolhidos para aprender e dominar magia são pertencentes à Legião Maligna de Perrin.
Raffi agora está com seus trinta anos de idade e, a passagem dos anos fez com que se tornasse um homem poderoso em se falando de força física. Tornou-se alto, com um corpo em proporções medianas, musculoso, porém não muito marombado. Seus olhos negros continuam repletos de maldade e ele encontra sua satisfação pessoal em torturar os mais fracos, assim como fazia quando era apenas um menino. Seus cabelos negros são mantidos em um corte curto e perfeito, e seu rosto possui traços firmes e fortes, uma mistura perfeita de seus pais. A passagem dos anos fez com que se tornasse um excelente espadachim, e não existe no mundo um guerreiro que seja capaz de derrota-lo em um combate cuja arma seja uma espada. Costuma vestir-se sempre com roupas negras e nunca sai sem sua espada, pois sempre quando sai, costuma encontrar uma vítima para derramar o sangue inocente e sacrificar e assim encontrar sua satisfação pessoal.
Ninguém sabe o que aconteceu com Samir e Madelaine, os verdadeiros regentes e governantes de Tandara. No início, Hannes e Valence ameaçavam mata-los caso algum habitante de Tandara não obedecessem a suas ordens, e, para provar que diziam a verdade, tiravam os dois da masmorra e os acorrentavam nos muros do castelo para Raffi os torturar e assim mostrar que falavam a verdade. Isso fazia com que todos obedecessem aos usurpadores, pois ninguém conseguia assistir inerte a torturas tão cruéis de pessoas tão boas como Samir e Madelaine.
As torturas eram tão cruéis e desumanas que fizeram com que o povo obedecesse aos usurpadores com lágrimas nos olhos e corações chorando lágrimas de sangue, apenas para pouparem Samir e Madelaine de torturas e humilhações. Isto fez com que Hannes e Valence parassem com as sessões de tortura em público e trancassem o verdadeiro rei e rainha definitivamente na masmorra mais funda e escura do castelo, e há mais de dez anos os dois nunca mais foram vistos...
Nos dias atuais, ninguém sabe se os verdadeiros ocupantes do Trono de Tandara estão vivos ou mortos... Fato que só contribuiu para tirar a esperança dos corações do povo deste mundo que outrora fora mágico, mas que nos dias atuais é dominado pelo medo e pela fúria de usurpadores que são capazes de tudo apenas para se manterem no poder.
Lamar, Oliver, Nadja e Sabina continuam sendo inimigos da coroa e procurados, mas, até os dias atuais, não há sinal dos quatro, que vivem escondidos e procurando não chamar atenção para eles próprios.
Lamar treinou Sabina, que agora está com seus trinta e cinco anos, na arte da magia, tornando-a uma maga muito poderosa, que controla de forma formidável seus poderes. Lamar, inclusive, conseguiu fazer com que ela aprendesse a dominar seu dom de profecias, fazendo-a se lembrar de suas previsões após se desligar do mundo exterior para proferi-las. Os cabelos lisos cor de caramelo que no passado eram longos e lhe caiam até o meio das costas, na atualidade estão curtos, em um corte reto e Chanel, um pouco abaixo das orelhas, e, ao invés de roupas típicas femininas, Sabina prefere se vestir com calças, botas e uma blusa bem apertada na altura do busto.
Nadja se tornou muito mais bela, uma mulher sábia que agora é uma das melhores controladoras do fogo que Tandara já conheceu, pois durante os vinte anos que se passaram, Lamar a ensinara a evocar e controlar todo o poder oculto que os descendentes de sua família possui, aprendera como ninguém a controlar os pontos fortes e fracos de seus poderes, e vive esperando o dia em que poderá colocar tudo o que aprendeu com o passar dos anos em prática. Seus belos cachos ruivos como o fogo caem agora como cascata por suas costas, até sua cintura. E, assim como Sabina, prefere se vestir com roupas típicas masculinas, calças, botas de cano alto e blusas apertadas no busto e na cintura, que dão certo valor a sua feminilidade.
Oliver também se tornou mais forte, um exímio espadachim. Mesmo Hannes tendo proibido a prática da arte da espada, como inimigo da coroa e procurado pelos homens do usurpador, quebrou a regra imposta pelo falso rei e durante os vinte anos que se passaram treinou dia e noite, melhorando suas habilidades e usando sua força para ajudar as pessoas que são oprimidas pelo poder do usurpador. Seus músculos se tornaram mais fortes, seu corpo, mais resistente. Seus cabelos loiros como o sol cresceram até a altura dos ombros, e ele os usa presos em um rabo de cavalo. O homem costuma se vestir com calça preta e botas de batalha, camisa branca e colete preto resistente por cima da camisa, como se o colete fosse um escudo, para protegê-lo de possíveis golpes em algum ponto vital.
Mas, dos quatro fugitivos, o que mais envelheceu foi o mago Lamar. Seus cabelos, outrora loiros se tornaram brancos como as nuvens, e seu rosto agora conserva uma barba tão branca quanto seus cabelos, mas seus olhos verdes continuam cheios de vida e sabedoria. O mago continua a vestir-se com túnicas brancas e, onde quer que vá, não deixa de carregar seu cajado consigo. Em vinte anos, nunca deixou de acreditar que esta era de trevas que Tandara vive um dia irá terminar e sempre acreditou na esperança de um novo amanhã. O mago é o responsável por não deixar que Oliver, Nadja e Sabina desistam de tudo e treina os três para o dia em que uma nova guerra terá início, uma nova guerra que terá por objetivo trazer a Família Real de Tandara de volta ao poder e derrotar a legião Maligna de Perrin para sempre.
Na esperança de que dias de paz e de alegria ainda voltarão a brilhar em Tandara, passara os últimos vinte anos preparando Oliver, Nadja e Sabina para o dia em que a força e habilidade dos três serão necessárias para uma à luta por uma nova era de paz.
Juntos, os quatro encabeçam a força da resistência, que é uma força formada por pessoas que não desistiram de acreditar que Samir e Madelaine ainda estão vivos, e que chegará o dia em que precisarão da ajuda deles para retomar ao poder e trazer a paz de volta a Tandara.
Cada semana estão escondidos em uma casa diferente, em uma vila diferente... Em uma cidade diferente... Tudo isso para evitarem serem descobertos, capturados e condenados à morte. E é assim, escondidos e fugindo que conseguiram sobreviver a estes vinte anos de um quase exílio.
Cansado após treinar um grupo formado por cinco jovens que querem aprender a arte da espada para se juntarem a força de resistência, Oliver acaba de chegar à caverna onde seus três amigos o esperam. Totalmente molhado de suor, o loiro senta-se ao lado de Nadja e a amiga passa para ele um cantil com água, que ele bebe rapidamente.
― Obrigado. – diz o homem após beber toda a água do cantil – Eu estava mesmo com sede.
― E como foi o treinamento dos meninos? – pergunta à ruiva.
― Eles têm potencial. – diz Oliver – Seria mais fácil se a arte da espada fosse permitida. Ter que sempre estar procurando por um local adequando e que não esteja sendo vigiado pelos homens de Hannes dificulta um pouco as coisas.
― Eu odeio esse Hannes! – diz Nadja, com raiva reprimida em sua voz.
― Do que adianta treinar esses jovens? – questiona Sabina, intrometendo-se na conversa dos dois – Nós treinamos há vinte longos anos e não conseguimos absolutamente nada! Vivemos nos escondendo feito criminosos! Como se tivéssemos feito algo de errado!
― Para Hannes fizemos algo de errado no momento em que nos colocamos no caminho dele. – diz Lamar – Ele sabe que somos um obstáculo e que só estamos esperando o momento certo para virarmos este jogo e darmos início a uma guerra que tem por objetivo trazer a paz de volta para esse mundo.
― Mas já se passaram vinte anos e ainda não fizemos nada, mestre! – questiona Sabina – Será que este momento da virada realmente vai chegar?
Lamar olha para Sabina e seus sábios olhos verdes avaliam a explosiva mulher. Pode ter se tornado muito mais poderosa, porém continua tão explosiva quanto o era quando a conhecera, tantos anos antes.
― É claro que vai chegar, Sabina. – diz Lamar, com paciência – E é exatamente a chegada deste dia que o usurpador tanto teme, e é por isso que somos caçados como inimigos da coroa. Ou pelo menos, da coroa dos usurpadores.
― Para a chegada deste dia é que treinamos arduamente todos os dias, Sabina. – diz Nadja, com um sorriso triste em seus lábios – Para não repetirmos o fracasso de vinte anos atrás. Ainda se lembra do que aconteceu naquele dia, não é?
Sabina fecha seus olhos e imagens do fracasso que tiveram há vinte anos vem em sua mente, como se aquela batalha tivesse acontecido ontem. Nunca esquecera aquela humilhação e desde então jurara que aquela derrota humilhante ainda teria volta.
― Não dá para esquecer aquele dia. – diz Sabina – Muito menos aquela derrota.
― Pois naquele dia, Hannes viu em nossos olhos que não iríamos nos dar por vencidos. – diz Lamar – E ele teme nossa força, ou a força que poderemos chegar a ter. E é para este momento que vivemos e treinamos, Sabina. Para o dia em que ajudaremos a trazer a paz de volta para este mundo.
― E quando este dia vai chegar, mestre? – pergunta Sabina.
― Não sei, Sabina. – responde Lamar – A única coisa que sei, é que meu coração me diz que este dia não está longe.
Sabina olha para seu mestre e lhe dirige um sorriso triste. Quer muito acreditar nas palavras dele, porém, a realidade cruel é completamente diferente. Quanto tempo mais terão de esperar? Mais vinte anos?
A morena está para retrucar, porém sente que sairá da realidade. Seu corpo começa a ser tomado por aquele poder que lhe mostra as coisas que ainda acontecerão... Um poder muito grande que a domina por completo, e que simplesmente não é capaz de controlar. Seus olhos vão perdendo o foco, se distanciando cada vez mais da realidade e sua boca começa a proferir:
“― Está chegando o momento em que a princesa da luz e o príncipe das trevas irão se encontrar. Um encontro que terá o poder de mudar destinos... Um encontro que terá o poder de trazer um novo apocalipse para este mundo...”
Lamar, Oliver e Nadja apenas escutam em silencio a profecia que acaba de ser proferida por Sabina, enquanto a morena volta à realidade com um olhar confuso, sem entender o que acaba de proferir. Oliver e Nadja tem os mesmos olhares confusos de Sabina, enquanto Lamar exibe um sorriso de plena satisfação em seus lábios.
― Os deuses atenderam as minhas preces... – sussurra o mago mais poderoso de Tandara.
*****
Na sala do trono do palácio real de Tandara, Raffi desembainha sua espada e seus olhos negros encaram fixamente a poderosa lâmina de sua arma. Nos tronos que outrora pertenceram a Samir e Madelaine, Hannes e Valence apenas observam o filho encarar impaciente a lâmina da espada.
― Qual o problema, Raffi? – pergunta Hannes – Parece que algo o aborrece.
― Estou entediado. – responde Raffi – Preciso sair e matar pessoas, há tempos a lâmina de minha espada não sabe o que é derramar o sangue dos mais fracos.
Hannes começa a rir de satisfação ao ouvir as palavras do filho. Sem dúvida, ele não nega ser do sangue poderoso da Legião Maligna de Perrin, e, quando chegar o momento certo, será um poderoso rei para este mundo. O segundo melhor rei que Tandara já conheceu, porque o primeiro, é ele próprio.
― Por que não sai e encontra algum idiota para matar, meu filho? – sugere Valence, com um sorriso cruel em seus lábios. – Faz tempo que você não faz algo assim.
Raffi sorri de satisfação ao ouvir a ideia de sua mãe. Realmente, ela lhe dera uma excelente ideia.
― Adorei sua ideia, mãe. – diz Raffi com alegria e satisfação em sua voz – E é exatamente isso que eu irei fazer!
E, dizendo isto, Raffi deixa a sala do trono e se dirige para uma das saídas do palácio, a fim de matar sua sede de sangue derramando o líquido vital de algum inocente.
*****
Longe da cidade dos reis, em um pequeno vale cercado pelas mais belas espécies de flores, onde montanhas verdejantes e vales com as mais altas árvores cercam o lugar, se localiza uma casa bastante humilde, afastada umas dez minhas do vilarejo mais próximo.
A frente da casa é cercada por um pequeno jardim, com uma cerca viva de rosas cor de rosa. O jardim se destaca pela pequena plantação de rosas cor de rosas, flores belas e cheias de vida.
A casa por dentro é toda pintada de branco e possui apenas três cômodos. Uma cozinha que também é usada como sala e dois quartos, um de casal e o outro quarto é de solteiro. Ambos de uma grande simplicidade, assim como o resto da casa.
Do quarto de solteiro sai uma jovem dama de aparentemente uns vinte anos de idade. Ela tem uma beleza extraordinária, como uma deusa em corpo de mulher. Pele extremamente branca, e olhos de um azul tão intenso como o céu em uma bela manhã de sol. Rosto de traços simples e delicados, bochechas um pouco rosadas que formam covinhas delicadas quando ela sorri. Cabelos lisos e negros como a mais sombria das noites, que caem como uma bela cascata por suas costas até praticamente seus joelhos. A cascata de cabelos negros brilha linda e sedosa por suas costas. Ela se veste com um vestido bastante simples.
Um corpete lilás bem justo em seu busto, com mangas brancas que começam justas em estilo boneca nos ombros mas que se alagam na altura dos cotovelos. A saia longa, branca cai até seus pés em um estilo bem romântico e na altura da cintura um cinto lilás, um pouco mais escuro que o corpete completam sua vestimenta.
Percebendo que não está sozinha em casa, ela segue furtivamente para o quarto de casal, em seus pensamentos pedindo aos deuses para não ser descoberta por seus pais. No quarto de casal, ela vai diretamente para o fundo do quarto, onde ao lado da simples cama de casal ela encontra o que procura, um velho e grande baú. Indo de encontro ao objeto, o abre sem pensar duas vezes e o encontra repleto de roupas. Abaixa-se sobre o baú e começa a revirar todas as roupas, sem se importar em bagunça-las apenas para, no fundo do baú, encontrar o que procura, a velha espada de seu pai.
Sabe perfeitamente que nos dias de outrora, a arte da espada era somente praticada pelos homens e as mulheres eram destinadas a aprender magia, mas, algo dentro dela sempre a atraiu para as lâminas das espadas... Sempre quis estudar e aprender a dominar perfeitamente esta arte mesmo o usurpador tendo proibido terminantemente a prática da arte da espada em Tandara.
Mas... Mesmo assim não pode evitar... As espadas sempre a chamaram e sempre lhe exerceram um grande fascínio, que ela simplesmente não sabe explicar... E o fato de seus pais terem lhe proibido terminantemente de colocar suas mãos e seus olhos sobre uma espada só fez aumentar o seu fascínio pelo poder da arma...
Sem pensar duas vezes, ela pega a arma e volta a ficar em pé. Sua mão direita segura o cabo da arma enquanto a esquerda passa as mãos bem devagar por toda a lâmina que, apesar de não ser utilizada há anos, continua afiada.
Não satisfeita, a jovem começa a brandir a espada em movimentos sincrônicos e perfeitos... Nunca em sua vida tivera um mestre que a ensinasse, mas, mesmo assim, conseguia se movimentar com destreza... Como se seu sangue soubesse melhor que ela própria como manejar a espada...
Achando o espaço do quarto pequeno para treinar com a espada, ela deixa o quarto pulando a janela, a fim de não ser vista por seus pais e não ser impedida de sair e treinar com a espada. E, após estar fora de casa, corre em direção a um pequeno descampado, a algumas léguas de sua casa, um lugar que sempre gostou para treinar, um lugar onde seu corpo pode voar livremente junto com a espada.
Mais uma vez, brande a espada em movimentos perfeitos. Seu corpo simplesmente dança enquanto ela dá um giro de trezentos e sessenta graus com a arma na mão. A saia de seu vestido roda enquanto seu corpo acompanha os movimentos que sua mão faz com a arma em uma dança de movimentos espetaculares. É como se ela e a espada fossem uma só.
A jovem dama está tão distraída que não percebe a aproximação de um espadachim vestido com vestes totalmente negras e brandindo uma espada com uma lâmina provavelmente muito mais afiada que a dela.
Quando se dá conta de que está sendo observada o sorriso que tem em seu rosto desaparece, dando lugar a uma expressão zangada, seus olhos azuis brilhando em fúria enquanto em um rápido movimento ela se coloca na frente do recém chegado e aponta sua espada diretamente no pescoço dele.
― Para trás! – diz a jovem dama uma voz tão doce como a mais suave das músicas.
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