A Profecia: Guerra Nos Campos De Tandara

8 A Profecia de Uma Nova Esperança


Com a lâmina de uma espada apontada diretamente para seu pescoço, Raffi observa com descrença e sarcasmo os olhos azuis como duas safiras e obstinados como jamais viu da jovem à sua frente. Quer rir de tamanha insolência, quer debochar da jovem dama, se é que ela é realmente uma dama. Seu primeiro pensamento é matá-la e saciar sua sede de sangue. Mas, achou tão diferente o modo como ela praticamente dançava com a espada em mãos que sente uma vontade tremenda de brincar com ela antes de dar-lhe sentença de morte, ver até onde ela consegue ir.

Com um sorriso sarcástico em seu rosto e olhos de puro deboche, o filho do usurpador usa os dedos indicador e médio de sua mão esquerda para tocar a lâmina da espada, apontada para seu pescoço.

― Tem certeza de que sabe brincar com isso, jovem dama? – pergunta Raffi sem se dar ao trabalho de esconder o tom de sarcasmo em sua voz.

A jovem se enfurece ao ouvir o tom de voz do homem à sua frente, pois odeia este tipo de homem prepotente, que acham que, só porque ela é mulher, não sabe manejar uma espada. Está certo, ela nunca teve quem a ensinasse e sabe que por decreto do usurpador qualquer um que não tenha permissão do mesmo é proibido de brandir a arma, mas, mesmo assim, pelo menos o básico do básico ela sabe, e pode muito bem fazer um corte no rosto deste arrogante vestido de negro.

― Sei mais do que você imagina! – diz ela, com raiva.

Raffi nunca conhecera dama tão linda e feroz, certamente nascera no corpo errado. Se tivesse nascido rapaz, certamente daria um ótimo guerreiro. Seus olhos tão azuis brilham de fúria, e, isso só faz com que ele queira provoca-la ainda mais, antes de dar cabo de sua vida.

Sua mão direita vai até sua bainha e em um rápido movimento desembainha sua espada e a leva de encontro à espada que tem contra seu pescoço.

― Vamos ver se sabe mesmo brincar de espada, bela dama.

E, ao dizer estas palavras, Raffi usa sua espada para dar um golpe e tirar a espada que tem apontada para seu pescoço, pegando a dama completamente desprevenida. Os olhos dela se enfurecem e, sem pensar duas vezes, ela parte para tentar atacar seu inimigo, tentando a todo custo acertar nele um golpe de espada.

Raffi usa sua habilidade e bloqueia cada golpe de sua adversária, se divertindo vendo a fúria nos olhos azuis. Nunca em toda sua vida conhecera uma dama que soubesse qual lado da espada se usa para matar, quanto mais uma que soubesse lutar como aquela que estava lutando com ele.

Os movimentos dela são delicados e imperfeitos, falta de um treinamento adequado, mas, mesmo assim, sabe reconhecer que ela tem habilidade para aquela arte.

A dama percebe uma distração por parte de seu adversário, e, aproveita este descuido para usar toda sua força para acertar o rosto dele, provocando um corte bastante superficial em seu rosto arrogante. Sorri satisfeita, nunca mais ele zombará de sua habilidade.

Respirando com dificuldade ante o esforço, ela se afasta dele, ainda com a espada em guarda e esperando um contra-ataque de seu adversário.

Raffi percebe com incredulidade que a dama feroz fora capaz de cortar seu rosto, mesmo que de forma superficial. É a primeira pessoa no mundo capaz de lhe ferir, e, o castigo para tal ato é a morte. Mas, os olhos dela são tão ferozes que quer brincar com ela, antes de lhe dar o castigo merecido.

Levando seus dedos ao corte que sofrera, sorri de forma sarcástica para a dama e leva os dedos sujos de sangue a sua boca, deixando a dama fervendo de ódio. Ótimo, quanto mais raiva ela tiver, mais divertido a brincadeira fica.

― Ora, ora! – zomba Raffi – Parece que eu subestimei suas, “habilidades”, jovem dama. O que pensa em fazer a seguir? Vai pedir para que eu me ajoelhe a seus pés e implore por clemência e misericórdia?

― Arrogante desgraçado! – a voz da jovem é de pura fúria – Zomba de mim só porque sou mulher e não tive um professor!

― E isto não é motivo suficiente? – Raffi continua zombando.

― Se as coisas fossem diferentes você veria só! Eu seria capaz de acabar com você em um piscar de olhos!

― É mesmo?

― É claro! Saiba que se eu tivesse o treinamento adequado e se o usurpador não tivesse proibido o uso de espadas a não ser pela elite dele, eu poderia ser tão boa espadachim como qualquer homem!

A fúria toma conta de Raffi ao ouvir ela se referir a seu pai como “usurpador”. Seu pai é o verdadeiro rei de Tandara há vinte anos, não existe outro. Não tolera este tipo de coisa. Seu pai é rei, ele é príncipe e futuro rei e, todos os que dizem o contrário merecem a morte, inclusive ela. Coloca sua espada à frente de seu corpo em posição de combate, está pronto para acabar com a vida dela antes sequer que ela perceba. O sangue dela com toda certeza iria saciar sua sede de matança... Afinal saíra do castelo para matar. Mas...

Os olhos azuis como nenhum outro são tão obstinados que... E há algo nela que o prende... Que faz com que queira provoca-la só para ver fúria em seu olhar... Gosta disso. Diverte-se vendo-a se enfurecer. E, nunca em sua vida conhecera uma mulher guerreira... Isso o atraiu... Constatar isso faz um sorriso surgir em seus lábios.

― Acaso posso saber qual é a graça? – pergunta a jovem, com raiva.

Raffi não consegue conter um sorriso se satisfação. Quanto mais ela fica nervosa e emburrada, mais ele se diverte com a situação. Nunca em toda sua vida conhecera alguém que o divertisse dessa forma.

― Obviamente, você é a graça. – responde Raffi com um sorriso zombeteiro em seus lábios.

A jovem dama se enfurece ainda mais com as palavras de Raffi. A raiva dela é tanta, que seu rosto começa a ficar vermelho de raiva. Suas bochechas assumindo uma coloração primeiro discretamente rosada, e depois mudando para o vermelho. Constatar isso fez Raffi sorrir ainda mais.

― Saiba que não é elegante ofender uma dama desta forma! – ela devolve, com toda raiva que sua voz é capaz de exprimir.

― É mesmo? – continua zombando Raffi – Pois saiba, que também não é elegante uma jovem dama brincar com espada.

― Quem disse que eu estou brincando?

― Qual é o seu nome?

Obviamente, a pergunta pega a dama totalmente desprevenida.

― Como?! – ela devolve a pergunta.

― Eu perguntei qual é o seu nome. Essa pergunta é complicada demais para a dama que vai contra todas as regras e brande uma espada?

― Me chamo Kacie.

― Pois bem, Kacie, que acha da ideia de eu ser seu professor de espada?

*****

Oliver e Nadja estão sozinhos em um vale, cercados por algumas colinas. Verdes prados cercam o lugar, dando uma vista totalmente espetacular aos dois amigos. Flores rasteiras e de diversas cores cobrem todo o chão do vale, de modo que não há possibilidade de não se pisar nas flores.

Muitas árvores frutíferas cercam o local, das mais variadas espécies, dando uma vista única ao local. As árvores também servem de ninho para as mais diversas espécies de pássaros, e, por este motivo, ouve-se com muita frequência o canto dos pássaros, e por serem muitas espécies, quem chega a este vale não consegue distinguir qual o canto mais belo, pois todas as espécies têm seu próprio canto.

Os animais terrestres também habitam o vale, tais como esquilos, algumas espécies de micos, cachorros selvagens, duas ou três espécies diferentes de lobos, raposas, coelhos... Os olhos encantadores de Nadja observam fascinados o local.

― É muito bom saber que em nosso mundo ainda existem lugares bonitos assim. – começa Nadja – Que este vale permaneceu intocado pela maldade de Hannes.

― Hannes está mais interessado em matar pessoas e se manter como “rei” do que destruir vales como esse. – diz Oliver.

― Eu sei. Mas, durante estes vinte anos que se passaram, muito do esplendor de nosso mundo foi perdido. Hannes vem destruindo tudo! Esse maldito usurpador tem acabado com nosso mundo! Faz-nos viver oprimidos e só pensa em se manter no poder!

Oliver olha bem no fundo dos olhos de Nadja enquanto segura uma mecha dos cabelos vermelhos como fogo de sua melhor amiga. Sabe que ela tem razão pois, em vinte anos, apesar de terem se tornado muito mais fortes, nada foram capazes de fazer para tirar Hannes do poder. A bem verdade, não sabem nem se Samir e Madelaine continuam vivos.

― Temos que acreditar em Lamar, como sempre viemos acreditando. – diz Oliver – Ele vem nos preparando ao longo desses anos para o momento da virada. E eu sei que este momento vai chegar.

― Será mesmo que vai chegar, Oliver?

Os olhos de Nadja se enchem de lágrimas.

Lágrimas de frustração.

Lágrimas de quem já perdeu as esperanças.

Lágrimas de quem não acredita mais em um futuro.

Oliver sente pena de Nadja, pois sabe que ela tem todos os motivos do mundo para se sentir assim. Mesmo a força de resistência tendo crescido, não sabem se são realmente capazes de fazer alguma coisa para trazer o verdadeiro rei de volta ao trono. A verdadeira herdeira, a princesa Elie, morreu há exatamente vinte anos, no golpe que levou o usurpador ao poder. E, não sabem o que aconteceu a Samir e Madelaine. Não sabem se rei e rainha estão vivos ou mortos... A verdade, é que talvez não haja mais um único membro vivo da Família Real de Tandara para reivindicar o trono.

O loiro usa uma de suas mãos para, com carinho, secar as lágrimas de Nadja. A ruiva é pega totalmente de surpresa e desprevenida pelo gesto de carinho de seu melhor amigo. E, percebe, para seu próprio espanto, que realmente estava precisando de um gesto de amizade como este, precisava ser consolada por seu melhor amigo. Precisava das forças dele para conseguir renovar as suas.

― Que gracinha! – diz uma voz masculina.

― Acho que vou chorar com esta cena tão comovente! – diz uma segunda voz masculina, muito parecida com a primeira.

Oliver e Nadja levam um susto ao ouvirem as vozes bastante familiares. Os dois separam-se para encarar os recém-chegados, dois rapazes exatamente iguais. Os dois possuem estatura mediana, cabelos negros e lisos em um corte perfeito e curto. Olhos verdes claros, que encaram Oliver e Nadja de forma divertida. Vestem-se com calças pretas e botas na altura de seus joelhos, um deles usa camisa azul marinho, enquanto o outro usa camisa azul turquesa.

―– Paolo. – diz Oliver.

― E Paco. – completa Nadja.

― Quem vocês esperavam? – pergunta Paco.

― O todo poderoso mago Lamar? – completa Paolo.

― Idiotas. – diz Nadja.

― Prefiro divertidos. – diz Paolo.

― Confessa, gata. – diz Paco – Aquela força de resistência não seria a mesma sem nosso senso de humor.

― O que vocês estão fazendo aqui? – questiona Oliver, começando a se irritar com os gêmeos.

― Além de interromper o momento lindo e quase romântico de vocês? – ironiza Paco. – O todo poderoso mago Lamar solicita a presença de vocês, parece que ele tem um assunto sério a tratar vocês e com a dona profetiza.

― Só não entendo porque assuntos tão importantes o todo poderoso só trata com vocês. – continua Paolo – Somos membros tão importantes da resistência quanto vocês.

― Caso os dois engraçadinhos tenham esquecido, nós fundamos a resistência junto com Lamar. – observa Nadja.

― Não me diga! – diz Paolo, fingindo espanto.

― Juro que se você não nos dissesse não iríamos saber! – completa Paco.

― Onde estão Lamar e Sabina? – pergunta Oliver.

― No lugar de sempre. – diz Paco.

― Espero que decidam alguma coisa importante para fazermos! – diz Paolo.

― É melhor irmos, Oliver. – Nadja chama o amigo, esquecendo-se da presença dos gêmeos – Deve ser algo importante.

― Vamos. – concorda Oliver.

E os dois somem das vistas dos gêmeos, indo de encontro a Lamar e a Sabina.

*****

No palácio real de Tandara, Bernadette está em reunião com Hannes e Valence, os três falando de como andam as coisas pelo mundo. Bernadette, contando orgulhosa como tem conduzido às coisas na Ordem dos Magos, e de que agora tudo está mais organizado.

― Nunca vi este mundo de forma tão perfeita como ele está agora. – comenta Bernadette.

― Isso porque conseguimos tirar os fracos do poder. – diz Hannes.

― Os idiotas da Família Real de Tandara nunca souberam o verdadeiro sentido da palavra governar. – completa Valence – Não sabem o que é lidar com o mundo com mãos de pulso e de ferro, e punir todos aqueles que descumprem nossas ordens.

― Por serem idiotas e fracos perderam o trono e a única herdeira. – comenta Hannes – Hoje, não existe mais vivo um membro da Família Real de Tandara para reclamar um trono que deve “achar” que lhe pertence. E hoje em dia, o único herdeiro por direito deste trono que conquistamos e mantemos é Raffi.

― E se me permite dizer, majestade. – diz Bernadette – Raffi será um maravilhoso rei para este mundo. Ele puxou ao senhor. Tem sua coragem, sua força, e a esperteza da rainha Valence. Quando o tempo certo chegar, Raffi será o maior rei que Tandara já conheceu.

― Concordo, Bernadette. – diz Valence com um sorriso em seus lábios – Meu filho nasceu para ser o rei deste mundo. E não há outro destino para ele.

― Raffi é destinado a este trono deste que plantei minha semente em Valence, trinta anos atrás. – continua Hannes – Eu já sabia que seria pai de um rei. E Raffi será grande!

― Ele já é, majestade. – diz Bernadette.

― E Lamar e os idiotas que estão com eles? – Valence muda o rumo da reunião – Alguma notícia?

― Não, rainha Valence. – diz Bernadette – Infelizmente eles sabem se esconder muito bem. Ou estão mortos, se me permite dizer. Não é possível que tenham se escondido tão bem durante vinte anos e não terem tentado nem uma única vez invadir este castelo.

― A única tentativa deles, vinte anos atrás, foi um tremendo fracasso. – diz Valence.

― E desde então os quatro imbecis sumiram misteriosamente de Tandara. – diz Hannes – Abandonaram aqueles que diziam considerar rei e rainha e os deixaram a nossa mercê.

― E olha que eles falavam tanto de “lealdade”. – zomba Bernadette – Não vi nada de leal em abandonar aqueles que consideram rei e rainha.

― No fim, acharam que a vida deles deveria valer mais que a dos idiotas do Samir e da Madelaine. – diz Hannes, com asco em sua voz ao pronunciar os nomes de Samir e Madelaine – São piores que os membros mais sujos da Legião Maligna de Perrin.

― Muito piores. – completa Valence – Pois nenhum membro de nossa Legião maligna de Perrin esconde o que realmente é por trás de uma máscara de suposta honra.

― De toda forma. – diz Hannes – Se por algum milagre eles ainda estiverem vivos, os quero mortos, e que seus cadáveres sirvam de alimentos para meus dragões.

*****

Lamar e Sabina estão à espera de Oliver e Nadja, sentados pacientemente em volta de algumas pedras. Lamar sorri ao avistar os dois amigos se aproximando.

― Estão chegando. – avisa Lamar.

― Finalmente. – retruca Sabina.

Oliver e Nadja se aproximam e se juntam aos dois em volta das pedras. Lamar sorri discretamente, satisfeito por eles terem atendido a seu chamado.

― Fico contente por terem vindo. – afirma o Mago com um sorriso discreto.

― Imagino que seja algo realmente importante, Lamar. – diz Oliver – Para você ter mandando os gêmeos nos chamar.

― Muito importante. – afirma o Mago.

― O que está acontecendo? – pergunta Nadja, obviamente preocupada.

― Fomos descobertos por mais membros da Legião Maligna de Perrin. – diz Sabina.

― Sabina e eu tivemos que alterar as memórias deles, para que esquecessem que haviam nos encontrado. – continua Lamar.

― Isto está ficando cada vez mais perigoso. – diz Oliver.

― Já são os quartos esta semana. – afirma Nadja – Se continuar assim, chegará um momento em que Hannes irá descobrir sobre nós e sobre a resistência!

― Não! – diz Sabina de forma firme e forte – Isso não pode chegar a acontecer! Esperamos vinte anos pelo momento certo! E ainda acredito na virada! Minhas profecias têm nos ajudado a sobreviver até aqui e creio que isto continuará acontecendo! Não seremos derrotados por Hannes e sua corja de homens sem honra!

Lamar sorri ao ouvir as palavras obstinadas de Sabina. Ela cresceu muito, durante estes vinte anos, passara de uma menina que não controlava o dom que tinha a uma mulher, uma maga com o dom que muitos consideravam extintos, ela é a única maga com o dom da profecia que vive em Tandara e, mesmo que ela não tenha consciência disso, este fato a torna uma das magas mais poderosas que Tandara já conheceu.

― Outra vez. – diz Sabina.

A maga sente novamente seu corpo saindo da realidade, sendo tomado pelas forças que lhe dão o dom da profecia. O poder capaz de lhe mostrar as coisas que acontecerão... Uma força que domina por completo suas forças e seus pensamentos... Um poder que faz com que sua mente veja as coisas que ainda estão para acontecer... Novamente seus olhos vão se distanciando da realidade, enquanto começa a proferir:

“― A verdadeira herdeira do trono de Tandara, que todos julgavam estar morta, cresceu em segurança, longe da visão da força das trevas, e está pronta para reclamar o trono que lhe pertence por direito. Rei e Rainha aguardam o momento de serem libertados de seu tormento. É chegado o momento das forças de resistência tomar parte nesta guerra, devem libertar os que são prisioneiros e encontrar a herdeira, antes que as forças das trevas capturem-na! Está chagando o momento da princesa da luz mostrar seu esplendor! Precisa ser encontrada antes que o príncipe das trevas perfure seu coração. A princesa da luz está pronta e precisa ser encontrada! Rei e Rainha devem ser libertados!”

Notas finais
CONTINUA...