A Princesa dos Sinos

3 O aprendiz do chefe da guilda dos herois.


Notas iniciais
Se tiver alguma palavra confusa, meio embolada ou errada, foi mal! Escrevi esse capítulo na pressa, com minha mãe gritando meu nome, no toque do gongo 😅🤪! Posso ser um pouco obcecada...


Estou viva.

Mal lembro a hora que dormi, mas foi um sono pesado, escuro, sem sonhos, sem dramas e silencioso. Talvez o sono mais gostoso da minha vida. Quando acordei, o que vi foi o teto marrom de uma tenda, ouço um braseiro crepitar do lado de fora e estou enrolada em um cobertor áspero e até um pouco fedorento. Não sei quanto tempo dormi, mas pela minha cabeça pesada e o gosto estranho na boca, acho que não foi só uma sonequinha. O mundo lá fora estava barulhento, mas era a cacofonia da vida, ao invés do coro da morte.

-Ela acordou!

Ouço alguém gritar, mas estou sem vontade de levantar e encarar o mundo ou o que quer que seja. Uma pessoa que enfrentou um dragão e saiu viva deveria receber privilégios, não é? Sim, deveria. Um dos privilégios que eu quero é ignorar o mundo lá fora e me manter deitadinha aqui, colocando minha cabeça no lugar. Nem sei o que me espera depois desse desastre. É provável que o decreto para alocar a capital para a metrópole mais próxima já tenha sido feito. Espero que meu avô tenha sobrevivido. Tenho dois motivos para isso: o primeiro é que quero olhar para ele com cara de “te avisei”. Ele é um imperador, não posso esfregar seus erros em sua cara e é um ancião, mais do que isso, é meu ancião e o pai do meu pai. Não quero matar o velho de constrangimento. Ele ainda é o pai do meu pai e portanto está com créditos comigo. Talvez ele mereça algum constrangimento, mas vou deixar esse tipo de coisa para meu tio. Que é o segundo motivo pelo qual eu espero que o velho não tenha tido um piripaque. Meu tio será um péssimo imperador, não tenho dúvidas, mas sabe o que é pior do que um péssimo imperador? Um péssimo imperador lidando com uma catástrofe. Nesse sentido, meu avô é uma liderança mais adequada.

Fecho os meus olhos novamente.

Quem eu quero ver mesmo é a minha família. Espero que eles estejam bem, parece que faz uma eternidade que não os vejo. Não sei se eles ainda têm alguma esperança de eu estar viva, afinal, um dragão me capturou. Espero que meu show de pirotecnia com o dragão tenha sido grande o suficiente e colorido o suficiente para que meus pais tenham visto e tenha alguma esperança. Meu pai pode ser excessivamente racional às vezes. Considerando que os deixei em um local sem fogo, tenho a esperança que eles estejam bem. Falando em fogo. Será que ele já apagou ou ainda queima? É fogo de dragão, né? Deve ser um inferno a céu aberto, mas considerando que a área do palácio foi á atacada, as pessoas tinham a rota dos portos e da estrada real para fugir. O palácio tem seu próprio porto, afinal, é banhado por represas e córregos que se conectam ao rio principal. Provavelmente minha família conseguiu fugir. Encontrá-los que vai ser um pepino. Não estou com nada que possa garantir que os guardas me reconheçam como a princesa, a filha do segundo príncipe. Não é como se eu mostrasse minha cara por aí. E espero que Millan e sua família estejam bem.

Ouço pessoas entrando na tenda. Uma delas andou rapidamente até minha cama e o seu olhar era tão intenso me analisando que abri os olhos de incômodo. Sou encarada por um par de olhos castanhos. Pelo lenço amarrado em sua cabeça, a mulher era provavelmente a pessoa que estava cuidando de mim. O brasão bordado em seu peito era da Guilda dos Herois. Parece que eles são cuidadosos, apesar de estarem atrasados, e me entregaram aos cuidados de uma mulher. Os dragões nascem de masmorras e masmorras são responsabilidades da Guilda de Herois. Gostaria de ser um pouco mais crítica sobre eles, mas dependendo de onde a masmorra surge, as pessoas podem escondê-la, por medo ou ganância, e se a guilda não é avisada sobre elas, não tem como limpá-las.

-Você lembra seu nome?

A curandeira perguntou, provavelmente, um procedimento padrão.

-Claro que sim. Pode afastar sua cara da minha?

-Desculpas. Você teve contato com um dragão, uma besta de rank especial, devemos nos preocupar com o miasma residual, assim como a possibilidade de desenvolver a doença do dragão. É apenas uma análise visual padrão.

Depois disso ela fez um monte de perguntas, enquanto eu continuava deitada e enrolada no cobertor. Só pretendo sair daqui para comer e ir ao penico e como nenhuma dessas coisas entraram no interrogatório, não me mexi. Fiz algumas perguntas também. Em resumo, estou no acampamento da Guilda dos Herois, perto do cadáver do dragão, mas não muito, parte da capital ainda queima, mas as pessoas já estão tentando apagar parte do fogareiro e torcendo para que caísse um pé d’água, dormir por três dias e a curandeira, de nome Gabriela, me alimentou com mingau de milho e água com uma colherzinha pacientemente. Considerando isso, opto por cooperar com as perguntas de seu interrogatório. Nome? Elena de Dubhe. Idade? Quinze anos completo. Ocupação? Princesa de 2° nível. E um monte de outras coisas, como onde eu moro, quem é o imperador atual e bla, bla, bla… Depois disso Gabriela saiu para buscar comida, e enquanto ela não volta vou me manter deitada, aproveitando de todos os privilégios do qual eu me sinto bem em aproveitar. Lanço uma barreira externa ao redor da tenda. Só por precaução. Estou com umas dores horrorosas, e elas me convenceram que ficar na cama era uma opção mais do que válida, mas piamente e plenamente justificada. Mais um pouco e aquele impacto me quebrava. Falando nisso, não perguntei a Gabriela: como me resgataram? Apesar de não ter prestado atenção a isso durante a luta, a região onde ela aconteceu era um dos pontos mais altos da estrada. E também é uma queda feia e de difícil acesso. A descida seria difícil, agora a subida e carregando uma pessoa desacordada junto… difícil é eufemismo. Minhas lesões não pioraram, apesar de algumas partes da minha pele terem adquirido um nada agradável tom de roxo esverdeado, isso é o esperado. Lutei com um dragão e tenho todos os membros e cabelo, sair com apenas roxos é lucro.

Gostaria de dormir, mas não tenho mais sono. Fico apenas olhando para o teto e aceitando o tédio.

O mundo continua a mesma bagunça de antes.

A família real está viva e já se mudou para o palácio de férias provisoriamente. Meu pai tentou me procurar, mas o imperador mandou contê-lo, pois em sua concepção, o segundo príncipe enlouqueceu pelo luto, afinal era impossível sobreviver a um ataque de dragão diretamente. O vovô poderia ao menos ter se esforçado um pouco para me procurar, né? Vai que um milagre acontece e eu sobrevivo, vou ter que contar com estranhos agora? Eu, essa pobre princesa indefesa, sozinha no mundo? De qualquer modo, conhecendo meu pai, ele vai mandar o Fides me procurar. Sei que ele só vai sossegar com provas de que morri, ou no caso, que estou viva. Eu vou ter que levantar para dar menos trabalho ao pobre do Fides. Já basta o nariz quebrado dele, agora tem que procurar uma princesa desaparecida. Eu deveria ter perguntado sobre o orelhudo que a quem entreguei minha “herança”. Ele não conseguiu procurar o meu pai. Quando Gabriela voltar eu pergunto a ela sobre ele. Deveria ter prestado mais atenção, mas a situação não era comum.

Enquanto eu comia, Gabriela avisa que um grupo vai me escoltar até o meu pai. Segundo ela, sou um tipo de calamidade rara para os herois, e ninguém queria correr o risco de ganhar os louros por ter me devolvido e ser obrigado a casar comigo. Aparentemente, uma princesa é uma calamidade política na Guilda dos Herois, principalmente quando o próximo líder da guilda ainda não foi decidido. Faz sentido, a guilda é neutra politicamente. Não pertence a nenhum reino ou império, não é governada por políticos e é essencial para a segurança do continente. Claro que acontece algumas politicagens por baixo dos panos, acontece na maioria das instituições poderosas, mas são tantas forças pendendo de um lado para o outro que ela continua “neutra” na superfície. Depois de me vestir, bem mal, porquê não faço isso sozinha, e com uma roupa bem áspera, Gabriela me guia pelo acampamento. Do lado de fora da tenda, sou recepcionada por um dia ensolarado, brilhante, com nuvens lindas e um céu azulado. Parece que a Guilda de Herois está com medo de me matar de frio… No horizonte uma fumaça escura sobre por de trás das montanhas, trazendo um tom cinza para o dia, um lembrete da tragédia que aconteceu. O brasão da Guilda de Herois estampava estandartes e brasões.

Munida com meu novo, e até amado, estado de princesa problema, vou ao encontro dos emissários da Guilda de Herois. Tenho a vaga impressão de ver rostos familiares, misturados entre tantos rostos desconhecidos. No centro, um orelhudo de cabelo prateado dava ordens e instruções. Seu manto era vermelho carmesim e ele parecia ter entre quarenta e cinquenta anos, um homem muito bonito, como a maioria dos orelhudos são. Quando eu me aproximo, ele olha para mim. É como olhar para um ancião. Não um ancião como meu avô, que tem os olhos meio (muito) embotados, é um ancião atento, lúcido, sábio. Do tipo que viu muita coisa e sobreviveu a muita coisa. Ele olhou para mim e minha barreira vibrou. Este homem… Ele é extraordinário.

-Você mataria um dragão, né?

Não sei porque eu disse isso em voz alta, mas o velho sorriu. Ele me lembrou minha avó. Ela sorria daquele jeito, meio gentil, meio misteriosa. Será que ela aprendeu com ele? Saiba que, um orelhudo com a aparência de quarenta anos é um orelhudo com a idade de quatrocentos á quinhentos anos.

-Eu vim para isso, Alteza, mas você o fez antes de mim. Em nome da guilda, eu a agradeço. Adrian, veja. Isso é o que se espera de quem já matou um dragão.

Na última parte o velho da guilda falou gritando, em tom de provocação. Não sei quem é o Adrian, mas já me compadeci por ele. Parece muito a vibe de me compararem com meu primo. Olha seu primo, Elena, ele é obediente, sabe quando falar e bla, bla, bla… Se meu avô soubesse o que meu primo apronta, meus amigos, ele tinha um treco e depois meu tio seria deserdado. Aquele moleque é um otário.

Da tenda, atrás do mestre da guilda sai outro orelhudo, retrucando com muito mau humor:

-Aura? É isso? Quem já matou um dragão tem aura? Jura, mestre?!

Eu achei que não iria reconhecê-lo, o orelhudo que entreguei “minha herança” para entregá-la ao meu pai. Achei errado. Enquanto o olhar do mestre dele fazia minha barreira vibrar, o olhar de Adrian fez o contrário. Ela parou. Ele olhou para mim, e meu escudo voltou à normalidade, calmo e sereno, sem nenhum alarme. O que isso significa? Há esse grupo de pessoas que fazem com que meu escudo se agite, como se tivesse me mandando alertas de perigo, mesmo para pessoas que não estão mal intencionadas, mas nunca vi uma pessoa que causasse o contrário. Novamente senti aquela sensação de alinhamento, igual aquela que senti com a breve conversa sobre como matar o dragão. É intrigante.

-Ah! Você! Eu já ia te procurar!

-Olá, princesa.

Diferente da careta que Adrian fez para o professor dele, para mim ele sorriu. Esse homem é muito tranquilo, gente! O que é isso? É muito parecido com observar uma montanha. Não estou sendo criativa, porque ele é um homem alto, mas a aura dele é parecida com a de uma montanha, ou de um lago, muito misterioso, muito estável, um pouco imprevisível e absolutamente intrigante. É um homem muito bonito. Os olhos dele são cor de rosa, como quartzo rosa e o cabelo é preto como a noite, reto, longo. O único defeito é que sua pele é pálida. Para um heroi, que vive ao ar livre, é incomum a pele ser tão branca, sem nenhum bronzeado. Aquele foi um cumprimento muito informal, e apesar de não me incomodar, o mestre da guilda, com um tom de voz esquisito, o corrigiu:

-Alteza, Adrian, alteza.

-Aqui suas joias!

Ele me entregou minha trouxa, diretamente em meus braços. Muito informal. Deveria me incomodar, mas não aconteceu.

-Ah! Obrigada!

-De nada, mas eu acho que você gostaria de saber que elas são amaldiçoadas.

Aquele homem disse com a cara mais limpa do mundo. Era um rosto tão tranquilo, que a informação não foi muito bem digerida pelo meu cérebro e eu tive que perguntar:

-Como é?

-Essas joias têm ouro amaldiçoado.




Notas finais
Meu Adrian está aqui ❤️!Até o próximo capitulo.