A Princesa dos Sinos

1 Dragão, dragãozinho, dragãozão, quem gosta é um bobão…


Notas iniciais
Elena pode ser um pouco temperamental...

Nunca gostei de dragões.

Sempre vi essa besta em todo tipo de bandeira e estandarte, de todas as cores, desde que me entendo por gente, como se todos os impérios deste imenso continente estivessem na competição de “quem tem o símbolo mais feio”. Todos eles ganharam, pois escolheram um dragão como animal simbólico. E o bicho feio é um dragão.

Para início de conversa, dragões não são considerados animais! Eles são bestas. A definição de besta é: criatura que têm forma de mais de um animal, espalha miasma e come humanos, segundo a Academia de Pesquisa Imperial. São piores do que os Corrompidos, eles são o ápice da quebra de masmorras, e predam humanos por puro prazer. O por que meu avô insiste nessa coisa apesar de eu já ter avisado que certamente traria alguma maldição para o Império? Deve ser porque combina com a personalidade dele. Ele certamente espalha miasma e mata humanos. Sobre a miasma, eu não tenho como provar, mas ele certamente é responsável pela morte de algumas centenas, senão milhares, de inocentes, o que faz com que objetivamente falando, ele manche o império de sangue e portanto, nos amaldiçoe. “Nós” com adendo, eu o avisei. Não estou amaldiçoada, não. Inclusive quase apanhei neste dia. E nos outros dias também. Falta de aviso não foi. O problema é que a maldição chegou, na forma da besta favorita do meu avô (muito bem feito para ele, mas pouco bem feito para mim e para todos os outros inocentes desse império): um dragão.

A única coisa que quero saber é porque em 365 dias no ano, o dragão escolheu o meu dia do ano. O único dia do ano que gira em torno de mim nessa joça de palácio. No meu aniversário. Porque ele não apareceu no aniversário do meu avô que é fã de dragões? Ou do meu tio, ou primo, qualquer um daquele lado da família. Nem pude soprar minhas velinhas, comer meu bolinho e receber uns presentinhos. No momento que ia assoprar a vela o som daquela besta ressoou. Parecia uma montanha sendo despedaçada, ecoando dentro de mim e fazendo meus órgãos tremerem. As velas apagaram. E por um curto espaço de tempo tudo se paralisa. Nunca ouvi um dragão urrando antes, mas assim que escutei aquele som, soube: um dragão voava sobre as nossas cabeças. Era como se meu âmago soubesse, como se aquela informação estivesse escrita em meu sangue, em minhas veias, nos meus instintos e de todos os outros seres vivos que ouvisse. Não sei que insanidade deu na minha cabeça e dos meus pais (meu irmão, tadinho, foi obrigado, foi colo da minha mãe) que saímos para o jardim. Incredulidade, talvez? Nunca, em toda a história do império, dragões atacaram. Era por isso que os mais velhos realmente acreditavam que bordar dragões em seus estandartes, bandeiras e roupas os afastaria, como eles diziam “dava sorte”, mas sejamos razoáveis, não tem como saber se os povos destruídos por dragões não faziam o mesmo, utilizando da mesma mentalidade. Eles foram de fato destruídos, queimados até o pó, sobrando apenas ruínas difusas para provar sua existência, e certamente, a primeira coisa que queimou foi os tecidos. Mais do que isso, considerando o que os estudiosos dizem sobre dragões e como eles funcionam, homenageá-los, provavelmente, é como dizer “pertenço a você” ou “me reservo a você”. É só atrasar a própria destruição, no melhor dos casos.

Os criados e soldados tinham saído também. E aqueles que não saíram espionaram pela janela. O silêncio era total. Ali, no céu, uma sombra cobriu a lua, lançando trevas sobre nós. Era possível ver a forma difusa do que parecia o rabo de uma cobra ou um lagarto e asas extensas que pareciam conter raios em sua membrana. Não preciso de mais detalhes, esse bicho é horroroso. E como se não bastasse toda a feiura contida em sua aparência, ele começou a espalhá-la. Uma luz surgiu em seu abdome e foi subindo, primeiro para o peito, e por fim para sua garganta, como um fogo de artifício funesto subiria aos céus, e explodiu em chamas sobre o palácio. A rajada derrubou uma das torres diretamente, e as pedras, antes brancas, se tornaram vermelho vivo, como o próprio fogo. Ouço meu pai xingar. Ele nunca fala nada torpe, mas naquele momento falou umas coisas bem feias, mas não tive tempo de digerir essa informação, porque ele puxou a mim e a minha mãe (o Argos chorando no colo dela, porque o bichinho é pequeno, mas muito sensato) e correu em direção oposta ao dragão.

Um pandemônio se formou. Todos fugiam na mesma direção, cada um correndo por si. Metade do palácio já queimava com um brilho vermelho e azul e gritos de dor e desespero enchiam o vento, como um coro macabro, onde o vocal era uma besta que absorvia a luz e cuspia morte. Eu não pude nem praguejar. Já estou vivendo uma praga, não é? E tinha que guardar meu fôlego para conseguir correr. O bicho cobriu a lua. Cobriu a lua! Quem vai dar conta dessa coisa? QUEM? Evidente que os guardas do palácio, não dariam conta do tamanho desafio. É um dragão e eu gostaria de ser poupada de explicar o porquê uma criatura colossal, com garras, escamas impenetráveis, asas e que cospe fogo é um grande desafio para os guardas do palácio, treinados para defender humanos de outros seres humanos. Não tem como uma pessoa normal lidar com um dragão. Uma pessoa incrível não lidaria com um dragão. A última vez que um dragão foi morto… eu não lembro de cabeça, mas tem uns séculos e foi o fundador do Império Scarlet. E aquele homem fazia castelos flutuarem. Eu não posso fazer um castelo flutuar, meu pai também não, nem minha madrasta, o meu irmão mais novo mal consegue andar, não vamos trazê-lo para esse papo. Em suma, estamos ferrados. Muito. Bastante. Bem, bem ferrados. Estou vendo o fim de um império. E hoje é meu aniversário. Já posso declarar os dragões como meus arqui inimigos mortais ou precisa morrer algum dos meus parentes primeiro? Não que seja útil qualquer tipo de declaração, seja de ódio, de amor ou de redenção, a única forma de lidar com um dragão caçando é matando ele. Morrer já é mais do que uma possibilidade aqui, é uma certeza.

Corremos o máximo que pudemos, até que minha mãe começou a dar sinais de cansaço. Estou cansada, mas meu pai me faz correr todos os dias desde que minhas pernas se tornaram longas o bastante para a atividade. Ele sempre diz: fugir é a primeira opção, lutar é a única opção. Meus treinos certamente foram úteis, estou ofegante, mas tenho energia. Por outro lado, o suor era por causa do calor que aumentava a cada momento. A cidade parecia ter virado um forno gigante, fumaça e fuligem tingiam o vento. E um cheiro familiar preenchia minhas narinas. Não ouso pensar no que é isso.

-Eu não consigo.

Ela disse ofegante, parando com uma mão na coxa. Em algum ponto, enquanto eu divagava, meu pai passou a carregar o Argos, que gritava em seu ombro, os olhinhos pequenos e acinzentados arregalados de horror, pouco entendendo o que acontecia, mas sentindo o pânico dos adultos. Pobre garoto, pelo menos eu fui uma princesa por quinze aninhos. Ele nasceu um príncipe, mas antes do seu primeiro ano completo, um dragão destruiu o império. Credo, parece uma daquelas histórias de tragédia que li recentemente!

-Jade, nós temos que correr! Não tem a opção de não conseguir. Ou corre ou morre. Não tem outra opção.

-Eu não consigo, Argent. Não tenho mais forças. Era pra eu ter corrido com a Elena quando eu tive oportunidade.

Acredite, ela falou rindo. Era um riso de depreciação e arrependimento, mas ainda era um riso. Meu pai me entregou o Argos, e eu o abracei. Agora ele está grandinho e pesado, nem parecia o pequeno bebê de alguns meses atrás. Não sou forte a ponto de carregá-lo com apenas um dos braços, e com a corrida, é provável que eu canse rapidamente. Meu pai não iria deixar minha mãe aqui, ele a pegou nos braços. O calor parecia aumentar, e arrepios começaram a subir por minha espinha.

-Me solte! Você vai cansar.

-Você está doida se acha que vou passar pelo luto novamente!

O homem disse isso, começando a correr. Óbvio que eu não fiquei parada e o segui. Eu sei que ele não está correndo com todas as suas forças para não nos perder de vista, mas a rota começa a mudar para o estábulo. Não sei se sobrou algum cavalo ali. O cavalariço certamente já tinha fugido e os cavalos possivelmente já se soltaram da baia. E quem chegou primeiro já deve ter levado o restante. Roubar é um crime e roubar cavalos é dois crimes, mas as leis caem com a civilização.

Antes de chegarmos ao estábulo fomos interceptados por um cavalo. No meio de toda a fumaça e fuligem, vejo meu pai devolvendo Argos para Jade e o ouço reclamando:

-Você não fugiu ainda?

-Fiz um juramento.

A réplica tinha a voz do soldado guardião do meu pai, o Sr. Caleb Fides. Logo vejo-o desmontar do cavalo, segurando a guia do animal. O Sr. Fides era um órfão que meu pai ajudou, quando ambos eram jovens. Ele fez um juramento como soldado guardião, jurou lealdade e proteção eterna ao meu pai quando alçou a maioridade e em dias normais estava sempre o acompanhando. Fides estava sempre conosco, exceto por hoje, meu pai queria que tivéssemos um momento em família no meu aniversário.

Meu pai não discutiu com Fides, mesmo sendo seu, tecnicamente e objetivamente, superior, ele era um grande cabeça dura e não abria mão das coisas que lhe eram essenciais. As pessoas dizem que um soldado guardião é para um príncipe o que uma ama matron é para uma princesa. Eles são muito próximos e muitas vezes, se não na maioria das vezes, mais confiáveis do que parentes. Eu certamente confio mais na minha ama matron, Millan, do que no meu avô. Facilmente. A Milla foi minha ama de leite e está em casa hoje. Ela tem sua própria filha, com a mesma idade que a minha e que nasceu meses antes de mim. Minha mãe morreu, e me sinto pouco à vontade de roubar a mãe de outra pessoa no dia de seu aniversário. Espero que elas consigam fugir.

-Só consegui um, e foi a um grande custo.

A aparência de Fides ao entregar a guia do cavalo na mão do meu pai não era nada lisonjeira. O nariz dele estava inchado e tinha manchas de sangue abaixo de suas narinas. Um roxão brilhava em seu rosto. Ele tinha se metido em uma briga feia. Meu pai fez uma careta e lhe deu alguns tapinhas consoladores no ombro, enquanto agradecia rapidamente. Meu tio não faria isso. Só quero deixar claro: o meu tio não voltaria com um cavalo apenas porque o irmão tem uma filha e uma criança pequena. Acho que ele não entregaria o cavalo nem para o próprio filho.

-Com ele, a princesa e o pequeno príncipe vão conseguir escapar. Suas aulas de equitação vão quitar o débito hoje, Alteza.

-Espero que eu tenha sido um bom professor… Elena, suba.

Os olhos do meu pai me mandaram uma mensagem clara de que não havia discussão sobre isso. Não quero me separar dos meus pais. Não quero que eles fiquem. Eles irão morrer se ficarem. Como dois órfãos irão sobreviver nos restos de uma sociedade? Como vou sobreviver sem eles? Tudo o que sei é conhecimento teórico e é menor do que meus pais sabem. O calor estava me causando suor frio e uma fraqueza cobre meu corpo como uma coberta, enquanto meu coração acelerava.

-Eu não quero ir.

Foi a única coisa que consegui dizer, com toda a fraqueza e franqueza da minha alma. Eu prefiro morrer com eles. Não quero me despedir. Não quero lutar. Não quero perdê-los. Arrepios de horror subiam em minha espinha e acariciavam minha pele. Meu pai esboçou um sorriso gentil, seus olhos brilhando em prata. Ele apertou minha bochecha afetuosamente, como fazia quando eu era menina. Era uma despedida.

-Seja esperta, seja desconfiada e duvide, duvide de tudo e de todos. Se eu pudesse não colocaria esse peso em seus ombros, mas devo garantir que vocês sobrevivam.

-Pai…

-Não há discussão. Suba!

Subi no cavalo. Apesar das aulas de equitação, agora era diferente. Jade abraçou Argo com força pela última vez. Meu pai o segurou no colo e deu um tapinha carinhoso na cabeça dele. Fides parecia me dizer algumas instruções, mas eu não consigo ouvir. Eu quero ouvir, mas sinto que estou adoecendo. Ele me entrega uma adaga. Meu coração pesou em meu peito, meu estômago embrulhou e parece que formigas andam por minha pele. Quero vomitar. O ar parece cada vez mais difícil de respirar. É quente, pesado, fedorento, difícil. O cavalo se agitava cada vez mais.

Olho para minha família.

Eu só queria ter o poder protegê-los, assim como eles fazem comigo.

Meu pai é o melhor príncipe que nasceu nesse império, é um pai maravilhoso, um filho paciente e um bom chefe. Quando nasceria outro príncipe imperial como ele? Temo que as pessoas não teriam essa sorte tão cedo novamente e a Jade era gentil, bondosa e justa, ela poderia ser tão lúcida e esclarecida, e quando finalmente conseguiu seu próprio filho, de seu próprio sangue, é obrigada a se separar dele tão cedo. Argos é tão novo que provavelmente não vai se lembrar deles. Caleb Fides está disposto a se sacrificar pelos filhos de outros por causa de um juramento, enquanto aqueles que abandonaram seus próprios filhos provavelmente irão sobreviver por mais algum tempo. Era o tipo de pessoa que deveria ter sua própria família e sua própria prole, deixando de legado ao mundo esse tipo de caráter inabalável e valioso ou pelo menos a lembrança dele. Sou obrigada a carregar a lembrança e as esperanças deles. Um fardo pesado adicionado ao fardo de garantir minha sobrevivência e a de meu irmão mais novo. O que será de nós? Sozinhos e sem suporte? Este é um mundo, onde os fortes devoram os fracos e maus espreitam e atacam os bons. Um mundo que jaz no maligno.

O mundo em volta parece se transformar em uma fornalha à céu aberto rapidamente. O fogo derretia as construções como se fossem de cera e o ar pesou em meus pulmões, meu ouvidos cheios dos macabros coros de gritos e desespero. A escuridão me envolveu em um abraço e minha pele pinica e se arrepia, como se o vento estivesse se tornando facas.

Sinto que o tempo está parando.

Meu pai parece estende Argos muito lentamente em direção dos meus braços. Não consigo ouvir o que ele disse. Não consigo ouvir nada. Parece uma eternidade. Estou há uma eternidade vendo-o entregar meu irmão para mim. Estou ficando louca? Não. O dragão está acima de nós. Ouço o som de seu rugido, o som da morte. Um cavalo não corre mais rápido do que um dragão voa. Queria poder guardar minha família em um pote, protegidos dessa tragédia, mas vou me contentar em morrer com eles.

Não.

Vê-los morrer não é uma opção.

Fugir é a primeira opção, e falhamos. Lutar é a única opção. Vou morrer antes de vê-los morrerem. Vou lutar antes de morrer. Não sei se minha barreira suporta fogo de dragão, mas ela não precisa suportá-lo diretamente. Respiro fundo. Tão profundamente que sinto o fedor pútrido acima de mim. Mas fazer uma barreira é como estender um cobertor, lançando-o sobre o ar, vendo-o tomar a forma do que cobre. O dragão já está em cima de mim. Consigo ver a forma de suas garras, o brilho doentio de suas escamas cobrindo o olhar de terror do meu pai. Penso na barreira que eu quero. Ela é como o cobertor que estendi uma vez, com a textura macia do meu travesseiro, o exterior firme, mas maleável, cobrindo meus pais, meu irmão, Fides e até o cavalo. Só precisa empurrá-los. Eu só preciso empurrá-los para fora do alcance do dragão.

-Filhos são como flechas.

Sussurro, torcendo para que meu pai tivesse ouvido e batendo a palma mais forte da minha vida. Minhas palmas doeram. Ouço meu pai gritar o meu nome. O cavalo relincha de horror, enquanto sou agarrada e puxada de cima dele com tamanha força pelas garras traseiras do dragão que se eu não morrer agora, não morro mais. Vejo minha família, Fides e até o cavalo sendo lançado para fora do alcance da besta por uma explosão iridescente forte o suficiente para apagar o fogo ao redor deles.

A barreira que normalmente me envolve resiste ao aperto da besta que parece que quer me esmagar, formando um vácuo entre mim e o pé dela. O calor é insuportável. Meu cabelo se agarra em meu rosto, enquanto minhas roupas parecem fumegar. Vejo as mangas cor de rosa do meu vestido começarem a formar buracos espontaneamente. A barreira não servia para roupas. Em desespero, tento soltar em vão desse aperto. A cidade está cada vez mais longe dela queimava e a outra estava cercada de fogo. O sofrimento era tal, que chegava até aqui. Meus pais há muito já estão fora de vista. Sem fôlego e com as narinas queimando, ouço o som da adaga que Fides me entregou. Não preciso matar o dragão. Eu só quero que ele me solte. Há maior possibilidade de sobreviver à queda do que ao dragão. Com dificuldades, tateei a bainha da adaga e consigo tirá-la. Vejo-a voando abaixo de mim. Não importa. Não tenho forças para esfaqueá-lo e meus braços estão em uma posição em que não conseguiria apunhala-lo. Com as mãos, investigo as escamas do dragão. De fato, uma flecha ou balista não conseguia penetrá-las. E nem a adaga. A garra negra do dragão brilhou provocadamente embaixo de mim. A pele ali parecia fácil de cortar. Seria o equivalente a entrar uma farpa no dedo. Com todas as minhas pacas forças espeto da adaga na garra mais próxima da minha mão, usando uma pequena barreira como impulso.

O dragão ruge furiosamente.

Eu, por outro lado, não sou derrubada para morte, ao invés disso sou lançada contra uma montanha.


Notas finais
-os nomes de Elena e seu irmão Argos, significam luz, resplandecente, luminoso. (escolhi ambos em grego, para combinar com a personalidade meticulosa de Príncipe Argent). -Jade foi uma escolha aleatória. Achei que combinaria mais com a vibe de Qixing do que Maitê ou Cecilia, percebi agora que tanto Argent (significa prata) quanto Jade (pedra preciosa) são materiais considerados preciosos, se fosse de propósito, não seria tão bom. +Já comecei o segundo capitulo, é que eu queria muito a participar do evento entre laços e acasos!