— Pro chão! – Ao grito da Princesa Sparta, os outros gangsters se jogaram no chão no momento em que a caixa registradora de um banco na orla da praia explodiu.

Sem esperar pelas ordens eles se levantaram e passaram a recolher o dinheiro do chão e coloca-lo em sacolas. Agatha correu para a caixa ao lado e instalou a banana de dinamite, acendeu-a e se afastou. Novamente pedaços de metal voaram pelos ares.

— Muito bem, Princesa Sparta.

Ela se virou e deu de cara com Laura. A filha de Zeus a olhava com seus olhos castanhos brilhando de aprovação. Seus cabelos lisos e também castanhos esvoaçavam devido ao vento que vinha da noite fria e penetrava no banco pela porta de vidro quebrada.

— O que você está fazendo aqui? Eu não mandei você ficar de guarda junto com os outros?

— Ai é que está: você não manda em mim...bastarda – ela sussurrou a palavra. Agatha sentiu vontade soca-la, mas se segurou. Já estava acostumada com o humor negro da amiga.

A Princesa Sparta olhou em volta e viu que todo o dinheiro possível já havia sido coletado. As câmeras estavam tapadas por panos pretos. Ela apontou para a câmera mais próxima.

— Alguém descubra essa aqui, por favor.

Ela fechou os olhos ao perceber que havia falado “por favor”. Que tipo de gangster, ao ser deixada no comando de uma missão, pede por favor? Suspirou, se sentindo uma idiota.

Ninguém pareceu se importar com gentileza das palavras de Agatha e a câmera foi descoberta. A garota se aproximou da câmera e fez um gesto para os demais saírem. Ela estava com a parte de baixo do rosto tapada por uma bandana então não precisava ter medo de ser reconhecida. Em um ato de puro capricho ergueu o dedo do meio da mão direita e mostrou-o para a câmera, em seguida sacou a arma e atirou no aparelho, transformando-o em pedaços.

Virou-se e Laura ainda estava lá, olhando para ela de braços cruzados.

— Eu mandei sair.

— Eu já falei que você não manda em mim.

Irritada ela puxou Laura pelo braço e as duas saíram para a noite. Atravessaram correndo a grande avenida que estava vazia devido à hora e se juntaram aos demais. Agatha arrancou a bandana que tapava seu rosto.

— Muito bem pessoal, foi um ótimo trabalho. Agora vamos vazar daqui antes que a policia...

Naquele momento ouviram-se sirenes e luzes azuis e vermelhas se aproximaram em alta velocidade.

— Corram!

A Princesa Sparta pegou uma mochila do chão e disparou para a praia junto com os outros. Segundos depois as viaturas pararam na areia da praia e os policiais saíram para persegui-los.

— Parados!

Agatha nunca entendeu porque eles insistiam em mandar os fugitivos pararem. Era um pouco patético já que os policias sabiam que o Circulo Mortal nunca recuava. A garota ergueu a mão e fez um sinal para eles se separarem. Estavam só em dez então seria fácil se dividir e despistar a policia.

Todos correram para o meio da avenida e entraram em ruas diferentes, policiais armados disparam atrás deles. Capão, o líder da gang, proibia terminantemente que eles atacassem policiais.

O que era uma pena no ponto de vista de Agatha. Tudo que ela queria fazer era disparar um tiro certeiro na testa dos quatro policiais que perseguiam ela e Laura através de uma rua transversal.

Agatha aumentou ainda mais a velocidade e saltou por cima de uma caçamba de lixo. Bateu o pé na parede de uma casa à esquerda esticou o braço, alcançando o telhado. Içou-se para cima e continuou a correr. Sabia que não precisava ajudar a filha de Zeus a subir. Menos de um segundo depois ouviu os passos de Laura atrás dela.

A Princesa Sparta retardou o passo, parou ao lado de uma caixa d’agua e esperou Laura passar por ela feito uma bala. Assim que ela passou, Agatha puxou a caixa com força e derrubou seu conteúdo no telhado colocando-a como obstáculo para seus perseguidores. Os policiais tiveram dificuldade para transpor o obstáculo. Quando finalmente se viram livres, as duas semideusas já estavam saltando de telhado em telhado à uma distancia segura.

Saltaram para o chão em uma viela já próxima à favela.

— O lance da caixa d’água foi genial.

— Valeu.

Quando chegaram ao fim da viela, duas motos da PM barraram-lhes o caminho. Agatha sorriu maliciosamente e olhou para Laura enquanto os policiais desciam das motos e davam voz de prisão.

A Princesa Sparta disparou em direção ao policial mais próximo. Saltou o mais alto que pôde e bateu com o cotovelo no capacete do homem que caiu no chão. Assim que os pés de Agatha tocaram o solo, ela sentiu o ataque que vinha da esquerda. Saltou para o lado e desviou o soco do segundo policial. Bateu com o pé na barriga do homem que foi parar na parede.

Já ia correr para longe quando sentiu uma mão prender sua perna direita. O policial que levou a poderosa cotovelada estava se levantando. A Princesa Sparta puxou o pé, libertando-se e pisou com toda a força na viseira do capacete que se quebrou em vários pedaços.

Sentindo uma aproximação ela se virou a tempo de segurar um chute do outro atacante. Manteve a perna segura em suas mãos e aplicou um chute bem forte na única perna que mantinha o polical de pé. Ele caiu no chão e Agatha saiu correndo, Laura veio atrás.

— Nada mal para uma garota de quinze anos né?

Laura riu.

— É, nada mal mesmo.

Agatha passou acenando para os guardas que estavam na entrada principal da favela. Dirigiu-se para a sede e viu que todos os outros oito já estavam lá. Capão estava sentado em sua poltrona, mas levantou-se ao vê-las.

— Ainda bem. Eu já estava morrendo de preocupação.

Ele se aproximou dela, mas a Princesa Sparta tirou a mochila das costas e bateu com ela no peito do líder da gang.

— Isso é seu. Agora quero saber quando Laura e eu seremos transferidas para São Paulo.

Aquele era o “assunto proibido” da gang. Capão deu uma olhada para os outros, eles entenderam o recado e saíram da sala. Só ficaram Capão, Agatha e Laura.

— Já conversamos sobre isso.

— Não conversamos, não. – Laura assumiu sua posição de filha de Zeus e impôs sua autoridade sobre o líder. – Você disse que não podia nos transferir antes porque fazia pouco tempo que estávamos no Circulo. Agora já faz um ano, Capão. Já fizemos inúmeras missões para você e queremos voltar para São Paulo agora.

Agatha achou que Capão fosse recuar e se esconder, mas o rapaz apenas suspirou.

— Eu não posso deixar vocês voltarem. Vai ser uma questão de tempo até que Zeus descubra.

Ao ouvir o nome de seu pai, Laura se afastou e começou a andar de um lado para o outro, tentando conter a raiva.

— Eu ainda vou fazê-lo pagar por mandar aqueles pégasus.

Agatha a ignorou.

— Eu não tenho medo de Zeus.

— Acha que ele vai apenas lutar com você, Princesa Sparta? Com certeza ele fará um raio cair em sua cabeça antes mesmo que você se mexa.

— E o que você quer que eu faça Capão? Que passe o resto da minha vida aqui? Escondida para sempre nesse...cárcere privado só por ter nascido? Eu não pedi para ser a herdeira de Cronos!

Capão coçou o cavanhaque pensativamente.

— Me deem mais uma semana e vamos resolver essa situação.

— É bom mesmo.

Dizendo isso, Agatha saiu da sala e bateu a porta atrás de si com toda a força.

Estava correndo na floresta. Chovia muito e ela não conseguia enxergar muito à sua frente. Uma voz sussurrou em seu ouvido “apresse-se”. Ela aumentou a velocidade, não porque estivesse com medo da presença maligna que se aproximava por trás, mas porque sabia o que aconteceria se demorasse à chegar na clareira.

— Jade! Jade!

Gritava a plenos pulmões. Saltou por cima de um tronco e novamente ouviu o sussurro urgente em seus ouvidos. Não demorou muito para ela avistar o ponto onde as arvores sumiam e davam origem à clareira. Correu para ela, já sabendo o que iria encontrar.

Assim que saiu do meio das árvores, um relâmpago iluminou todo o ambiente por cerca de um segundo e ela pode ver o corpo atirado no meio da clareira. Gritou de raiva e um trovão sacudiu a terra.

Correu para o corpo de Jade e se ajoelhou ao seu lado. Ela estava pelada e em seu corpo haviam as marcas da violência física e sexual. Os olhos de sua irmã gêmea estavam abertos e voltados para o céu, cheios de dor.

Uma risada maligna e feminina soou alta pela clareira. A Princesa Sparta acordou gritando.

— Calma, tá tudo bem. Foi só um pesadelo.

Olhou para o lado e deu de cara com Lucas. Seus cabelos loiros estavam desgrenhados por causa da noite de sexo. Ele se aproximou e a beijou, mas a Princesa Sparta se afastou.

— Ei, o que foi?

— Nada.

— Onde você vai?

Ela se sentou e afastou os cobertores. Pegou a camisa de Lucas do chão e se vestiu. Saiu do quarto e foi até o banheiro jogar água no rosto e tentar afastar as lembranças daquela noite a dois anos atrás.

Esfregou os olhos e ergueu o rosto para o espelho. Seus olhos verdes escuros estavam com as pupilas comprimidas, não passavam de dois pontinhos negros no mar verde.

Sua pele, já branca como mármore, estava mais pálida ainda. Passou a mão pelos cabelos lisos, sedosos e levemente acobreados para mantê-los no lugar. Continuou a se encarar.

— Foi só um sonho. O mesmo sonho de sempre.

Conforme encarava seu reflexo, percebeu algo mudar. Seus olhos deixaram de ser tão frios e um leve sorriso brotou seus lábios. Ela estava olhando para Jade.

Piscou e se afastou do espelho, com raiva. Ia sair do banheiro, mas mudou de ideia e aplicou um soco bem dado no espelho, despedaçando seu reflexo e o de sua irmã.

Sentou-se na tampa da privada e olhou os pingos de sangue caiam de sua mão para bater no chão de azulejo branco enquanto Lucas batia freneticamente na porta e a mandava abri-la.