A Princesa Sparta: A Possessão
3 A cobrança de Hera - Laura
— Me dê mais um tempo e eu vou resolver isso. Eu prometo.
Hera a olhava com reprovação. As luzes dos postes de iluminação da rua sem saída deixavam os olhos verdes claros da deusa ainda mais intensos. Seus cabelos loiros e ondulados se moveram lentamente quando ela balançou a cabeça em desaprovação. Já fazia mais de um ano que a Rainha do Olimpo havia proposto um acordo à filha de Zeus. Esse acordo consistia-se basicamente em matar Agatha.
— Não aguento mais suas desculpas, Laura. Já esperei tempo demais. Zeus está enlouquecendo, mate-a logo e assim subirei ao trono dele.
— E eu? Como fico nessa história?
— Já combinamos que você ficará no meu lugar.
Laura riu. Não queria ser a deusa do matrimônio.
— Nada disso. Eu quero o lugar de Atena.
A filha de Zeus percebeu algo passar nos olhos de Hera. Seria medo?
— Escolha outro.
— Não. Eu quero o lugar de Atena ou nada feito. O que foi, está com medo dela?
Agora o que Laura viu no olhar de Hera foi raiva. Por um breve instante achou que a madrasta fosse ataca-la, mas a deusa se conteve.
— Eu jamais tive medo de Atena...É só que...O trono de Atena exige uma atenção especial e muito cuidado. Vamos deixa-la com ele.
— Você acha mesmo que, depois de matarmos a única filha que lhe resta, ela vai ficar do seu lado? Ela com certeza abandonará o Olimpo e levantará um exército contra você.
Pareceu que aquela era a primeira vez em que Hera pensava no assunto. Laura olhou a cor do cabelo da deusa e suspirou. Talvez o ditado sobre as loiras tivesse um fundo de verdade.
— Você pode ter razão... Vamos dar um jeito de convencê-la. O que eu quero dizer é que você não pode ficar com o trono dela. Escolha outro.
— Tudo bem, eu vou fazer isso. Tem mais alguma coisa a dizer? Ótimo, então tenho que voltar para a favela antes que Agatha note a minha ausência.
Ela fez uma reverencia forçada diante de Hera e se virou, indo embora. Só se permitiu pensar claramente no assunto quando já estava bem longe da viela.
Hera se provava mais burra a cada dia. E ainda tinham coragem de dizer que era Afrodite quem não tinha cérebro. A Rainha não fazia ideia de que quem matasse Agatha ficava com seus poderes. O corpo de Laura não aguentaria tanto poder e ela provavelmente explodiria, assim como Zeus não aguentou todos os poderes de Cronos e foi obrigado a dividi-los em doze partes.
Laura poderia não suportar todos os poderes, ela nem mesmo os queria. A única coisa que ela queria era se vingar de seu pai por ter mandado seus servos montados em pégasus para mata-la. O poder de Zeus deveria ser combatido de igual para igual. Laura iria pegar o poder de seu pai para si e daria o mais insignificante para Hera. Que tal o de Hermes? Afinal, ele chega a ter um poder? Até onde a filha de Zeus sabia, Hermes não passava do mensageiro e deus dos ladrões. Sorriu ao imaginar Hera tendo que atender as preces de trombadinhas.
Subiu a ladeira da favela, pensativa. Havia aceitado aquele acordo, mas algo dentro dela a impedia. Laura já havia ficado sozinha com a Princesa Sparta inúmeras vezes. Várias vezes ela entrou no quarto e a viu dormindo. A filha de Zeus poderia muito bem tê-la matado em todas essas ocasiões, mas mesmo assim não o havia feito. Por quê?
Ela vivia pensando nisso. Por que não conseguia machucar Agatha? Por que, depois de dar sua localização para Zeus, ela partiu correndo com o carro de sua mãe para salvar Agatha ao perceber o que iria acontecer? Por que havia ficado naquela favela com a herdeira de Cronos? Eram perguntas sem respostas.
Assim que chegou à sede, percebeu que algo estava errado: a porta de entrada estava aberta. Sacou a arma e entrou, sem fazer barulho. A porta da sede do Circulo Mortal jamais ficava aberta.
Dentro da sala de audiência tudo estava escuro e não havia ninguém. O primeiro pensamento que Laura teve foi o de que Zeus deveria ter descoberto tudo e mandado seus servos para aprisionar a Princesa Sparta enquanto ela esteve fora, mas mudou de opinião ao perceber que vinham vozes do andar de cima. Os servos dos deuses não abriam a boca durante missões como aquela.
Subiu as escadas correndo. Assim que atingiu o ultimo degrau ela virou a arma de um lado para o outro, checando o perímetro para ver se algo se mexia ou saltava das sombras. Uma luz vinha da ultima porta à direita, era o quarto de Agatha e a porta estava aberta.
— Droga.
Laura correu naquela direção e saltou para dentro do quarto, já com o dedo no gatilho, pronta para disparar... Então viu o que estava acontecendo.
A Princesa Sparta estava sentada na cama com Lucas ao seu lado. Capão estava enrolando um esparadrapo em sua mão direita. Ele parecia indignado.
— O que você tinha na cabeça? Poderia ter cortado uma veia importante.
Agatha o ignorou e ergueu os olhos para Laura.
— Pra que essa arma, Laura? Vai me matar?
A filha de Zeus sentiu um nó na garganta. Será que a Princesa Sparta suspeitava de suas intenções? Não, não era possível.
— Eu vi a porta aberta e imaginei que algo grave deveria ter acontecido.
Capão deu um tapa na própria testa.
— Foi culpa minha. Assim que Lucas me ligou, eu voltei correndo para a sede e acabei entrando com tudo, sem nem trancar a porta.
Era impressionante como Capão ainda era louco por Agatha mesmo depois de ela o ter usado para perder a virgindade. A Princesa Sparta a encarava intensamente, parecia estar tentando ler seus pensamentos.
— Mas o que aconteceu exatamente?
Lucas tirou os olhos da Princesa Sparta. Ele pareceu precisar de um esforço enorme para fazer isso. Agatha ainda a olhava.
— Ela estava dormindo e acordou gritando de novo. Levantou e foi ao banheiro, então eu ouvi o som de vidro se quebrando e quando tentei entrar a porta estava trancada. Precisei ligar para Capão, ele arrombou a porta e achou a Princesa Sparta sentada na tampa da privada com cacos de vidro enfiados na mão e uma poça de sangue no chão.
Laura olhou para Agatha que ainda a encarava. A intensidade daqueles olhos verdes escuros era palpável. A filha de Zeus desviou o olhar de volta para Lucas.
— A única coisa que você precisava fazer era meter um chute na porta. Pra que ligar para o Capão?
Lucas corou. Laura sabia que ele não era o tipo de menino de gang, ele só estava ali porque era o lanchinho de Agatha... Até ela enjoar dele e troca-lo como fazia com todos os outros.
— Eu disse que não é nada demais. – ela puxou a mão, libertando-a das mãos cuidadosas de Capão – Já está bom. Foram só uns cortezinhos, gente. Os treinamentos do meu pai eram bem piores.
Capão se ergueu, furioso.
— O que Apo...- ele parou ao perceber que iria dizer o nome do deus na frente de Lucas- seu pai... fazia com você era tortura!
— As torturas me fizeram ser o que sou... Elas e a morte de Jade.
Opa. Aquele era um assunto proibido.
— Acho que já ta bom. Capão, se você nos der licença eu agradeceria.
O rapaz assentiu e saiu do quarto. Ele era o líder da gang, mas Laura era a filha de Zeus e tinha mais autoridade. Lucas continuou ao lado de Agatha e não fez menção alguma de deixar o quarto.
— Você também.
Ele pareceu frustrado, mas saiu mesmo assim. Agatha falou:
— Vejo que você ainda esta com a arma na mão.
Laura guardou seu 38 rapidamente. Era por isso que a herdeira de Cronos não tirava os olhos dela.
— Eu fiquei preocupada. Pensei que meu pai poderia ter descoberto tudo e mandado seus assassinos.
— Então você me salvaria como fez da primeira vez?
— Da primeira vez você ainda era uma criança. Não sabia nem lutar direito, você não sabia nem mesmo quem era direito. Agora você já tem capacidade suficiente para lutar com qualquer um que meu pai pudesse mandar.
— Tem razão. Sente-se.
Laura obedeceu e depois se achou uma idiota. Como ela deixava uma bastarda lhe dizer o que fazer?
— Onde você estava?
A filha de Zeus escolheu bem as palavras antes de responder. Como ela sabia que Laura não estava na favela?
— Fazendo uma varredura em volta da favela.
— Entendo.
O olhar dela já estava começando a perturbar Laura.
— E então? Capão já decidiu sobre quando vai nos mandar de volta para São Paulo?
— Ainda não... Acho que ele só precisa de um incentivo. – Um sorriso irônico surgiu nos lábios de Agatha. Assim que viu o olhar de Laura, ela acrescentou – Não é nada disso que você esta pensando.
— Então o que é?
— Você vai ver.
Ela se levantou, ainda sorrindo maliciosamente e saiu do quarto.
A filha de Zeus refletiu. Mais uma oportunidade perdida de matar Agatha. Por que ela não conseguia matá-la? Pensou sobre tudo, sobre a ameaça que a Princesa Sparta representava, sobre o brilho maníaco que tinha em seus olhos... Percebeu que talvez Hera tivesse razão. Aquela menina devia ser eliminada para o bem dos deuses e toda a humanidade.
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