A Princesa Sparta: A Possessão
12 - Diga a Cronos... que eu aceito. - Agatha
A Princesa Sparta estacionou o carro em frente à sede do Circulo Mortal. Não sabia a quanto tempo estava ali, parada, com as mãos no volante e pensando no que havia acabado de acontecer.
Ela considerava Laura sua melhor amiga e agora... Agora ela não sabia o que pensar. A filha de Zeus foi capaz de fazer um acordo com Hera para matá-la. Uma parte de Agatha queria voltar para onde havia deixado Laura e matar a garota com as próprias mãos. Porém outra parte dela insistia no pensamento de que, se Laura quisesse realmente matá-la, ela teria feito isso sem pensar duas vezes.
Era um verdadeiro dilema.
A herdeira de Cronos não poderia passar a noite inteira dentro do carro. Ela precisava sair e encarar todos. Precisava explicar para eles que Laura não iria voltar. Estava rezando para todos os deuses para que ninguém perguntasse o motivo do banimento da vice.
Agatha respirou fundo, agora teria que arrumar outro vice. Mas quem? Pensou em Rafael, mas depois mudou de ideia. Havia algo naquele rapaz que a perturbava. Algo que ela não conseguia identificar.
A Princesa Sparta rodou a chave, desligando o carro. Estava prestes a sair quando algo bateu ferozmente na janela. Por puro instinto, a herdeira de Cronos abriu a porta com toda a força, forçando quem quer que estivesse batendo a recuar três passos. Isso lhe deu tempo para saltar para fora do carro. Percebeu que a pessoa estava se recompondo e novamente deixou seus reflexos falarem mais alto. Passou uma rasteira na sombra a sua frente e se ajoelhou em cima de sua barriga. Envolveu o pescoço do agressor com as duas mãos e apertou-o sem piedade.
— Prin-cesa...Sou eu.
— Julia?
Ao reconhecer a voz da filha de Hades, Agatha soltou seu pescoço e se pôs de pé. Estendeu a mão e ajudou Julia a se levantar. A garota massageava o pescoço e fazia força para respirar direito.
— O que deu em você? Eu poderia ter te matado.
— Desculpa... Eu só...Precisava te ver o mais rápido possível. Te procurei por toda a parte, mas ninguém parecia saber onde você havia se metido.
— O que você quer?
Julia a encarou com um brilho de medo nos olhos.
— Há alguém que quer falar com você.
A Princesa Sparta fitou-a, desconfiada.
— Quem?
A filha de Hades abriu a boca para falar, mas perdeu a coragem.
— Venha comigo.
A Princesa Sparta seguiu Julia até a pequena casa que havia demarcado como o cárcere de seus prisioneiros. Agatha estava totalmente na defensiva, estava ainda em choque por conta da quase traição de Laura e desconfiava de cada movimento que a filha de Hades fazia. Se Laura foi capaz de tramar contra ela, imagine então o que Julia poderia fazer?
A filha do deus dos mortos abriu a porta e segurou-a aberta para que a herdeira de Cronos entrasse. Agatha parou no batente. Fixou seu olhar em Julia. A garota parecia prestes a cair no choro.
— Alguma coisa esta errada aqui.
Agatha olhou para dentro da casa. Estava mais escuro do que a noite lá fora, mas não era uma escuridão normal. Era algo...vazio.
Sem esperar que Julia se manifestasse, a Princesa Sparta deu um passo à frente e entrou na casa. Tateou a parede procurando o interruptor e acendeu as luzes.
Felipe estava sentado na única cadeira presente no cômodo. Mas algo estava errado. Ele estava mortalmente pálido e encarava fixamente a parede à sua frente. Ao olhar para a direção em que o filho de Zeus encarava, Agatha percebeu que todo o cômodo estava iluminado...menos aquele canto ao lado da escada.
— O que exatamente esta acontecendo aqui?
Julia entrou e fechou a porta atrás de si.
— Alguém quer... falar com você.
Agatha se virou para ela, prestes a explodir de raiva.
— Quem? Responda!
— Eu.
A voz veio exatamente do único local não iluminado. Muito devagar, Agatha se virou. A única coisa que a herdeira de Cronos viu foi escuridão. Escuridão e um par de olhos vermelhos como lava de vulcão.
A voz era extremamente gélida e vazia. Fez todos os pelos do corpo de Agatha se arrepiarem. Lembrou-se da primeira vez em que havia ficado cara a cara com Hades e de como se sentiu.
O encontro com Hades não era nada comparado ao que ela sentia agora.
— Quem é você?
Agatha fez de tudo para parecer corajosa. Ergueu a cabeça e deu um passo a frente, decidida a não demonstrar medo.
— Eu sou Érebo. O filho de Caos.
A Princesa Sparta sentiu suas pernas fraquezarem. A voz de Érebo era como uma cobra. Uma cobra formada por medo e pavor que se arrastava lentamente pelo chão e a escalava até atingir seus ouvidos.
Ela se lembrava vagamente de suas aulas de mitologia da sétima série. Érebo era o filho de Caos, esposo de Nix. Seu poder eram as trevas, a escuridão e o vácuo. Sua cabeça rodou.
— Você... deveria estar no Tártaro.
Os olhos em chamas de Érebo clarearam ainda mais, mas não o suficiente para dissipar a escuridão ao seu redor. Agatha ainda só conseguia ver o par de olhos.
— Eu estou no Tártaro. Estou aprisionado lá desde que Nix me traiu.
— Sua própria esposa te traiu?
— Sim! – o chão tremeu levemente. – Ela, Zeus e Hades. – os olhos do titã se focaram em Julia e Felipe.
— Você quis libertar Cronos! – Felipe tentava fazer sua voz não tremer. – Os deuses somente queriam impedir a volta da Titanomaquia.
— Calado, seu verme insolente! Eu não somente quis libertar Cronos como eu vou liberta-lo.
Agatha decidiu que era a hora de agir.
— O que quer dizer com isso?
A voz de Érebo se suavizou ao focar novamente na Princesa Sparta.
— Você criança. Você é a nossa salvação. Somente a herdeira de Cronos poderá destronar Zeus trazer os titãs de volta.
— O que te leva a pensar que eu queira tomar o lugar de Zeus?
Um rugido gutural tomou conta da sala. Agatha percebeu que o titã estava rindo.
— Zeus tentou matá-la. Zeus mandou matarem sua irmã. Zeus é o responsável por toda a sua dor. Todo o seu sofrimento foi causado pelo Rei do Olimpo. Vai me dizer que não quer vingança?
Agatha pensou sobre aquilo. Pensou em como havia se sentido ao ver Jade morrer em seus braços. Como havia se sentido em todas as vezes que teve que fugir para evitar as garras de Zeus. Ergueu seus olhos para Érebo.
— Estou ouvindo.
O brilho nos olhos de fogo pareceu aumentar.
— Zeus, Nix e Hades me jogaram no Rio Aqueronte, o rio da morte. Eles me enfraqueceram e depois me atiraram no Tártaro onde estou desde então. Todos esses milênios aprisionado só me serviram para uma coisa: tramar minha vingança.
— E você pretende me usar para isso?
— Ao me jogarem no Tártaro, os deuses cometeram um erro que quando foram perceber já era tarde demais. Eles me aprisionaram junto com Cronos. Eu estava lá quando Cronos proferiu sua maldição dizendo que dentre os olimpianos nasceria suas herdeiras e que elas iriam destronar o senhor dos relâmpagos. Demorou muito tempo para essa profecia se realizar, mas aqui esta você — a voz não passava de um ronronar. – Jade morreu, mas você ainda esta aqui. Você ainda pode realizar a profecia.
— Mesmo que eu quisesse fazer isso, como eu conseguiria? Eu não sou páreo para Zeus.
— Ainda, mas você será. O treinamento que Apolo te deu não será nada comparado ao que...
— Espera. Como você sabe sobre o treinamento do meu pai?
— Cronos me contava tudo. Ele te observa desde o momento em que você nasceu. Você, querida Agatha, sempre foi a favorita do senhor dos Titãs.
Os pelos da Princesa Sparta se arrepiaram novamente.
— Prossiga.
— Com o passar do tempo no Tártaro, nossos poderes começaram a voltar. Foram preciso milênios de aprisionamento para que eu pudesse fazer essa aparição na hora certa. Cronos também esta se fortalecendo... Ele quer treiná-la. – Érebo fez uma pausa para Agatha digerir aquilo – Você aceita o treinamento do senhor dos Titãs?
— Você esta supondo que eu queira destronar Zeus. Por quê?
— Porque eu sei que você quer. Você é a herdeira de Cronos, tem a mesma personalidade dele.
— Esta enganado.
— Não, não estou. Estou olhando bem para seus lindos olhos agora, Princesa Sparta, e estou vendo neles o mesmo brilho maníaco de Cronos.
Agatha quis gritar que Érebo estava errado, mas algo dentro dela se agitou. Ela no trono de Zeus? Poderia ser interessante.
— Continue.
— Cronos ainda está fraco e não pode aparecer para você como eu estou fazendo agora. Ele precisa de...uma ajuda sua.
— O que ele precisa, exatamente?
— Da sua alma.
Julia e Felipe saíram do transe.
— Princesa Sparta, você não pode estar pensando em aceitar isso.
— É. Entendo que você odeie meu pai, mas nada justifica vender a alma para Cronos...
Agatha ergueu a mão e Felipe se calou. Ela cravou seus olhos em Érebo.
— Diga a Cronos...que eu aceito.
Novamente Érebo riu.
— Eu sabia que você seria sensata, Princesa Sparta. Quando chegar a hora e você estiver pronta eu lhe concederei um presente.
— Que tipo de presente?
— Um dos meus poderes. O poder que sem ele você nunca conseguirá vencer essa guerra. O poder de tirar a imortalidade dos deuses!
A risada de Érebo aumentou e Agatha percebeu que, lentamente, um segundo riso ia crescendo e se juntava ao do titã da escuridão.
Um pequeno ponto de luz dourada começou a brilhar em meio à escuridão e o par de olhos vermelhos sumiu dando lugar a um redemoinho crescente e dourado.
Parecia um monte de ouro moído até ser transformado em areia. E crescia. Cresceu até tomar conta de toda a escuridão. Um vento quente como o ar no inferno saiu de dentro dele e veio bater no rosto de Agatha. Antes que ela pudesse reagir o redemoinho se precipitou para frente e acertou em cheio o peito da Princesa Sparta.
Agatha gritou de dor quando sentiu seu coração ser transpassado por algo que pareceu ser uma espada. A dor somente aumentava e suas pernas estavam prestes a ceder, mas invés da herdeira de Cronos desmoronar no chão, seus pés se elevaram do piso e Agatha percebeu que estava flutuando.
A luz dourada começou a rodar em volta dela conforme ela subia cada vez mais até sua cabeça quase roçar o teto. Sentiu seus nervos prestes a se romper, sua cabeça prestes a estouras, seu coração prestes a ser dividido em dois. Ouviu uma voz dentro de sua mente “Enfim, estamos juntos.”.
Agatha abriu a boca para responder. Queria saber o que estava acontecendo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa toda a areia dourada que a envolvia abriu caminho através de sua boca. Novamente Agatha pensou que fosse explodir quando sentiu sua garganta queimar conforme a luz dourada adentrava em seu corpo.
Tão rápido quanto começou, tudo terminou. A luz se foi e o ambiente pareceu ficar mais escuro e frio. Agatha despencou do teto para o chão.
A única coisa que percebeu antes de perder totalmente os sentidos foi que uma risada explodia de seus lábios, mas aquela não era sua voz.
Fale com o autor