A Princesa Sparta: A Possessão
13 Aqueles olhos - Felipe
Felipe observava atônito enquanto a Princesa Sparta era elevada do chão por uma cortina de ouro empoeirado. Todo o espetáculo levou cerca de alguns segundos, mas para o filho de Zeus pareceu um século.
O momento mais angustiante foi quando toda aquela energia dourada adentrou o corpo da herdeira de Cronos através de sua boca e logo em seguida ela caiu no chão. Mas ela estava rindo. Rindo de uma maneira louca e alucinada... Não, não era ela. Aquela não era a voz teatral e élfica da Princesa Sparta. Era algo... metálico, como um serrote passando em uma grade de ferro.
Sem pensar duas vezes, Felipe correu na direção de Agatha (Érebo pareceu falar esse nome. Deveria ser o verdadeiro nome dela). Foram poucos passos, mas quando ele chegou lá a gargalhada maléfica já havia parado e a herdeira de Cronos estava totalmente inconsciente.
— Princesa Sparta. Agatha. Vamos, acorde!
Delicadamente ele repousou a cabeça da líder do Circulo Mortal em seu colo e acariciou-lhe a fronte, afastando seus cabelos lisos de seu rosto suado e quente. Percebeu que ela estava queimando.
— Julia, vá buscar um pano molhado. Ela está ardendo.
Porém, quando Felipe ergueu os olhos, a filha de Hades ainda estava lá.
— Eu mandei você ir buscar o maldito pano!
— Você esta apaixonado.
O filho de Zeus desviou os olhos.
— Apenas vá.
Sem dizer nenhuma palavra e fazendo uma pequena reverencia, Julia saiu da sala indo em direção à cozinha.
Quando ele se viu sozinho com a herdeira de Cronos, Felipe não pôde evitar fitar cada traço perfeito de seu rosto. Ela não poderia estar morta. Checou sua pulsação e viu que a Princesa Sparta ainda estava viva. Mesmo assim ela estava quente demais, era preciso fazer algo à respeito ou ela poderia morrer.
Julia não demorou mais que um minuto para voltar com o pano encharcado. Felipe torceu levemente o pano para tirar um pouco do excesso e pressionou-o contra a testa de Agatha. Algo o fez olhar para cima e seu olhar se cruzou com o de Julia.
— Me diga quando isso aconteceu.
O filho de Zeus não precisava perguntar para saber do que Julia estava falando.
— No primeiro momento em que a vi.
— Entendo. Até eu senti um calafrio quando olhei para ela.
Felipe ergueu uma sobrancelha.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que eu também senti meu coração disparar ao olhar para a Princesa Sparta, mas logo passou. Deve ter algo nela que faz com que as pessoas... a amem.
Depois de pensar um pouco o jovem falou.
— Afrodite. O poder de Afrodite também vem de Cronos.
— Imagino que seja isso, mas também há Apolo. Então temos dois deuses sedutores misturados em uma só garota.
— Não. É pior que isso... Nós temos doze deuses misturados em uma só garota.
Os dois permaneceram em silencio enquanto Felipe tentava desesperadamente abaixar a temperatura de Agatha.
— Droga, não está funcionando. Ela vai morrer!
— Não vai. – a voz de Julia tinha uma mistura de descrença com admiração. – O que quer que Érebo tenha feito com ela não vai matá-la. Estou sentindo a energia vital dela e está mais forte do que nunca. – sua voz diminuiu até virar um sussurro. – Forte demais. Uma pessoa não deveria aguentar tanto.
— Ela esta ardendo em febre. Precisamos chamar ajuda.
— Não, você enlouqueceu? Se os gangsters a virem assim pensarão que fomos nós.
— Por que faríamos uma coisa dessas?
— Sei lá, talvez porque ela invadiu nossa favela e matou todos! Olha, em meio à esse povo, que não sabe nada sobre os deuses nem quem a Princesa Sparta realmente é, nós somos os únicos que teriam motivo para machuca-la. Ou você esta cogitando falar para eles o que realmente aconteceu nessa sala?
Felipe se calou. Ele sabia que Julia tinha razão. Uma parte dele dizia que devia deixar a Princesa Sparta morrer. Isso seria o melhor a se fazer. Salvaria os deuses e a humanidade inteira. Mas outra parte dentro dele, a mais forte, o impedia de parar de tentar reanimar a herdeira de Cronos.
O filho de Zeus passou o pano pelo pescoço de Agatha em mais uma tentativa desesperada de diminuir a febre, mas não adiantou. Checou novamente a pulsação que, por milagre, estava normal. Decidiu que não havia nada a se fazer. Julia já havia dito que a Princesa Sparta não estava morrendo e os filhos de Hades tinham o dom de sentir a energia vital das pessoas. Se a vida de Agatha estivesse se esvaindo, Julia saberia.
— Me ajude aqui. Segure as pernas dela. Vamos colocá-la no sofá.
Julia se agachou e pegou as pernas da Princesa Sparta. Felipe se posicionou melhor e passou os braços por baixo dos braços de Agatha. Como podia uma garota de quinze anos e com aquele porte físico ser tão pesada? Um pensamento assustador passou por sua cabeça: e se aquela luz dourada fosse Cronos? Será que Felipe sentia agora o peso do senhor dos Titãs? Sacudiu a cabeça e afastou esses pensamentos.
— No três. Um, dois...
A porta da casa se abriu e uma garota entrou.
— Princesa Sparta, precisam de você na...
Ela se calou ao ver a cena em que sua líder estava desacordada e os únicos na casa eram os dois prisioneiros.
— O que fizeram com ela?
A garota se precipitou para cima de Julia que estava mais perto da porta. Apesar de estar ferida, a filha de Hades conseguiu reagir e segurou o soco da outra garota sem o menor esforço. Mas os gangsters do Circulo Mortal não eram tão facilmente parados. A garota revidou aplicando uma joelhada certeira no estomago de Julia que foi parar no chão. Um chute fez a semideusa rolar para o lado, gemendo de dor.
— O que fizeram com ela, seus vermes? Nathan!
Um homem colocou a cabeça para dentro da casa. Logo viu Felipe, que ainda estava agarrado à Agatha e entendeu o recado. O homem correu para cima do semideus e ergueu-o do chão com as duas mãos para, em seguida, atira-lo contra a parede.
Felipe sentiu o ar fugir de seus pulmões quando atingiu a parede e depois o chão. Olhou na direção em que Julia estava tentando se levantar, mas a gangster impiedosa pisou em cima da mão da filha de Hades que soltou um terrível grito de dor.
— Vocês vão morrer gritando!
A garota arrastou Julia pelos cabelos até perto de onde Felipe estava caído. Em seguida, ainda segurando-a pelos cabelos, aplicou-lhe uma sequencia de socos no rosto até seu sangue de sua vitima manchar suas roupas.
Felipe tentou se levantar, mas o homem que o havia atirado contra a parede entrou em ação e pisou em suas costas, forçando-o para baixo.
— Vocês machucaram nossa líder e agora vão pagar por isso. Primeiro ela e depois você. – a voz de Nathan estava carregada de ódio. – Assista ao sofrimento de sua putinha. Quando você quiser, Talita.
Talita assentiu e tirou do bolso um alicate.
— Vocês acabaram de chegar e não devem me conhecer. Eu sou a interrogadora do Circulo Mortal. – com um sorriso perverso ela acrescentou. – Foi realmente uma sorte ter sido eu a encontra-los aqui, matando nossa líder.
— Nós não... – Julia tentou falar, mas Talita torceu seu braço para trás e a fez se deitar no chão. Puxou o braço da filha de Hades para cima, quase quebrando-o e forçou-a a abrir os dedos. Posicionou o alicate aperto na unha de Julia e o puxou.
O grito que a garota soltou fez Felipe querer tapar os ouvidos, mas Nathan ainda o mantinha firme ao chão. Novamente Talita posicionou o alicate e arrancou outra unha de Julia que agora soluçava de dor. O sangue de sua mão escorria tornando seu antebraço vermelho.
— Já chega.
Talita e Nathan recuaram. Julia começou a chorar e abraçou a mão que sangrava muito. Felipe ergueu a cabeça e a viu parada no meio da sala. A Princesa Sparta os fitava. Sua voz havia voltado a ter o mesmo tom de antes: teatral como o de uma princesa élfica. Ela caminhou na direção deles e ainda os fitava.
-Princesa Sparta. – Talita estava suando. – Pensamos que estivesse...
— Morta? – Agatha riu. – Não estou. Muito pelo contrario, Talita. Eu nunca me senti tão bem.
A herdeira de Cronos baixou os olhos para Felipe. Aqueles belos olhos verdes que haviam conseguido penetrar no coração do filho de Zeus haviam desaparecido e em seu lugar estava um par de olhos dourados. Dourados como ouro derretido.
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