A Princesa Sparta: A Possessão
5 Os cães infernais - Agatha
A Princesa Sparta estava parada de frente para a poltrona de Capão. Sentia seu corpo todo tremer de raiva e estava se segurando para não partir para cima do líder. Laura estava parada ao seu lado, igualmente nervosa.
— Eu já disse que não. Vocês não podem voltar para São Paulo. Zeus iria...
— Foda-se Zeus! Eu quero ser transferida para São Paulo ainda essa semana!
— Eu não vou realizar essa transferência. Sinto muito.
— Ótimo. – Agatha sacou a arma. Capão arregalou os olhos, assustado, mas a Princesa Sparta apenas jogou seu revólver no colo do homem. – Eu estou fora.
Dizendo isso ela virou as costas e saiu da sala de audiências. Garoava um pouco do lado de fora. Agatha ergueu o rosto para o céu e tentou imaginar como seria a aparência do Olimpo. Foi interrompida por passos que vinham da sede.
— Você não pode estar falando sério.
Laura parecia apavorada.
— Claro que estou. – a Princesa Sparta pegou a filha de Zeus pelo braço e juntas elas atravessaram a rua, longe da sede. – Eu disse que ele precisava de um incentivo, não disse?
— Sim, mas acho que você foi longe demais! E se ele ficou bravo e realmente te deixar sair da gang?
— Isso nunca irá acontecer. Ambas sabemos o quanto ele é louco por mim.
Agatha sorriu. Ela sempre achava um jeito de usar essa paixão platônica a seu favor. Tinha certeza que Capão não suportaria a ideia de tê-la fora do Círculo.
— E mesmo que ele me deixe sair, eu vou voltar para São Paulo por conta própria.
— E vai fazer o que depois?
Agatha não respondeu. Estava pensando em tentar entrar para outra gang na capital e continuar com sua vida como estava. O único motivo para ela não se sossegar em Santos era o fato de que sua avó estava em São Paulo.
Ela não dava a mínima para sua família. Seu tio mais velho sempre a torturava e espancava quando ela era criança. Sua mãe sempre a tratava como se ela não existisse. Caio, seu tio mais novo, era legal. Mas a pessoa que ela mais amava... A única pessoa que ela amava no mundo era a sua avó Heloisa.
— Princesa Sparta?
Foi arrancada de seus pensamentos pela voz de Lucas.
— Ouvi dizer que você pediu pra sair do Circulo.
— Nossa as noticias correm rápido por aqui. – Laura parecia nervosa. – O povo não tem vida não?
— Provavelmente tem, mas a ideia de perder a melhor gangster que essa gang já teve é perturbadora. Não se preocupe Lucas, Capão não vai permitir que eu saia assim tão facilmente.
— Mas... Você quer ir para São Paulo, não quer?
Agatha fixou seus olhos verdes no garoto loiro e sentiu pena. O pobre rapaz estava apaixonado por ela de verdade.
— Sim, eu quero.
Lucas deu um passo para frente se aproximando.
— Me leva com você.
A filha de Zeus começou a rir.
— Você é idiota, Lucas? Ainda não percebeu que ela só esta te usando para se saciar? Assim que ela enjoar de você, vai te trocar por outro assim como fez com todos os outros.
Lucas corou. Lançou um rápido olhar para Agatha e se afastou.
— Não precisava ter sido tão cruel.
— Alguém precisava dar um choque de realidade nesse menino!
A Princesa Sparta sabia que ela tinha razão.
— Preciso me distrair. Pegue o carro, vamos para a praia.
— Ta garoando.
— Não me diga. – a ironia na voz de Agatha foi palpável. – Sua capacidade de percepção me impressiona. Vai logo.
Laura pareceu atordoada, mas virou as costas e se dirigiu para a garagem onde ficavam guardados os carros dos membros do Circulo.
Agatha andava suspeitando de que a filha de Zeus estivesse planejando algo. Poderia ser só coisa da sua cabeça, mas prevenir nunca era demais. Talvez Laura tivesse cedido para o lado do pai e queria entregar ou matar Agatha. Não, não era possível. Se Laura quisesse matá-la, certamente já teria feito.
Vendo o Logan preto sair da garagem, Agatha atravessou a rua e entrou no carro, sentando-se no banco ao lado de Laura. O carro desceu a ladeira em direção ao mundo civilizado.
Estavam atravessando o túnel revestido de azulejos brancos e azuis que Agatha havia visto pela primeira vez dois anos atrás quando veio de São Paulo para ficar hospedada na mansão de Jade.
Desviou os olhos das paredes azulejadas que formavam o desenho de ondas. Olhou de lado para Laura. A Princesa Sparta era muito boa em ler a expressão corporal e facial das pessoas. Supunha que tivesse pegado essa habilidade de Atena.
A filha de Zeus estava suando. Agatha percebeu o brilho no espaço entre seu nariz e o lábio superior. Olhou para o painel do carro, onde marcava a temperatura. 22ºC não fariam ninguém suar daquele jeito.
Os dedos de Laura batiam levemente no volante. Aquilo era um sinal de impaciência ou ansiedade, mas para o que? Agatha se lembrou de ter jogado sua arma no colo de Capão. Bem, se Laura quisesse lhe fazer algum mal, a herdeira de Cronos supôs que logo saberia.
Passou a analisar o rosto de Laura. Os olhos castanhos da garota tremiam de um lado para o outro. Ela parecia relutante em olhar para Agatha.
— O que foi, Laura?
— Para de me olhar! Você está me deixando sem graça.
A Princesa Sparta desviou o olhar para os hotéis que passavam ao lado da janela.
— É impressionante como demora para fazer esse trajeto de carro. Quando assaltamos aquele banco, nós chegamos bem mais rápido na favela.
— Acho que foi porque estávamos pulando por cima dos telhados.
Laura não teve dificuldade em estacionar o carro em frente à praia. As vagas estavam todas vazias e até os flanelinhas estavam ausentes. Num tempo como aquele isso já era de se esperar.
Agatha saiu do carro, seguida por Laura e as duas andaram pela areia da praia deserta lado a lado.
— Poseidon está agitado.
A Princesa Sparta olhou para o mar e viu o que Laura quis dizer. As ondas estavam altas demais para o padrão da cidade. Batiam violentamente nas pedras ao longe e sua espuma branca voava pelos ares. O vento que vinha dele fez os cabelos de Agatha se desarrumar.
— Parece que sim. Tem uma tempestade a caminho.
Laura não precisava olhar para o céu para saber que Agatha tinha razão. As duas caminharam até próximo ao mar e pararam para assistir à fúria das ondas.
— Será que ele pode nos ver?
— Espero que não. Do contrario meu pai mandará um raio em três...dois...um...Bom, nada de raios.
A Princesa Sparta não conseguiu evitar o riso, porém logo se conteve. Ela não deveria demonstrar nada. Olhou para a direita, na direção das pedras enormes nas quais as ondas se batiam furiosamente.
— Ei, acho que aquilo não deveria estar ali.
Laura se virou para olhar na direção que Agatha apontava.
— Não mesmo. As ondas já deveriam tê-lo partido ao meio.
Um barquinho estava amarrado a uma estaca que estava próxima às pedras. As ondas o faziam subir e descer. Uma especialmente grande o atirou para cima, mas o barco tornou a cair intacto.
— Vamos lá.
— O que? Você esta louca? Podemos cair no meio desse mar agitado.
— E dai? A filhinha de Zeus não sabe nadar?
Laura engoliu em seco.
— Claro que sei.
— Então não precisa ter medo. Vamos.
Agatha se afastou, correndo pela areia na direção das pedras. Assim que se aproximou ela teve sérias dúvidas sobre sua ideia genial. As pedras eram maiores do que ela pensava e de onde estava ela podia sentir os respingos do mar agitado em seu rosto.
— Tem certeza?
Ela sentiu nojo de Laura. Como uma filha do Rei do Olimpo podia ser tão medrosa? Claro que Agatha estava assustada, mas ela não demonstrava e Laura fazia questão de provar o quanto era medrosa.
— Tenho. Me ajude a subir aqui.
A filha de Zeus juntou as mãos para Agatha poder pisar e içou-a para cima da pedra. Quando a Princesa Sparta já estava devidamente estabilizada na pedra, ela se ajoelhou e estendeu a mão para Laura. A filha de Zeus a agarrou, sem pensar duas vezes e as duas fizeram força até trazer a jovem para cima.
O vento pareceu ficar mais forte e a leve garoa se tornou pingos de chuva fraca.
— Ótimo. Esqueça isso, Princesa Sparta. O que tem de tão intrigante nesse barco velho? Vamos descer antes que esses ventos nos derrubem!
— Nem pensar!
Agatha se pôs de pé com dificuldade, tentando se manter equilibrada com o vento. A pedra estava escorregadia agora que o lodo que a cobria estava encharcado. Involuntariamente, a semideusa se lembrou do treinamento de Apolo. Lembrou-se de andar sobre os cacos de vidro sem fazer barulho algum. Concentrou-se e andou com a mesma leveza. Antes que pudesse perceber já estava na beira da enorme pedra.
— Viu? Não é difícil. Me da sua mão.
Novamente ela estendeu a mão para Laura que a agarrou e veio andando devagar em sua direção, sem tirar os olhos de seus pés.
As duas estavam na beira da pedra. Menos de um salto as separava da seguinte.
— Não vamos conseguir. Vamos descer, estou falando sério!
Agatha a ignorou e deu um impulso, pulando para a outra pedra. Seu coração quase foi parar na boca quando seu pé escorregou e ela quase despencou nas pedras menores em baixo. Felizmente ela tinha ótimos reflexos e conseguiu e agarrar em uma saliência e içar-se para cima.
— Meus deuses! Você enlouqueceu Agatha? – assim que a Princesa Sparta se virou para ela e fez um gesto para que a filha de Zeus a seguisse, Laura continuou- Ah não, sem chances. Eu vou ficar bem aqui até você desistir dessa palhaçada. Ei, onde você vai? VOLTE JÁ AQUI!
A herdeira de Cronos a ignorou e se agachou na borda da pedra. Podia ver o barco apenas alguns metros abaixo. Virou-se e segurou na mesma saliência com as duas mãos. Jogou suas pernas para baixo e chutou em busca de um apoio para seus pés. Assim que achou ela libertou uma de suas mãos, mas manteve a outra bem firme e se abaixou um pouco mais procurando outro apoio.
Seu pé tocou em um buraco que somente permitia que a ponta do pé de Agatha entrasse. Ela largou da saliência em que segurava e desceu ainda mais. Ouviu o grito de Laura, mas em menos de dois minutos ela já estava de pé, se equilibrando nas pedras menores abaixo de onde ela havia estado minutos antes.
Percebeu que estava toda encharcada devido à chuva e ao respingo das ondas. Com cuidado para não escorregar, a herdeira de Cronos andou sobre as pedras até se aproximar o máximo possível do barco. Com um pequeno impulso ela saltou para dentro dele. Virou-se e acenou para Laura.
— TA VENDO SÓ, SUA MEDROSA? – gritou para ser ouvida por sobre as ondas – EU DISSE QUE NÃO PRECISAVA TER...
Antes que pudesse terminar a frase, uma enorme onda jogou o barquinho para cima. Agatha se agarrou firmemente nas bordas para evitar que o barco virasse. Olhou para trás e viu o motor do barco. Seria impossível que ele pegasse depois de tudo aquilo. Mesmo assim, a Princesa Sparta se arrastou para a popa e puxou a corda do motor. Para seu espanto ele funcionou.
— EI LAURA, VEJA ISSO.
— VOLTE JÁ AQUI!
Agatha se virou e viu que Laura havia descido da pedra e estava acenando freneticamente da areia. A herdeira de Cronos deixou o motor ligado e voltou-se para frente do barco e tentou soltar a corda que o prendia na estaca. A corda estava podre e o nó foi facilmente desfeito. Esticou o braço e virou o leme do motor. O pequeno barco saiu do meio das pedras e foi arremessado em direção à praia pelas ondas ferozes.
Laura estava aliviada ao ver Agatha voltando.
— Você quer me matar do coração? Nunca mais faça isso!
Porém a Princesa Sparta parou no meio do caminho.
— A tempestade está passando, vem aqui.
Realmente as ondas haviam sossegado. Parecia que o mar estava bravo com o fato de o barco estar entre as pedras e agora que ele havia sido retirado, ele voltou a ficar calmo. Somente a chuva ainda a incomodava.
— Você pirou?
— Ou você vem ou eu não saio daqui.
Ouviu a filha de Zeus gritar um palavrão, mas mesmo assim ela correu na direção do mar gelado e se aproximou do barquinho. Quando a água estava quase em seu peito, ela atingiu seu objetivo.
— Está feliz?
— Ainda não. Suba.
Laura usou a força de seus braços para subir na embarcação. Agatha sentiu o navio parar de oscilar agora que tinha ganhado peso.
— Legal. Agora vamos voltar, por favor.
— Ainda não. – Agatha se virou e apontou para a pequena ilha próxima à praia. – Sempre vejo turistas indo para aquela ilhazinha em barcos como esses. Vamos lá?
Sem esperar uma resposta, ela levou a mão ao leme do motor e virou o barco na direção da ilha.
A maré ainda não estava muito alta e o barco estava em boas condições apesar de ser arremessado para cima e para baixo pelas ondas. Agatha conduziu até o mais próximo possível da praia, desligou o motor e saltou para fora.
A água estava na sua cintura. Laura também desceu e ajudou a herdeira de Cronos a puxar o barco para a praia usando a velha corda. Juntas elas arrastaram o barco para a areia.
— O que exatamente viemos fazer aqui?
Nem mesmo Agatha sabia a resposta para aquela pergunta. Algo dentro dela havia se agitado desde o primeiro momento em que viu o barco e quando subiu nele soube que deveria ir para aquela ilha.
— Não vai me dizer que esta com medo, vai? Se liga, os turistas vêm aqui sempre. Duvido que tenha algum animal aqui que seja maior do que macacos.
Laura abriu a boca para responder, mas foi interrompida pelo uivo de um lobo. Agatha deu um pulo e se virou para a floresta.
Sua mente vagou para dois anos atrás e a ultima vez em que tinha entrado em uma floresta como aquela. Olhou para Laura ao seu lado, a filha de Zeus estava mais pálida do que o normal para uma semideusa.
— Ma-macacos você disse. Isso não foi um macaco!
— Não me diga!
Novamente um uivo.
— Vamos sair daqui, sparta.
Laura teria corrido para o barco e arrastado ele para a água se Agatha não tivesse a segurado pelo braço.
— Nada disso. Vamos entrar.
— Você realmente enlouqueceu. Acorda bastarda. Estamos sozinhas, numa ilha que só deveria ter macacos, mas tem um lobo aqui.
— Não sabemos se é um lobo. Pode ser um cachorro. Lobos só uivam a noite, não é?
— Tenho cara de especialista em lobos? Sou filha de Zeus e não de Árte... Ah, claro.
— O que é? – A Princesa Sparta percebeu um sorriso surgir nos lábios da filha de Zeus – O que foi?
— Ártemis. Vamos.
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, Laura partiu correndo para o meio das árvores.
— Depois eu que sou louca.
Agatha partiu atrás dela, mas quando o vento soprou em seus ouvidos, ela pensou ter ouvido novamente o sussurro “apresse-se”.
Não foi difícil alcançar Laura. Logo as duas estavam correndo lado a lado.
— Sabe pra onde está indo?
— Não faço ideia. Eu vi algo, uma sombra correndo naquela direção.
A herdeira de Cronos parou de uma vez e grudou no braço de Laura, fazendo-a parar.
— Você quer dizer que esta perseguindo uma coisa que você não sabe o que é?
Laura pareceu pensar um pouco.
— É. Não me olhe assim! Você escalou aquelas pedras só por causa de um barco.
— As pedras não uivavam e corriam e além do mais você nem sabe se o que viu correndo era um lobo, sabe?
— Não... Foi muito rápido.
— Então. Acho que você tem razão, é melhor nós voltarmos.
A filha de Zeus respirou fundo.
— Tem razão, vamos voltar.
As duas se viraram para voltar por onde vieram quando uma sombra passou correndo pelo meio das árvores e parou na frente delas.
— Laura?
— O que?
— Foi aquilo que você pensou ver correndo?
— Foi.
A coisa se mexeu lentamente, preparando-se para pular.
— E você não percebeu que, seja lá o que for, é muito maior que um lobo?
— Sabe...Acabei de lembrar de uma coisa.
— O que seria?
— Não tem lobo no Brasil.
Como se visse aquele momento como uma brecha, a coisa pulou das arvores e parou a poucos metros das duas. Parecia um cachorro, mas era imensamente maior e tinha os olhos vermelhos como sangue. Seu pelo era tão preto quanto o cabelo de Hades e seus enormes dentes podres estavam arreganhados na direção das duas semideusas.
— O que é isso, Laura? – Agatha sentiu suas pernas tremerem. Tateou a cintura atrás de sua arma até lembrar que tinha jogado ela no colo do Capão.
— É um cão infernal. Corre!
Ela não precisou falar duas vezes. As duas dispararam pela floresta, desviando das árvores e sentindo o cão infernal se aproximar cada vez mais.
— Vamos nos separar.
Agatha assentiu e as duas dividiram o caminho. A herdeira de Cronos se jogou para a esquerda e rolou para fora da trilha. Levantou-se e correu o mais rápido que pôde. Não demorou nem dois segundos para ouvir os pesados passos atrás dela.
— Droga.
O monstro se aproximava cada vez mais, iria pega-la. Sem pensar no que estava fazendo, Agatha pulou e agarrou o galho mais baixo de uma das árvores e içou-se para cima.
O cão infernal passou feito uma flecha por baixo. Tudo teria dado certo se o galho não tivesse se partido e Agatha tivesse caído bem em cima das costas do bicho.
Ainda com o galho partido em suas mãos, Agatha tentou se equilibrar nas costas do cão, mas era bem mais difícil do que montar um cavalo. O animal se debatia e empinava, tentando derruba-la.
A Princesa Sparta agarrou o pelo do animal com uma mão para não cair e com a outra manteve o galho nas mãos. Começou a golpear a cabeça do monstro com o pedaço de pau, mas este se partiu depois da terceira pancada.
Como havia ficado zonzo por causa das pauladas, o cão infernal passou a assumir uma nova tática para derrubar a herdeira de Cronos: ele começou a se bater nas árvores.
Agatha fez o possível para tentar se equilibrar, mas uma batida especialmente forte fez a Princesa Sparta voar das costas do animal e bater com força no chão. Sentiu uma dor aguda na coluna, percebeu que tinha caído em cima de uma pedra bem grande.
Ficando de pé com uma cambalhota, Agatha agarrou a pedra e esperou o monstro se virar. A desvantagem de ser muito grande é que não se tem mobilidade suficiente para mudar de direção com rapidez... ainda mais quando havia levado pauladas na cabeça.
Assim que o cão infernal virou seus olhos vermelhos para ela, Agatha arremessou a pedra com toda a força. O monstro grunhiu quando recebeu a pancada na cara.
Aproveitando o novo atordoamento, a Princesa Sparta apanhou outra pedra do chão e tornou a arremessa-la. Olhou em volta procurando algo com que golpear o animal. Encontrou um galho bem grosso e achou que deveria servir.
Teve dificuldades para erguer o pesado galho do chão. Quando conseguiu o cão infernal estava quase recuperado. Agatha reuniu toda a sua força para erguer o galho o mais alto que pode e em seguida deixou-o cair com todo o seu peso na cabeça do monstro. Com a força da pancada, o animal caiu totalmente no chão e o galho se partiu em dois.
A herdeira de Cronos pegou uma metade do pedaço de pau quebrado virou a parte pontuda e lascada na direção do bicho.
— Vem! Por que não me pega agora?
Sabia que o monstro não iria se levantar então ela tomou um impulso com as pernas e saltou no ar caindo com a ponta do galho no meio do crânio do cão infernal.
Agatha caiu sentada no chão da floresta. Estava suando muito e seu coração parecia querer sair pela boca. Percebeu que o mostro começava a se desintegrar. Não conseguiu evitar sorrir. Queria que Apolo e Atena tivessem visto aquilo.
Levantou-se e sacudiu a terra da calça. Subitamente seus olhos se arregalaram.
— LAURA!
Ela apanhou o galho, que agora estava fincado no chão onde antes estava a cabeça do monstro, e voltou correndo por onde tinha vindo.
Logo chegou ao ponto onde elas haviam se separado. Partiu correndo para a direção que Laura havia tomado.
— Laura!
Ao longe ela ouviu a voz da filha de Zeus.
— Princesa Sparta! Aqui!
Seguindo o som da voz, logo Agatha chegou até onde Laura estava. A filha de Zeus estava com sua faca em punho. Um arranhão bem feio estava exposto em seu braço esquerdo. O cão infernal que estava de frente para ela era um pouco menor do que havia perseguido Agatha.
O animal partiu para cima da filha de Zeus, mas ela jogou o corpo para o lado e o animal foi bater em uma enorme árvore. Habilmente, Laura girou o corpo e enfiou a faca na perna do monstro que grunhiu de dor. Porém, logo Agatha percebeu o motivo dos machucados de Laura: esse cão infernal era bem mais rápido que o outro.
Com uma velocidade impressionante o monstro rodou seu rabo e bateu com ele em Laura que soltou um gemido de dor e bateu na arvore ao lado.
— Ei bicho, aqui!
O cão se virou para Agatha. A Princesa Sparta correu em sua direção com a ponta do galho mirada em seus olhos vermelhos, mas o monstro saltou por cima dela e bateu com sua enorme pata em suas costas.
A herdeira de Cronos caiu pesadamente no chão e o ar fugiu de seus pulmões. Ignorou a dor e se pôs de pé. Logo em seguida rolou para o lado e golpeou com galho a pata dianteira do animal. Ouviu um estralo seguido por um rugido de dor. Aproveitando a bocarra aberta, Agatha enfiou a ponta do galho naquele enorme buraco. A ponta atravessou o céu da boca do cão infernal e foi sair pela parte de cima do seu crânio. A Princesa Sparta saltou para trás para evitar ser esmagada pelo cadáver do cão que logo começou a se desintegrar.
Ouviu algo se mexer às suas costas. Virou-se, preparada para lutar, mas era só Laura. Agatha se ajoelhou na frente da filha de Zeus.
— Você está bem.
Laura olhou para o ferimento em seu braço.
— Tirando isso, estou sim. Você me salvou...
— Parece surpresa.
— Pensei que você fosse...
— ...embora? Sem você? Nunca.
Agatha viu as lágrimas subirem aos olhos de Laura.
— E-eu preciso te falar uma coisa.
A Princesa Sparta ficou séria de repente.
— O que foi?
O que quer que Laura fosse falar, ela foi interrompida por um uivo. E dessa vez estava a alguns metros delas.
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