Laura estava prestes a abrir o jogo com a Princesa Sparta. Estava prestes a contar tudo para ela sobre o acordo de Hera e se explicar dizendo que só ia fazer aquilo porque queria se vingar de Zeus de igual para igual. Ela estava prestes a falar, mas foi interrompida pelo uivo vindo de poucos metros de distancia.

Agatha saltou, ficando de pé e Laura pôde ver o que estava espreitando por entre as árvores. Dessa vez tinha o tamanho normal de um lobo e seu pelo era cinzento. Seus olhos dourados brilhavam intensamente para elas.

— Nada mal, Princesa Sparta.

A voz feminina veio de algum ponto atrás do lobo.

— Aqueles cães infernais deveriam ter matado as duas, mas você conseguiu vencer os dois. Impressionante. Agora vejo porque Zeus tem tanto medo de você.

Uma moça de aparentemente vinte anos saiu das sombras e deu um passo à frente. Seus cabelos ruivos e compridos esvoaçavam enquanto ela andava. Ártemis estava vestida com pele de animais e em sua mão trazia um arco.

— Como assim eles deveriam ter nos matado? Esse ataque foi proposital?

A deusa virou seus olhos cinzentos para Laura.

— Mas é claro que foi.

— Como sabiam que íamos estar aqui?

— Simples, eu as trouxe aqui. Você deve saber que um dos meus poderes é atrair as pessoas exatamente para onde eu quero.

A Princesa Sparta apanhou a faca que Laura havia deixado cair ao ser golpeada pelo rabo do cão infernal e tentou partir para cima da deusa, mas Laura a segurou.

— Não podemos lutar contra ela.

— Vale a pena tentar.

Ártemis riu.

— Escute sua...amiga, Princesa Sparta. Ela normalmente não é esperta, mas esta falando uma coisa sensata dessa vez.

A moça ergueu o arco, exibindo-o. Agatha parou de tentar se soltar e ficou quieta. Laura olhou para a deusa da caça, cheia de raiva.

— Estamos aqui. Ta esperando o que para nos acorrentar?

Ártemis pareceu ofendida.

— O que a leva a crer que eu vá fazer uma coisa dessas? Não, jamais faria isso com a herdeira de Cronos. – dizendo isso ela fez uma enorme reverencia na frente de Agatha. – Eu as atrai até aqui porque estava cumprindo ordens.

— Então foi você quem mandou os monstros?

— De forma alguma. Eu não mexo com monstros do submundo.

Agatha falou:

— Então Hades...

— Não. Ele apoia a sua causa, nunca a atacaria. Isso foi obra de Perséfone.

Nada daquilo fazia sentido para a filha de Zeus.

— Pera. Explique essa historia direito. Desde o começo.

— Desde o começo será impossível. Levaríamos a noite toda. Eu estava caçando por ai quando Perséfone veio até mim. Ela disse que sabia onde a Princesa Sparta estava.

— Como ela podia saber?

— Apolo deve ter contado para Hades. Obviamente ele contou para a esposa. Quem poderia imaginar que a submissa Perséfone se revoltaria contra o marido?

— Continue.

— Ela me disse que precisava que eu a atraísse até um local afastado dos outros mortais para não correr o risco de nenhum inocente se machucar. Era para a Princesa Sparta ter vindo sozinha, mas pelo que eu vejo é impossível separar vocês duas. Quando chegasse aqui, os cães infernais iriam atacar e matar a herdeira de Cronos.

— Pra que Perséfone ia querer me matar. – a voz de Agatha estava carregada de mágoa – Hades gosta de mim, ela deveria partilhar da opinião dele, não?

— Se ela realmente o amasse, sim. Você deve conhecer a historia de Perséfone. Ela foi obrigada a casar com Hades e é mantida praticamente como prisioneira no mundo inferior. A única época que ela tem permissão para sair de lá é na primavera.

— E o que a Princesa Sparta tem a ver com isso? Foi ela que forçou Perséfone a se casar, por acaso?

— Não, mas Zeus é mais esperto do que parece. Ele sabe que não pode corromper Hades, então partiu para o elo mais fraco. Ele prometeu libertar Perséfone do casamento se ela descobrisse onde a herdeira de Cronos estava.

— Ainda não faz sentido. Se é assim então porque é você quem esta aqui e não o meu pai?

— Porque foi justamente Zeus quem mandou Perséfone vir até mim. – Ao ver o olhar de Laura, ela continuou – Calma. Seu pai sabia que se a Princesa Sparta fosse morta pelos cães infernais os poderes dela seriam perdidos. Não é possível haver essa transferência de poder para monstros.

— Que poder? – Agatha olhava atordoada de Ártemis para Laura.

— Ah, ela não sabe. Você é herdeira de Cronos, junte as peças. Você tem o poder dos doze olimpianos juntos. – Ártemis nem esperou Agatha se recuperar do choque. – Continuando: Zeus não poderia permitir que todo esse poder se perdesse então ele pediu para Perséfone falar comigo no intuído de eu atrair a Princesa Sparta para cá, porém o meu verdadeiro objetivo seria matar os cães infernais, te aprisionar e leva-la viva para Zeus.

— Por que não fez isso? Por que deixou eu me virar sozinha contra eles?

— Porque eu queria ver se valia realmente a pena.

— O que?

— Se você fosse fraca eu iria deixa-la morrer e falar para Zeus que cheguei tarde demais. Eu nunca permitira que ele ficasse mais forte do que já é. Mas, se você se provasse pelo menos corajosa, eu iria matar os monstros e te reconhecer como quem realmente é: a dona do trono do Olimpo. Você fez melhor que isso, você matou os dois!

— Por que você a reconhece como dona do trono? Não é mais fiel ao meu pai?

Ártemis virou seus olhos castanhos para Laura novamente.

— Zeus enlouqueceu. Seu tempo no Olimpo já passou do fim. A herdeira de Cronos deve subir ao poder.

A filha de Zeus se virou para encarar Agatha que fitava a deusa com uma mistura de nojo e descrença. Em menos de um segundo a ficha de Laura caiu.

— Ai não! Meu pai sabe onde nós estamos, sparta. Nós temos que sair de Santos.

Ártemis ergueu a mão.

— Ah é. Essa era a próxima coisa que eu ia falar.

Assim que a deusa fechou a boca, o mundo ao redor das duas semideusas começou a rodar e a floresta se desvaneceu. Por um momento Laura pensou que haviam caído em uma armadilha de Ártemis, mas assim que abriu os olhos ela viu que estavam paradas ao lado do Logan preto.

— Rápido Laura. Temos que sair daqui antes que Zeus perceba que Ártemis o traiu.

As duas saltaram para dentro do carro.

Laura parou o carro bem na frente de um bar onde Capão estava sentado com seus amigos. As duas correram para fora. A filha de Zeus o agarrou pelo braço e puxou para longe dos outros.

— Laura, o que aconteceu com seu braço? Você ta sangrando.

— Meu pai descobriu onde estamos. Você precisa nos deixar ir para São Paulo... AGORA!

Capão olhou para Agatha que estava parada um pouco atrás de Laura.

— É isso que você quer?

— É preciso. Pelo menos lá eu ainda estarei no Circulo Mortal.

Capão assentiu e sacou uma arma. Laura percebeu que era a mesma que Agatha havia jogado no colo dele mais cedo.

— Pegue. Vão arrumar suas coisas o mais rápido que poderem. Peguem só o essencial. Eu vou preparar o carro.

Laura enfiou seus pertences indispensáveis rapidamente em uma mochila e desceu correndo para a rua. Agatha e Capão já estavam esperando por ela. As duas entraram no carro e ele arrancou a toda velocidade. Passou costurando pelas ruas da favela e atingiu a avenida que saia de Santos.

— Como ele descobriu.

— Perséfone. Ela contou para ele na esperança de que meu pai a libertasse do casamento forçado com Hades.

— Mas o que realmente aconteceu com vocês? A gente deveria ter dado um jeito no seu braço antes de partir, Laura.

— Não – A filha de Zeus apertou mais a tira de pano que estava envolta em seu braço ferido – Eu vou ficar bem. O que aconteceu foi uma dupla de cães infernais que foram mandados por Perséfone para matar a Princesa Sparta. – Laura olhou para Agatha através do espelho retrovisor – Ela matou os dois.

Capão assobiou.

— Nada mal. Nada mal mesmo.

— Não foi nada de mais.

— O que? Dois monstros mitológicos em um só dia não é nada de mais? Você é muito modesta.

Agatha não riu. Ela continuou séria, olhando pela janela para as nuvens de tempestade que se formavam sobre o mar já distante da cidade de Santos.

Estavam agora atravessando o último túnel da Serra, rumo à São Paulo. Já havia escurecido a chuva já havia começado e uma neblina cobria o caminho a frente deles.

— Eu ainda acho São Paulo uma má ideia. Zeus irá procurar por lá mais cedo ou mais tarde.

— Meu pai vai procurar por toda a parte. Ele nunca vai parar.

Ao pensar nisso Laura se entristeceu ainda mais, agora realmente havia entendido que sua vida não passaria disso: correr de um lugar para outro na esperança de despistar seu pai... ou simplesmente ficar parada e esperar que ele a encontrasse e talvez implorar por uma morte rápida. Com esse feliz pensamento, ela encostou a cabeça no vidro da janela e fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, ela percebeu que estavam na Marginal Tietê. Finalmente ela estava voltando para São Paulo depois de um ano de exílio. Como será que estava sua mãe? E Jéssica, sua melhor amiga?

O carro pegou uma saída pela direita e seguiu reto pela Rodovia Anhanguera.

— Já estamos chegando.

— Eles sabem que estamos indo?

— Sim, eu mandei uma mensagem antes de sairmos de casa.

Agatha voltou a se recostar no banco e não falou mais nada.

Depois de alguns minutos o carro pegou novamente uma saída pela direita e, depois de alguns metros em linha reta, Capão parou o carro na frente de uma favela que conseguia ser ainda maior que a de Santos.

— Lar doce lar.

Laura foi a primeira a sair do carro.

Assim que o pessoal da favela viu Capão sair do carro, foi o maior estardalhaço. Todos correram na direção do carro e o ergueram do chão, carregando-o sobre os ombros. Capão riu e cumprimentou pacientemente todos eles. Ele olhou em volta, parecia procurar alguém.

— Ué, cadê a Leticia?

Uma garota se mexeu desconfortavelmente.

— Ela, hum, ela foi presa.

— E NINGUÉM ME FALA NADA?

A garota se encolheu.

— Ela pediu para que o senhor não fosse alertado para não colocar ninguém no lugar dela.

— E vocês obedeceram? Eu sou o líder do Circulo Mortal, vocês têm que obedecer a mim!

Ele respirou fundo por um momento para restaurar a paciência.

— Muito bem, que seja. Não vai mudar o fato que eu irei sim colocar alguém no lugar dela.

Nesse instante houve uma série de murmúrios e sussurros entre os gangsters. Todos estavam esperançosos e cheios de ansiedade, mas Capão se virou para a pessoinha que até então havia permanecido quieta e parada atrás dele.

— Princesa Sparta, quero que você lidere o Circulo Mortal de São Paulo para mim.

Laura deu um pulo e olhou para Agatha. A menina estava de boca aberta, sem saber o que falar. Com certeza ela seria a garota mais jovem da historia da comandar uma gang inteira. Ela estava incapaz de responder.

— Não vou aceitar um não como resposta. Você será minha representante aqui e ponto final. Vamos, vou mostrar para vocês onde fica a sede.

Laura e Agatha se entreolharam, a Princesa Sparta ainda estava de boca aberta. As duas seguiram Capão pelo meio dos gangsters.

— Ali é onde eles treinam e ali é onde guardam as armas. – Capão apontava em varias direção enquanto explicava rapidamente a localidade das coisas naquele lugar. Eles param na frente de um sobrado amarelo. – Aqui é a sede. Espero que vocês se deem bem aqui assim como em Santos. – ele se virou para Agatha – Tenho que ir agora.

— Ta, tchau.

Capão a olhou com um ar de tristeza e Laura sentiu pena do líder. Apaixonado pela herdeira de Cronos. Ele apertou a mão de Laura e se foi.

As duas semideusas ficaram paradas na porta do sobrado sem ter coragem para entrar.

— E agora?

— Eu sei lá. Você é a líder, lidere.

— Acontece que eu não faço ideia de como liderar. Era pra ser você!

— Por que eu?

— Porque você é filha de Zeus, a liderança está no seu sangue.

A discussão das duas foi interrompida por inúmeros passos que se aproximavam. Os gangsters pareciam ter notado o quão atordoadas elas estavam.

— Capão devia estar com pressa, do contrário não largaria vocês aqui sem uma explicação mais detalhava. – um rapaz tomou a frente dos outros – Meu nome é Rafael.

— Eu sou Laura e essa daqui é a Princesa Sparta.

— Eu sei quem ela é. – ele sorriu. – Capão sempre falava de você nas ligações do Skype. Sejam bem vindas.

Agatha fez um aceno com a cabeça agradecendo. Rafael apontou para a porta da sede.

— Não acha melhor entrar no seu novo lar?

A Princesa Sparta rodou a maçaneta, abriu a porta e entrou. Laura e certa quantidade de gangsters, incluindo Rafael, a seguiram.

— Por que nem todos entraram?

— Ah, aqui é diferente. Só os mais importantes entram na sede.

Laura olhou ao redor. Não era muito diferente da sede de Santos. Estavam na sala de audiências. Uma poltrona estava na extremidade da sala, uma janela estava aberta atrás do acento e uma mesa de escritório estava parada na frente dele. Uma estante do lado esquerdo da poltrona exibia livros e armas. Tirando isso a sala estava vazia.

— Por que não vai se sentar no seu trono?

Agatha deu um pulo e se virou para ele.

— O que quis dizer com isso? Que trono?

Rafael riu.

— A poltrona. Toda princesa precisa de um trono.

— Eu não sou uma princesa.

— Bem, seu nome diz o contrário.

Agatha lançou um olhar para Laura e em seguida se dirigiu para sua poltrona. Quando a Princesa Sparta se sentou seus pés nem mal tocavam o chão. Rafael novamente se aproximou.

— Todo líder tem um vice. Você deve nomear alguém para...

— Laura será a minha vice.

A filha de Zeus piscou.

— T-ta.

Agatha parecia mais a vontade em seu “trono” agora com Laura parada a sua direita.

— O que eu faço agora?

— O que você quiser.

— Tem algo que precise ser feito?

— Não... Bem, na verdade tem.

— Diga.

— Estávamos planejando atacar os Calibres, mas com Letícia presa nós não conseguimos nos organizar de maneira correta para atacar de fato.

Agatha sorriu com maldade.

— Ótimo, então é isso que vamos fazer. Vamos atacar esses Calibres o mais rápido possível!

Laura olhou de lado para a herdeira de Cronos e viu algo em seus olhos. Algo que pensou se tratar de um brilho psicopata.