A Princesa Solitária e a Dama de Azul.
2 Capítulo 1 - O negro e o branco.
Yerewick — Havere
A manhã vagarosamente contagiava os membros que dormiam no templo. Eram muitos, de fato. Reconhecíveis em todos os cinco ducados Pythorianos, usavam a típica manta branca com a faixa na barriga de sua cor específica, todos deitados ou se levantando, espalhados pelo piso de mármore do prédio principal.
Lá fora, alguns se agitavam também, dentre eles, Altroz. Um senhorio da paz esguio, de cabeça raspada e grandes óculos redondos. Porém, não se igualava aos demais, apenas caminhava, enquanto alguns limpavam, cozinhavam ou meditavam, ele sempre caminhava. Às vezes ajudava, outras nem tanto. Quase não havia serviço disponível , eram todos sempre muito prestativos.
"A irmandade branca", seu nome mais comum. Consistia em um grupo de pacificadores, meditadores e silenciosos senhores. Estes, orgulhosos de sua "missão terrena" ocupavam as mais altas estirpes da sociedade, ou não, agindo em prol dos pobres. Mas sua estima por todos sempre foi grande o suficiente.
Para o Monge Altroz, aqueles que preferiam lidar com altos senhores da lei e com as nobrezas eram loucos. A paz de Yerewick era quase eterna e o trabalho ali era sempre mais gratificante. Se bem que o destino dos pobres está nas mãos dos ricos, por isso o trabalho dos loucos era muito mais importante também.
A natureza sempre parecia respeitar a estabilidade do lugar. Registros na biblioteca abaixo do templo diziam que tudo ali era milenar, mas algo fazia Altroz duvidar. Nunca tinha sido de acreditar em todas as histórias.
Seus deuses eram infinitos. Para os monges de Yerewick, os deuses eram tudo, a água nos rios e as nuvens no céu. Ele são tudo, e os seres terrenos nada sem eles.
Caminhar após o nascer do sol pelas trilhas que ligavam o templo às demais construções era sua atividade favorita. Acordar na agitação do templo com os demais senhorios da paz era desconfortável, mesmo que já tenha se acostumado. Dormir no chão com todos aqueles sujeitos, depois de longos onze anos, ainda não o agradava também.
Vê-los ao longe, todos em branco e com faixas verdes, laranjas, roxas ou amarelas na barriga era excitante. Mesmo que sendo o único a usar uma faixa negra, a cor em nada o envergonhava.
Quando se adentrava no mundo dos monges, a primeira coisa que se fazia era a designação de sua cor. Uma arte um tanto complicada, em minha opinião. É dito que se revela a verdadeira cor de sua alma, algo que nunca fora levado em verdadeira consideração por Altroz.
O fato de Altroz ser o único a usar a faixa negra era de fato um fardo, mas nada incômodo para o sujeito. Alguns diziam ser a cor da maldição, enquanto para alguém especial, era a cor da mudança, transformação.
Pretendiam mandá-lo para o conselho do rei, mas ele recusara e alguém mais importante foi em seu lugar. Sua missão terrena ainda não havia chegado, quando esta chegasse, foi-lhe dito que as estrelas, o canto dos pássaros, o raiar do dia ou o sopro do vento o contariam.
[...]
Condado de Frenkia – Havere
— Onde ela está? — Senhorita Pouffey perguntava aos servos da casa. — Espero que não na biblioteca novamente!
Enquanto gritava pela casa, a senhorita Pouffey reclamava aos ventos: “ao invés de etiqueta, vai ler, onde já se viu?”, “uma dama não deve entediar seu senhor com leitura”, “essa garota tem pose, mas nada de atitude!”...
Quando finalmente a encontrou, espreguiçada sobre a poltrona da biblioteca, quase a derrubou de espanto ao acordar a menina.
— O que há?! — Ela gritou assustada ao acordar tão repentinamente.
— Uma princesa deve acordar cedo e não madrugar lendo! — Madame Pouffey a atormentou. — O que pensaria seu pai?
— Nada, provavelmente. — Ela bufou. — Mal se recorda de que existo.
A governanta revirou os olhos e a puxou pelos braços para se levantar.
— Olhe-se no espelho. — Ela ordenou, ao colocá-la em frente ao mesmo. — Vejo uma linda garota de dezesseis anos, cabelos tom de cobre encaracolados e lindos olhos cor de mel. Uma princesa.
— Vejo uma fracassada que tem o título de “Princesa”, mas nunca vai herdar o trono, afinal, Theobat já deixou isso claro para todos. Sou a mais nova de quatro filhos. — Ela desabafou secamente. — O que você vê é uma ilusão, Senhora Poff.
A governanta odiava aquele apelido, mas mal se recordava o porquê.
— Vamos, tens de se aprumar, hoje nossa agenda está cheia. — Ela continuou a puxar Alleyn pela casa. — A realeza não lhe cairia muito bem mesmo, temo eu. Por isso, pretendentes virão ao seu baile de primavera, pode não virar Imperatriz, mas alguém importante serás.
— Mas não é Outono? — Estranhou Alleyn, se recordando do significado daquilo momento depois. — Não! Não! Não. Não.
— Ora, claro que sim. Sim! Sim! Sim. — Provocou-a a senhora. — Sua afloração, entrada no mundo feminino deve ser celebrada.
Argh, gracejos insuportáveis. Pensou Alleyn.
— O que ganharei em troca? — Exigir uma recompensa era a melhor coisa, já que seria inevitável o evento.
— Já sabia que sua esperteza agiria, mas... — Ela abriu uma porta, empurrando Alleyn para dentro e finalmente soltando seu braço, após a puxar por toda a Mansão — Sua roupa vem em primeiro lugar.
Dezenas de vestidos, joias, sapatos e perucas foram colocados ali. De diversas cores e estilos. Mas um em particular chamou a atenção de Alleyn. Longo, de pedras preciosas negras e de outras tonalidades escuras. No peito, um grifo branco de asas abertas estendidas até os ombros, com detalhes perolados. No centro do peito, seus olhos foram feitos de ônix tão escuras quando o céu noturno.
— Tenho de confessar, isso é maravilhoso. — Ela sentiu o tecido e passou o dedo sob as pedras no exterior. — Acho que temos um vencedor.
— Acho que as luvas brancas combinariam muito bem com ele. — Sugeriu Madame Pouffey.
— Esse vestido é um tanto incomum, você vem planejando isso há muito, não? — Pressupôs Alleyn. — Madame Poff, você é uma figura e tanto.
A senhora sorriu ao ouvir aquilo, mas logo desfez o sorriso e se preocupando com outros detalhes da vestimenta da princesa.
Quando quase tinha acabado de aprumar tudo, se lembrou de algo e saiu para procurar.
Aproveitando o tempo sozinha, Alleyn vestiu o vestido e se admirou no espelho. Essa realmente sou eu? Ela refletiu. Quando ia tirar o vestido, foi interrompida pela governanta que retornara. Seu grande corpo chegou a assustá-la no espelho, mas não ao ponto de fazê-la reagir.
— Coloque. — Ela lhe deu um diadema de prata. As pedras eram semelhantes às do peito, de uma negritude espantadora.
Lentamente, ela colocou em si o lindo objeto.
— Pensando bem, a realeza lhe cai muitíssimo bem. — Gracejou Madame Pouffey. Como a princesa odiava aquilo... Mas sorriu. — Seu banho a aguarda.
— Não penses que me esqueci do que ganharei...
[E continua... Uma grande baile vem aí, ou não..]
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