A Princesa Solitária e a Dama de Azul.
3 Capítulo 2 - A verdade surge.
Notas iniciais
Yerewick — Havere
Altroz, um jovem inteligente o suficiente para perceber que as coisas não estavam normais por ali. A agitação rapidamente tinha se esvaído quando ele saíra para suas caminhadas matinais.
Ele temia algo que poderia nem sequer existir, mas silêncio, para ele, não era sinônimo de paz. Quando se aproximou do Templo, se acalmou com a visão que teve: todos reunidos ali. Temeu o pior por nada, pensou.
Na vida pacata dali, era raro todos se reunirem, o que queria dizer somente uma coisa. Alguém importante os visitava.
— Altroz, rápido, venha ver quem nos visita. — Um de seus colegas o puxou para dentro do templo. Sua faixa era azul, a cor mais bela na opinião de Altroz.
Quando este adentrou no templo, ficou maravilhado. Todos estavam sentados no chão frio de mármore em que dormiam, observando atentamente uma única figura no centro do templo. O Senhorio da paz mais velho dali, o verdadeiro ancião retornara de sua última missão com o Imperador.
— O rei é gentil, mas boçal. — Ele admitiu aos que cercavam-no. — Temo por sua vida e pela vida de sua família. Dizem que as rosas não são mais confiáveis esses dias...
Quando vislumbrou a entrada de Altroz, sua feição mudou. Parecia estar feliz com a chegada do rapaz.
— Meu caro Altroz. — Ele se levantou vagarosamente para abraçar o mais novo. — Tamanha é minha felicidade em vê-lo. Tenho de conversar com você imediatamente.
Dito isso, pediu para que os demais se retirassem, e sem resmungar, todos o fizeram. Estavam eufóricos, pareciam suplicar por histórias do Império e da realeza.
— Também senti sua falta, mestre. — Altroz respondeu-lhe quando todos saíram do templo. O eco era perceptível com o vazio dali.
— Não sou o seu mestre há muito tempo meu rapaz. — ele sorriu. — Contudo, fico feliz por ter tanto apreço à mim.
— Mas então, o que desejas de mim? — Altroz indagou-o.
— Não é o que eu desejo. É o que os deuses desejam para ti. — Ele se sentou novamente, cansado de ficar em pé. Fez gestos para que o mais novo também se sentasse à sua frente. — Já te disse: ser o único de sua cor não é maldição, mas pode sim ser uma sina. O último a usar uma faixa negra morreu há milênios, se bem me recordo.
— No início do Império. — Altroz lembrou-lhe. — Na época de Gregorin, o grifo negro.
— Sim, sim. — Ele concordou. — Nossa irmandade é quase tão velha quanto a terra, mas nunca foi forte para sobreviver sem ajuda dos fortes. Foi com Gregorin, o unificador, que conseguimos espalhar conhecimento e ajuda pelos cinco cantos daqui.
“Foi naquela época que o último a usar uma faixa negra viveu, segundo os arquivos mais antigos, no andar subterrâneo do templo. Eram tempos difíceis para todos. E presumo que esses tempos difíceis sequer se assimilarão com o que há por vir: Guerra, desolação, morte. A cor negra para ti é um fardo bom. Para todos os outros, é realmente uma maldição. Sua missão não será ajudar e precaver os pobres ou somente os ricos. Sua missão será proteger e precaver por tudo e todos.”
— Não sei se estou preparado para isso. — Admitiu Altroz. — Nunca me importei com as cores dadas à nós, sempre achei que era algo trivial.
— Todos assim pensam, mas o que separa o pastor das ovelhas é a visão, meu caro. Tens de ver o mundo como realmente é, e só assim descobrirá quando agir. Não sigais as massas, guie-as. — Revelou o ancião.
— O senhor tinha dito algo sobre rosas, se não me engano... — Sugeriu Altroz, para ouvir mais, tentando evitar o assunto.
— Lindas, coloridas e perfumadas. — O mais velho sorriu ironicamente. — Mas com espinhos.
“Nem tudo que é parece ser”, refletiu Altroz.
[...]
Palácio Real – Havere
Os estandartes reais esvoaçavam contra o vento no topo das torres e nos portões. "O grifo negro em campo dourado de glória"
Os tradicionais guardas reais vestidos de dourado e negro eram encantadores de se ver. Todos com espingardas nas costas e lanças nas mãos. Suas icônicas vestimentas espalhafatosas eram o que mais chamava atenção daqueles que passavam pelos portões admirando a residência real.
Os servos do Palácio também eram todos por demais pomposos. Perambulavam como baratas por todos os salões e corredores.
Apesar das centenas de cômodos, poucos eram usados pela família real. Afinal de contas, apenas o Imperador e a Rainha ali estavam. Os filhos mais velhos se espalhavam por Python, em missões diplomáticas ou apenas desgostavam da vida ali.
— O rei já terminou seu desjejum? — O mordomo-chefe perguntou a um dos lacaios.
— Sim, senhor. — O lacaio respondeu-lhe de cabeça baixa. — Disse-me que lhe aguarda com a agenda do dia na pequena biblioteca.
— Obrigado, ...? — Perdeu-se em sua mente o nome do lacaio. — Qual o seu nome mesmo, meu jovem?
— Pasteur. — Ele respondeu na forma mais educada possível.
— Obrigado, Pasteur. — Concluiu o mordomo-chefe. — Pode se retirar, meu jovem rapaz.
O outro assim se fez, adentrando em uma das portinholas escondidas nas paredes.
Caminhando lentamente devido à idade, seguiu até a biblioteca, onde dois guardas seguravam a porta, abrindo-a quando avistaram o mordomo-chefe se aproximando.
— Meu senhor, hoje o dia será agitado. — Ele iniciou o diálogo. — Temos a reunião com o embaixador de Trasmendor e com o emissário da duquesa de Whenskeria.
— Que mulher aquela, não Hert? — Disse o rei, sentado em uma poltrona e com um livro à mão. — “A dama de azul”.
— Sim, uma senhora e tanto. — Concordou o mordomo. — Intriga-me a coincidência de ambos nos visitarem hoje.
— De fato. Mas quem é este emissário? Não me recordo de alguém de suma importância além da duquesa e seu quase falecido esposo em Whenskeria.
— Não há nomes nas cartas que recebi, Vossa Alteza Imperial. Nem sequer do tal embaixador.
— Um rei não deve ter de tirar suas próprias conclusões. — Resmungou. — Porém, estou de certo modo ansioso para ver de quem se trata, devo admitir, tanto o embaixador quanto este emissário.
O mordomo apenas concordou com a cabeça.
Os guardas bateram à porta e um deles entrou no cômodo.
— Vossa Alteza, as carruagens do embaixador de Trasmendor entraram na cidade, assim como o estandarte do tigre vermelho atravessou o Terjen. Logo estarão no portão.
— Chame Erael, a rainha também deve receber nossos convidados diplomáticos.
— Sim, meu senhor. — O guarda se retirou.
— Hert, convoque os servos e nos espere no salão de entrada. — Orientou o rei.
— Com vossa licença, Alteza. — O mordomo-chefe se retirou.
[...]
As carruagens já faziam barulho nas imediações do palácio, acompanhadas de comitivas distintas de guardas e soldados. De um lado, o estandarte vermelho-vinho com três rosas brancas e do outro, o fundo laranja e o tigre vermelho. Por onde passavam, chamavam a atenção.
Quando se encontraram na entrada, os portões se abriram. E ambas adentraram no pátio, circundando a fonte no centro. Os guardas das comitivas se posicionaram afastados das carruagens.
Todos os servos alinhavam-se em ambos os lados da porta principal. Os guardas reais cercavam o perímetro juntamente das comitivas.
Trombetas soaram e as portas se abriram, enquanto as duas carruagens permaneciam fechadas, esperando o Imperador e a rainha se anunciarem.
— Vossa Alteza Imperial, Rei de Python, Imperador dos cinco ducados, Duque de Havere e Príncipe das Venárias, Gonevere, primeiro de seu nome. — Hert o anunciou, enquanto o rei se aprontava na entrada. — Vossa Alteza, Rainha Erael, Duquesa de Havere e Princesa de Denevour. — Completou enquanto a rainha também se aproximava.
Em suas cabeças, as coroas, e em suas mãos, os cetros.
Logo após serem anunciados, os que estavam nas carruagens desceram. Do lado vermelho e branco, um senhor moreno e barrigudo surgiu.
— Vossa eminência, senhor da lei e diplomata de Trasmendor, Conde de Rosébelle. — Um arauto das rosas anunciou.
— Onde isso fica? — Sussurrou a rainha para o marido.
— Hert? — O rei recorreu ao mordomo, em sussurros.
— A maior produção de vinhos do Império, meu senhor, próximo às nossas fronteiras com Trasmendor. — O mordomo disse-lhe em um tom baixo, mas perceptível.
Quando se distraíam com o embaixador, quase não perceberam a figura encapuzada de azul que se aproximava, vindo da outra carruagem.
O encapuzado retirou o capuz e se ajoelhou perante o rei e a rainha, algo que o embaixador ainda não tinha feito, por falta de respeito ou não.
— Vossas Altezas Imperiais, sou o príncipe das ilhas além-mar e herdeiro do cadeirão do Duque de Whenskeria. — Quando aquilo disse, provocou espanto no embaixador que ainda estava afastado.
O embaixador se aproximou, enfurecido, pois tinha o conhecimento de que aquele menino tinha sido morto, ou seja, mentiram para ele.
— Vo-você não morreu? — O embaixador perguntou, tremendo de raiva, ansiedade ou medo.
— Para o seu azar, não. — Hugh sorriu. — Por isso vim neste dia, já sabendo que estaria aqui, nunca se tratou de uma coincidência. Gostaria de pedir às vossas majestades uma punição no mínimo severa para o Duque de Trasmendor por me manter em cárcere privado por quase oito anos, sendo que deveria ser seu protegido pela lei, não prisoneiro.
O silêncio pairou no ar, juntamente do suspense que vinha das expressões do rei.
— Entrem. — O imperador de Python ordenou, e os ambos obedeceram, deixando toda a comitiva para trás. — Resolveremos isso em privado.
[Prometo que o baile vem aí... hehehe]
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