A Princesa Perdida

4 Ogros cantantes e um caçador esnobe


Eram dois ogros, apenas dois, mas mesmo assim Ariana congelou, e deixou de sentir seu coração batendo. Tudo à sua volta parecia irreal: ela havia entrado na Floresta Negra, e ia direto ao pântano, sendo segurada por uma criatura com mãos fedorentas e fúrunculos nos dedos. Aquilo cheirava a cocô de bebê misturado com cadáver de urubu decomposto. Tudo era muito repugnante para que Ariana pudesse olhar.

Ninguém falou nada, apenas deram um muxoxo fraco como se estivessem praguejando em outra língua. Ariana parou de se debater e ficou em silêncio na esperança de entender o que eles diziam.

Até que, finalmente, um dos ogros disse algo compreensível; porém, fazendo rimas até que bem boladas, apesar de eu suspeitar de que você não vá achar graça alguma.

Linda princesa

ninguém irá te ajudar

Mesmo que grite daqui

não irão te escutar

Ariana ficou assustada sem saber o que fazer, como fazer ou o que falar, mas os ogros falaram, ou melhor, cantaram antes que ela pudesse fazer isso.

Qual é seu nome

nos diga pequena

Somos ogros tão gentis

e de natureza serena

Claro que ela não foi boba de lhes responder, apenas os fitou aparentemente confusa, e os dois monstros pararam, evidentemente, chegando ao destino desejado.

Eles estavam num pântano largo e úmido, cheirando ainda pior do que os próprios ogros. Ao centro havia um amontoado de lenhas secas, prontas para serem usadas como fogueira. À direita, mais árvores se fechavam sobre a trilha apagada, e à esquerda tinham mais árvores, até não poder enxergar mais.

Os ogros recomeçaram a cantar, enquanto um deles- o que não segurava Ariana- corria para armar a fogueira.

Hoje é um dia feliz

vamos assar a princesa

Porque eu nunca comi

alguém da realeza

A fogueira está pronta

o fogo já está aceso

Conseguimos pegar a princesa

e teremos um almoço de peso

Somos os ogros

crueis e malvados

Somos os ogros

desmantelados

Comemos o cérebro

de mocinhos e vilões

Arrancamos o fígado

e engolimos corações.

Podemos co...

Ariana deu um pigarro alto e bem claro, e surpreendemente os ogros pararam de cantar na hora. Vendo que conseguira sua atenção, começou a falar, convicta e tentando soar confiante:

–Vocês não gostariam de me comer. Sou magra e quase não tenho carne.- esticou o busto do vestido.- Olhem, a roupa é que deixa meu corpo saliente em vários lugares; a menos que gostem de palitar os dentes com apenas ossos, sugiro que peguem um pássaro bem grande. Eles são mais saborosos e assam mais rápido.

Pássaros nós não queremos

o que interessa é você

Te matar não vai doer nada

feche os olhos que nem vai perceber.

–Tá, agora entendi. Querem carne, né?

Os ogros assentiram com a cabeça e olharam admirados para as árvores como se ansiassem por algum alimento caindo do céu.

O ogro que segurava Ariana afrouxou a mão, fazendo-a escorregar por entre seus dedos. Ele aparentemente não percebeu que deixara escapar o único alimento fácil, pois continuou a olhar para o mesmo lugar que seu amigo olhava.

Ariana tomou o cuidado de não pisar em nenhum graveto e muito menos tropeçar numa raiz saliente.

Infelizmente, após o ogro perceber sua ausência, logo desatou a correr atrás dela, e Ariana nem teve chance. Ele a capturou novamente, e apertou ainda mais a mão para que não a deixasse escapar.

–Por que quer me comer?

Você parece

ser bem suculenta

Sem lodo nos ossos

e sem cabeça lamacenta.

Não desperdiçamos

nem bicho, nem gente

Até mesmo aqueles

com bosta no dente.

–Tá, tudo bem. Já entendi que querem me comer e tals, mas será que daria para parar com as rimas? Conversar como ogros comuns? -Arianase estranhou por chamar criaturas como os ogros de "comuns".

Os dois se viraram e começaram a cochichar baixo, sem música ou uma sintonia ritmada. Até que depois de alguns minutos chegaram num consenso e se viraram para Ariana, e pela primeira vez falavam como seres humanos, com vozes ásperas e cavernosas.

–Ok, falaremos normalmente, até porque depois de um tempo nossas rimas começam a perder o sentido. — respondeu o que preparava a fogueira, que agora já subia até a copa da árvore mais próxima.

–Então porque cantam se é difícil?

–Por que um soldado parte para a guerra mesmo sabendo que vai morrer? -rebateu com outra pergunta.- Às vezes, somos obrigados a fazer algo que não queremos simplesmente porque isso é o correto a se fazer.

–Mas nem sempre um soldado morre na guerra.

–Eu sei! -impacientou-se o ogro.- Mas eu dei apenas um exemplo qualquer.

–Por que vocês são obrigados a cantar?

–Nosso mestre sempre disse que quem canta é espantado pelos mares.

–Quê? -Ariana e o ogro que a segurava perguntaram ao mesmo tempo, sem entender o que o outro dissera.

–Ué, não é esse o ditado?

–Não. -Ariana disse. — O ditado certo seria: "Quem canta seus males espanta."

–Gostava mais do meu. — resmungou.

–Qual o nome de cada um de vocês?

–O meu é Kacus.- respondeu o que segurava Ariana.

–E o meu é Kucas.- respondeu o outro, orgulhoso do próprio nome.

– E quem é o mestre de vocês?

–É aquele que vive além das Montanhas Congeladas, que tem pés mas não anda, que tem boca mas não fala. — disse o ogro que armava a fogueira, fazendo um certo ar soturno.

–Seu idiota! — o ogro que segurava Ariana pegou seu machado e o bateu na cabeça do amigo, soltando Ariana de suas mãos novamente. E novamente ele não percebeu o que fez, pois estava muito distraído discutindo com o outro ogro.

Enquanto ele batia na cabeça do amigo, Ariana fugia devagarinho, sem ser notada. Ouvia os gemidos cada vez mais distanstes do ogro que apanhava, e provavelmente, estava doendo todas as pancadas. Então, subitamente, os gritos cessaram, e ela ouviu os urros dos ogros ao perceberem que ela fugira.

Antes que pudesse virar para dentro de uma caverna a fim de se esconder até achar segura sair, um dos ogros -aquele que a segurara alguns momentos atrás- apareceu em sua frente, espetacularmente zangado, com um olhar mortífero e veneno atroz escorrendo pelos cantos da boca. Ariana só estava armada com um pedaço de graveto que encontrara no chão, e enquanto se preparava para lutar, pensou em seus pais, e em como era possível nunca mais vê-los outra vez.

Ariana correu o mais rápido do que jamais fosse pensar que corria, desviando-se de galhos baixos das árvores pelo caminho e tomando o cuidado de pisar em lugares sem folhas secas ou espinhos, pois caso ficasse presa novamente, era capaz de nunca mais conseguir se soltar.

O ogro a perseguia rapidamente, destroçando qualquer coisa que aparecesse em seu caminho, desde pequenos ninhos de pássaros até grandes troncos nodosos das maiores árvores. De vez em quando chegava tão perto da princesa que ela tinha de desviar do curso ou se abaixar para não ser atingida pelo machado que o monstro segurava com firmeza entre suas mãos do tamanho de pás de moinhos.

O outro ogro ainda estava cuidando da fogueira, agora visível de longe como um rastro gigante de fumaça preta, pronta para assar uma princesa inteira, com vestido e tudo o mais a que os ogros tinham direito.

Infelizmente, Ariana não sabia onde a trilha dava, e só percebeu a armadilha quando viu que estava correndo em círculos. Fora parar novamente no campo aberto onde o ogro armava a fogueira. Não haveria escape, e a única opção seria lutar até morrer ou até que conseguisse destruir os ogros.

Parou para olhar todos os cantos do campo, mas o ogro logo apontou da trilha, sujo de gravetos e folhas no rosto deformado. Deu um sorriso de escárnio tão maldoso que Ariana quase ficou paralisada.

Recomeçou a correr, porém na direção da fogueira. O ogro que armava a fogueira ficou tão pasmo que nem saiu do caminho, apenas fitou Ariana pulando o fogo e correndo para a extremidade oposta do pântano.

Como foi mais rápida, o outro ogro demorou um certo tempo até perceber que ela fugia, e quando já alcançara o lugar onde Ariana parara, ela não estava mais a vista.

Olhou para todos os cantos, mas não a encontrou.

Nunca nem sequer desconfiaria que ela se enterrara em um monte de terra batida, disfarçada entre os tantos galhos quebrados e folhas secas caídas sobre o monte.

Dando um urro de insatisfação, girou o corpo e mudou a direção, deixando Ariana sozinha entre os pios distantes de corujas e os uivos abafados dos lobos.

Após sair do esconderijo, Ariana correu o mais que pôde até o lado oposto em que estavam os ogros, pulando gravetos e se desviando de folhas secas e raízes altas sobre a superfície.

Aparentemente, os monstros não estavam perseguindo-na, mas mesmo assim ela dava cada passo o mais cuidadosamente que pudesse, olhando desesperadamente para todos os lados.

Um barulho à sua direita lhe chamou a atenção, e ao virar-se para ver o que era, quase levou uma baita pancada na cabeça. Sorte sua ser rápida e com reflexos bons o suficiente para se abaixar a tempo.

Correu afoitamente pela trilha, com um dos ogros a perseguindo de perto, enquanto o outro ainda parecia estar cuidando da fogueira, como se tivesse a esperança de que o almoço ainda fosse racapturado. Arriscou uma olhadela pequena para trás, e a visão que teve não foi das melhores: um ogro segurando um bastão de madeira, com colares feitos de ossos e dentes de presas passadas, do tamanho de uma caminhonete e gritando pragas maravilhosas:

– AH, PRINCESA... SE EU BOTAR AS MÃOS EM VOCÊ, DESEJE NUNCA TER NASCIDO!

Ela continuava a correr, e no caminho, puxou um galho de árvore. Era forte o suficiente para abater um monstro daquele tamanho e flexível o suficiente para não quebrar no momento errado.

Mudou o curso até parar de frente a uma parede embaralhada com grama e pedaços de árvores apodrecidas, e naquela hora percebeu que não havia escapatória. Antes de desistir de viver, olhou mais atentamente à sua volta e notou algumas árvores altas e bem volumosas para se esconder.

Rapidamente, subiu em uma delas e quando já se encontrava lá em cima, o ogro apontou nesse trecho da trilha. Olhou para os lados, parando aos poucos, à procura de Ariana.

Obviamente decepcionado, virou o corpo para voltar à fogueira e então Ariana viu o momento perfeito para matar aquele monstro de uma vez por todas.

–AHHH!!!

Gritou enquanto pulava do galho em que estava nas costas do ogro. Ele nem sequer pôde revidar, pois Ariana pegou seu graveto e o fincou na nuca do ogro, deixando-o zonzo e sem senso de direção. Numa última tentativa desesperada, arrancou com força o bastão de madeira das mãos do ogro e o bateu fortemente em sua cabeça.

Ele caiu no chão, com um baque forte de rachar vidro, e expirou, com um buraco na nuca e uma pancada na cabeça.

Ariana correu sem nem olhar para trás, ainda com o bastão em suas mãos, e partiu em direção a fogueira, onde o outro ogro esperava ansiosamente por ela.

Ao chegar lá, percebeu que havia algo errado. O ogro tinha desaparecido e a fogueira já estava apagada. Olhou para trás, e tropeçou numa raiz.

Algo a segurou antes que caísse, e ao levantar os olhos, viu a coisa mais linda do mundo. A criatura era um pouco mais alta do que ela, e mantinha os cabelos pretos e encaracolados rebeldes sob o capuz surrado e sujo de um caçador, com a aljava presa às costas. Os olhos escuros contrastavam perfeitamente com sua pele clara e levemente rosada.

Na hora ela soube que não conseguiria mais se separar daquele rapaz cujo olhar te encantou tanto.

Notas finais
O que acharam? Deixem comentários e esperem pelo próximo capítulo. Quem é essa pessoa que segurou Ariana? Será ela boa ou má? Fiquem atentos ao próximo capítulo de: A Princesa Perdida! P.S. AMANHÃ NÃO POSTAREI!!!