A Princesa Perdida
5 A Casa de Flores do Morro
–Olá, linda donzela. -cumprimentou o caçador. — Meu nome é Thomas, o caçador mais lindo das Terras Perdidas.
–Bem... se você é o mais lindo, não quero nem conhecer o mais feio. — desdenhou Ariana.
–Nossa, que grosseria. Tudo porque eu te ajudei a se levantar.
Ariana pareceu um tanto envergonhada por ter falado aquilo e, portanto, apressou-se para desculpar-se.
–Meu nome é Ariana, a prin...
–A prin... o quê? — perguntou Thomas, desconfiado.
–A prin... cesa dessa floresta.
Thomas ficou em silêncio, até que Ariana decidiu falar.
–Obrigada por ter me ajudado a levantar, mas agora preciso ir. Tenho uma coisa muito importante a fazer.
Ariana começou a andar rapidamente, sem sequer olhar para trás. Lá, no seu mais ínfimo sentimento, não queria deixá-lo para trás; de algum modo, abandoná-lo ou simplesmente seguir seu caminho sozinha, doía amargamente em seu coração.
Não, eu preciso continuar essa missão. É uma grande resposabilidade que me foi incumbida.
Ariana pensou, palavras fazendo-a se engasgar, querendo desesperadamente sair.
–Ariana! -Thomas gritou, correndo em sua direção, e Ariana virou o pescoço para olhá-lo melhor. -Espere, eu vou com você.
Uma sensação de alívio perpassou nos olhos da princesa, e ela torceu enormemente para que Thomas não percebesse esse sentimento intruso.
–Você não se incomoda? — perguntou o caçador, calmamente.
–Desde que você não me atrapalhe ou desvie meu curso.
–Para onde você está indo?
–Para o Reino de Graça.
Thomas ficou ligeiramente curioso, mas parece que resolveu não perguntar o que gostaria de perguntar por falta de educação.
Então, sem falar mais nada, caminharam rumo a Trilha do Lago Congelado, Ariana com os ombros quase colados nos de Thomas; nenhum dos dois suspeitariam que essa amizade iria longe, longe até demais.
Andaram durante um bom tempo, sob imensas copas de árvores que tornavam difíceis a localização exata do sol e, portanto, a hora específica. A essa hora, os pais de Ariana já deveriam estar procurando por ela, ou pelo menos, preocupados e dispostos em procurar.
A trilha os conduzia cada vez mais pelo coração da montanha e diretamente até a Árvore do Eterno Sono. A lenda dizia que quem passasse por debaixo dela acabaria num sono profundo, senão eterno, quando não havia nada que os chamasse a atenção milagrosamente a ponto despertar.
Enquanto permaneceram em linha reta pela trilha plana e batida, ficaram em silêncio, até que, subindo uma elevação do solo puderam avistar o que tinha a frente; infinitas copas verdes e marrons de árvores no horizonte, uma águia repousando em uma sequoia de quase dez metros e um lago indistinguível serpeando pelas encostas das montanhas mais folhadas, onde a gélida neve do inverno ainda não alcançara.
Viraram à direita e a trilha mudou. Agora, estava cercada por árvores mais espaçosas e por uma movimentação mais frequente entre elas. Esquilos e gambás caminhavam dócilmente pelos galhos das árvores, revistando tocas de corujas e batendo em nozes nos troncos ocos. Folhas de diversos tamanhos e cores enfeitavam a passarela até um morro baixo, completamente verde e pintado por flores coloridas e que exalavam um odor agradável até mesmo de onde estavam.
Somente quando chegaram perto do morro e perceberam que lá em cima ficava uma casinha simples com flores, folhas e ramos servindo de vestido, é que arriscaram dar uma palavrinha.
– Que lugar é este? — Thomas, para surpresa de Ariana, perguntou, se referindo à casinha aconchegante e convidativa que os aguardava, talvez à espera deles para ofertar-lhes alguns bolinhos de castanhas e sucos de maçã com canela.
– Casinha no morro perto das Montanhas Congeladas... Espera, estou tentando me lembrar... — Ariana falou, apoiando a mão no queixo e enrolando as pontas do cabelo, do modo que fazia quando ficava nervosa ou quase sufocava de tanto tentar lembrar de algo. — Já sei! — exclamou, olhando esperançosa para Thomas. — Li sobre isso no livro Antigas Civilizações das Terras Perdidas... as pessoas do povoado de Graça dizem que lá — ela apontou para a casa — mora uma velha senhora que adora tricotar flores ao pé de uma macieira no quintal, e com essas flores, ela cobre as partes mais baixas das árvores mais altas.
E, decerto, em algumas árvores mais para o norte haviam vestidos de flores decorando cada pedacinho da floresta. Com toda a concentração em encontrar algum lugar que lher servisse de pista não notaram a beleza diante de seus olhos.
–É a Casa de Flores da Sra. Rose. — Thomas respondeu antes que Ariana respondesse.
Ela apenas meneou a cabeça e deu um passo a frente, esperando que Thomas fizesse o mesmo. Juntos, subiram o morro e bateram à aldrava na porta da casinha de madeira.
Um ruído de passos apressados e arrastados de quem já passara da idade de aventuras pode ser ouvido pelos dois, agora nervosos admirando a casinha simples e colorida.
Um barulho metálico de uma maçaneta se abrindo despertou-os da admiração.
Olharam para a porta e um rosto bondoso sorriu para eles. Um sorriso muito gentil... e banguelo. Uma senhora de seus noventa e nove anos com cabelos prateados como o luar numa noite de inverno, de olhos muito claros e cintilantes e ossos frágeis, mas ao mesmo tempo de um olhar severo e astuto como os sábios e velhos, que com sua sabedoria ensinaram revoluções ao mundo.
–Entrem, queridos. -Ela convidou, com uma voz delicada que parecia ter saído dos livros de contos de fadas. Trajava um vestido costurado com rosas e chinelos de couro amarelos. Abriu espaço para que os dois pudessem entrar. — Sejam bem vindos à minha humilde casa.
–Com licença. — Ariana e Thomas disseram em um uníssono antes de passar a soleira da porta da casa mais linda que já viram na vida.
Fale com o autor