A Princesa Perdida
6 A conversa com a sra. Rose
–Então, o que os trouxe até aqui? — Rose perguntou, colocando o chá dentro de três xícaras tão delicadas quanto suas mãos, frágeis e finas como papel de arroz.
Ariana e Thomas entreolharam-se, talvez numa discussão silenciosa sobre qual dos dois deveria responder à pergunta.
A sra. Rose fitou-os por uns instantes após derramar o conteúdo da chaleira sobre as xícaras e empurrá-las aos dois, sentados num sofá feito de flores de diversas cores.
–Eu falo. — Ariana avisou, cruzando as pernas para parecer-se com uma dama. Thomas olhou de soslaio para o tornozelo bem desenhado da princesa. — Bem, meu amigo aqui achou que a senhora poderia nos ajudar a encontrar uma princesa desaparecida.
–E ele está certo. — Respondeu.
Fez-se um silêncio quase assustador dentro do recinto, exceto pelo barulho agradável de uma cachoeira, que ficava no lado leste da casa. Na mesma sala, uma lareira crepitava com um fogo cujas chamas mudavam de cor conforme alguém mudava de humor. Ora clareava, ora escurecia; linda como o arco-íris que aparece após uma doce chuva de verão.
A um canto ao fundo da sala, perto de outro cômodo que parecia ser a cozinha, ficava um enorme aparador feito de cristais de gelo e decorado com madressilvas. O móvel sustentava encantadores buquês e deslumbrantes vasos de diamantes, portando flores, plantas e outras diversas ervas. Algumas tão exóticas que nunca foram vistas em qualquer outro lugar. O perfume era forte o suficiente para entorpecer ogros maiores do que Kacus e Kucas.
Ao lado da lareira havia uma estante com prateleiras mágicas, que mudavam de lugar na hora que quisessem. Em cima de cada prateleira, em degradê, encontravam-se infinitos livros. Obras clássicas como Romeu e Julieta, Otelo, Hamlet, A Megera Domada, Esopo, A Ilíada, A Odisseia, diminuíam ou encolhiam para dar aespaço a outros que chegavam pela janela.
Ariana, que ainda não havia nem encostado no chá de óleo de tulipas, levantou-se, aparvalhada com tudo que via. Espichou o pescoço fino pelo parapeito da janela e observou o maravilhoso jardim da sra. Rose, repleto de vasos, árvores volumosas e outras aparelhagens botânicas que parecia terem surgido do nada. Uma árvore era diferente de todas, isso Ariana pode notar. Em sua copa verde-água eram visíveis pequenas pontas encapadas de cores que não devem existir mais hoje em dia.
Livros...
Era uma árvore feita de livros. Caíam e voavam por todos os lados, de vez em quando batendo nas outras árvores, derrubando pás do tamanho de humanos e até mesmo assustando passarinhos, esquilos e gambás, que caminhavam tranquilamente entre uma das Sete Maravilhas das Terras Perdidas.
Ariana somente saiu do devaneio quando uma voz distante a chamou, mas demorou um certo tempo para escutar com atenção e seguir o som aveludado que a fez recordar-se de suas melhores lembranças.
–Querida. — Rose chamou, cutucando levemente o ombro da princesa.
Ariana virou-se e apenas balançou a cabeça suspirando forte, voltando a sentar no sofá, ao lado de Thomas, que surpreendentemente parecia estar achando tudo aquilo muito normal.
Mal Ariana havia se aconchegado direito, Rose já estava sentada à uma poltrona de um rosa extravagante, mas ao mesmo tempo tão suave quando o roçar do vento numa deliciosa tarde de inverno. Ela mexia nas próprias mãos enquanto admirava curiosamente sua casa, como se de repente ela notasse onde estava.
À esquerda, na extremidade oposta à lareira, havia uma redoma de vidro ao centro da parede, e dentro da redoma, uma escultura feita de um material tão brilhante e lindo, que é absolutamente impossível descrevê-lo em palavras. Imagine a coisa mais bela de sua vida e multiplique por mil. Acho que nem assim chegaria aos pés da tamanha superiodidade e serenidade que aquela escultura misteriosa exalava.
A escultura retratava uma mulher de cabelos longos e de olhos bondosos, trajando uma túnica à grega, presa à cintura por um cinto fino de prata, com uma águia entalhada como broche. Mesmo o material sendo parecido com o gelo, era inteiramente de cor- salmão, como aqueles peixes que vocês costumam comer hoje em dia, crus.
–Essa é Willa, a Mãe dos Elfos, Senhora da Natureza, Soberana da Vida. A bondade em pessoa. — Rose fez uma pausa, e quando voltou a falar, sua voz saiu trêmula e com uma nota alta de tristeza quase imperceptível. — Minha mãe.
Ariana e Thomas pararam imediatamente de respirar, não podendo acreditar no que aquela senhora, que não aparentava ser uma grande elfa, dizia.
–Ela está desaparecida há tantos anos que meu povo supõe que ela esteja morta. — Falou, os olhos ligeiramente inchados e vermelhos, a ponto de chorar.
–Seu povo? — Ariana perguntou, recuperando subitamente o fôlego.
–Os Elfos.
–Elfos?- Exclamou Ariana, completamente atordoada.
–Isso. Os Elfos do Monte Willa.
Silêncio.
–Nós, os Elfos, tentamos encontrar Willa por longos e torturosos nove séculos. Quando, enfim, procuramos no último Reino, constatamos que ela não poderia estar em outro lugar que não fosse as Terras Além. Mas...
–... Quem entra nas Terras Além nunca sai. — Ariana completou. — Essa é a regra.
Rose confirmou inconsolavelmente com a cabeça cheia de falhas capilares.
–Willa, de acordo com a Profecia dos Nove Reinos, é a única capaz de restaurar a paz e acabar com toda essa discórdia entre MAXIMUS, ou os Nove Reinos como preferir.
–E se ela estiver realmente morta? — Ariana perguntou, com medo do que viesse como resposta.
–Então uma Guerra, pior do que qualquer outra, terá início. — Disse Rose, soturnamente.
–Mas já tentaram encontrá-la? — Ariana perguntou, admirando os olhos de Rose, cintilantes quase azui, estrelados e pacíficos quando o mar ao pôr-do-sol.
–Muitos aventureiros e até comerciantes saíram do conforto de suas casas para virarem lendas na História das Grandes Figuras das Terras Perdidas.
Comerciantes? Ariana escutara direito?
–Por que comerciantes? — Perguntou, cruzando a perna direita por cima da esquerda e levantando-se um pouco no sofá.
Rose deu um longo suspiro antes de contar a história. Levantou-se da poltrona e começou a caminhar pela sala. Algumas vezes parava defronte à magnífica escultura de Willa ou olhava os porta-retratos em cima de uma mesinha coberta por parreiras nuas, esta ao lado da redoma.
–Willa tinha uma propriedade mágica rara até mesmo entre criaturas como os dragões e nós, os Elfos.
–Que propriedade?
–A pele de uma elfa como Willa, quando misturada ao fio de cabelo de uma fada e jogada sobre o sangue fervente de um Demônio Negro, resulta na armadura mais poderosa e inatingível de toda Terras Perdidas.
Rose esperou que ela dissesse alguma coisa, mas vendo que isso não aconteceria prossegui a falar.
–Essa armadura é mais forte que o aço, mais afiada do que a navalha e mais perigosa do que todos os dragões juntos. Foi batizada pelo rei Luís I de A Roupa da Majestade, pois ele acreditava que a primeira das armaduras havia sido feita em sua homenagem.
–Quando na verdade foi feita para a senhora.- Ariana confirmou, olhando para a escultura.
Sim, isto não é uma escultura, mas a Primeira Armadura, a Original. A Armadura mantém a forma e imagem da última pessoa que a usou.
–E a última pessoa foi Willa.- Ariana começava a compreender tudo perfeitamente, o que a assustava cada vez mais.
–Para quê ela usou?- Rose perguntou a Ariana.
–Para poder fugir com segurança das pessoas que a queriam.- Arianan concluiu.
–Exatamente.
Um tempo se passou sem que ninguém falasse. Thomas já havia terminado seu chá e continuava estranhamente calado.
–Hã, eu gostaria de saber qual Elfo foi a Primeira Armadura.
–A mãe de Willa, Twilla, a Elfa das Elfas.
–Por isso Willa ficou furiosa...
–... E provocou a Guerra Élfica. Tudo o que você aprendeu na escola era mentira. Sempre disseram que a Guerra Élfica foi causada entre um camponês élfico chamado Branîa que queria o trono e o Rei-Elfônico, que se recusava a renunciar, mesmo estando à falência.
–Eu nunca acreditei no que diziam os livros. Todos eram falsos e falavam sem convicção alguma.
Rose olhou o rosto de Ariana por muito tempo e falou, como uma mãe fala com seu filho.
–Ariana, nunca conheci princesa tão bondosa quanto você. De todas as que passaram por aqui, Cleo, Melina, Sofia, Olivieta... Você é pura e tem o coração maior do que toda as Terras Perdidas.
O sol bateu no rosto da sra. Rose e ela percebeu que já era muito tarde e eles precisariam ir.
–À noite não é mais segura aqui do que na Floresta Negra. Monstros adoram dormir em meu jardim. É melhor irem antes que eles sintam o seu cheiro e saibam que estiveram aqui.
Ariana e Thomas levantaram-se e dirigiram-se à porta da casa. Antes de saírem pela soleira, despediram-se da bondosa senhora. Thomas fez uma mesura e Ariana deu-lhe um abraço forte e quente. Então falou:
–Espero que suas noites sejam cheias de estrelas e seus dias cheios de flores. Obrigada, sra. Rose.
–Rose. Fale apenas Rose.
Rose piscou, e eles foram embora com aperto no coração por estarem deixando o lugar mais bonito pelo qual passaram para trás.
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