A Princesa Perdida
2 A Missão da Princesa
Notas iniciais
Ariana só desceu do quarto ao ouvir os murmúrios distantes dos duques que haviam chegado.
Quando chegou à sala todos já estavam dispostos à mesa, conversando sobre coisas afins de ambos os reinos e prontos para que o almoço fosse servido.
O duque Halec remexia na capa vermelha enquanto conversava com o pai de Ariana. Era um homem muito forte, ainda mais forte do que o rei Luis, com braços robustos e bochechas másculas. O bigode denso e castanho cobria parte da boca, de modo que, ao comer, os restos dos alimentos ficavam grudados e davam certa ânsia de vômito. Os olhos elétricos intimidavam qualquer um. A voz era quase tão grossa quanto a do rei, e retumbava pelo castelo, levando os ecos para os andares superiores.
Ao lado da rainha Cristal estava a duquesa Wocah, mais conhecida como a duquesa do vai-e-vem pelo simples fato de que nunca parava num lugar. Andava viajando de um lado a outro, e por isso conhecia quaisquer criaturas além das Terras Perdidas. Uma linda mulher; cabelos lisos e compridos, chegando até a metade das costas, olhos castanhos-mel que à luz do sol pareciam dourados. A boca era apenas uma linha fina, séria mas ao mesmo tempo divertida. Naquele dia, usava um lindo vestido violeta, bordado com rendas banhadas a ouro e prata. Sapatos de vidro que faziam um barulho engraçado no piso de mármore polido.
O filho deles, Pettor, guardava um antigo rancor de Ariana. Quando criança, eles brincavam de montar com pequenos pedaços de madeira que roubavam do lenhador do rei. E num dia desses, Ariana estragou metade de suas pecinhas só porque ele não queria dar o último pedaço de torta de pêra para ela. Era um rancor bem bobo, mas ele tratava como se fosse uma coisa enorme.
Todas as meninas da escola eram caidinhas nele por ser tão lindo quanto qualquer outro príncipe, duque ou rei de que ouvimos falar. Tinha o nariz arrebitado levemente, bem desenhado e que ficava exatamente no meio do rosto, simétrico com a boca fina. Os olhos azul-acinzentados como tempestade brilhavam exuberantemente à luz do sol, e isso deixava seus cabelos castanhos contrastando com a cor clara da pele. Parecia um perfeito fircture.
Fircture, para quem não sabe, são seres anormalmente perfeitos, maravilhosos aparentemente. Eram tratados como deuses naquela época, e só perdiam para os incríveis maxos, que além de lindos eram também muito inteligentes e perspicazes. Pettor era parecido com eles, talvez porque tenha herdado um pouco do lado bonito da família de sua mãe.
Pois bem, voltando para o dia do almoço. Ariana sentou-se à mesa e ficou mexendo no guardanapo enquanto seus pais conversavam animadamente com os duques. Não prestava a mínima atenção no que falavam, até o momento em que se dirigiram a ela.
–Ariana -seu pai chamou. -, o que você acha de estudar a história dos grandes reis? -ele lhe lançou um olhar significativo que ela não soube dizer se era sim ou não àquela pergunta.
–Odeio história dos grandes reis. -respondeu, curta e grossa.
O rei a fuzilou com os olhos e na hora ela soube que tinha dado a resposta errada. Todos na sala ficaram desconcertados e para tirar um pouco a tensão, Ariana deu uma risadinha nervosa, que também não foi bem vista pelos presentes.
–Bem, retomando a conversa. -tornou Luis, fazendo sinal para que a empregada fosse levar a bandeja com frutas e aperitivos para acompanhar os pães, que já se encontravam ao centro numa pequena tigela de metal. -Ariana anda muito distraída quanto aos deveres do reino. Acho que ela deveria fazer aquele levantamento de quantas bruxas é possível colocar num frasco de poção...
–Discordo. -Halec interrompeu, austero e com uma pequena pontada de grosseria na voz. -O meu filho deveria fazer esse levantamento, porque ele já vem de famílias reais muito antigas e de raízes tão profundas quanto a Terra Além. Tenho certeza de que Pettor saberia levantar os dados mais precisos de cada lugar e de cada criatura que habitam essas terras.
–Sim, mas não foi isso que eu quis dizer... -Luis interveio, tentando manter a calma e a paciência. -Eu só...
–Basta! -Wocah gritou, fazendo um sinal de PARE com a mão esquerda, de modo que Ariana pôde observar melhor o anel que escondia. Um maravilhoso símbolo: duas facas entrecruzadas dentro de um quadrado contornado de vermelho. Um famoso símbolo de guerra.
Ariana sabia com perfeição o que significavam. Estudou a História das Grandes Guerras e lembrou-se do que seu professor lhe dissera sobre os símbolos guerreiros e o que cada um deles representava.
As facas representavam a disputa entre os diferentes reinos para manterem-se numa economia estável e duradoura, assim lucrando mais e comprando menos. Já o quadrado era todo o território das Terras Perdidas, sendo contornado em vermelho para mostrar que a guerra derramaria uma imensa quantidade de sangue.
Mas como Wocah teria esse anel? Ninguém, exceto os grandes descendentes de Sho Kiin, sequer haviam-no encontrado. Era praticamente impossível e uma busca por ele seria um completo suicídio.
Ariana só conseguiu concentrar no que estava acontecendo à sua volta quando percebeu o maravilhoso cheiro das coxas de galinhas banhadas em sangue, depositadas em um prato à sua frente.
Todos continuaram conversando animadamente, mas ela nem sequer conseguia prestar atenção, pois agora estava concentrada no prato de galinha banhada em sangue. Somente quando seu pai lhe perguntou algo é que ela despertou do torpor e voltou sua concentração para algo nas mãos dele, aparentemente uma carta, escrita à tinta num pergaminho.
–Ariana, você já sabe o que aconteceu com aquela sua outra amiga? A tal de Aib?
–Não, pai. -respondeu, sincera e repentinamente interessada no assunto em questão.
–Ela desapareceu... PUF! -ele fez sinal com as mãos, como se estivesse explodindo algo invisível.
A notícia pegara Ariana com tanta surpresa que imediatamente largou as coxas de galinha e, com as mãos ainda manchadas de sangue, levantou-se da cadeira e pegou a carta das mãos do rei o mais insolentemente possível. Conseguiu ler perfeitamente mesmo com o sangue tapando as palavras.
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Maravilhosa Princesa Ariana Aristóteles Amadeus I,
Sentimos em informar que nossa querida princesa e anfitriã, Aib Shakespeare, desapareceu em circunstâncias misteriosas, e seu paradeiro ainda é desconhecido por qualquer um de qualquer reino das Terras Perdidas.
Não se abale, a encontraremos o mais brevemente o quanto conseguimos.
Só o que ela deixou foi sua medalha guarnecida em prata, com AQUELE símbolo nojento, não permitido pelo rei. Esperamos que você a encontre, não importa aonde, mas lhe damos uma missão: adentrar-se na Floresta Negra a procura da princesa, correndo quaisquer riscos de morte e lesões excruciantemente dolorosas.
Pagaremos uma boa quantia em frazels e moedas de cobre, mas só após terminar a missão e, é claro, encontrar a princesa em questão.
Graciosamente a administração do
Reino de Graça
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Ariana sabia qual era esse símbolo: nove desenhos , representando a Antiga União dos Nove Reinos, quando a época das Ligas ainda estava no auge e todos os Reinos viviam em paz.
O Reino de Fortuna era o primeiro em sentido horário, e ficava sendo representado por um frazel minúsculo; o de Graça era o segundo, representado por um rosto radiante, com um enorme sorriso na cara; o de Alimentícia ficava em terceiro por exercer grande papel de sobrevivência da sociedade, representado por uma maçã e um cabinho se projetando da ponta; o de Trapaça ficava em quarto, e era representado por uma tesoura, o símbolo de mentiras e jogos de logros naquela época; o de Piadas em quinto, era marcado por um rosto de palhaço, o nariz vermelho e protuberante piscando; em sexto ficava o de Tormenta, representado por uma mulher agonizando, caída ao chão e marcada por sangue; o Reino de Humildade, consequentemente o qual Ariana pertencia, ocupava o sétimo lugar no ranking, simbolizado por uma pomba branca, a paz em pessoa; em oitavo ficava o Reino de Educação, usado somente para a escolarização das crianças e jovens e representado por uma caneta apoiada num papel; e por último, o que unia e ligava todos os outros, e sem dúvidas o mais nobre de todos, era o Reino de União, representado por pessoas se abraçando calorosamente, como amigos verdadeiramente unidos e que se amam cada vez mais.
No meio dos desenhos ficava aquele mesmo quadrado em vermelho, simbolizando as Terras Perdidas e entrecruzado com duas facas afiadas e pontudas. O símbolo dos guerreiros, como aquele que Wocah tinha no anel. Os guerreiros eram o centro de tudo, se algum dos reinos ameaçasse destruir os outros oito, eles agiriam rapidamente e acabariam com qualquer opção de vida.
Mas, voltando ao almoço animador no Reino de Humildade.
Ariana achou o fato de Aib estar desaparecida muito suspeito, considerando o fato de que havia uma bruxa, a chefe entre as nove, a que comandava a entrada e a saída do Véu da Fronteira. A mais cruel de todas, porém, mas a que também parecia a mais inofensiva. Seu nome era horrível como sua personalidade, tanto que alguns ainda tinham medo de pronunciá-lo: BadEvil. Sim, BadEvil, essa mistura peculiar de ruim com malvado.
BadEvil adorava caçar princesas gentis e amáveis de reinos famosos, e seu hobbie principal era prendê-las na Árvore da Tortura e vê-las morrendo da maneira mais impiedosa que existia.
Ariana só teve coragem de dizer algo quando seu pai lhe perguntou, o tom um pouco mais calmo e paciente:
–Filha, você está bem?
–S-sim, pai... -respondeu, gaguejando ao mesmo tempo em que amassava a carta e jogava em cima da mesa. Antes que qualquer outro ali naquele almoço se pronunciasse, ela levantou num ímpeto da cadeira e subiu correndo ao quarto.
Trancou a porta ao passar, e deixou a chave no buraco da fechadura para que ninguém conseguisse ver o que ela estava fazendo ali dentro. Deitou-se na cama ainda com a carta em mãos, e, não podendo mais segurar, deixou que as lágrimas escorressem por sua face e caíssem na carta.
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