A Princesa Perdida

3 A Fuga do Castelo


Notas iniciais
Gostaram do segundo? Este está ainda mais cheio de surpresas.

Ariana só parou de chorar ao ouvir uma batida à porta do quarto e a voz doce e emaciada da mãe irrompeu, tirando-a do torpor e fazendo seu cérebro agir contra a sua vontade. Levantou da cama e destrancou a porta, abrindo-a rapidamente e voltando a se deitar assim que bateu os olhos nos pés da rainha já atravessando a soleira.

–Filha, não fique triste. Tenho certeza de que todos conseguiremos encontrar a Aib, de um jeito ou de outro. Me fala: o que você pensa sobre isso?

–Sobre isso o quê? -perguntou, ao perceber que a mãe estava muito obtusa logo no começo da conversa.

–Sobre a missão da qual eles te incumbiram. Quando você vai? E quem você vai levar? Pode ser a mamãe, eu gostaria de ir. Você deixa eu ir? Ariana não me fale que não vou poder ir senão vou ter chilique e...

–Mãe! Fala mais devagar! -Ariana na verdade não entendera mais nada da frase a partir da palavra "missão". -Respondendo a primeira pergunta: vou hoje mesmo... -ela deixou a frase no ar, como que esperasse que a rainha a completasse. Como viu que isso não ia acontecer, continuou a responder. -... e nada nem ninguém vai me impedir. -completou, convicta.

–Nem seu pai? -Cristal perguntou, como que para si mesma.

–Nem meu pai. -disse Ariana displicentemente, entortando as sobrancelhas em forma de desafio. -E não vou te levar mãe.

–Por quê? -seus ombros murcharam e os olhos ficaram tão tristes que Ariana quase teve dó da mãe por um segundo.

–Porque se por acaso essa fosse uma missão suicida, eu não gostaria de te perder, mãe. -respondeu docemente, enquanto Cristal se sentava na cama e apoiava sua mão na de Ariana.

–Eu te amo demais, filha.

–Também, mãe.

As duas deram um abraço apertado, porém de coração. Somente quando as lágrimas de Ariana tinham secado novamente, elas se separaram ao ouvir um barulho que parecia ter vindo da sala de jantar.

Então, com concordância, as duas partiram do quarto num rompante, com o pânico crescendo cada vez mais no peito, tanto que chegava a doer.

O alívio foi tão grande ao ver que não havia acontecido nada de grave que Cristal quase desmaiou.

O barulho que bateu de frente com seus ouvidos vinha de um castiçal quebrado num ataque de fúria do rei. Parecia que alguém não gostara da parte em que a filha fugira correndo por causa de uma carta mal explicada.

Ao ver Ariana, Luis inchou instintivamente. Os olhos marcaram-se de vermelho- fogo e poderiam derreter até aço da maneira com que se olhava. Ele veio gritando com o punho ao alto e as veias saltando dos braços robustos. Só não bateu na filha porque Cristal entrou na frente, colocando as mãos em forma de escudo pelas costas.

–VOCÊ NÃO DEVIA TER FEITA AQUILO, SUA ESTÚPIDA, INSOLENTE, IDIOT...

–PARE, LUIS AMADEUS HUMILÈ. SE VOCÊ LEVANTAR ESSE PULSO MAIS UMA VEZ PARA NOSSA FILHA EU VOU EMBORA! -bradou Cristal de volta, para assombro de Ariana e surpresa de Luis.

–Como... como ousa aumentar a v-voz comigo? -Luis até tremia com as palavras, gaguejando com nervosismo e deixando a postura anormalmente ereta.

–Me desculpe, querido, mas já estava na hora de fazermos algo para endireitar a nossa relação e melhorar o casamento. -respondeu Cristal, agora mais relaxada e com o tom de voz mais baixo.

–Tudo bem, mas dessa vez passa. -disse, voltando-se para Ariana. — E você, nunca mais se comporta dessa maneira quando tiver visitas importantes em casa. Poderemos nunca mais reatar nossa relação de amizade de longos anos com o Reino de Fortuna.

–Mil perdões, pai. — Ariana respondeu graciosamente, batendo continência e tornando a subir as escadas para o quarto, a fim de arrumar suas coisas para a missão.

Durante aqueles minutos em que seus pais haviam discutido entre eles, ela ficou titubeando sobre quem levar para o resgate de Aib, e decidiu que o melhor era levar sua amiga, Arabella. Para isso deveria atravessar a Floresta das Trevas e chegar até o Reino de Piadas para ir de encontro à Arabella, e depois, juntas, tomariam o caminho rumo ao encontro de Aib, mesmo não sabendo onde ela se encontrava.

Voltando para o quarto, tornou a trancar a porta para que ninguém a visse, e começou a arrumar suas coisas dentro de uma pequena bolsa, com espaço o suficiente para uma bela refeição. Antes, sequer, que pudesse continuar, a Trombeta das Urgências soou ao longe, na guarita leste, perto dos Grandes Portões, avisando que seria a hora das reuniões de príncipes e princesas. Ariana até já tinha esquecido, mas não deu importância a isso e continuou a fazer as malas.

O que será que havia acontecido desta vez?

Ela só não se importou porque toda vez que essa bendita trombeta soava era por alguma causa estúpida. Certo dia a Madame Gordèrro perdera um dos brincos de diamante que carregava por ai, e tiveram de parar tudo que estavam fazendo só para conseguir encontrá-lo. Pior do que isso ainda foi a vez em que o Sir Fettingham escorregara numa poça de suco de abóbora e ralara o cotovelo, então tiveram de ajudá-lo a se levantar e o dono da barraquinha de sucos pagou uma indenização alta pelo ocorrido. Como se tivesse sido culpa dele que o Sir Fettingham tivesse caído, quem mandou não olhar por onde anda?

Por isso, ao terminar de arrumar suas coisas e dar uma última olhada no quarto antes de partir, pulou da janela sem se preocupar com a altura. Afinal, a distância entre a janela do quarto e o chão era mínima. O máximo que lhe aconteceu foi que bateu o dedo mindinho com força na queda e gemeu de dor durante alguns passos.

Pensou em passar por trás da vila para que ninguém a visse, mas isso não foi possível.

Os guardas que costumavam fazer a ronda somente de domingo estavam em seus postos já àquela hora devido à Trombeta das Urgências ter tocado. Portanto, ainda havia a saída leste, pelo caminho das hortas e do moinho. Depois era só passar pelo Grande Muro e já estaria na orla da Floresta Negra.

Para sua sorte, naquele dia os jardineiros estavam de folga, e passar pela horta e pelos moinhos não foi difícil, até chegar no Muro.

Uma vez que já se encontrava frente a frente com o muro não havia calculado a altura, e quando pensava em desistir, se deparou com a Grande Escada guardada cuidadosamente num canto perto dos estábulos.

Felizmente ela não era pesada e, ao terminar de colocá-la, subiu lentamente com o peso da bolsa nas costas e parou no meio do muro para pensar em como atingir o outro lado.

Utilizar a escada não adiantaria de nada, ela não conseguiria puxá-la o suficiente para poder descer, e perderia mais tempo ainda com o plano.

Então, fechando os olhos para criar coragem e escondendo o dedo machucado para que não infeccionasse, apertou a mochila no ombro e pulou no chão, dessa vez apenas fazendo com que uma maçã caísse para fora de seu caminho.

Levantando-se sem dificuldade, apanhou novamente a maçã e observou o começo da trilha para ter a certeza de que aquele era o lugar certo.

À esquerda ficava o Grande Portão, que estaria sendo vigiado pelos guardas do rei; à direita a floresta adensava e desaparecia de vista, tornando impossível ver o reino vizinho. Já à sua frente a trilha crescia e alargava, levando a algum lugar que Ariana tinha certeza de que não iria querer explorar. Uivos e farfalhar de folhas deixavam claro que monstros vagavam sem rumo à espera de algo para comer.

–Bem, acho que é melhor eu ter de me esconder dos guardas do que ter de me esconder de monstros ou ir parar em algum reino de assassinos. -disse para si mesma.

Seguiu para a direção do Grande Portão à esquerda. Contornou o Muro e em questão de segundos estava atrás da guarita leste esperando que a multidão se dissipasse. O guarda mais perto não a viu, permanecia distraído olhando para o além enquanto todos os outros levavam sua atenção para a carruagem do rei e da rainha que ia saindo para um cortejo.

A multidão os seguiam, fazendo reverências exageradas conforme chegavam mais perto e gritando em alto e bom som para os reis como se estivessem num show de rock e o ídolo preferido quisesse beijá-los.

Ariana aproveitou a deixa; bem na hora em que iam rumando para a floresta sob gritos e lamúrias, ela correu para o lado oposto tomando o máximo de cuidado possível para que não fosse vista.

Porém, uma criança brincava correndo da mãe ali perto e a viu inofensivamente. Ariana fez sinal com a cabeça para que não a entregasse, e a menininha saiu correndo ao entender a mensagem com um aceno afirmativo de cabeça.

Ariana continuou o caminho, decidida a salvar a princesa Aib, juntamente com a melhor amiga, Anabella. E nada, nem ninguém, a impediria de fazer o que é certo pelos Nove Reinos dessa vez.

Andou durante um bom tempo, até perceber que a trilha ia desaparecendo aos poucos e as árvores tomavam uma boa parte do caminho, de modo que dificultavam a visão da princesa diante do lugar ao qual deveria seguir. Portanto, parou abruptamente, decidida a montar acampamento e descansar durante algum tempo para pensar sobre sua próxima parada.

Estava diante de uma clareira aberta, ampla e contornada por árvores, de modo que o sol entrava pelas brachas mais largas e iluminava febrilmente o rosto de Ariana.

O lugar era silencioso, calmo e sem qualquer indício de atividades recentes, sejam elas humanas ou não...

Conforme a luz solar ficava mais intensa e atingia o lado oeste, Ariana ficava com os ombros mais tensos e o coração disparado. Um frio cortante lhe percorreu a nuca e desceu pela espinha até a base da coluna, como se alguém estivesse soprando em sua pele. Essa sensação te deixou tão ruim que suas piores lembranças retornaram à mente.

Lembrou-se de quando caíra de cara no chão no meio de toda a escola, aos sete anos, e quebrara o nariz, fazendo o sangue se espalhar no chão. Os colegas começaram a escorregar e a quebrar seus narizes também, e a escola ficou conhecida como a Escola dos Narizes Quebrados. Inspirada nesse fato peculiar, a professora de teatro, a Srta. Gulliver — uma velha gorda e rabugenta, que gostava de torcer as orelhas dos alunos que não gravavam as falas ou cantavam desafinado — fez uma peça musical nomeada de O Quebra- Narizes.

Ariana tinha certeza de que essa peça não ganharia o Prêmio Anual de Artes.

Recordou do dia em que comeu uma torta de pêra estragada e começou a vomitar por todo canto. As Faxineiras Enlameadas tiveram um grande trabalho para limpar o castelo e ainda por cima reconstituírem o fígado da princesa.

Mas sua pior lembrança foi o dia da morte de sua égua de estimação. Até hoje o acontecido era um mistério. Mister Crina amanhecera com os olhos vidrados e a respiração cessada. Não haviam vestígios de ter acontecido um ataque de criaturas ou um assassinato à criatura. O único que cuidava dos estábulos era o Mordomo Infidelis, que em meio expediente era empregado auxiliar.

A partir disso, ela nunca mais voltou a confiar nele, e suspeitava de todas as suas atividades, tanto noturnas quanto diurnas. Perseguia-o quando possível, mas a única coisa suspeita que já tinha presenciado era quando Infidelis roubou uma maçã da cozinha real, que já estava conservada para os visitantes do Reino de União.

Só saiu dos devaneios ao ouvir um barulho distante de algo muito grande atravessando a floresta. A coisa estava casa vez mais perto, tão perto que Ariana pode sentir o cheiro moribundo de uma das criaturas mais horríveis que ela já ouvira falar. Antes que pudesse agir, uma mão gigantesca e cheia de pelotas lhe agarrou pela cintura, e nesse momento, ela soube que nunca deveria ter saído da segurança do castelo. Mas não desistiu, afinal, precisava salvar uma princesa, e se fosse preciso passar por centenas de ogros como aquele que a segurava, ela passaria.

Notas finais
Deuses dos Olimpo!!! O que ela fará agora? Quem a salvará dos ogros? Isso e outras coisas você só descobre no próximo capítulo de: A Princesa Perdida!!! P.S. UM BEIJO MAIS DO QUE ESPECIAL PARA AMANDA FLOWER QUE COMENTOU AQUI NA MINHA FANFIC. CONTINUE ACOMPANHANDO AMANDA, PORQUE EU NÃO DEIXAREI DE POSTAR!!! MIL BEIJOS