A Primeira vez

10 De volta para casa com o nosso mundo nos braços


EPÍLOGO


Passou mais dois anos desde aquela ideia, fora um ano organizando as finanças e no outro, um ano inteiro desde que haviam decidido iniciar o processo de adoção.

O caminho foi repleto de papeladas, entrevistas, conversas com assistentes sociais, visitas técnicas, consultas e esperas silenciosas, noites em que Genya virava de um lado pro outro na cama tentando imaginar como seria o rostinho do futuro filho — ou filha. Muichiro era calmo como sempre, mas nem ele conseguiu conter as lágrimas quando finalmente o telefone tocou.

Era real.

Havia uma garotinha esperando por eles.

— Ela se chama Nanami, mas está aberta à troca de nome. — Explicou a assistente. — Tem três anos e meio. É muito tímida no começo, mas observadora. Gosta de desenhar, especialmente flores.

Genya mal conseguia respirar. Ele olhou pra Muichiro ao lado, os dedos entrelaçados, as pernas dele balançando levemente no banco. Ambos tinham os olhos marejados.

— Não. — Genya foi firme. — Ela já tem nome. Tem história. Só queremos que ela saiba que agora também tem lar.

Muichiro, emocionado, se abaixou e sussurrou pra pequena:

— Mas se quiser um apelido, pensamos em Nami. Pra combinar com o jeito delicado e forte dela. Igual uma onda.

A menina o olhou por longos segundos... e então assentiu devagar, se aproximando sem dizer nada.

Muichiro olhou pra ele. Genya sorriu.

— Nanami. Significa "Sete Mares". Já Nami representa harmonia, mesmo que signifique onda.

— E se você não quiser tudo bem, vamos respeitar a sua escolha. — A menininha estava envergonhada.

Nanami se escondeu atrás da perna da cuidadora. Era miudinha. Cabelos lisos, escuros, com reflexos violetas ao sol. Os olhos? Dois lagos em tons suaves de lavanda. E a pele... um dourado delicado, herdado da mãe biológica, segundo o relatório.

Genya ajoelhou devagar, ficando ao lado de Muichiro.

— Oi, pequena. A gente veio pra te conhecer. E, se você quiser, ser sua casa.

Muichiro estendeu um dedinho pra ela. Ela hesitou. Tocou com o dela. E naquele momento, os dois sorriram como se tivessem se reencontrado depois de séculos separados.


[...]


Foram dois meses de visitas, adaptação e encontros monitorados até que ela pudesse ir oficialmente pra casa.

E no dia em que ela entrou no apartamento com uma mochila minúscula nas costas, Genya desabou no chão, chorando de soluçar. Muichiro apenas o abraçou pelas costas, enquanto segurava Nanami no colo.

A garotinha, confusa, apenas perguntou com sua vozinha fina:

— O papai tá dodói?

Muichiro sorriu.

— Não, meu amor. Ele só está... muito feliz...

Nami se adaptou rápido.

Muichiro descobriu que ela adorava chá de camomila. Genya aprendeu que ela odiava cenoura mas comia se ele fizesse em forma de estrela.

Às vezes, Nami sentava no colo de Muichiro enquanto ele lia em voz alta. Outras vezes, ela dormia aninhada no braço do Genya, com o mesmo ronquinho suave que ele dizia ser "música pro coração".



[...]


Hoje, ela está com quase cinco anos.

Corre pela casa descalça, usando um vestido com estampas de coelhinhos, enquanto Genya a persegue fingindo ser um monstro. Muichiro prepara o lanche na cozinha e canta baixinho uma música antiga de ninar, só porque Nami gosta da voz dele.

Ayla os visita com frequência — já com a barriguinha avantajada de outro bebê a caminho — e Sanemi vem junto, dizendo que "não tem tempo pra essas bobagens de criança", enquanto segura a pequena filha Emi nos ombros e deixa ela fazer tranças no cabelo dele.

— Você tá ridículo, amor. — Ayla comenta.

— Cala a boca. A Emi disse que eu pareço um rei. — ele rebate, todo orgulhoso, enquanto sente a sobrinha trazer um blush, definitivamente ele sairia daquela sala igual um palhaço, mas ninguém ousaria sequer falar alguma coisa afinal era o Sanemi.

Yuichiro chegou logo depois e foi o que salvou Sanemi de ter o rosto todo rosa, mas foi para ele que sobrou.

— Pequena, eu vou te pintar também, ficaremos ridículos juntos. — A pequena Nanami sorriu e adorou a ideia, aquele seria o aniversario mais especial de todos pois tinha toda a família junto de si.

Nos fins de semana eram divididos entre Sanemi e Yuichiro. Aos sábados, ela ia brincar com a Emi, que dominava a casa como se fosse dona de tudo. Sanemi e Ayla observavam as duas correndo no quintal e Sanemi resmungava, mas no fundo, estava absurdamente orgulhoso.

— Tua filha tá mandando na minha, Ayla. — Muichiro afirmou para cunhada enquanto a ajudava a preparar o lanche;

— Não é só minha filha. E a culpa é do Sanemi que a mima mais do que eu!

— Isso é mentira. Só deixei ela escolher o nome do meu carro novo. — Sanem invadiu a conversa, trazendo os refrescos.

— E ela escolheu "Pó de Estrela". — Ayla rebateu, levando Genya que vinha com as bandejas a sorrir pelo clima gostoso.

— Nome forte.

[...]


As pequenas Emi e Nanami são o xodó de todos. Mimadas? Muito. Nanami, por exemplo, tem uma coleção de pelúcias, brinquedos educativos, livrinhos de histórias, roupas feitas por Ayla e Muichiro, e uma lista de palavras proibidas que Genya tenta não falar na frente dela (falha miseravelmente, mas tenta).

— Ei, filha, olha o que eu trouxe! — Genya diz, empolgado, entrando com um skate minúsculo.

— GENYA!! — Muichiro esbraveja, com um pano de prato na mão. — Ela ainda não fez cinco anos direito!

— Mas ela tem equilíbrio! É uma Tokito-Shinazugawa, cê esqueceu?

Ela gargalha alto, no colo do pai Muichiro, enquanto o pai Genya se enrola nas próprias ideias.

À noite, os três dormem na mesma cama até ela pegar no sono e ser movida para a própria caminha no quarto cor-de-rosa, com decoração de céu e borboletas, mas na maior parte do tempo Gene Mui dormem pesado com ela nos braços. Ela se aninha no meio, segurando as mãos de ambos. Quando Genya pensa que ela está dormindo, ouve a vozinha dela:

— Papai Genya... Papai Mui...

— Hm? — ambos respondem juntos.

— Eu... tô feliz. Obrigada por me escolherem.

Genya morde o lábio. Muichiro beija o topo da cabeça dela.

— Nós não escolhemos, meu amor. O destino trouxe você. E prometemos nunca mais deixá-la ir.