A Primeira vez
11 Um Gêmeo, um Tio, um novo amor
CAP.EXTRA I
Yuichiro Tokito não costumava demonstrar reações efusivas. Não era o tipo de homem que gritava, ria alto ou chorava na frente dos outros. Desde a infância, aprendia com a dor — e sobrevivia com silêncio.
Mas naquele final de tarde, quando Muichiro e Genya lhe pediram que passasse na casa deles "sem pressa, sem treino, só vem como irmão", ele desconfiou.
Ayla, grávida do segundo filho, também sabia de algo. Sorriu pra ele na porta e disse com um ar quase maternal:
— Seja gentil, tá? O mundo já foi cruel o suficiente com vocês dois. Eles só querem partilhar um pedaço bonito com você.
Yuichiro entrou. Ainda sem entender.
Muichiro estava na cozinha, servindo chá. Genya sentava-se no sofá, visivelmente inquieto, mas com os olhos brilhando de uma ansiedade diferente — aquela que não vinha de medo, mas de nervosismo bom. Esperança pura.
— Tá tudo bem? — Yuichiro perguntou, desconfiado.
Muichiro veio até ele e tocou de leve o ombro do irmão. Era raro. Eles se tocavam pouco, mas sempre souberam se ler no olhar.
— Queremos te contar uma coisa — começou Muichiro. — E queríamos que soubesse antes de qualquer um.
— Você vai ser tio. — Genya completou, com um sorriso que parecia engolir o mundo.
Yuichiro piscou. Lançou um olhar para a barriga da Ayla mentalmente, depois percebeu o óbvio.
— Espera... você tá dizendo que vocês dois...?
— Sim. Nós vamos adotar uma criança. — Muichiro respondeu com ternura — Já passamos por todas as etapas. Ela se chama Nanami. E ela chega amanhã.
Silêncio.
Yuichiro não disse nada por longos segundos. Olhava o irmão — seu reflexo, seu espelho, sua metade que seguiu o caminho mais leve — e o homem ao lado dele, que agora era sua família também.
A boca dele se abriu, e a voz saiu mais baixa do que esperavam:
— E ela... vai chamar vocês de pai?
Muichiro assentiu, um pouco inseguro. Yuichiro era imprevisível.
Mas então o impensável aconteceu.
Yuichiro respirou fundo. Umedeceu os lábios. E... sorriu. Pequeno, quase imperceptível. Mas real.
— Ela vai ter sorte. Não entendo muito de crianças... mas se ela tiver metade do que vocês têm... vai crescer rodeada de amor. Vai ser impossível ela não florescer.
Muichiro sentiu a garganta apertar.
— Você vai conhecê-la?
— Amanhã. Quero ver com os meus próprios olhos. — ele disse — E, se ela permitir, talvez eu seja um bom tio. Nunca fui nada parecido... mas posso aprender.
No dia seguinte, quando Nanami chegou, estava vestida com um vestido azul-claro com pequenas estrelas prateadas. Trazia na mão uma mochila pequena e um bichinho de pelúcia com orelhas tortas.
Ela foi recepcionada com calma. Genya se ajoelhou, pegou sua mão com cuidado. Muichiro abriu os braços, e ela se encaixou neles como se já conhecesse aquele abraço.
Yuichiro chegou pouco depois.
Quando a porta se abriu e ela o viu, parou. Ficou observando o homem alto, de expressão fechada, olhar intenso, quase espelhado com o do pai Muichiro — mas mais grave.
— Você é o irmão do papai? — ela perguntou, sem medo.
— Sou. Meu nome é Yuichiro. — ele disse, inclinando a cabeça levemente — E você é a Nanami.
— Sim. Eu tô aprendendo o nome de todo mundo. Você é o mais difícil. Tem "Yu" no nome e também tem "Mu" no outro. Mas não tem "Ge".
Yuichiro deu uma risada silenciosa, apenas nos olhos.
— Eu sei. Complicamos as coisas. Mas posso te ajudar com isso. Se quiser, posso escrever pra você num caderno e quando aprender a ler nunca mais esquecerá.
Ela deu de ombros, como se dissesse "ok, pode ser".
Mas depois, algo ainda mais inesperado aconteceu.
— Você é o irmão mais velho? — ela perguntou, encarando-o com os olhos castanhos arregalados.
— Sou.
— Isso quer dizer que você é meio irmão-papai? Ou titio? Eu posso te chamar de titio Yu?
O coração de Yuichiro pulou uma batida.
— Se quiser... pode.
Nanami assentiu, satisfeita. E correu até ele. Não para abraçá-lo — mas para estender seu bichinho de pelúcia com as orelhas tortas.
— Esse é o Shiro. Ele tá meio velho, mas gosta de conhecer todo mundo da família.
Yuichiro pegou o boneco nas mãos. E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu as lágrimas surgirem — sem dor, sem desespero. Só... um alívio morno no meio do peito.
— Prazer, Shiro. — ele disse, segurando com delicadeza absurda. — Bem-vindo à família.
[...]
Desde aquele dia, ele era tio Yu. Nanami corria até ele nos fins de semana, pedia ajuda com desenhos, dormia no ombro dele enquanto assistiam filmes.
— Você tá bravo... mas você é muito macio — ela comentou, certa vez, acariciando a manga grossa da blusa dele.
Yuichiro não soube o que responder. Apenas sorriu de canto e lhe deu mais uma porção de morango com açúcar.
No aniversário de cinco anos dela, Yuichiro chegou com um presente feito à mão: um caderno de capa bordada com o nome Nanami Tokito-Shinazugawa. Dentro, havia folhas com mensagens de todos da família.
Mas a dele era só uma frase, escrita com a letra firme e precisa:
"Você entrou na minha vida quando eu achava que não podia amar mais ninguém. Obrigado por me provar o contrário. — Tio Yu."
Na volta pra casa, Muichiro abraçou o irmão.
— Eu nunca achei que veria você assim.
Yuichiro apenas olhou para ele e respondeu, com a voz embargada:
— Eu achava que não merecia ser mais do que fui. Mas agora... talvez eu seja alguém de quem uma criança possa se orgulhar.
Muichiro apertou a mão dele. Eles não precisavam dizer mais nada.
Ali estavam. Dois irmãos. Um tio. Uma nova chance.
E uma família que, cada vez mais, parecia ter sido feita sob medida para curar todos os tipos de feridas.
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