A Primeira Maldição

1 A queda dos Farren parte I: A invasão


Apesar do pequeno esconderijo estar coberto pela escuridão, a jovem princesa Ally podia sentir, pelos suspiros apreensivos, que todos os adultos com quem crescera e que foram sempre símbolo de força e proteção, naquele momento tinham o mais puro medo estampado em seus rostos, desses que fazia os mais falantes e chorosos engolirem em seco e calarem-se em introspecção.

Ao seu lado, rezava em sussurros praticamente inaudíveis a senhora Ada, vassala bem respeitada de seu pai que rapidamente ganhou certo prestígio e passou a morar no castelo. A princesa não gostava daquela mulher e naquele momento pensava no quanto pedir misericórdia aos deuses era tolo. Mestre Ernst certa vez contou-lhe que há muito tempo as divindades abandonaram os humanos e que por isso não se podia contar com eles.

Mais distantes e abafados pelas sólidas paredes do castelo, ela podia ouvir os sons do tilintar das armas em disputa junto aos gritos horrendos que se misturavam com os gemidos agonizantes daqueles que caiam na batalha.

Da confusão de sons, intensificava-se o dos passos que atravessavam o corredor e rapidamente se aproximavam da entrada. Todas as quinze pessoas ali agitaram-se e em resposta a isso, Lorde Kubrick, o chefe da guarda real, levantou-se e ordenou aos outros quatro soldados para que se posicionassem, enquanto empunhava seu sabre, redobrando sua atenção ao homem que parou diante da porta e a socou três vezes:

—Abram rápido! Não temos tempo a perder.

O chefe da guarda o reconheceu, era Alek, comandante do exército. Abriu a porta e ele começou a falar apressadamente:

—Lamento em dizer, mas o rei está morto. Suas últimas ordens foram para eu os guiar para fora, pois a fortaleza está tomada. Peguem suas armas e preparem-se para o pior, vamos!

Criou-se um pequeno tumulto entre aqueles que antes eram os mais importantes senhores daquelas terras e que agora arrastavam-se desesperados buscando qualquer faca que pudessem usar como arma para depois empurrarem uns aos outros para saírem primeiro do abrigo. Todos movimentaram-se, menos Ally.

Como seu pai estava morto? Não, não podia ser verdade, ele nunca a deixaria naquela situação, havia prometido que voltaria a vê-la em casa em mais outros tantos banquetes, que aquelas monstruosidades não eram capazes de alcançar a fortaleza. O que seria agora? Não lembrava de antes ter estado tão frágil e impotente, sabia que precisava sair dali, mas estava imóvel e em choque. Ela sentiu-se novamente a criança que vinha tentando abandonar nos últimos anos. Kubrick tomou-a no colo e a menina, ao se debruçar sobre a armadura, pôs-se a chorar em silêncio.

Um atrás do outro, dezesseis figuras percorriam o corredor da passagem secreta que resultaria no exterior da muralha, enquanto nas altas torres do palácio, grunhidos de guerra estrangeiros que cantavam suas glórias sobre o reino dos Farren suprimiam o barulho das pouquíssimas espadas já condenadas que ainda defendiam a antiga ordem . Atravessaram a estreita passagem e adentraram a noite, a guarda certificou-se de verificar que ninguém os seguia e puseram-se a correr apressados através da planície que circundava o castelo.

O vento e o frio castigaram a respiração ofegante e chorosa de Ally, suas lágrimas frias embaçaram sua visão e gelaram sua face. Mesmo assim, ela avistou a imagem desfocada de um homem sobre a planície, ele estava afastado do grupo e a encarava. Ela tentou gritar, mas ainda não tinha forças para isso e suas palavras foram carregadas pela ventania.

O chefe da guarda os guiou colina abaixo e à medida que avançavam, as límpidas planícies nuas ao céu transformaram-se em arbustos e em algumas árvores, inicialmente espaçadas, mas que se aglomeraram até finalmente o bosque Halley acolhê-los por completo.Nas entranhas daquelas matas, encontraram uma pequena caverna onde poderiam se alojar e se esconder do frio da noite.

Enquanto os outros preocupavam-se em comer alguma coisa que trouxeram, Ally afastou-se um pouco dali solitária e encontrou uma clareira de onde conseguia enxergar seu antigo lar. Por quinze primaveras, foi o lugar onde crescera e fora educada, mas que agora fora tomado e era-lhe hostil. Ele brilhava nas chamas que eram alimentadas pelos corpos da maioria das pessoa com quem convivia e por isso era natural que estivesse entristecida, mas nada justificava o estado em que ficara e ela sabia que não poderia ser a fraca dali em diante, afinal era a princesa e ainda havia um povo que confiava em seu sangue, mesmo que fossem mínimas agora as chances de qualquer investida ofensiva. Algum tempo depois, já mais conformada, secou as lágrimas, soltou os joelhos e ergueu a cabeça.

Já recomposta, levantou-se e ia de encontro aos outros, mas duas mãos fortes e rápidas puxaram-na para a escuridão e uma lâmina afiada fazia pressão contra sua garganta.

—Grite, majestade, e essa será a última coisa que fará.

Notas finais
A senhora Ada tinha um rosto assimétrico e uma verruga horripilante, entretanto isso não parecia incomodar o rei, nem os duques, nem os condes, nem os marqueses, nem os mestres, nem os cavaleiros,...