A Primeira Maldição
2 A queda dos Farren parte II: O sangue
Alguns anos antes da batalha que levaria à tomada do castelo, senhor Morgan Farren, que então era um dos mais respeitados líderes entre os humanos sobre as terras de Venyard, recebeu, já em sua grisalha maturidade, sua única herdeira. Então, o grande rei conquistador passou a dedicar-se menos às políticas e preocupou-se com deixar o restante de seu legado na pequena Ally, educando-a pessoalmente para um dia governar o reino.
—Mas por que eu vou ter de governar? Os mestres do castelo entendem mais das questões do reino, não seria muito melhor se eles cuidassem de tudo?–A princesa, então com seus treze anos, perguntou ao pai durante uma caminhada pelos jardins.
—É claro que vai contar com ajuda e não vai estar sozinha, mas é você quem deve ouvir o que eles têm a dizer e tomar as decisões. Caso contrário, a ambição deles causará disputas que apenas nos enfraquecerão. Deve ser você, porque é em quem o povo confiará.
—E confiará em mim só por sua causa?
—Ally, você por si só é especial e será uma incrível rainha porque o sangue da nossa família corre em suas veias, mas não pense que isso é tudo, pois é assim que caem os maus governantes, acham que apenas o nome da família garante a confiança dos governados, quando na realidade o poder nos é posto a prova todos os dias. Você deve mostrar-se capaz sempre e eu sei que será.
O pai observava sua pequena menina digerindo suas palavras muito pensativa. Isso o fez notar que ela estava amadurecendo rapidamente enquanto se tornava uma mulher muito inteligente. Soube então que o momento havia chegado.
O rei tirou de seu pescoço e entregou à filha um pequeno pingente feito de uma pedra azul cheia de detalhes, muito bem lapidada e presa a um cordão de ouro.
—Esta é uma relíquia muito importante para mim, assim como também era para sua mãe.— Nesse instante, Ally viu que aquela memória melancólica conseguiu fragilizar o grande conquistador quase sempre inabalável que era seu pai–É hora de você tomar conta dela.
A garota colocou-o e logo quis perguntar-lhe mais sobre a mãe que tão pouco conhecia e sobre a importância da joia, mas o semblante dele obscureceu-se e ficava sempre da mesma forma todas as vezes que o assunto vinha à tona. Ela nunca soube de mais detalhes e agora tudo que algum dia poderia descobrir havia morrido nas chamas de sua casa junto com seu pai.
Algum tempo depois que chegaram à caverna da floresta, Kubrick dirigiu-se aos jovens Tory e a Kyle, os servos particulares de Ally, e ordenou:
—Crianças, chamem a princesa, digam-na que preciso tratar de alguns assuntos com ela.
—Senhor, não a vimos praticamente desde que chegamos-começou Tory e Kyle continuou:
—Ela saiu durante nosso jantar e ainda não voltou.
A preocupação preencheu o chefe de guerra, que logo chamou Alek e os dois partiram do acampamento em busca da garota desaparecida.
Ally debateu-se no começo, mas o homem alto que a segurava era tremendamente mais forte e estava armado. Como não havia a mínima possibilidade de reação, ela aceitou ouvi-lo amarguradamente:
—Nosso rei quer você, querida. Seu sangue é muito importante para ele, portanto colabore comigo e venha de bom grado que então não a machucarei.
Ao dizer essas palavras, o estranho encapuzado atou com uma corda as duas mãos dela atrás do corpo, tapou-lhe a boca que gemia em desespero e levava-a em direção ao castelo novamente.
Ele, determinado e a passos largos, subia a colina enquanto ela atentamente o acompanhava, esperançosa e preparada para qualquer oportunidade de fuga, afinal não perderia uma chance. Caminharam um pouco e, por um momento, seu raptor parecia distraído. Abruptamente, Ally puxou a corda. Havia boas chances, afinal um movimento rápido seria uma surpresa para quem estivesse desprevenido, mas bastaram dois segundos para a faca estar novamente contra a menina.
—Talvez o rei queira você viva, mas nada aconteceria comigo se lhe houvesse ocorrido uma desventura e você já fosse encontrada morta, estamos só nós dois aqui e ninguém está nos vendo, acontecerá o que eu quiser que aconteça.— Ele pressionou a arma um pouco mais contra garganta dela e arrancou uma pequena gota de seu precioso sangue, que escorreu-lhe pelo pescoço e banhou o pingente misterioso que lhe fora dado. A pedra começou a reluzir um forte brilho azulado como se aquilo a tivesse despertado de um longo sono e as fortes mãos que prendiam a princesa afrouxaram-se.
Ela virou-se para encarar seu raptor e se deparou com a figura do homem desacordado. O que havia acontecido? Ela segurou o pingente, já não brilhava tanto, e limpou o sangue que o cobria.O que quer que tenha sido aquele clarão, salvou sua vida. Imediatamente depois, tomou a faca caída para si e antes de pensar no que faria em seguida, avistou a imagem confortante de quem sabia ser Kubrick sobre seu cavalo aproximando-se pouco antes do início da manhã.
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