Notas iniciais
Não copie. Minha autoria.

A madrugada chegara fria e límpida, sua suavidade indicando o começo do inverno. O vento trespassava-me violentamente, madeixas de meus cabelos negros impediam minha visão. Árvores se erguiam ameaçadoramente envolta da estrada deserta, o luar pálido corria pelas poças d’água deixadas por alguma tempestade forte. E foi ali, abraçando-me por tentar enfrentar o enregelar da brisa e dos sonhos, que ouvi seus passos, leves como os de pássaros, calmos e ritmados. Virei-me assustada, com olhos arregalados de quem havia deixado a alma em qualquer sombra e não conseguira resgatar. Com dedos frementes de quem havia perdido a vida numa aposta com o pérfido destino.

Mas eu deixei o tempo vencer. Estagnada, em baixo de cobertas enquanto a chuva açoitava o vidro fino da janela. O som dos ponteiros era meu pior inimigo. Livros margeavam minha cama e a música vinda dum piano velho preenchia as lacunas vazias onde deveria-se encontrar o amor. Acordando de meus devaneios, voltei à dona dos passos lentos. O restolhar das folhas fora o único ruído naquele breve instante. Onde a fitei pela primeira vez. Sua pele tinha cor de neve recém-caída, o rutilar de seus olhos denegridos iluminavam a rua como faróis, seus cabelos acobreados desciam como ondas por suas costas. E seu sorriso… Torvelinhos de pensamentos atravessaram-me. Seus dentes tortos e seus lábios rosados curvaram-se no mais mavioso e jovial sorriso que eu já vira.

E quando a Lua, tão longínqua, se pôs exatamente entre nós duas, soube que ali estava a trégua. Que a dor lancinante entregou-me. Pois meus machucados estavam abertos, o sangue era quente e espesso, e se alguém não o estancasse logo, morreria por ausência de amor. Mas eu trajava um longo sobretudo negro, escondendo os pontos entreabertos e a carne viva e vermelha.

Porém, você os enxergou. E os curou com palavras. Sem grandes porfias, apenas o fez em algumas horas, retalhando cada centímetro com maestria e ternura.

Fora a única capaz de caminhar num labirinto onde nem eu mesma consegui encontrar-me, achar meu corredor longo e com aspecto assombroso. Iluminado parcamente, com fileiras de portas destrancadas. Você fora capaz de percorrê-lo todo. E acredite, eu nunca consegui chegar ao final. Neste, via-se outra porta. Talhada, de madeira clara e pesada. A maçaneta girava freneticamente, e alguém batia fortemente do outro lado.

Irei contar-te o que há lá.

Há pesadelos. Ou a realidade, como queira chamar. Há o impuro do ar que respiramos, há as lágrimas que não verti, há o suicídio e os medos que afugentei. Há o aziago das manhãs e a penumbra das alvoradas.

Você apoiou o peso de seu corpo na madeira trêmula. E ela parou. Meu inferno particular fora vetado pela presença dum anjo sem asas, mas com pele cristalina e riso de sinos ao vento.

Milhares de crepúsculos dançaram no céu, até que o negro estrelado dissolveu-se e uma realidade que eu evitara encontrou-me de modo truculento, aturdindo cada pequeno caco de meu coração palpitante. O fato de que anjos não perduram. Eles curam-te para você poder seguir. O véu que entorpecia-me do atroz rotineiro foi-me tirado antes que eu pudesse registrar tal movimento. Como se roubassem o agasalho de uma criança em meio ao inverno de temperaturas negativas. O pânico de abrir a porta e enfrentar meus monstros consumiu-me por inteiro.

Voltei para a estrada. Em outra madrugada igualmente gélida, sentei no asfalto úmido. Suspirei pesadamente três vezes. O ar causticava-me. Porque o frio queima. Assim como o amor mata. Um grito sepulcral e desumano escapou de minha garganta seca, meus olhos cerraram-se com tamanho esforço, meu punho manteve-se apertado enquanto o som percorria o vasto céu. No mesmo segundo, um trovão retumbou e cortou a imensidão negra acima de mim.

O prelúdio da tempestade ecoou em meus ouvidos. Nuvens grossas cobriam o céu que um dia chamamos de nosso, estrelas escondiam-se em seu olhar porque já não cabiam acima de nós. Esbocei sorrisos amarelos para o óbvio. Os trovões que chacoalhavam o chão e iluminavam este mar sombrio, eram apenas representantes de nossa alma já quebrantada se espatifando em dois. O estrondo que atroou entre as casas com janelas abertas e árvores altas como uma marcha fúnebre, traduz apenas o remanescer.

Dizem que precisamos contar os segundos depois do clarão até ouvir o barulho para sabermos a distância do raio. Quantas horas foram gastas para nós?

Rezo para que sejam anos. Talvez vidas.

Pois a morte nada mais é que um intervalo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!