A Personagem

10 Samantha


Notas iniciais
OOOI. Demorei um pouquinho dessa vez? Ops, desculpinha...

SAMANTHA

Acordei às seis da tarde e desci para a cozinha. Maria tinha deixado o meu “almoço” pronto dentro do micro-ondas. Olhei ao redor: tudo estava impecavelmente limpo e com até um certo perfume de rosas. A única coisa que pude pensar era que eu teria que bagunçar um pouco aquilo, se não meus pais desconfiariam da limpeza extrema. Fui até o lugar perto da porta, que, geralmente, eu deixava o dinheiro para Maria, lá havia um bilhete:

“Sam, deixei tudo organizado e peguei meu dinheiro, deixei um prato de comida pra você esquentar. Com amor, Maria.

Obs: saí às três da tarde.”

Balancei a cabeça, sorrindo e fui tomar meus remédios: quatro comprimidos coloridos e um outro para dor. Eu realmente não sabia o que era pior: ser dependente dos tais remédios, estar doente ou a dor terrivelmente forte que estava sentindo cada vez que respirava.

Antes que você pergunte: não, eu não estou morrendo, não, eu não tenho câncer, não, eu não sou viciada em remédios e não, não estou dando uma de Hazel Grace Lancaster. Vou explicar melhor: eu tenho um monte de “doenças de velhos” que provém de uma falha genética (palavras "difíceis" para dar um ar de "diagnóstico decorado"), que dificultam a minha respiração e fazem-me estar sempre morrendo de dor. Não sou médica e não estou interessada com o quê está acontecendo com os meus pulmões ou com meu corpo, então não me pergunte para explicar melhor, só sei que vivi assim minha vida inteira e fim (acabei com o ar de "diagnóstico decorado").

Sentei na mesa e comi, em silêncio, menos da metade do prato e o coloquei no micro-ondas de novo. Não queria passar mal por comer demais depois de tomar os remédios. Fui para a sala e deitei no sofá, liguei a televisão e fiquei trocando os canais por um tempo, até que me rendi e coloquei no guia de canais. Por uma terrível sorte, um filme que eu gostava estava prestes a começar, então, fiz pipoca e comecei a ver o filme.

Depois de algum tempo, a campainha tocou. Merda, tinha que ser bem na parte mais foda do filme? Deixei quem quer que estivesse na porta esperando mais 20 segundos, enquanto ele/ela tocava desesperadamente. Por fim, resolvi que era melhor ir logo ver quem era. Abri a porta e me assustei ao ver Dean.

– Que merda, Samantha, eu pensei que você estava desmaiada!

– Por que pensou isso? – perguntei confusa.

– Você não respondeu minhas mensagens e não atendeu as cinco vezes que eu liguei. – ele olhou para baixo e então percebi que eu ainda estava de camisetão, com as pernas à mostra. Fiquei com vergonha.

– Han... não quer entrar? – ele aceitou e sentou no sofá – Desculpa, é que eu deixei o celular no quarto. Vou lá pegar.

Subi as escadas rapidamente e já aproveitei pra colocar uma calça de pijama, escovar os dentes e lavar o rosto amassado de sono. Peguei o celular e vi que tinha vinte mensagens e oito ligações perdidas. Oito? Ele não disse cinco?

Desci as escadas enquanto via quem havia me ligado além de Dean, pro meu azar (ou sorte?) tinha sido o Jim. Quanto às mensagens: Oito do Dean, dez do Jim e duas da Jam.

Jamie: “Vou fazer exames amanhã de manhã” “Avise a professora de inglês por mim, ok?”.

Dean: “Sam, acho que deixei minha carteira ai. Pode dar uma olhada, por favor?” “Sam, acorda e procura minha carteira, por favor” “ Samantha, acorde.” “Saaaaaaaaaam?” “Que sono pesado você, ein” “Sam, você está me assustando, está tudo bem?” “ Sam, me diga que está tudo bem” “Ok, você me deixou bem preocupado depois da quarta ligação não atendida, estou indo ai”.

Jim: “Oi Sam, tá a fim de sair essa noite?” “Ou talvez uma pizza?” “Sam?” “Sam, cadê você?” “Você está me ignorando?” “Não, você não está nem lendo isso, provavelmente” “ Sam, está me preocupando, tudo bem? ” “ Atender o telefone seria uma ótima ideia” “Ok, estou realmente preocupado ” “Não me faça ir ai ver se você está bem”.

Uau: Edu conseguiu convencer a Jam a fazer seus exames. Amém, Du.

Uau²: Nunca tive tantas mensagens desesperadas assim antes, eu realmente assustei os garotos.

– Então? – perguntou Dean quando cheguei ao sofá.

– Desculpa. – falei – Aparentemente, não foi só você que me chamou... Me dá um minuto?

– Claro.

Fui para a cozinha, respondi a Jam com “Eduardo, você fez falta, hehehe. Não se preocupe, eu aviso, sim” e então liguei para o Jim.

– Amém! – atendeu o garoto.

– Que foi? – perguntei, um pouco irritada.

– Você sumiu, pensei que tinha acontecido alguma coisa, fiquei preocupado.

– Eu esqueci o celular no quarto, estava na sala vendo filme.

– Ok, então eu vou ver com você.

– Como assim?

A campainha tocou e o Dean se levantou para ir atender. Merda. MERDA. M-E-R-D-A. Corri para a sala e me enfiei na frente dele.

– Pode deixar – falei para ele, e o garoto sentou no sofá novamente. – Oi. – disse, abrindo a porta e vendo o Jim.

– Oi, Sam. – eu mantinha a porta pouco aberta, para um não ver o outro. – Estava preocupado com você.

– Está tudo bem, Jim, desculpe ter te assustado. Eu me distraí com o filme e só vi o celular quando fui pra cama, dormir. – dei ênfase a última palavra.

– Ah, – ele disse. Parecia desapontado – tudo bem, que bom que está bem. Vou indo então.

– Ok...e me desculpe fazer você vir até aqui.

– Tudo bem. – ele se inclinou e me deu um selinho. – Dorme bem, baixinha.

– Você também, altinho. – olhei para cima com um olhar pensativo – Realmente, esse apelido não dá pra ser retrucado.

Ele riu, concordou e foi embora. Ufa! Evitei a terceira guerra mundial. Fechei a porta rápido e fui para a sala, onde Dean estava entretido com o filme, que também era um dos seus favoritos. Graças aos Deuses, não notara nada. Sentei no sofá ao lado dele.

– Então? – ele perguntou, fiz uma cara confusa.

– O quê?

– Que tal vermos um filme? – ele me olhava com um sorriso malicioso, eu sorri.

– Estamos vendo um filme. – retruquei.

– Eu quero dizer, um filme desde o começo, não pela metade.

Encaramo-nos por alguns instantes, enquanto eu pensava se deveria ou não mandar ele embora. Não seria justo com o Jim, seria? Mas também não seria justo com o Dean, ele veio até aqui só para ver se você estava bem. Mas o Jim também veio. Mas o Dean chegou primeiro. Isso é desculpa de criança. Mas, mas, mas... Ah, odeio fazer guerra com os meus pensamentos.

– Ok. – falei por fim – Vamos ver o que encontramos na programação.

Vasculhamos os canais por alguns instantes, até que resolvemos ver uma série que nós dois gostávamos: Supernatural. Sempre era muito engraçado ver isso com o Dean, pois os personagens principais eram irmãos e tinham os mesmos nomes que nós: Sam e Dean Winchester.

– Ele é gay. – falava Dean, do meu lado, enquanto bebericava uma Coca-Cola.

– Ele não é gay! – revirei os olhos. – Ele é um anjo, é claro que não sabe quais são os prazeres da vida.

O garoto sorriu de um jeito malicioso para mim.

– E você sabe? – perguntou.

– Posso não saber muito, mas sei mais que o Castiel, com toda certeza. – eu ri.

– Que droga, Sam! – ele disse quando o personagem, Sam Winchester, levava uma surra e caia no chão desacordado.

– É comigo? – brinquei. Agora, o irmão do Sam, Dean Winchester, estava quase sendo morto por um demônio. – Dean, pega a droga da faca! – gritei para a televisão.

O Dean ao meu lado, levantou correndo e pegou uma faca de pão na cozinha e pulou para sala novamente.

– Cadê? Cadê aquele demônio maldito? – gritou o garoto empunhando a faca de pão como se fosse uma arma mortífera. Nem preciso dizer que caímos na risada, não é? Como eu disse, ver essa série com o Dean sempre rendia dores de tanto rir.

Por fim, o episódio acabou e eu percebi que estava deitada no colo de Dean. Começamos a discutir sobre outras séries que gostávamos, personagens idiotas, personagens fodas e personagens que eram incrivelmente bonitos (para Dean, todos os personagens que eu achava gato eram gays).

Olhei no relógio e, merda, era uma da manhã! Não pretendia ficar acordada com o Dean tanto tempo.

– É melhor nós irmos dormir. – falei.

– Mas já? – pediu o ruivo.

– Dean, já passa de uma da manhã.

– Mas eu não estou com sono.

– Não mesmo? Aposto que, se deitar na cama, dorme na hora. – disse me levantando.

– Ok – disse ele, ficando em pé na minha frente e segurando minha cintura – Vamos pra cama. – o garoto se inclinou e me beijou. Mas que droga, ele quer dormir aqui!

– Dean, não é uma boa ideia...

– O que foi, Sam? Está com medo de dormir com o cara da faca de pão assassina? – tive que rir da piadinha, ele aproveitou a brecha para me beijar novamente. Tentativa um fracassada.

– Quero dizer, – disse, interrompendo mais uma vez – os seus pais não ficam furiosos porque você fica duas noites seguidas fora?

– Sou maior de idade, Sam, eles podem ficar bravos o quanto quiserem, posso fazer minhas próprias escolhas.

Droga, esqueci-me desse pequeno detalhe. Tentativa dois fracassada. Ele me beijou novamente, levantando-me pela cintura, me fazendo ficar na ponta dos pés. Coloquei minhas mãos em sua nuca e comecei a brincar com seus cabelos. Em seguida, larguei-o, com os pensamentos voltando à minha mente.

– Dean, eu não... – Tentativa três fracassada. Ele me beijou antes que eu pudesse completar a frase. Entreguei-me ao beijo por um tempo, até ficar sem ar, tive que empurrá-lo meio que à força, pois estava ficando tonta. Malditos pulmões de merda!

– Sam? – o garoto chamou.

– Um minuto... Só estou tonta. – coloquei as mãos na cabeça, fechei os olhos e sentei no sofá. Minha respiração estava ofegante. Tentei abrir os olhos, mas não foi uma boa ideia: tudo não parava de girar.

– Vou te levar pro quarto. – falou Dean. Brincadeira, viu? Esse menino não perdia uma!

Ele me pegou no colo, permaneci de olhos fechados enquanto ele subia as escadas.

– Ok – ele me deitou na minha cama desarrumada e sentou ao meu lado, abri meus olhos assim que me senti um pouco melhor. – Tudo bem, Sam?

– É, tudo bem. – respondi respirando fundo duas vezes – Você pode pegar aquela caixa lá no canto? – apontei para o nebulizador no canto do quarto.

Ele pegou o aparelho e colocou do meu lado, me inclinei para arrumar a máquina mas ele sussurrou um “pode deixar”. Observei o garoto, ele fez tudo certinho (talvez até melhor que eu), pegou a máscara e me ajudou a colocá-la.

– Obrigado. – sussurrei. Encaramo-nos por alguns instantes. – Onde foi que você aprendeu a fazer isso?

Ele abaixou a cabeça triste, cruzou os braços e sentou do meu lado com um olhar nada agradável.

– Uma vez, eu, você e a Jamie estávamos na casa dela e você começou a passar mal. O tio George e a tia Clarisse tinham saído para comprar comida pra nós e eu era o mais velho da casa, tinha uns sete ou oito anos. Você desmaiou e seu pulso estava desacelerando, a Jamie começou a chorar e eu não sabia o que fazer, então liguei para a emergência. Eles me deram instruções de como fazer você continuar respirando, achei, dentro do guarda-roupa da Jamie, um kit de emergência com o nome “Samantha” escrito na frente, lá tinha uma espécie de bombinha e eu resolvi tentar. Funcionou. Você acordou, acalmei a Jam e meus tios chegaram, contei o que havia acontecido e eles disseram que eu tinha salvado a sua vida. Eles checaram se você estava mesmo bem e resolveram que não tinha necessidade de você ir pro hospital. Depois daquele dia, resolvi que ia aprender tudo que podia para conseguir ajudar você. Não fiz faculdade de medicina, mas aprendi o básico para não deixar você passar por aquilo de novo.

Eu olhava-o boquiaberta. Não fazia ideia que isso tinha acontecido. Então caiu a ficha: o Dean sempre estava lá para me cuidar, o tempo todo...

– Por que eu não me lembro de nada disso? – perguntei.

– Você desmaiou e tinha quatro ou cinco anos, geralmente, nós não lembramos muitas coisas dessa idade.

Tirei a máscara e desliguei a máquina, já estava me sentindo bem melhor.

– Dean... – ele olhou nos meus olhos – Obrigado... Por sempre cuidar de mim.

– Não há de quê, marrentinha. – assim, o garoto se aproximou e me beijou. Ficamos ali por um longo tempo (com algumas pausas para respirar) até que nos enfiamos embaixo das cobertas e eu dormi em seu colo.

Enquanto eu adormecia, só havia uma frase que passava pela minha cabeça: “Enfim, ele conseguiu dormir comigo... Todas as tentativas fracassadas”.

Notas finais
Beeeijos ;)