A Personagem
15 George
Notas iniciais
GEORGE
Eu sempre odiei ter que mandar em minha filha. Sério. Odeio tanto que nem sei porquê decidi torná-la uma personagem tão teimosa. Esse é o problema de querer copiar uma pessoa: não fará o que você quer, fará o que ela quiser, se não, deixará de ter sua personalidade, será um alguém qualquer que você criou e não a pessoa que você imortalizou.
Será que é possível alguém ser imortal? Essa é particularmente uma pergunta que me inquieta bastante. O que faz alguém ser imortal? Viver para sempre ninguém pode, mas podemos continuar existindo, presentes nas vidas que tocamos e nas pessoas que marcamos. Até a última pessoa que tocamos também morrer, e assim, sermos esquecidos.
Mas há um jeito de ficar para história. Assim como Mozart, Shakespeare ou Cleópatra. Eles deixaram sua marca muito mais do que em apenas pessoas, eles fizeram coisas há serem lembradas mesmo depois de milênios.
Então minha pergunta diária era: como imortalizar alguém que já deixou este mundo? Então eu comecei a escrever.
Depois da morte da minha esposa, Clarisse, eu escrevi um livro para ela. Um romance um pouco mal jeitoso que contava a historia de como eu e Clarisse nos conhecemos, nos apaixonamos e como ela foi tirada de mim. Isso ajudou-me a superar sua morte.
Tentei fazer o mesmo com a Jamie, mas algo era diferente. Não consegui me sentir a vontade com a curta vida que ela teve. Não conseguiria contar a historia de sua vida, em parte porque nenhum pai conhece a filha tão bem a esse ponto, em parte porque sua vida tinha mal se iniciado quando ela também foi tirada de mim.
Então eu tentei algo diferente. Resolvi prolongar sua vida, dar a ela os momentos que nunca deveria ter perdido. Mas essa não é uma tarefa tão fácil, pois uma garota com uma personalidade forte como aquela não pode ser copiada tão facilmente.
Jamie nunca me obedeceu...ela nunca foi boa nisso. Ela era autora de sua própria vida, escritora de suas próprias escolhas e isso sempre funcionou muito bem, nunca foi necessária uma intervenção séria minha na vida de minha garota. Mas é diferente quando se está escrevendo sobre ela. Se eu não escrevo, nada acontece e se eu escrevo, tenho que escrever de acordo com o que a minha Jamie faria.
Eu e Jamie brigávamos por qualquer bobeira. Ficávamos de birra um com o outro por dias até que um pedido de desculpas aparecia juntamente com um pote de sorvete ou uma nova série para vermos. Fazíamos as pazes e riamos como se nada tivesse acontecido. Ela costumava dizer que nós éramos duas crianças teimosos brigando pelo o último biscoito.
Não seria diferente dessa vez.
Eu tentei escrever sobre a minha Jamie sem nenhum problema de saúde, uma menina totalmente saudável e normal, mas sua identidade acabava sempre sendo perdida em meio a “surtos de adolescentes”, coisa inevitável que minha filha realmente odiava e achava, nas palavras dela, “uma frescura utilizada por adolescentes com falta de livros para ler”. Então acabei criando uma Jamie com problemas de anorexia, o que, na verdade, combinava bastante com ela, já que os malditos coquetéis de remédios que ela tomava contra o câncer a consumiam de maneira cruel. Física e psicologicamente.
Sempre lembrava da minha menina chorar antes de algum exame e sempre correr para o meu colo cantando a nossa canção, Closing Times, da banda Semisonic, por algum motivo isso a acalmava e a fazia sorrir. Isso era o suficiente para tornar essa música especial para mim.
Mas o que acabou me impressionando foi que eu estava cantarolando essa música enquanto escrevia sobre os exames que Jamie teria que fazer e pude sentir Jam ao meu lado, cantando comigo como se me dando algum tipo de apoio. Minha menina continuava ali, ao meu lado enquanto eu escrevia como fez tantas vezes em toda sua vida.
Na verdade, por alguns segundos, pude até ouvir minha esposa Clarisse sussurrando o que disse para mim na noite em que li o primeiro trecho do livro “Um pôr do sol consumido em escuridão” de minha autoria para Jamie de apenas um ano de idade.
“Ela ainda está acordada lhe ouvindo ler, George? Essa garota vai ser igual a você... Talvez escreva o próximo best-seller.”
Foi nesse momento em que as imaginei ali comigo, lembrando de vários momentos que passamos. Alguns me faziam rir, outros chorar e outros apenas alegria de tê-los vivido. Sentia-me sortudo por ter dividido minha vida com pessoas tão incrivelmente lindas e puras.
Não as deixaria ir. Elas não precisavam ir. Eu não precisava deixá-las ir.
Eu tinha o dom da escrita para nunca deixá-las, para homenageá-las.
Iria fazer isso. Iria fazer bem feito.
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