A Personagem
16 Eduardo
Notas iniciais
EDUARDO
Jamie me mandou ir comprar remédio para cólica, o que não levou nem vinte minutos. Mas quando voltei para casa e entrei no quarto vi Jam encolhida nos pés da cama com o rosto inchado e vermelho de tanto chorar, os cabelos ruivos cacheados caiam sobre os ombros de maneira bagunçada e estava atordoada.
– Jam, o que foi? – perguntei me ajoelhando a sua frente e segurando seus joelhos carinhosamente.
Ela deu um sorriso trêmulo.
– Você demorou, eu cochilei... tive um pesadelo.
– Quer me contar?
– É, pode ser... – a expressão da ruiva mudou rapidamente, como se alguém tivesse falado algo pra ela que mudasse sua vida. – Edu, pode vir aqui? – ela levantou e me puxou para a sala, onde o presente amarelo encontrava-se em cima da mesa.
– Você vai abrir? Eu quero ver o que é.
Ela pareceu surpresa.
– Você não sabe o que é? Mas foi você quem me deu.
– Seu pai mandou eu lhe entregar.
– Me-meu p-pai? – gaguejou ela.
– Uhum. Eu recebi pelo correio e tinha um bilhete dizendo “Acho uma ótima ideia você entregar isso para Jam, no começo da aula, preferencialmente. Ela vai adorar. Não abra. George.”
– George... –sussurrou.
– É, esse não é o nome do seu pai? Você ta bem mesmo, Jam?
– Sim, é só que é tudo muito... estranho, não?
– Realmente. – concordei – Mas você vai abrir ou não?
Jamie rasgou o papel de embrulho amarelo, revelando um tipo de baú estilo “tesouro pirata”.
– Está trancada. – falou Jamie franzindo as sobrancelhas.
Então a ruiva tirou o colar com pingente de chave que estava em seu pescoço (eu podia jurar que ela não estava com isso cinco minutos atrás) e abriu o baú. Dentro dele havia no mínimo umas vinte fotos, Jamie as pegou e sentou no sofá para olhar.
Quando olhei pela primeira vez, jurava que eram fotos normais da família da Jam, até que eu reparei que: a) Jamie nunca morou em um apartamento; b) o pai de Jamie não é ruivo; c) a mãe de Jamie que devia ser ruiva, não morena; d) Jamie não tinha um gato; e) Jamie não era careca; f) Jamie não teve nenhuma festa de aniversário no hospital em que g) eu estava ao seu lado com um presente azul h) junto com a Sam e o Dean.
– Jamie – falei assustado – o que é isso?
Ela sorria e lágrimas escorriam de seus olhos.
– Minha família. Minha família de verdade.
– Do que você está falando? – perguntei achando que ela tinha ficado louca.
Então eu ouvi uma voz... a voz com que eu vinha sonhando há dias, a voz que parecia tão longe e tão perto...
“Está na hora de contar pra ele, Jamie. Mas pode deixar, eu ajudo você”
Então tudo ficou preto e eu apaguei.
–--
Demorei para fazer os sentidos retornarem ao meu corpo. Procurei saber, primeiramente, onde eu estava, até perceber que não estava em algum lugar especificamente. O espaço em que eu me encontrava parecia estar coberto por uma névoa azulada. Então tomei conta de que haviam vozes.
– Parabéns, George! – ouvi Jamie gritar furiosa – vai traumatizar o meu namorado para sempre!
– Jam, calme. Não vou mostrar pra ele o que mostrei pra você. – ouvi uma voz de homem falar calmamente.
Me virei e vi a Jamie de pé com os braços cruzados para um homem ruivo e alto.
– Então o que vai fazer? – perguntou a garota.
O homem fez um gesto com a cabeça na minha direção. Fui até perto deles e segurei a mão da Jam.
– Vai ser uma explicação rápida. – finalizou o homem ficando de costas para nós.
– Jam, quem é esse cara? – perguntei.
Mas antes que eu pudesse ter uma resposta, a névoa azulada começou a se solidificar, tomando várias formas e cores. Demorei pra entender onde estávamos, via borrões coloridos e ouvia vozes de criança, não compreendeu de início mas logo tudo foi fazendo sentido gradativamente.
Estávamos em um parquinho estranhamente familiar, haviam mais de vinte crianças correndo e um carrinho de sorvete estava parado perto de uma árvore. Jamie apertou fortemente a minha mão e respirou fundo, soube que ela reconheceu o lugar com mais facilidade que eu.
– Você consegue lembrar disso, amor? – pediu ela.
Eu sabia que conhecia o parque, sabia que era algo importante, mas memória ainda estava debilitada. Até que eu vi uma garotinha ruiva de uns sete anos indo em direção ao banco da praça com uma casquinha de sorvete de pistache recém comprado em mãos. Ela tinha um sorriso enorme no rosto e andava calmamente até que... BUM! Um garoto moreno passou correndo feito louco por ela e derrubou seu sorvete.
– Somos nós... – sussurrei.
– Ei! – gritou a garotinha ruiva do sorvete.
– Ahh! Sinto muito, sinto muito! Eu não... – o garoto parou por um momento, encarou o rosto da garota e começou a rir exageradamente. – HAHAHA! SEU ROSTO! HAHA! SORVETE!
– Ah é, haha, muito engraçadinho – disse a garotinha ironicamente enquanto limpava o rosto coberto por sorvete.
– Me desculpe. Mas é que foi engraçado. – ele se recompôs – Você é muito bonita, sabia?
– Com ou sem o sorvete no rosto?
– Os dois, e... ah, falando em sorvete... vem aqui que eu to te devendo uma casquinha. – disse ele indo em direção ao carrinho de sorvete.
A menina estava um pouco emburrada mas seguiu o garotinho. Pude ver que, ao fundo, sentado em um banco, havia um homem ruivo – o homem ruivo que estava ao meu lado naquele momento, só que alguns anos mais jovem – olhando discretamente as crianças por cima dos seus óculos de leitura e seu livro de capa azul.
– É você... – mencionei olhando para o homem ao meu lado que observava a cena com uma cara sonhadora.
– Somos nós, na verdade. – respondeu ele. Encarei-o confuso mas Jamie me interrompeu.
– Você não mudou o modo que nos conhecemos. – disse ela encarando o homem ruivo.
– E por quê mudaria? – disse ele ainda observando a cena com olhar sonhador, então se virou para mim – Edu, meu amigo, você realmente sabe como agradar minha filha.
– Su-sua o q-que? – gagejei.
– Ah! – disse ele como se tivesse se esquecido de algo importante – Temo que não tenha me apresentado. – a cena começou a mudar, virando um borrão novamente.
– Não, senhor. – não sabia por quê, mas sentia que devia tratá-lo com respeito.
– Bom, eu sou George, pai da Jamie. – ele esticou a mão para me cumprimentar.
– Ahnn? – babulciei – não, não, eu conheço o pai da Jamie, o nome dele é George Kanoah, e não é nem um pouco parecido com o senhor.
O homem deu uma risada carinhosa e encarou a minha namorada.
– Quer explicar? – falou ele.
– Prefiro que você faça as “honras”. – disse a garota com cara emburrada e cruzando os braços novamente.
– Será que alguém poderia me falar alguma coisa que faça sentido nisso tudo?
– Meu nome é George Waters, minha filha se chamava Jamie Waters, e essa linda garotinha que está do seu lado é o que eu fiz para homenageá-la.
– O que...você...fez? – indaguei.
O homem suspirou e a cena tornou-se nítida mais uma vez. Estávamos em um hospital, num quarto com uma cama e maquinas que faziam bipe, porém, havia algo incomum: o quarto estava arrumado para uma festa de aniversário, com balões coloridos e salgadinhos. Uma garota estava deitada na cama, ligada aos aparelhos, dormindo com uma expressão cansada. Cheguei mais perto e pude identifica-la. Jamie.
Vê-la naquele estado atordoou-me tanto que eu cheguei a dar um pulo para trás.
– J-jam? – gaguejei.
– O que você quer dizer? – ouvi minha própria voz dizer ao fundo. Me virei, e o que eu vi foi ainda mais atordoante: eu de pé conversando com o homem que acabar de conhecer que disse se chamar George Waters com uma garota ao meu lado, não uma garota qualquer, mas Samantha Coldheart.
– Edu, esse vai ser o último aniversário dela. Vamos todos sorrir e tentar esquecer do que está acontecendo – Sam deixava lágrimas rolarem enquanto apertava o meu braço com agonia. – Queremos que essa seja uma lembrança feliz para todos nós, tudo bem, Sam?
– Tu-tudo. – a garota secou as lágrimas e abraçou o próprio corpo, se recompondo. – Vamos acorda-la?
George forçou um sorriso e foi em direção a Jamie deitada na cama.
– Parabéns pra você... – entoou o homem ruivo.
– Nessa data querida... – continuou eu mesmo.
– Muitas felicidades... – cantarolou Sam.
– Mais alguns dias de vida... – terminou a recém acordada Jamie sorrindo.
– Credo, Cherry Jam, seu humor não melhora nem no dia do seu aniversário. – disse Sam.
– Você que é uma insuportável, Samantha. – brincou a garota. – Oi, Dudu.
– Oi, Jajam. – eu a beijei.
O George real ao meu lado deu uma risada.
– Sempre adorei o modo que essas duas falavam uma com a outra. Parecem irmãs...
– Irmãs siamesas de mães diferentes. – completou a ruiva ao meu lado.
– Exatamente. – falou George. A cena começou a mudar novamente.
– Você sabe que isso não faz o menor sentido, não sabe?
– É claro que eu sei, mas vocês falavam isso o tempo todo.
– Ainda falamos. Obrigado por não mudar o que era mais importante pra mim, pai.
O homem apenas sorriu e a cena tornou-se nítida novamente. Ainda estávamos no hospital, mas desta vez no corredor. Eu podia ver a Sam sentada na cadeira ao lado de Dean, roendo as unhas nervosa e eu andando de um lado para o outro com as mãos na cabeça. Até que uma batida de porta me fez parar de súbito.
– George? – disse eu.
O homem começou a chorar e se escorou na batente da porta.
–Não... – disse Sam se levantando. – Não...
– Eu sinto muito, Samantha. – disse o homem, a garota abraçou Dean com força enquanto lágrimas rolavam de seus rostos. – Edu...
– George, não... – disse eu.
– Nós sabíamos – disse o homem soluçando – sabíamos que isso iria...
– NÃO! – gritei chorando – Você está errado! – gritei e entrei no quarto onde pude ver, com toda certeza, a pior cena da minha vida: Jamie imóvel deitada na cama com uma máquina fazendo um som de “biii” continuo. Me ajoelhei ao lado da cama e segurei sua mão enquanto as enfermeiras já chegavam para desligarem as máquinas.
– Jamie... – comentei, a garota ao meu lado chegou mais perto e eu a abracei, pude notar que ela chorava, assim como George que estava com a mão no ombro.
– Essa é a história real, Edu. Essa era... a minha filha... Jamie.
– E o que nós somos? – perguntei enquanto as coisas embaçavam-se e sua voz ficava distante.
– Personagens do meu livro. Vocês são a continuação dessa história. Da história que teve um final precoce.
– Então nada disso é real? Está tudo acontecendo dentro de nossas mentes?
– É claro que só está acontecendo dentro de nossas mentes, Edu. Mas por quê significaria que não é real?
Tudo escureceu, e estávamos de volta a sala de Jamie.
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