A Pequena Uchiha
2 Entrevista
Notas iniciais
O calor era intenso em Florença.
Hana recusara, mal-humorada, o convite para um passeio pela cidade, mas Sakura não perderia a oportunidade. Adorava conhecer lugares novos, observar as construções antigas, a expressão das pessoas, sua singularidade.
O clima logo a fez lembrar-se de que Florença era famosa pela qualidade de seus sorvetes. Parou em uma pequena sorveteria à beira da calçada, e pediu seu sabor preferido. Percebendo que não era italiana, o rapaz que a atendeu dirigiu-lhe um pequeno galanteio ao devolver-lhe o troco. Corando, Sakura se afastou rapidamente, um pouco sem jeito. Não gostava de ser pega de surpresa.
Ia correndo atravessar a avenida, quando derrubou metade do sorvete em sua camiseta. O calor o fez derreter-se muito depressa e...bem, não importava. Aconteceu e pronto. Quando levantou os olhos, para de novo tentar atravessar a avenida, deparou-se com o motorista de um carro esporte vermelho, que olhava fixamente para ela. Ele parecia simplesmente ter ficado parado quando o sinal abriu, e os outros motoristas buzinavam enfurecidos, já que ele lhes impedia a passagem. Mas ele não reagia, e continuava com os olhos fixos em Sakura. De repente, ela percebeu que os olhos dele estavam fixos em seus seios, que, com o contato do sorvete gelado ficaram excitados, os mamilos salientes e visíveis através do tecido molhado da camiseta.
Sakura corou novamente. Que homem inconveniente, pensou consigo mesma. Devia estar achando que ela era uma turista sem compromissos, pronta a aproveitar o dia com um garotão qualquer. E que bastaria um olhar para que...
Quando Sakura resolveu encará-lo, disposta a lhe devolver o olhar mais azedo e desencorajador que possuía, o restante do sorvete começou a pingar continuamente no chão. Mesmo sob o olhar insistente, Sakura começou a lambê-lo, disposta a evitar um vexame ainda maior.
Rapidamente foi se afastando daquele local, a imagem dos olhos escuros e profundos do italiano impressa em sua mente. Aquele homem saberia como abalá-la.
*...*...*
Onde estaria a tal mulher?. Sasuke pensou consigo mesmo, olhando irritado do relógio para o hall de recepção do luxuoso hotel, onde hospedara a candidata.
Já fazia cinco minutos que estava andando de um lado para o outro, como um tigre dentro de uma jaula, ansioso. Precisava terminar tudo aquilo rápido, e voltar para casa com alguém que pudesse cuidar de Aya com amor e carinho.
O fato de a moça não ter nem mesmo a disciplina necessária para comparecer a um encontro no horário marcado pesaria fortemente contra ela, apesar de ter sido tão bem recomendada pela agência na qual ele confiava.
Na verdade, não estava mesmo no melhor de seus humores naquela manhã. Seu carro, que nunca lhe dera problemas, tivera uma pane elétrica que o obrigara a usar a Ferrari vermelha de seu primo Kakashi, que desde sua morte estivera guardada no palazzo.
Ao contrário da Mercedes, a Ferrari era um tipo de carro que chamava muita atenção, e na opinião de Sasuke, o tipo indesejável de atenção.
Lembrou-se da moça de cabelos Róseos que lhe chamara tanto a atenção, mais cedo na cidade, quando fora encontrar um colega. Ela certamente aprovara o carro, mesmo que tivesse lhe lançado um fulminante olhar de rejeição, do tipo "não ouse olhar para mim desse jeito", ele refletiu secamente.
Sasuke rejeitaria sem pensar uma mulher que se aproximasse dele pela marca de seu carro. Kakashi, ao contrário, sempre fizera questão de exibir-se.
Onde estaria a criatura? Honestamente, ele admitia que ficara irritado com o fato de ela haver se recusado a se hospedar naquele hotel, no qual ele lhe reservara uma suíte.
Insistira em ficar, às suas próprias expensas, num hotel mal-localizado, em pleno centro de Florença. Provavelmente viera a turismo, e descobrira que o hotel que ele lhe reservara ficava em uma região sossegada demais. Ela cursava a universidade em Londres, e devia ser do tipo de garota que gostava de agitação.
Já sabia que era ele o diferente, o solteiro antiquado que se recusava a acreditar que uma pessoa pudesse encarar o sexo como um mero ato de satisfação física, com o mesmo envolvimento com que comia uma barra de chocolate. Para ele isso não passava de promiscuidade. Mas aquele era seu ponto de vista e nada mais.
Sentindo que sua irritação aumentava, Sasuke arrumou a gola de seu paletó impecável, para deleite da recepcionista do hotel. Ela não podia tirar os olhos dele. Um homem alto, charmoso, com um olhar malicioso que faria qualquer mulher delirar em seus braços.
Consciente do efeito que tinha sobre ela, Sasuke continuou com seu caminhar soberbo, sem lhe dar atenção. Não gostava de ser feito de tolo e era esse o sentimento que o dominava quando alguém o deixava esperando. Sua expressão tornou-se ainda mais carregada quando se lembrou de Aya, a menina para quem precisava urgentemente contratar uma babá, e que devia estar acordada naquele momento, imaginando onde ele estaria. A perda traumática da mãe havia feito com que ela se apegasse ao único adulto constante em sua vida, com o qual se sentia segura: ele mesmo.
Sasuke não tinha a menor confiança no tipo de cuidados que a moça, que fora contratada pela falecida mãe dispensava à menina.
Aya era agora o seu bebê, totalmente dependente dele, sob todos os aspectos. Devia ser prioridade de sua vida, pensamentos e ações.
E ele estava determinado a encontrar para ela não apenas uma babá, mas a melhor babá. Uma pessoa que estivesse disposta a comprometer seu tempo, e um bom período de seu futuro, exclusivamente com Aya.
Aquele não era um momento fácil. Sasuke se acostumara a estar sempre no controle das situações, com autonomia para decidir o que achasse mais sensato. Era como se agora estivesse na dependência da pessoa que cuidaria de Aya, já que não poderia estar presente vinte e quatro horas por dia.
Seu instinto de proteção estava ainda mais aguçado, sentia-se emocionalmente responsável pela garotinha. Só conseguiria deixá-la sob os cuidados de alguém que fosse capaz de lhe dar o amor e a segurança que a mãe teria dado, uma moça terna e carinhosa, confiável e responsável.
Como era inglesa, a mãe de Aya decidira contratar uma babá inglesa que tivesse também fluência no idioma italiano, para que a menina pudesse crescer familiarizada com as duas línguas.
A pessoa cujo currículo ele selecionara parecera mesmo boa demais para ser verdade. Possuía exatamente o perfil e qualificações que ele procurava... e agora essa! Tinha vontade de ir embora, tamanha a incerteza que o corro ia mesmo antes de conhecê-la.
A recepcionista continuava a observá-lo. Tinha uma expressão mal-humorada e continuava a andar com imponência, com a determinação de um felino. Por todos os poros parecia transpirar uma sensualidade magnética, masculina.
Mas era o traçado severo de sua boca, ou a frieza que mantinha em seu olhar, que fazia com que qualquer pessoa pensasse muito bem antes de ousar aproximar-se dele sem ser convidada.
Aos vinte e seis anos, Sasuke trazia atrás de si responsabilidades por estar à frente da vasta e complicada rede de negócios de sua família.
Seus pais haviam morrido em um acidente de avião, cujo piloto era um de seus tios mais novos. Sasuke, ou Uchiha Sasuke, seu nome completo, estava na época com vinte anos e se formara recentemente em arquitetura. Com a morte prematura do pai, tivera de assumir da noite para o dia toda a carga da gestão dos negócios da família.
Fora extremamente bem-sucedido por um lado, mas, por outro, havia perdido no caminho boa parte de sua espontaneidade, de seu amor pela vida, de sua capacidade de sorrir, características que nunca haviam abandonado seu primo mais novo, Kakashi.
Algumas pessoas da família achavam que ele protegia demais o primo, permitindo inclusive que o rapaz tirasse vantagem de sua boa vontade. Mas, assim como ele, Kakashi também havia perdido o pai naquela tragédia, em uma idade ainda mais vulnerável, uma vez que mal acabara de completar dezesseis anos.
A expressão de Sasuke se tornou mais severa ao lembrar-se de Kakashi. Havia sido totalmente contrário à união dele com Rin, a bela modelo inglesa. O casamento ocorrera poucas semanas após haverem se conhecido, e não fora surpresa para Sasuke quando, com a mesma facilidade com que se apaixonaram, o amor se acabara e eles não mais suportavam viver juntos.
Não havia mais como voltar atrás. Estavam casados e a pequena Aya já havia sido concebida.
E fora em seu papel de chefe da família que Sasuke convidara o casal para ir até o palazzo, para que conversassem com mais calma e talvez chegassem a um acordo e ao compromisso de lutar por seu casamento.
No entanto, depois de uma longa conversa, o casal se recolheu ao seu quarto. No meio da noite, depois de uma briga extremamente passional, Kakashi resolveu, furioso, levar Rin para fora da Villa.
Ele provavelmente nunca saberia qual fora a causa daquele acidente fatal, que levara a vida de ambos e deixara um bebê órfão. Sasuke refletiu sombriamente, mas sabia o quanto se sentia culpado por haver promovido aquele encontro no palazzo naquela noite.
Como era a pessoa mais próxima de Kakashi, naturalmente assumira toda a responsabilidade pelo bebê, e passadas algumas semanas, era claramente perceptível a forte ligação entre ele e a pequena Aya.
Com sua experiência como empresário, queria evitar a perda de tempo que seria entrevistar várias moças para escolher uma que pudesse cuidar de Aya. Estudara pacientemente o currículo de várias candidatas, tentando certificar-se de que entrevistaria apenas aquelas que preenchessem rigorosamente todos os critérios que ele exigira para a função. Haruno Sakura, na verdade, parecia ser a única que preenchia todos os requisitos, e aquilo o deixava ainda mais furioso. Estava já uma hora atrasada!
Tempo demais, Sasuke resolveu, desistindo.
Se a Srta. Haruno não tinha responsabilidade suficiente para comparecer pontualmente a seus compromissos, como poderia assumir os cuidados de sua pequena garotinha do modo como ele desejava?
Irritado, colocou os óculos escuros para sair do hotel, protegendo-se do sol forte. Um ator que quisesse estudar os movimentos de um mafioso para a gravação de um filme teria ali um bom modelo. Sasuke parecia implacável, mau e perigoso. Ninguém poderia antecipar a doçura que transparecia nele quando estava junto da criança que tomara como sua.
Mal tinha colocado a chave na ignição do carro esporte de Kakashi, quando se lembrou de que não havia deixado nenhuma mensagem para a moça, para o caso de ela resolver aparecer. Deixando a chave na ignição, saiu da Ferrari e voltou rapidamente ao hotel.
*...*...*
– Oh, pelo amor de Deus, não vai parar de me atormentar? Você não é minha mãe, não é nem minha parente. Apenas porque meu pai caiu na armadilha de sua amiga, você não tem o direito de me dizer o que fazer.
Sakura tentou contar até dez para não reagir precipitadamente à hostilidade de Hana. A garota havia saído na noite anterior sem a sua companhia e voltara de madrugada, com a nítida aparência de quem andara bebendo. E não apenas um cálice de vinho.
Ela não imaginava por onde havia andado até que duas estudantes, preocupadas, a chamaram pelo interfone do hotel. As moças avisaram Sakura que Hana saíra na noite anterior com um grupo de jovens que estava estudando na cidade, mas que passara boa parte do tempo com um rapaz que havia se aproximado do grupo e que parecia ter um caráter duvidoso e alguma ligação com drogas. Aparentemente, Hana havia combinado passar o dia com o tal rapaz, e elas temiam que pudesse correr algum risco.
Para assegurar-se de que nada aconteceria, Sakura insistira para que Hana a acompanhasse à entrevista. Forçada a fazê-lo, Hana começara a tratá-la com grosseria e deliberadamente fizera com que se atrasassem para a entrevista.
Mas finalmente haviam conseguido sair do hotel. Sakura pagou o taxista, tentando ignorar o olhar que o homem lhes lançava.
Duas beldades londrinas, ele pensava. Uma delas com um belo corpo mas um rosto que parecia feito de plástico, de tanta maquiagem, e que a fazia parecer bem mais velha que seus dezessete anos. A outra, com a pele clara, suave, completamente livre de maquiagem, possuía cabelos Róseos, natural, que caíam de um modo rebelde sobre seus ombros. Ao contrário da outra, aparentava muito menos que seus vinte e seis anos.
Sakura escolhera uma blusa de tecido leve e uma saia estampada para sair ao sol de Florença, que também contribuíam para que parecesse uma adolescente, enquanto o jeans apertado e o top que ficava bem acima da cintura de Hana pareciam ter sido deliberadamente escolhidos para atrair a atenção de todos os italianos de sangue quente.
Sakura estava bastante nervosa com o comportamento da garota, que fazia questão de não ouvi-la quando pedia que se apressassem para chegar logo ao hotel onde a reunião fora marcada.
Gostaria muito de ter tempo para apreciar a parte externa daquele hotel em particular. Segundo o que lera no guia turístico, aquele fora o palácio de um príncipe na época da Renascença e havia sido transformado em hotel por um jovem arquiteto, com tal sensibilidade e habilidade que a restauração pouco alterara seu traçado original. Estar dentro dele seria um privilégio.
Sem poder resistir à vista da belíssima obra, Sakura só percebeu que a atenção de Hana havia sido despertada para outra coisa quando ouviu seus gritinhos excitados.
– Oh, olhe só para esse carro! O que eu não daria para poder dirigir um desses!
Virando-se, Sakura avistou um carro esporte vermelho estacionado, com a porta aberta, muito parecido com o que vira de manhã. Ou seria o mesmo?
No segundo seguinte lembrou-se do olhar profundo, perigoso e ao mesmo tempo tão másculo do homem que vira pela manhã. Não pôde acreditar quando percebeu que Hana se dirigia para a porta aberta do motorista.
– Hana... — chamou ansiosa. — Venha cá!
Mas já era tarde. Ignorando Sakura totalmente, a garota escorregou para dentro do carro, exclamando com ares de triunfo:
– Não acredito, a chave está na ignição! Oh, eu sempre quis dirigir um carro como este...
– Hana, não! — Sakura protestou, chocada ao perceber que a menina daria mesmo partida no carro. — Você não pode fazer isso!
– Quem disse que não? — Hana provocou.
Sua amiga a tinha prevenido de que Hana era impossível, mas aquilo ultrapassava todos os limites!
Sem pensar, Sakura deu a volta e entrou pela porta do passageiro, sem saber de verdade o que faria. Queria tirar Hana dali de qualquer maneira. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, foi lançada com toda a força para trás. Hana colocara o carro em movimento e arrancara, cantando os pneus.
Sakura implorava a Hana que parasse o carro, mas tudo o que dizia parecia apenas estimular a jovem. O carro estava semi descontrolado. Hana acabara de tira sua carteira de motorista e não tinha a menor experiência, ainda mais com um carro daqueles.
O trânsito na avenida estava intenso naquele horário. De um dos lados havia a mureta que separava a via pública do rio, do outro o movimento constante dos carros no contrafluxo. Não havia para onde desviar.
Pouco adiante havia um cruzamento, e Sakura percebeu que o sinal já mudava para o vermelho. Para seu desespero, Hana acelerou, julgando erroneamente que teria tempo para ultrapassá-lo. Prendendo a respiração e tensionando o corpo, Sakura previu a batida, que seria inevitável.
Continua....
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