Notas iniciais
Obg pelos comentarios. Mais um cap. Boa Leitura!

Aya resmungou baixinho e Sakura imediatamente despertou. Eram três horas da madrugada e ela havia se deitado apenas duas horas antes.

Quando chegaram ao palazzo na tarde anterior, o brilho do sol banhava as paredes cor de creme da elegante e charmosa mansão, com sua luz dourada. Construída contra a paisagem magnífica de Tuscan, o efeito que tinha nos sentidos apurados de Sakura era tão forte que ela se sentia embriagada, como se tivesse tomado uma boa dose de vinho.

Tudo era perfeito demais, ela deu seu veredicto, quando entraram na estrada particular que levava ao palazzo. A paisagem era belíssima, e quando chegaram aos altos portões de ferro, surgiu um vasto jardim, com trechos gramados perfeitamente recortados e canteiros com toda variedade de plantas. Era como se aquele lugar a envolvesse por completo, retirando-a do mundo exterior e da realidade.

Um homem franzino e enrugado, aparentando seus setenta anos, correu para perto do carro para conversar em voz baixa com o Uchiha. Sakura só podia ouvir as perguntas carregadas de autoridade que o patrão lhe dirigia.

– Sim, o doutor foi chamado. — Sakura ouviu quando o homem replicou em italiano. — Mas estava com uma emergência no hospital, e não chegou ainda. — Você deixou o carro em Florença?

Sakura detectou o tom de incredulidade na voz do homem, o que imediatamente fez com que ficasse tensa. A atitude do Uchiha devia ter surpreendido até mesmo seus empregados, que deviam saber que geralmente ele se preocupava mais com o carro do que com a filha.

– Houve um acidente. — ela o ouviu dizer secamente, percebendo que balançou a cabeça quando o homem expressou preocupação por sua saúde.

– Não, está tudo bem, Pietro, eu estou bem. — ele assegurou. Criando coragem, Sakura o encarou. Em nenhum momento até então, o Uchiha expressara alguma preocupação com ela. Não perguntara se havia se machucado ou se sentia alguma dor. E certamente ela não diria a ele o quanto se sentira incomodada e dolorida durante a viagem, decidiu orgulhosamente.

Ainda se sentia fraca, embora aliviada por estar no interior do palazzo, mais fresco e arejado. O lugar possuía uma decoração formal e elegante, a mobília era muito antiga e de excelente qualidade, e ela suspeitava que fosse caríssima.

Como poderia uma criança se sentir em casa em um lugar daqueles?, Sakura perguntou a si mesma, enquanto seguia o Uchiha e a governanta, Madalena, esposa de Pietro, através de várias salas de estar até um amplo hall com uma enorme escadaria de mármore rosado no centro.

O quarto do bebê, na verdade uma suíte com dois quartos e um banheiro, ficava no fim de um longo corredor, e era mobiliado no mesmo estilo suntuoso do resto da casa.

A voz aflita de uma jovem veio de um dos últimos quartos, em resposta ao chamado do conde. Ela estava tentando trocar a fralda da menina, mas, sem nenhuma habilidade, só conseguia fazer com que acriança se agitasse e chorasse cada vez mais.

Imediatamente, sem esperar pela permissão de ninguém, Sakura acabou de trocá-la, para em seguida tomá-la nos braços. O bebê cheirava a leite azedo e na verdade precisava de um banho. Seu rostinho estava vermelho e transpirava pelo esforço de chorar.

Quando Sakura a tocou, sentiu que sua pele estava quente e suspeitou de que estivesse com uma ponta de febre. Pelo canto dos olhos, podia ver que o Uchiha a observava enquanto aconchegava o bebê em seu ombro.

Um pai amoroso teria se apressado a pegar o bebê de seus braços, mas ele provavelmente se preocupava mais com suas roupas impecáveis do que com o bem-estar da criança.

Quando a pequena Aya ergueu o rostinho para Sakura e seus olhares se encontraram, ela sentiu uma emoção intensa, que vinha diretamente do fundo de seu coração.

Tão logo que Sakura a segurou-a, ela parou de chorar, como se reconhecesse o toque de alguém que sabia o que estava fazendo.

Sakura ouviu o Uchiha falando com a criada em italiano. Perguntava-se por que um homem tão rico quanto ele escolhera uma pessoa tão inexperiente para cuidar da filha. A moça ainda estava pálida e começou a agitar as mãos enquanto tentava explicar que o bebê começara a regurgitar pouco depois que ela lhe dera a mamadeira.

Sakura perguntou a Madalena onde ficava o banheiro e começou a preparar o banho de Aya. Levou um susto quando o Uchiha apareceu subitamente a seu lado.

– Deixe que eu a segure.

A pequena começou a chorar de novo quando Sakura fez menção detirá-la do colo, um chorinho triste, baixinho... Parecia exausta. Sakura hesitou, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa Aya percebeu quem estava atrás delas, e se jogou com prazer para o Uchiha, que estendia os braços para ela.

Sakura ficou emocionada com a clara demonstração de amor do bebê. Mas o que realmente a surpreendeu foi a habilidade dele com a pequena. Enquanto Sakura preparava o banho, ele a embalava amorosamente, murmurando palavras gentis, conversando com ela, até o momento em que Sakura pôde pegá-la de volta e começar a retirar suas roupinhas.

– Acho que foi só uma cólica. — disse enquanto colocava delicadamente o bebê na água morna. — Mas de todo modo é bom que o pediatra a examine.

O que Sakura evitou dizer foi que a inexperiência da empregada devia ter causado tudo aquilo. O bebê ficara agitado demais e acabara passando mal. Como ele podia tê-lo deixado sob os cuidados de alguém que não tinha nenhum preparo para aquilo?

O Uchiha deveria fazer tudo que estivesse a seu alcance para cuidar e proteger a filha, sabendo que ela já sofrera uma perda grande demais. Ainda mais percebendo que a criança demonstrava ver nele sua fonte de segurança e amor.

A chegada do médico interrompeu seus pensamentos. Enquanto ele examinava Aya, o Uchiha instruiu a empregada que descesse para jantar, de uma forma delicada, o que apenas intensificou o ressentimento de Sakura em relação a ele. Ele não tinha mostrado nenhuma preocupação quanto ao fato de ela não haver comido nada nas últimas horas.

Não que estivesse com fome. Ainda se sentia enjoada e sofria os efeitos do choque. Não sabia, contudo, se o choque fora causado pelo acidente ou pelo Uchiha.

O pediatra confirmou a suspeita de Sakura de que Aya tinha apenas cólicas. Mas explicou que se continuasse vomitando poderia ficar desidratada. Para surpresa de Sakura, ele repreendeu abertamente o Uchiha por ter deixado uma criança tão pequena aos cuidados de alguém inexperiente.

– Concordo com o que diz, doutor. — ele aceitou. — Mas não tive alternativa. A moça foi escolhida pela mãe de Aya, e está com ela desde as primeiras semanas. Fiquei relutante em tirar-lhe mais uma pessoa com quem já estava familiarizada, pelo menos enquanto não tivesse outra pessoa mais qualificada para substituí-la de forma mais constante.

Dizendo isso ele se voltou para Sakura.

– Mas já tomei providências nesse sentido. Contratei a Srta. Haruno para cuidar de Aya. Ela é inglesa, como a mãe de Aya era, e é altamente qualificada.

O médico olhou para Sakura demonstrando claramente sua aprovação, e depois voltou-se para o Uchiha e falou em italiano:

– Posso dizer que considero Aya uma criança de sorte por conseguir uma babá tão bonita... Mas receio que você tenha um problema nas mãos, amigo. Não sei como irá lidar com uma tentação tão grande sob seu teto.

Sakura sentiu que seu rosto começava a corar. O que o médico queria dizer? Que ela seria uma tentação para o Uchiha?

Antes que pudesse formular seus próprios pensamentos, o Uchiha respondeu ao médico de forma direta:

– Contratei a Srta. Haruno por suas qualificações para cuidar de crianças, e não por sua aparência e atributos físicos.

Tirando o paletó, o Uchiha enrolou as mangas da camisa. O tecido fino não ocultava a masculinidade do peito largo... Sakura podia distinguir a área mais escura, coberta de pelos.

Sentiu que suas pernas fraquejavam. Tentou desviar a atenção,voltando-se para tirar o bebê da banheira, mas para sua surpresa o Uchiha se adiantou, tomando a criança novamente nos braços.

– A srta. Haruno sofreu um pequeno acidente esta manhã, doutor, e eu lhe agradeceria se pudesse verificar se está tudo bem com ela.

Pega de surpresa, Sakura quase gritou.

– Não! Não há necessidade... eu estou bem.

Já se sentia mais frágil do que gostaria perto daquele homem. Não precisava de mais motivos.

– Estou perfeitamente bem. — ela insistiu.

E devia ser verdade. A dor de cabeça que sentia era também devida à velocidade dos acontecimentos, à força com que emoções desconhecidas a inundavam.

Sakura não sabia por que se sentia tão ressentida e hostil em relação à preocupação do Uchiha. Por que ele prestava tanta atenção nela?

Refletindo no meio da noite sobre tudo o que havia acontecido, Sakura lembrou-se de que na agência haviam lhe dito que o empregador procurava alguém que se dispusesse a fazer um contrato de longo prazo. Será que seria essa ainda a proposta do Uchiha? Ou depois que aconhecera em uma situação tão desfavorável suas expectativas teriam mudado?

Um pequeno balbucio se fez ouvir. De um salto, Sakura saiu de sua cama e foi até o berço de Aya. Estava mesmo acordada, brincando. Sakura pegou-a no colo, verificando sua temperatura e a fralda.

Felizmente a testa da menina não estava quente, mas a fralda precisava ser trocada. Parecia ser também um bom momento para lhe dar algo leve para comer.

Enquanto trocava a pequena, estudava seu rosto. A mãe podia ter sido inglesa, mas ela parecia mesmo uma italianinha. Tinha os mesmos olhos e cabelos escuros do pai, e Sakura suspeitava que teria a mesma expressão determinada do Uchiha quando crescesse.

Era adorável, mas parecia tão vulnerável! Mais do que tudo, Sakura desejava poder protegê-la, cuidar dela, tanto que por um instante lhe pareceu que ela própria poderia ter dado à luz aquela garotinha.

Pobre bebê... Não tinha uma mãe e provavelmente o pai não poderia lhe dar o amor de que necessitava.

Em seu próprio quarto. Sasuke levantou-se quando ouviu Aya através da babá eletrônica. Estava a dois passos da porta do quarto quando percebeu que Sakura já estava cuidando dela.

Sentiu o coração apertado. Havia contratado Sakura esperando que Aya pudesse ter mais uma pessoa próxima a ela, além dele próprio. Queria também poder concentrar-se mais em seus negócios, mas... Estava assustado e sentindo-se um pouco posto de lado com a rapidez que a pequena a aceitara.

Haruno Sakura! O que havia naquela mulher branquela e irritantemente inglesa que o fazia sentir coisas ridículas e sem sentido?

Ele estava sendo sutilmente pressionado pela família para casar-se. Afinal, ele era o chefe da família. No entanto...

Casamento. Por que cargas d'água pensar em Sakura o induzira apensar em casamento? Estava no século vinte e um e de maneira alguma se sujeitaria a um casamento por conveniência, no entanto, aos vinte e cinco anos de idade, ele já presenciara um número suficiente de casamentos e relacionamentos desmoronar para sentir-se cauteloso e até descrente da durabilidade do tão louvado e aclamado sentimento chamado "amor".

Contra sua vontade, Sasuke viu-se de repente refletindo que sua mãe teria gostado de Sakura. E foi ainda mais a contragosto que visualizou Sakura do outro lado da porta, com um bebê nos braços, o rosto suavizado por uma expressão de sublime amor maternal, os seios nus...

Com uma carranca, ele afastou a imagem. Não era assim que queria vê-la, nem mesmo no mais profundo recôndito de seus pensamentos. Era um homem saudável e vigoroso, e fazia algum tempo que não desfrutava da companhia de uma mulher. Na verdade, nas ocasiões em que tivera oportunidade de fazê-lo, e que não foram poucas, ele não sentira a menor vontade. Por que, então, agora ficava pensando numa mulher a quem conhecera poucas horas atrás, de maneira tão íntima?

Ainda carrancudo, Sasuke olhou para o relógio. Eram quatro horas da manhã. Ele teria de estar em Florença às dez para uma reunião importante, e naquele exato instante deveria estar dormindo profundamente em sua cama em vez de estar parado no corredor, alimentando fantasias sobre uma babá.

Sakura esperou que Aya adormecesse em seus braços antes de deitá-la de volta no berço. Só de contemplar aquela menina, sentia o coração se apertar. Sabia que não era uma atitude profissional deixar-se envolver daquela forma e afeiçoar-se à criança, mas era algo que estava fora de seu controle. Todas as crianças precisavam e mereciam ser amadas, e aquela mais do que as outras, refletiu. Além de ter perdido a mãe em tão tenra idade, ainda tinha de enfrentar a infeliz carga de ser filha do homem mais insensível e detestável que Sakura já conhecera.

Aya dormia, e era isso que ela também devia fazer. Sentia-se agitada e com a cabeça pesada, mas não tinha forças para procurar alguma coisa para tomar. Depois de um último olhar para o berço, Sakura voltou para sua cama.

Continua...

Notas finais
Comentarios? Recomendações? Hm? Hehehe.